A ovelha Dolly e seu clone.

A ovelha Dolly e seu clone.

Hoje, a Ciência Genética está avançada a ponto de mexer com os segredos da Vida. Ovelhas são duplicadas partir de células-tronco retiradas de uma doadora.  Isto é assombroso. Gêmeos univitelinos (idênticos, gerados a partir da divisão de um embrião) são clones naturais, logo, o homem apenas aprimorou e tomou para si um trabalho que era da Mãe Natureza. Hoje, já há dezenas de animais clonados, mas quase todos têm saúde frágil. A clonagem humana, do ponto de vista puramente científico ainda está longe de acontecer com total segurança e eficiência. Mas é aí que entra a Religião e seus questionamentos são vitais para sua própria sobrevivência, pois da resposta que a Natureza der ao homem ficaremos sabendo definitivamente se há ou não, existência após esta vida terrena.

Homens como este poderão fazer uma cópia de si mesmo para evitar seu fim pela morte natural. Ih! Que idéia mais besta, sô!

Homens como este poderão fazer uma cópia de si mesmo para evitar seu fim pela morte natural. Ih! Que idéia mais besta, sô!

Suponhamos que a clonagem humana é algo já corriqueiro. Um ente querido morre, os parentes ―endinheirados, lógico ―, vão a uma clínica especializada e encomendam uma cópia réplica perfeita do falecido. Até poderá haver um avanço tal que propicie que melhoras de caráter possam ser incrementadas a partir do aperfeiçoamento do cérebro em suas áreas específicas de controle hormonal, que tem haver com a reação emocional, assim como com centros de aprendizagem, onde se poderá apagar aquelas que condicionaram comportamentos indesejáveis. Defeitos genéticos, do original, também podem ser corrigidos e o indivíduo a nascer terá toda a aparência física do falecido doador, mas virá bem melhorado em tudo.

Então, temos já um dilema que é difícil de se prever e que é o fato de que a cópia virá bem melhor que o original. Mas há um problema que não se discutiu às claras, senão apenas no cinema. Agora, há uma pergunta que todos se fazem: a cópia virá como um feto que se desenvolverá em útero de aluguel (ou em proveta) ou aparecerá já adulta, com sua formação completa? No cinema os clones já saem dos grandes “provetões” totalmente prontos e acabados. Não creio que se chegue a tanto, logo, partamos do princípio de que a cópia deverá desenvolver-se dentro de um útero de aluguel e que ele se desenvolverá dentro do útero de uma mulher da família. Então, quando nascer, se era o pai ou a mãe dos que encomendaram sua réplica, os filhos de outrora serão os pais de seu pai ou de sua mãe. Esquisito, não?

A filha amamenta o clone de sua mãe que, agora, é sua filha também. Ixi! Enrolou, né não?

A filha amamenta o clone de sua mãe que, agora, é sua filha também. Ixi! Enrolou, né não?

Se vier como feto a se desenvolver, os que encomendaram a réplica ficarão frustrados, pois não terão seu ente querido pronto e acabado, adulto pleno tal como o conheciam e com ele interatuavam quando se foi no original. Terão um bebê berrando de fome, totalmente dependente e que ainda  nem sabe falar. Pode ser que sua memória pretérita venha a ser despertada na medida em que vá crescendo, mas este é outro dilema de difícil previsão. Como é sabido, a pessoa é fruto do meio onde cresce e é educada e tal condicionamento é muito forte, a ponto de se formar uma Identidade especial e única. Se isto acontecer e o ser em crescimento começar a ter “fleshes” de sua vida anterior, como reagirá? E em que idade poderá ele começar a sofrer estas inoportunas recordações? Como os que mandaram fazer a cópia reagirão a isto? Dilemas que não se pode nem sequer aventar uma hipótese de resposta possível.

E se a cópia crescer em provetão e de lá sair tal e qual era, com a mesma idade física e psicológica, mas com os defeitos genéticos e psicológicos corrigidos, como reagirá diante de seus parentes? A memória da morte lhe virá também à recordação? O medo, quase terror, que muitos sentem no momento da partida definitiva assomará na nova mente? Difícil se opinar, não é?

Suponhamos, para melhor visualização do dilema, que a falecida era uma esposa cujo marido, inconsolado com sua perda, pagou uma fortuna a um laboratório para ter em casa um clone igual à falecida.

Bom, o mais provável e lógico, é que este clone se desenvolva dentro de uma barriga de aluguel. Digamos que isto acontece e que a barriga de aluguel é a da filha do casal. Assim, a filha passa a ser mãe daquele ser que já foi sua mãe. O marido da falecida, agora, é seu avô, pois ela volta a partir do útero de sua filha. O marido saudoso conta, neste momento, com 48 anos de idade. Digamos que ele ajude na criação do clone. Quando este chegar à idade adulta (supondo que ainda não tenha recobrado sua consciência posterior totalmente) de 28 anos (o final da moderna adolescência, segundo a Ciência, o marido saudoso já estará com 48+28 = 76 anos. Um tanto “avançadinho” no tempo, não é mesmo?

