Este desenho é clássico na Gestalt. Você pode enxergar nele ou uma jovem, ou uma velha, dependendo de como esteja seus processos cognitivos neste momento.

Este desenho é clássico na Gestalt. Você pode enxergar nele ou uma jovem, ou uma velha, dependendo de como esteja seus processos cognitivos neste momento.

Quando Pepper nos diz que o Construtivismo Formista se baseia na metáfora-raiz da similaridade e afirma que a atividade cognitiva básica é aquela que se volta para realizar distinção, ele nos fala, em última análise, dos fenômenos da Gestalt. Entre eles nós encontramos aqueles que associam as percepções por semelhanças e dessemelhanças, por proximidade ou afastamento etc… Assim, se alguém percebe um político como honesto porque viveu uma experiência em que o viu agir honestamente em situação onde outros certamente teriam agido de modo contrário, esse alguém passa a tender a perceber todos os políticos como honestos. O fator de semelhança aqui é a condição daquelas pessoas: são políticos. Do mesmo modo, quando uma pessoa lê constantemente que tal ou qual político, de tal ou qual partido, é desonesto, formará uma cognição negativa a respeito de político de modo que, tão logo saiba que alguém é político já o insere em sua percepção de desonesto. Na figura ao lado, se você está estruturado para se sentir bem, eufórico, positivo e otimista, tenderá a enxergar de imediato a jovem moça. Mas se você está estruturado para se sentir pessimista, disfórico, negativo, tenderá a perceber de imediato a velha. Pois bem, assim é com a sua percepto-cognição  de uma pessoa política. Se você está massificado pela Mídia sobre a desonestidade dos políticos, verá todos eles como desonestos; mas se você teve uma experiência positiva ao lado de alguém que é político, então, tenderá a ver primeiramente todos os políticos como honestos até que provem o contrário.

O que você vê? Há, aqui, uma mulher com uma criança no colo, um homem velho de chapéu de palha e barba branca e um cão. Você é capaz de descobri-los?

O que você vê? Há, aqui, uma mulher com uma criança no colo, um homem velho de chapéu de palha e barba branca e um cão. Você é capaz de descobri-los?

É a esta tendência “natural” de nossos processos percepto-cognitivos que Pepper chama de Hipótese de Mundo Formista. A “forma” (ou “gestalt”) é a base primeira da estruturação de nosso modo de perceber e entender o mundo. Bom, ele não está errado. Nós estruturamos a realidade que percebemos segundo o momento psico-emocional em que nos encontramos. Costuma-se dizer que as pessoas mais velhas logo vêm um fidalgo, talvez um militar, na figura ao lado, enquanto que as pessoas mais jovens vêm de imediato uma mulher com uma criança ao colo e um homem velho, barba branca, com chapéu de palha, e um cão deitado no chão. O que você viu de imediato?

Estas figuras-e-fundos da gestalt são excelentes para exemplificar o que Pepper quer dizer com sua teoria da Metáfora-raiz formista. Ela não exclui a Metáfora-raiz mecanicista, pois também nós nos explicamos a realidade que nos cerca como uma seqüência lógica de causa-e-efeito. Este modo de estruturarmos a realidade que nos cerca e que vivenciamos é a causa de nossos juízos de valor apressados e supérfluos. O exemplo está no dito jocoso, mas altamente significativo, em sociedades onde há tendência ao racismo. Este dito afirma que “branco correndo é atleta; negro correndo é ladrão”. Esta “gestalt” negativa e discriminatória tem uma verdade dolorosa em sua gênese, pois os negros, em quase todos os países habitados por brancos em primeiro lugar, sempre foram discriminados e mantidos à margem ou marginalizados socialmente. A vida para eles, no meio dos brancos, é sempre mais dura, mais difícil e, por isto, muitos deles apelam para o roubo como meio de sobrevivência. Daí que se veja mais negros fugindo da polícia do que brancos e isto terminou por formar no imaginário popular essa gestalt altamente racista e injusta.

Dependendo do contexto em que você vive, nesta imagem você pode perceber uma lâmpada (o eletricista tende a percebê-la em primeiro lugar), uma chave de boca (o mecânico) , uma cabeça humana (o médico) etc...

Dependendo do contexto em que você vive, nesta imagem você pode perceber uma lâmpada (o eletricista tende a percebê-la em primeiro lugar), uma chave de boca (o mecânico) , uma cabeça humana (o médico) etc…

Pepper ainda nos apresenta o modo contextualista de se apreender e compreender o mundo. Nesta hipótese, o mundo fenomenológico é percebido como composto de uma infinita quantidade de eventos intrinsecamente complexos e estruturados por atividades que se interligam e, em sendo dinâmicas, são constantemente modificadas.

Segundo Pepper, mudança novidade são características inerentes ao Contextualismo. Assim, as compreensões fenomenológicas acontecem por uma síntese dos detalhes inseparáveis de um ato ou de um fato em seu contexto (social, político, religioso, esportivo etc…).

O contexto, o ambiente, tem grande influência no modo como nós percebemos um fato e o interpretamos. Na figura ao lado você tenderá a perceber em primeiro lugar uma figura que tem haver com sua profissão, ou sua expectativa no momento, ou seu estado de ânimo. Você contextualiza sua percepção, isto é, insere-a em seu meio cognitivo.

Isto, este modo de definir a percepto-cognição humana, contextualizado-a, insere-se, na verdade, na Teoria de Campo de Kurt Lewin. A teoria do campo psicológico, formulada por Lewin, afirma que as variações individuais do comportamento humano com relação à normalidade são condicionadas pela tensão entre as percepções que o indivíduo tem de si mesmo e pelo ambiente psicológico em que se insere, ao qual chamou de Espaço Vital.

Você percebe, ainda que não seja psicólogo, que o Construtivismo Psicológico está, na verdade, muito centrado nas “velhas” teorias do século XX e quase não muda em nada, exceto no modo como são apresentados seus detalhes pelos teóricos novos. Por isto é que eu, enquanto psicólogo e docente, defendo que os alunos de Psicologia deviam continuar mantendo os pés bem firmes nas teorias anteriores, pois as novidades não se mantêm de pé, se elas lhes forem tiradas como base de sustentação, que na verdade o são.

O que se faz, na verdade, é “vestir um santo velho com uma roupa nova”, apenas isto. À força de ter de criar alguma hipótese “interessante”; à força de ter que oferecer um novo ângulo para se olhar os velhos dilemas humanos dentro da Ciência da Psicologia, os candidatos a doutores se vêem na contingência de abrir janelas novas em paredes velhas. Mas estas “paredes velhas” foram muito bem construídas pelos “ultrapassados” pesquisadores do passado…