A Natureza se defende, sim. E enquanto faz isto, se renova.

Deus em Orgasmo.

Noite. Trovões ribombam ao longe e nuvens escuras deslizam no céu sem que sejam vistas, graças à escuridão. Felício, Vera e Orozimbo chegaram quase correndo. Os três se abancaram e logo estávamos papeando. Foi quando a chuva desabou. Não devagar, nada disto. Caiu de uma vez, grossa e ruidosa. Logo o chão estava encharcado e os cães correram a se abrigar n canil. Era um aguaceiro manso, murmurejante, impressionante. Uma catadupa que descia lá do alto e se espalhava na forma de uma capa líquida que a tudo englobava e cobria.

Os testículos de Deus ingurgitados de Amor...

Os testículos de Deus ingurgitados de Amor…

― Tenho medo de chuva ― disse Vera, esfregando os ombros com as mãos.

― Ora ―, exclamou Orozimbo dando aquela cusparada que foi logo dissolvida na catadupa que desabava lá de cima ― chuva num é nada. As nuve se adissorve em água e cai. Só isso, né não, home?

― Não ― respondi, lacônico.

― Entonce, o qui é a chuva? ― Perguntou Orozimbo olhando-me com curiosidade.

― Chuva é a condensação da água que foi evaporada dos rios, oceanos e das folhas das árvores durante o dia de calor. Lá no alto é frio, muito frito. Chega a temperaturas abaixo de zero grau. Então, as gotículas de água suspensas na atmosfera se juntam, viram gelo e o peso faz que caiam na forma de chuva ― explicou, todo sábio, nosso ex-padre.

― Uma ova! ― resmungou Orozimbo que detesta explicações complicadas.

― É isso sim ― disse Vera, rindo da teimosia de Orozimbo.

― Não ― disse eu. ― A chuva não é nada disso aí que vocês disseram. Não é o que Orozimbo disse nem é o que Felício disse.

Todos se voltaram para mim, curiosos.

― E o que é a chuva? ― Perguntou Vera, curiosa.

― É o orgasmo de Deus. 

Houve um silêncio de assombro. Todos me olharam espantados e Vera foi a primeira a falar.

― Cruz credo, doutor! Isto é heresia! Onde já se viu dizer que a chuva é o orgasmo de Deus? E Deus lá tem orgasmo?

Homem e Mulher imitam Deus e são Ele mesmo em pleno ato do Amor.

Homem e Mulher imitam Deus e são Ele mesmo em pleno ato do Amor.

― Tem sim, Vera, tem sim ― disse eu, rindo. ― Se Ele não soubesse a fundo o que é o orgasmo, como o teria colocado nas entidades vivas que criou na Terra? Da mosca ao homem, tudo tem orgasmo.

Orozimbo coçou a carapinha, atordoado. Claro que nenhum deles jamais tinha pensado na chuva sob este aspecto. Naquele momento ouviu-se o ribombo do trovão ao longe, abafado pelas nuvens.

― Ouçam! ― disse eu ― Deus sussurra palavras de amor à sua amante…

― Jesus! ― Exclamou Felício, persignando-se.

― Não, o nome da amante de Deus não é Jesus. Este, é um de seus trilhões de filhos. O nome da amante de Deus é Terra ― Expliquei, sério. Todos se voltaram para mim, curiosos.

Sobre a grande lagoa da fazenda Gameleira o Sol nascia com o mesmo esplendor com que se punha e sua luz abençoava aquela terra prometida.

Num entardecer como este a gente pode enxergar Deus dizendo coisas de Amor à Terra. E ela se derrete só de O ouvir.

― Quando lá em cima a gente ouve aquele ribombo sussurrado entre as nuvens é que Deus está murmurando palavras de Amor nos ouvidos de sua amante, a Terra. E ela, enlevada, abre-se toda para o receber. O bom amante, gente, sabe dizer palavras de incentivo no ouvido de sua parceira e isto a faz cada vez mais e mais excitada. E sua excitação excita seu amante. Um “feedback” que culmina num orgasmo uníssono dos dois. É o que está acontecendo agora, bem diante dos olhos de todos os que “têm olhos de ver e ouvidos de ouvir”.

― O senhor diz cada coisa, doutor! ― Exclamou Felício, chocado. ― Essa idéia de dizer que Deus copula com a Terra é… é… é doentia, perdoe-me dizer isto.

― Doentia? E o Amor é doença para você, Felício? ― Perguntei eu e todos se voltaram para o olhar.

― Não.. Quer dizer… Bom, esse negócio de dizer que Deus está fazendo Amor com a Terra… Isto é chocante.

― Falou o padre, não o homem de bom juízo ― disse eu e Orozimbo, rindo e pitando, assentiu com um aceno de cabeça.

Eis a amante predileta de Deus, com quem Ele faz o coito com todo ardor e a quem banha com seu esperma revivificante.

Eis a amante predileta de Deus, com quem Ele faz o coito com todo ardor e a quem banha com seu esperma revivificante.