A primeira pergunta é: aquela saudade da esposa e aquela inconformidade por sua morte ainda estará forte no idoso? Ele ainda deseja a amada que já se foi há mais de 28 anos?

O clone, logicamente, está absolutamente inserido numa realidade muito mais tecnocrática do que sua doadora, quando se foi. Sua Identidade se forma e continua se desenvolvendo segundo os padrões da realidade em que ele se insere. Tudo é novo e atraente e tudo o prepara para viver num mundo que é bem diferente daquele da falecida.

A segunda pergunta é: o clone adquire uma identidade própria, que é diferente daquela Identidade da qual traz em seus genes uma memória supostamente idêntica à de sua doadora, ou ele não consegue ultrapassar os modelos que moldaram a antiga Identidade?

Na segunda hipótese da pergunta acima, o indivíduo resultante da clonagem é um desestruturado e terminará por ir parar num hospital psiquiátrico, pois não vê nem compreende o mundo em que se encontra segundo padrões modernos, adequados à sua vida, mas o vê e compreende segundo padrões ultrapassados de apreender e compreender a realidade exterior.

A terceira pergunta é: o clone manifestará o mesmo amor ao homem com quem a falecida era casada? Ele é muito mais velho que o clone da mulher e este vem à realidade com todo um sistema novo de aprendizagem e de modelagem. Aos dezoito anos, por exemplo, o clone da falecida mostrará o mesmo amor que sua doadora tinha pelo homem que, agora, conta com 66 anos de idade?

Se se prossegue analisando este fenômeno, vai-se adentrar um mundo emaranhado de questões que não encontram hipóteses plausíveis como resposta. Então, a clonagem humana é um jogo de dados cujo resultado é absolutamente imprevisível.

Mas a coisa não pára por aí, não. Como fica a questão do Espírito da mulher que faleceu?

Concepção artística da ressurreição de Lázaro. Não consigo crer que depois de três dias e já em decomposição, Jesus tenha "obrigado" o Espírito de Lázaro a retornar àquele corpo cujo tempo se tinha esgotado.

O que aconteceu aqui, há três mil anos, é algo que contradiz a Ciência ou o Espírito de Lázaro retornou dos mortos em obediência a Jesus?

Considerando-se a hipótese cristã, ele, depois de desligado da carne, deve permanecer em sono latente até o dia do Juízo Final. No entanto, em tendo sido criado um novo corpo a partir do que findou e que lhe é igual, este corpo clonado pela lógica pertence ao Espirito. E se assim é, só este espírito deve tomar posse dele. Que Leis do Criador serão violadas para que o Espírito tenha o direito de viver em dois corpos iguais, um após o outro? Ele continuará seu destino de onde foi cessado, ou ele criará novo destino que piorará ou melhorará o status do anterior? E seu julgamento no dia do Juízo Final será feito com base somente na história de sua primeira vida na Terra ou haverá um somatório dos dois períodos para a Medida do Julgamento Final? Ou se estabelecerá no Além que no dia do Juízo Final Deus e sua coorte de Arcanjos levarão em conta a vida na qual aquele Espírito fez melhor colheita de atos, palavras e ações benignas?

Considerando-se a hipótese Teosófica, Ocultista ou Espiritista, o Espírito será enviado de volta para assumir aquele corpo espúrio, fruto de experimentos laboratoriais do homem, ou isto não lhe será permitido, visto que se acredita que o tempo de existência de cada pessoa está adredemente determinado?

Se o Espírito da falecida não volta a ocupar o novo corpo clonado, qual espírito está realizando esta função? Um parente que devia encarnar às pressas, ou um espírito espúrio que, zanzando no Baixo Astral, encontrou esta oportunidade de ouro de retornar ao mundo pelo qual tanto tem ansiado? E se este for o caso e a memória da falecida, que está impregnando supostamente a área da memória no novo cérebro, retornar, como será a reação do novo ocupante daquela “embalagem” física?

A Ciência elimina a hipótese do Espírito. Para ela, tudo termina com a morte do corpo, logo, o novo corpo é somente um novo corpo, mas com a mesma memória, os mesmos defeitos genéticos e os mesmos comportamentos já condicionados social e educacionalmente na defunta. Se a clonagem humana se comportar segundo esta visão, a Ciência nos terá lançado na Angústia Existencial dos atuais Humanistas, outrora Existencialistas. Então, a Religião deixará de ser necessária porque não passa de uma grande ilusão, a maior de todas que o homem já criou para si mesmo.

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