Pacífico, ele não necessitava de armas para se impor. Nem as temia.

Pacífico, ele  se esforçou ao máximo para fazer entender que não são as armas humanas que criarão nações e lhes concederão a Liberdade.

Yehoshua caminhava sem pressa, o que não era seu costume. Vinha entretido com uma animada conversa com seus discípulos mais chegados – Judas Iscariotes e Pedro. João, a quem o Mestre sempre dedicara maior afeto, vinha atrás, também entretido em uma animada conversa com Tomé. Este, questionador e “pé no chão”, como ele mesmo dizia, discorria sobre o exercício de Yoga que Yehoshua lhes tinha ensinado. Dizia que não sentira nenhuma diferença em si, em seu corpo, durante a prática e, por isto, não acreditava que ele pudesse levar a qualquer resultado prático. Já o jovem João defendia ardorosamente o exercício e afirmava ter sentido muitas sensações estranhas durante ele. Naquele momento, à  altura da 4ª hora, quando passavam por um campo de milho cujas espigas já estavam no ponto de colheita, ouviram que alguém chamava pelo Mestre.

Ele não escolhia amigos. Todos eram bem-vindos. Todos eram seus irmãos.

Ele não escolhia amigos. Todos eram bem-vindos. Todos eram seus irmãos.

— Yoshua! Yoshua! — Só os samaritanos usavam aquela corruptela do nome do Mestre. Era como em nosso português a corruptela de José para Zé. Yehoshua parou e se voltou para ver quem o chamava. E viram um rabi que vinha alegremente correndo em direção a eles, seguido por uns seis ou sete estudantes. Yoshua reconheceu o homem e o recebeu com um sorriso no rosto.

— Este é Yoshua, de quem vocês ouviram falar — disse o rabi, depois de cumprimentar o Mestre com dois beijos nas faces, como era o costume entre eles.

— Espero que tenham ouvido falar bem, de mim — disse Yehoshua, cumprimentando os jovens estudantes, que o olhavam com olhos brilhantes de excitação. Pedro, que estava mais próximo do milharal, estendeu a mão e colheu uma espiga. Descascou-a e começou a debulhar o milho verde, levando-o à boca com prazer. Logo era seguido pelos seus companheiros.

O rabi olhou-os e franziu a testa. Voltando-se para o Metre questionou-o, chamando a atenção de seus discípulos para o fato.

— Hoje é sábado. Como é que eles colhem e comem, se nossa Lei proíbe que o façam no dia de descanso?

Ele fez o que lhe foi possível para transformar estes homens rudes em seus enviados.

Ele fez o que lhe foi possível para transformar estes homens rudes em seus enviados.

Yehoshua notou a atenção dos alunos toda voltada para si e sorriu. Passando a mão sobre os ombros do rabi instou-o a caminha a seu lado. Entrementes, comentou com leveza e descuido estudados:

— Quando Davi andava pela terra e ele e seu exército estavam famintos, o rei entrou no Templo dedicado a Jeovah, pegou os pães que tinham sido ofertados a Ele e os distribuiu entre seus soldados. Também ele comeu daquele alimento. No entanto, a Lei proíbe que quem não seja rabino coma daqueles pães. O que me dizeis? É lícito deixar que uma pessoa passe fome tendo alimento ao seu alcance, apenas porque é sábado?

O rabi soltou uma gargalhada e se voltando para seus aprendizes, falou.

— Vede! Eis ao vivo o exemplo do que deste homem se diz. Ele conhece bem a profundidade do emprego da Lei, que não deve ser exercida cegamente. Deus deu a Terra a seus filhos e não lhes proibiu comer no sábado. Apenas lhes disse que reservassem o dia de sábado para o descanso, mas descansar não é privar-se do mínimo para satisfazer suas necessidades. Yoshua está certo.

O tempo todo ele mediu forças com a ignorância e a estupidez humanas.

O tempo todo ele mediu forças com a ignorância e a estupidez humanas.

— Mas o Mestre e seus seguidores estão viajando no sábado e a Lei proíbe isto — obtemperou um dos jovens aprendizes, adiantando-se aos outros e se pondo à frente de Yehoshua, barrando-lhe os passos. O Mestre sorriu e lhe respondeu, pousando sua poderosa mão no ombro do jovem estudante:

— Dize-me, jovem, se tua mãe estivesse muito doente e o médico distasse mais de 300 metros de distância de tua casa, por acaso não desrespeitarias a Lei e irias atrás dele? Ou deixarias tua mãe morrer em sofrimento? Se optas pela segunda alternativa, então, também desrespeitas a Torá que manda que honres pai e mãe e protejas os velhos e as crianças…

O jovem olhou para seu rabi sem saber o que dizer. Então, todos explodiram numa grande gargalhada.