― Entre um macho e uma fêmea não se faz Amor, meu amigo. Pratica-se a cópula, simplesmente. O Amor é perene. Não nasceu nem jamais morrerá. Ele é o próprio Criador que, neste instante mesmo, está-se deliciando com sua amante, a Terra. Ele a fez pequena entre os demais astros porque, por ciúme, quis reservá-la somente para si. Quando se cansa de vagar pelo Espaço e de visitar gigantes como Antares, tão secos e tão estéreis, Ele se torna pequeno e vem coabitar com sua amante predileta – a Terra. E ela O recebe prenhe de excitação e Amor. E recebe seu esperma, a chuva, com alegria. E banha-se toda nele. E se torna bonita. As árvores rejuvenescem; os frutos explodem; os pássaros cantam alegremente… A Vida entra em festa e alegria, quando Deus se retira, satisfeito em seus anseios carnais.

― Jesus Cristo! ― Exclamou, horrorizado, Felício, persignando-se. ― Deus não tem desejos carnais, senhor!

― Só tem. Tanto que criou uma amante só para Si ― insisti eu.

Vera, com os olhos abertos de excitação, correu para a chuva e de braços abertos gritou:

― Deus! Eu também quero-me banhar em teu esperma!

Felício arregalou os olhos e persignando-se correu até ela e a puxou pelo braço, de volta até nós. Ambos, ensopados. Ela rindo, feliz. Ele, censuroso, preocupado.

― Ficou doida, Vera! Arriscou-se a ser fulminada por um raio!

― Que raio que nada, Felício! ― Rebateu Vera, rindo. ― Com tantas árvores ao nosso redor; com um morro logo ali, por que um raio escolheria logo a mim, tão pequenina, para fulminar? E o raio não é o anúncio da explosão orgástica de Deus? Logo a seguir não vem seu grito de gozo, o trovão? Eu só quis compartilhar desta cópula maravilhosa!

― Pára de dizer asneiras, Vera! Isto é que dá ficar ouvindo desvarios de um… um incréu!

Felício estava em choque. Eu lhe atingira o âmago do condicionamento religiosos e ele ainda não se dera conta de que se comportava automaticamente, como uma arma cujo gatilho tivesse sido acionado.

Eu fui buscar duas toalhas que entreguei a eles.

― Tomem. Enxuguem-se ou vão pegar um bruto resfriado. A água da chuva está muito fria.

― Está ótima! ― Disse Vera, excitada e correndo para o banheiro.

Felício permaneceu de pé, toalha na mão, pingando água.

― O qui vancê ispera pra se inxugá? ― Instou Orozimbo.

― Aqui?!

― E pru qui não? Sua namorada tá lá no banhero. Aqui só tem home cuma vancê e eu penso qui vancê num é a alejado, pois não? Entonce, tire a ropa, torça, se inxugue…

― E vista esta calça e esta camisa que lhe trouxe ― disse eu estendendo-lhe umas peças minha. Claro que a calça ficaria “pega marreca”, pois ele é muito mais alto que eu. Mas Felício negou-se com um um meneio de cabeça. Não ficaria nu diante de nós nem aceitaria minhas roupas. Orozimbo olhou-me censuroso e deu de ombros.

― Ele é fresco, mermo ― disse, cuspindo longo.

Vera veio lá de dentro ainda passando a toalha nos cabelos. Estava nua. Simplesmente nua. Tomou a toalha de minhas mãos e se enrolou nela, sob o olhar espantado de seu namorado.

― Você… Você está nua?!

― O que você acha? ― Respondeu a moça, sorrindo feliz. ― Estou na companhia de gente em quem confio, meu bem. Não vejo nada demais nisto. Sou perfeita. Não sou aleijada e você me tem dito que sou bonita. Eu acredito no que você diz. Então… Como minhas roupas estão…

Um tremendo clarão tornou o ar azulado. Todos fechamos os olhos automaticamente diante da claridade ofuscante. Então, poucos segundos depois, um tremendo e longo trovou estourou e permaneceu ribombando no ar.

Vera queria partilhar daquele momento maravilhoso e arrastou Felício consigo.

Vera queria partilhar daquele momento maravilhoso e arrastou Felício consigo.

― Ouçam! ― Gritou Vera, excitada. ― Deus grita de prazer! Ele alcançou um grande orgasmo, não foi, professor?

― Hum-hum ― disse eu, ainda sob o efeito do susto do momento.

Felício olhou de olhos arregalados para ela. Estava em choque com o comportamento da moça. Mas ela lhe tomou a mão e, excitada, gritou-lhe:

― Vem! Vamos para casa! Eu também quero compartilhar contigo deste momento divino!

E saiu correndo sob o aguaceiro arrastando Felício que se foi quase aos trambolhões e protestando contra a euforia de sua amada.

Orozimbo me olhou, sarcástico, levantou-se, tomou do guarda-chuva que eu sempre mantenho sobre a mesa, e se voltando para mim, disse, irônico:

— Véio tombém se vai, num sabe? Num há mais muié aqui e se vancê se metê a besta cumigo, vai levá uns supapus no pé-d’ouvido.

E lá se foi dando gargalhadas.