Ele andou pela Palestina e por muitos outros lugares. Seus milagres são confirmados em fontes até não religiosas. Mas sua morte é um mistério...

Ele andou pela Palestina e por muitos outros lugares. Seus milagres são confirmados em fontes até não religiosas. Mas sua morte é um mistério…

Yehoshua, acompanhado de sua mãe e sua esposa, chegaram a Séforis, após algumas horas de caminhada. A cidade estava em rebuliço e Míriam, mãe de Yehoshua questionou uma mulher que cruzava com eles sobre o que estava acontecendo. Ela lhes informou sobre o milagreiro que tinha chegado há um dia e estava realizando grandes feitos na praça próxima da sinagoga. Míriam de Magdalena olhou expectante para seu esposo. Sabia que ele também era foco de muitos comentários do povo, que afirmava que ele fazia magia e milagres. Yehoshua percebeu seu olhar expectante pousado em sua face, mas não fitou a esposa de volta. Apenas se dirigiu para a tal praça onde se dizia estar o estranho homem.

— Meu amado — perguntou Míriam de Magdala sem poder conter sua curiosidade —, sabes o nome do tal feiticeiro?

— De quem falas? — E Yehoshua olhou a face de sua esposa com um sorriso divertido na face.

— Ora, do milagreiro de que nos falou a mulher, agora há pouco. Creio que ele deve ser o décimo que nestes últimos tempos tem passado por aqui. E isto sem contar os desta terra mesmo.

— Ainda não sei seu nome. Por isto insisti em vir aqui, hoje, agora. Eu sabia que esse homem estava presente na cidade e desejava conhecê-lo. 

— E qual a razão de tua curiosidade sobre ele? — Perguntou-lhe sua mãe.

Diz-se que entre os sete filhos de Yehoshua com Míriam de Magdala está Sara, que hoje é cultuada como Santa no Catolicismo.

Diz-se que entre os sete filhos de Yehoshua com Míriam de Magdala está Sara, que hoje é cultuada como Santa no Catolicismo.

— Ouvi dizer que ele também prega a existência de um único e Poderoso Deus e que combate a idéia da multiplicidade de deuses, como acontece com as crenças pagãs. Eu, como tu sabes bem, mãe, sou defensor da existência de um único Pai. Então, estou curioso por conhecer esse homem que fala a mesma língua que eu.

Na Galiléia do tempo de Jesus curandeiros, feiticeiros e milagreiros tinha à granel. Alguns deles deram grandes dores de cabeça a Roma, pois juntaram ao redor de si milhares de pessoas sedentas pelo Messias libertador. Roma jamais teve paciência com tais líderes e toda vez que eles surgiam eram logo vigiados de perto, principalmente se eram Galileus, pois estes eram rebeldes até com o mando do Templo de Jerusalém. Não aceitavam o comando do Templo nem que ele fosse o único local onde se devia adorar ao Deus Único. Preferiam fazer suas adorações no monte Gerizim e isto irritava sobremodo os rabis. Não era raro os romanos invadirem a Galiléia ou Jerusalém, aprisionar “Messias Salvadores” e mandar crucificá-los juntamente com seus fanáticos seguidores. Ainda assim, a esperança em um verdadeiro Messias Libertador não arrefecia na crença judaica e isto durou até o ano 70 d.C., quando, então, Jerusalém foi literalmente varrida do mapa pelos romanos. Então, quando um milagreiro surgia fazendo coisas admiráveis, como curar doentes, dar visão a cegos e fazer andar a aleijados, imediatamente acendia-se a esperança judaica no tão esperado Messias libertador e em contra-partida, as orelhas de Roma ficavam de pé, em alerta. Se o “Messias” começava a arrastar muita gente atrás de si e principalmente se era contra o predomínio do Templo, então, Roma se armava para combatê-lo e pôr fim às esperanças populares. João Batista, o primo de Yehoshua, foi um dos que fizeram Herodes Antipas se sentir ameaçado pelo seu poder sobre uma grande quantidade de pessoas que o seguiam hipnotizadas por suas palavras inflamadas contra o Tetrarca e o Governador romano, Pôncio Pilatos. Resultado: Herodes mandou prendê-lo e, para satisfazer a um capricho de sua enteada Salomé, mandou cortar-lhe a cabeça. Por isto, Yehoshua era visto apenas como mais um dentre os muitos milagreiros que havia flanando pelos vilarejos e cidades de sua época.