— A Torá não proíbe tais coisas, meu jovem — falou o rabi, satisfeito. — Só a Lei oral e aquela ditada pelos homens o faz, mas ela, como bem apregoa este jovem belemita, é criação de homens que, por excessos de zelo, divagam em fantasias e criam normas impossíveis de serem obedecidas pelos que têm juízo. Mais uma vez tivestes uma lição do maior de todos os rabis, Yoshua.

Com a maior intimidade o rabi fariseu e Yehoshua caminharam descontraídos, sempre conversando e comendo milho verde cru. Nunca houve, como assevera a Bíblia dita Cristã, um choque entre Yehoshua e um rabi em função daquela cena tão natural à margem do milharal (ver Lucas, 6, 1-8). Alguém, que jamais foi Lucas, infiltrou nos escritos deste uma cena distorcida, em que é dito que um rabi observava Yehoshua para o pegar em flagrante falta contra a Lei. Yehoshua não era inimigo dos fariseus nem considerava os rabis seus inimigos. Ao contrário, ele se dava muito bem com todos e era bem recebido nas sinagogas das cidades judias por onde viajava para pregar, sempre, sua mensagem de Amor e Paz.

O grupo chegou a Nazaré já era a noite do segundo dia de caminhada. Yehoshua foi ter com sua mãe e seus irmãos, que o receberam em festa. Míriam não desistia de convencê-lo a aceitar ser o Messias prometido e assumir sua realeza. Queria que ele aceitasse liderar a rebelião contra Herodes Antipas e os kittins e finalmente assumisse o reino que desde David era seu por direito. E a mãe do Senhor não desperdiçou tempo. Tão logo, já noite e após a refeição, pôde sentar-se ao lado de seu filho primogênito, tratou de puxar assunto com ele abordando este elã que não era somente dela, mas de todos os seus conterrâneos.

Mesmo tendo sido agraciada com a visita de um Anjo, ela não compreendeu, por muito tempo, a missão de seu filho.

Mesmo tendo sido agraciada com a visita de um Anjo, ela não compreendeu, por muito tempo, a missão de seu filho.

— Filho, tens andado muito pelo nosso país e tens visto o quanto somos explorados de modo cruel pelos cobradores de impostos, tanto os de Herodes Antipas quanto os do Governador romano.Há famílias que perderam tudo, até suas casas e, não mais tendo com que pagar os tributos escorchantes, tiveram os homens adultos da casa presos e mandados para as minas de Roma. As moças foram levadas como escravas para servir nas moradias dos romanos que, como  tu sabes bem, não respeita nossa gente. Elas não somente serão obrigadas a trabalhar como escravas, mas também a servir de concubinas para seus patrões. Isto não te toca? Não se pode sobreviver sob tamanha exploração e tão brutal desrespeito aos nossos costumes. Tudo se torna confuso. Não há como evitar que o ódio invada nossos corações. Até eu, que tenho índole pacífica, tenho de me esforçar muito para não fazer coro com a grita de todos. Minha vizinha, que tu conheceste quando criança e de cujos doces tanto gostavas, morreu, não faz um mês, de febre e sem remédio, sem teto, sem filhos, sem marido. Na miséria total. Eu ainda me esforcei para ajudá-la, recebendo-a em nossa casa, mas ela não aguentou os maus-tratos e as decepções da vida cruel que levamos. Todos sabemos que nosso povo assim sofre porque grande parte dele se desviou do bom caminho. Abandonaram nossos costumes e nosso Deus para adotarem os costumes depravados dos estrangeiros. Até bacanais e efebismo eles praticam. Entre eles a Moral e a Ética religiosa e familiar se esfacelaram. Eles até se voltaram contra nós, que mantemos firme nossa fé e nossos costumes. Tem dó de nossa gente. Tu és o Messias e toda nossa nação sabe disto. Tens dado provas de sobejo de que és O enviado. No entanto, ninguém entende a razão de te negares àquilo que te pertence por direito! 

Yehoshua permaneceu pensativo, cabisbaixo, olhos fixos no solo. Então, depois de um longo silêncio durante o qual sua mãe esperou com resignação, falou.

