Eis um processo interativo que pode ser visto tanto do ponto formista quanto do mecanicista.

Eis um processo interativo que pode ser visto tanto do ponto de vista formista quanto do mecanicista.

Bom, estamos de volta. Você viu que Pepper consegue identificar quatro hipóteses autônomas de apreensão do mundo psíquico humano: a) o formismo; b) o mecanicismo; c) o contextualismo e d) o organicismo.

No artigo anterior a gente viu um pouco do que é o formismo. Recapitulando, o formista tende a agrupar os fenômenos psicológicos percepto-cognitivos em categorias e estas compreendem duas grandes vertentes: a dos fenômenos similares e a dos fenômenos dissimilares.

Em ambas as vertentes os fenômenos são também classificados nas categorias agradáveis (ou sexuais) e desagradáveis (ou anti-sexuais). O resultado deste modo de apreender o mundo é que o formista entende os fenômenos como sendo puramente de causa material. Acreditam que as propriedades que possuem são intrínsecas e estáveis e, por isto, explica-os e lhes dá a capacidade de serem generalizáveis para todo e qualquer fenômeno igual ou semelhante, independentemente de quaisquer outras condições, sejam elas ambientais, psíquicas, temporais ou históricas.

Na série NCIS, a atriz criou a personagem ZIVA que vai deixar saudade.

Na série NCIS, a atriz Cote de Pablo criou a personagem ZIVA que vai deixar saudade.

Se você deseja apreender melhor esta conceituação de fenômenos puramente de causa material assista as séries da AXN. Nelas, os detetives atuam segundo uma visão formista. Todo criminoso tem um padrão fenomenológico comportamental formista, isto é, inalterável e comum a todos os que se assemelham. Na TV tudo fica fácil. Os detetives chegam, sempre, aos criminosos analisando as cenas dos crimes de conformidade com uma visão puramente formista.

Isto pode até ser verdade, visto que os criminosos são desequilibrados emocionais. No entanto, não há como generalizar os padrões comportamentais de modo tão fixo quanto acontece nas séries. É preciso que os desequilíbrios caracterizem padrões de doenças específicas, como esquizofrenias, psicoses etc…

Eis o que acontece no trânsito a quem não está preparado para ele.

Eis o que acontece no trânsito a quem não está preparado para ele.

Neste artigo vou abordar a Hipótese Mecanicista. Muito similar à anterior, a hipótese mecanicista se baseia na idéia da máquina, isto é: o mundo fenomenológico percebido é estruturado de fenomenologias distintas, mas todas inter-relacionadas por conexões que estabelecem padrões claros de antecedentes e conseqüentes. Esta visão é muito similar à anterior, mas é mais “terra-a-terra”, digamos assim. É mais afim com a visão comportamentalista defendida por Skinner. Se há um fenômeno X é porque a ele precedeu o fenômeno “V” e certamente se lhe sucederá o fenômeno “Y”. Na prática, tomemos o seguinte fenômeno comum do trânsito. Um motoqueiro atravessa a moto na frente de um automóvel, sem aviso, e é atropelado por ele. O mecanicista dirá: isto aconteceu porque ele não foi bem preparado para o trânsito; não estudou direito as leis de trânsito. Por isto, cometeu o erro de pensar que só o motorista do automóvel tem a responsabilidade de evitar o acidente.  Aqui estão claramente explicitados os três fenômenos de que trata a Hipótese Mecanicista. V – (não estudou direito as leis de trânsito) + X – (foi atropelado) + Y (porque estava mal preparado e cometeu o erro).

Se está solto no ar tem de cair. É o óbvio.

Se está solto no ar tem de cair. É o óbvio.

Lógico que a gente tende a concordar com a abordagem Mecanicista, pois ela está 100% no raciocínio do senso comum. Mas se você voltar ao artigo anterior verá que as duas hipóteses são muito semelhantes, diferindo em pequenos detalhes que, no final, se revelarão de grandes significâncias. E a Psicologia, já dizia um saudoso professor meu, é o estudo do óbvio. Por ser óbvio, o que é importante nos escapa à percepção. O óbvio é como uma luz intensa que nos cega a visão.

Se você parar para pensar chegará à conclusão lógica que todos tendemos a ser adeptos da Hipótese Mecanicista de visão de mundo. Por isto é que cometemos grandes injustiças em nossos juízos, pois a visão Mecanicista é imediata, quase automática, e nasce de nossa tendência de compreender tudo como um encadeamento fenomenológico, onde um fenômeno não acontece sem depender de um antecedente e ser o antecedente de seu conseqüente.

No entanto, é bom lembrar do que se diz que o Grande Mestre aconselhou: “Tira, antes, a trave de teu olho, para poderes apontar o argueiro no olho de teu vizinho”. Ao recordar de Seu ensinamento, quero dizer que devemos refrear nosso impulso a julgar pela primeira impressão e buscar o que está por detrás do óbvio. Em se tratando do ser humano, nada que seja óbvio é o óbvio verdadeiro.

Há, evidentemente, forte similaridade entre o Formismo e o Mecanicismo, mas enquanto o primeiro enxerga o mundo através de organização e classificação de estruturas fenomenológicas, o segundo procura compreender o mundo num sistema operacional, onde as partes do todo se enquadram segundo um processo mecânico lógico. Algo assim como “Se ‘A’, então ‘B'”.

É bom que você perceba que nestas abordagens os processos fenomenológicos da vida humana são compreendidos a partir de um enfoque materialista, onde neles não se enxerga nenhuma interferência dos processos psicológicos e mentais humanos. A estruturação é a priori, isto é, as características de todo fenômeno já lhe pertencem intrinsecamente e não são frutos de uma pré-organização psíquica do indivíduo que o observa ou vivencia. Em outras palavras, a estrutura de um processo fenomenológico  de vida não sofre a força da ideação, da imaginação, da dedução ou indução psicológica individual.

No entanto, você como todo mundo sabe leigamente, que “quem conta um conto acrescenta um ponto”. Ou seja: ninguém relata exatamente o fato tal e qual o viu. Seja em função de sua reação de ansiedade, que interfere com a dilatação da pupila e faz que a luz que penetra no olho, refletida pelos objetos observados e que são componentes do fenômeno, seja mais intensa e, destarte, aumente a percepção ocular de todas as coisas envolvidas no fato observado; ou seja em função da variação da intensidade emocional que acomete o observador do fenômeno. Uma pessoa tomada de reação emocional de Medo tende a relatar um fato de modo totalmente diferente daquela outra que o observou sem esta reação, mas somente com curiosidade ou indiferença.

Bom, você tem, aqui, material para discutir à grande com seus amigos, conhecidos e parentes. Faça isto, pois é na discussão que a gente aclara nossas idéias e no que respeita ao ser humano, quanto mais se discuta as hipóteses sobre sua constituição, melhor se aprende a conhecê-lo. E conhecendo o ser humano a gente passa a conhecer melhor a nós mesmos.

Fico por aqui.

Até a próxima.