Os feiticeiros até hoje impressionam as mentes simplórias.

Os feiticeiros até hoje impressionam as mentes simplórias.

Havia diferença entre curandeiro, feiticeiro e mágico. Os primeiros apelavam para ervas e amuletos (e temos muitos deles aqui, no Brasil, nos terreiros de Umbanda e de Candomblé); os segundos apelavam para rituais fantásticos e exóticos e os terceiros empregavam encantamentos, invocações a entidades invisíveis  anjos, arcanjos e até mesmo Deus  além de fórmulas ensaiadas e cuspidelas. Yehoshua era considerado por uma grande maioria de galileus e judeus como um mágico porque ele também empregava certos rituais muito semelhantes ou iguais aos que eram praticados pelos magos (cuspir no chão para obter lama e passá-la sobre os olhos de um cego, por exemplo, como aconteceu com um cego de nascença — ver João, cap. 9 e seguintes). Mas Yehoshua se diferençava dos demais curadores e milagreiros porque não cobrava pelo que fazia. Embora tais ações fossem, verdadeiramente, profissões e, por isto, os seus praticantes cobrassem pelos serviços prestados, o Galileu Yehoshua fazia tudo gratuitamente, daí a razão pela qual ele a cada dia ficava mais famoso entre os judeus e galileus. Isto era como passar mel no corpo próximo a um apiário. Roma e Herodes já começavam a prestar atenção em suas andanças e em suas pregações e ambos mais o Templo tinham muitos esbirros infiltrados como espias entre as multidões que o seguiam. Alguns, principalmente os esbirros do Templo, procuravam provocá-lo para que dissesse ou fizesse algo que o colocasse diretamente na mira dos poderosos  Caifás, sumo-sacerdote; Herodes, o tetrarca e Pilatos, o Governador tirano. Yehoshua sabia que a cada dia se colocava mais e mais diante da fúria dos três mandatários, mas parecia determinado a realizar exatamente isto. Por mais que seus apóstolos o advertissem do perigo que corria, ele não arredava o pé de se manter “na crista da onda”. A única coisa que o diferenciava dos demais magos e correlatos é que jamais se anunciou como O Messias Salvador, como muitos o fizeram antes dele e depois dele. De tanto mandar crucificar milagreiros, feiticeiros, magos etc…, Roma já não dava a mínima importância a tais profissionais e, quanto aos judeus, não faziam muita diferença entre qualquer deles. Yehoshua era o único que causava certa estranheza pelos seus modos de agir. Mas ninguém lhe dava maior importância do que daria a qualquer outro milagreiro que perambulava pelas terras Palestinas, originários tanto da própria terra quanto de países distantes, como a Índia, o Paquistão, a Turquia etc…

Entretanto, aquele homem a quem Yehoshua desejava conhecer em especial, chamava a atenção de muita gente. Ele, dizia-se, até ressuscitara uma criança, um milagre inigualado por ninguém. Curava cegos, fazia paralíticos andar e dizia-se que realizava prodígios que nenhum outro mago jamais o fizera  como levitar diante dos olhos estasiados do povo.

O estranho milagreiro estava na praça principal de Séforis e uma multidão o ouvia atentamente. Yehoshua com as duas mulheres se aproximou e discretamente permaneceu ao longe, mal dando para ouvir o que o estranho dizia. Súbito, o homem calou-se, levantou-se e apontou em direção ao local onde os três estavam.

— Que aquele homem lá ao fundo, acompanhado de duas mulheres, se aproxime. Ele é o maior dentre os maiores que já pisaram estas terras miseráveis.

Todas as cabeças se voltaram para Yehoshua e suas duas acompanhantes. O mestre sorriu e calmamente avançou por entre o povo, que lhes abria caminho reverentemente. Quando chegaram diante do homem, este se apresentou, cumprimentando as mulheres com um curvar de cabeça.