— Mãe, tu acreditas mesmo que um punhado de judeus parcamente armados pode enfrentar as legiões de Roma? Talvez dessem dor de cabeça a Herodes, mas com certeza Roma viria em seu socorro e o massacre seria muito maior do que já é. Quantas esposas pranteariam seus maridos e quantas crianças carpiriam seus pais? E queres que eu seja aquele em cujas costas cairia a culpa por tamanha dor e tamanho desespero?

— Filho, um único anjo das falanges que sei que te protegem pode, se assim o ordenares, pôr fim ao nosso desespero. Por que não ordenas que façam isto?

— Ordenar a eles que se tornem assassinos? — E os olhos serenos de Yehoshua pousaram sobre a face molhada de lágrimas de sua mãe.

— Mãe, não é pelas armas que este povo se livrará do Mal. Não se deve derramar sangue de nenhuma espécie...

— Mas estamos sendo escravizados…

Ele só tinha Um que o entendia e a Ele sempre recorria em seus momentos de aflição. Sua fé era inabalável.

Ele só tinha Um que o entendia e a Ele sempre recorria em seus momentos de aflição. Sua fé era inabalável.

— Este povo já é escravo e não tomou consciência disto, mãe. Os espertalhões que dizem fazer as Leis em nome de Jeovah os exploram até o impossível em sua fé cega. É horrível a matança de animais no Templo de Jerusalém, da qual meu Pai não usufrui nada, senão tristeza. No entanto, os gananciosos, travestidos de Doutores da Lei, ganham fortunas com o sangue, a carne e as carcaças dos animais sacrificados, além de também usufruírem da vergonhosa taxa que cobram a título de dízimo para Deus. Para quê meu Pai quereria o ouro destes seus filhos se a terra toda lhe pertence desde o princípio? Os rabis, perdidos no emaranhado de Leis que criam ao absurdo, os fazem tremer de medo justamente d’Aquele a quem mais deviam amar, nosso Pai Celeste. Enquanto não aprenderem isto continuarão a ser escravos de nação após nação pelos séculos vindouros. Enquanto viverem pela espada por ela morrerão, pois quem com ferro fere com ferro será ferido. Este povo tem de saber usar a maior dádiva que o Pai lhes deu – a inteligência – para, através dela e com trabalho duro, mas honesto e justo, construir uma verdadeira nação. Se há ovelhas que se tresmalham não é por culpa do estrangeiro explorador, mas sim dos rabis que são piores que eles. Dominam pelo Medo e pelo Terror ao Pai de Amor e isto é o maior dos erros que se pode cometer na vida que Ele nos deu.

A Liberdade, a Verdadeira, mãe, só se consegue pelo Amor, pela Caridade e pela Fraternidade. Os hebreus têm de aprender isto e o farão por bem ou por mal. A escolha é deles. Eu não vim para empunhar armas; não vim liderar rebeliões por tronos que nada valem diante do Reino de Meu Pai, que é meu, é teu e de todos os que fizerem por merecê-lo. Vim para disseminar Suas Verdades. Vim para abrir os olhos dos que podem enxergar o Amor que Ele dispensa a todos indiscriminadamente. No futuro, mãe, dirão de mim que vim à Terra para redimir os pecados da humanidade. Um absurdo e uma mentira que, lamentavelmente, farão de mim um monstrengo totalmente diferente do que sou. Não vim retirar os pecados de ninguém, nem mesmo os teus que, reconheço, são mínimos. Todos têm responsabilidades por seus pensamentos, suas palavras e suas ações. Não faria sentido eu vir assumir os crimes e as faltas de meus irmãos, deixando-os aliviados da culpa que corrige os errados. Isto é equivalente a eu tomar da espada e partir para uma guerra idiota, sem sentido, pois os que hoje brigam por tolices em menos de cem anos já não mais estarão aqui, de pé, vivendo. Seus espíritos terão sido chamados e seus corpos apodrecerão na terra ao lado daqueles que, agora, têm por inimigos. Nada restará deles senão contos que serão passados de boca a boca até desaparecerem ou serem tão distorcidos que já não mais se referirão aos fatos tal como aconteceram. Entendes que guerrear não é certo?

Míriam, em prantos, levantou-se e se recolheu aos seus aposentos. Yehoshua também chorou, mas em silêncio, contrito, buscando consolo em seu poderoso e Misericordioso Pai, pois naquele momento ele se sentiu mais sozinho do que jamais se sentira, antes.

E, no entanto, aquela percepção de solidão estava bem longe da que iria sentir quando estivesse dependurado da cruz romana…