— Meu nome é Apolônio. Sou natural de Tiana, uma província da Capadócia, na Turquia. Estudei no templo de Tarso, na Cilícia, e também no Templo de Esculápio, em Aegae, onde aprendi e pratiquei a medicina e lá tomei contato com os pensamentos de Pitágoras, tornando-me discípulo do grande mestre de sabedoria. Viajei pela Grécia e visitei lugares muito bons; ali, estudei nos templos de Nínive e Babilônia. Depois, fui à Índia e lá estudei com os monges brâmanes. Foi lá que soube de ti, Yehoshua. Tu também te tornaste um Brâmane admirado por todos por onde passaste. Sê bem-vindo e junta-te a mim para ajudar a esta pobre gente, da qual tu fazes parte, pois sei que nasceste aqui, em Nazaré.

Yehoshua apenas sorria e acenava positivamente a cada frase dita por Apolônio de Tiana. Tomou lugar ao seu lado e permaneceu quieto, apenas observando as curas que aconteciam na medida em que Apolônio falava ou entoava uma oração em páli, solicitando a Bhrâmâ a cura para determinada pessoa ali presente. Por duas vezes ele também se uniu às invocações feitas por Apolônio e também orou em páli, para espanto das duas Mírians que o acompanhavam.

Ao meio-dia Apolônio deu por encerrado o seu trabalho, recolheu os óbulos que tinham sido depositados em uma bacia e convidou Yehoshua e suas duas acompanhantes para almoçar em sua companhia. Ele era vegetariano e a dona da pensão em que se tinha hospedado já sabia disto. Então, o almoço foi todo à base de folhas, tubérculos e sucos de frutas.

Os dois homens conversaram animadamente em páli, o que deixou de lado todos os presentes. Finalmente, já era quase a oitava hora, Yehoshua despediu-se de Apolônio e retornou para sua vila de Nazaré. Durante o caminho explicou a sua esposa a razão de saber falar aquela língua estranha.

— Quando eu tinha cinco anos — começou — um homem rico, um comerciante e também rabi do Templo de Jerusalém, passou por aqui, por Nazaré. Seu nome é José de Arimatéia. Meu pai o ajudou em um problema que tinha com a roda de uma de suas carroças. Eu estava por perto. O homem, contou-me meu pai, permaneceu um longo tempo me observando e, então, pediu-lhe que permitisse que ele me levasse a Jerusalém e de lá, a um local distante. Explicou que vira em mim o sinal do Grande Mestre. Impressionado, meu pai acedeu ao seu pedido e eu fui levado por ele até à Índia. Lá, tendo eu descendência real, fui admitido em um mosteiro para estudar entre os filhos de Brâmanes. Iniciei meus estudos com um guru, na Caxemira. Depois, fui para Potala, a cidade onde reside o representante de Brâhmâ na Terra. Entre aqueles monges santos eu me tornei também o que eles chamam de Guru, que quer dizer Guia Espiritual.

— E quem é esse Brâhmâ?

— Nosso Deus Único. Entre os indianos ele é trino, tal e qual ensina a Qaballah, aqui, entre os estudos rabínicos. Sua Segunda Pessoa é Vishnu, o Mantenedor ou Dispenseiro; sua Terceira Pessoa é Shiva, o Destruidor e sua Primeira Pessoa é Brâhmâ, o Criador.

— Tu também podes levitar, como fez aquele homem? — Perguntou a esposa de Yehoshua, olhos brilhantes de curiosidade e excitação. Ele riu e disse que sim, mas que jamais faria aquilo diante de quem quer que fosse, exceto se houvesse uma razão muito forte para isto.

— Fá-lo-ias para nós? — Pediu Míriam, sua mãe.

— Talvez um dia. Agora, não. Neste momento devo preparar-me para viajar. Preciso voltar à Judéia. Meus discípulos me esperam lá e eles têm muito que aprender, ainda.

— Vou contigo? — Perguntou Míriam de Magdala, coração aos pulos.

— Sim, minha querida. Tu virás comigo e comigo ficarás até o fim. Quando chegarmos à casa, vai-te preparar. Despede-te de todos que tua volta vai demorar.

Míriam, a mãe de Yehoshua, sentiu um confrangimento no peito e o pranto lhe subiu aos olhos. Não sabia dizer a razão daquilo e, envergonhada, tratou de disfarçar seu embaraço.

À tardinha, o sol já se pondo, Yehoshua partiu a pé, levando em sua companhia Míriam de Magdala. Os dois iam felizes…