O céu sempre azul do Centro-Oeste, nesta época do ano fica assim.

O céu sempre azul do Centro-Oeste, nesta época do ano fica assim.

O tempo aqui no Centro-Oeste está molhado demais. Chuvas torrenciais têm despencado lá de cima quase todo dia, o que vem infernizando a vida da gente. Bem que toda esta água devia ser racionada e distribuída parcimoniosamente durante o ano inteiro. Aí, sim, a Mãe Natureza seria sábia. Mas como está, não dá.

Eu estava deitado em minha rede, na varanda de casa, quando Orozimbo se apresentou no portão. Franqueei-lhe a entrada e ele, serelepe, tratou de ir-se abancar no seu “toco”, como gosta de chamar ao banquinho onde se senta invariavelmente quando vem prosear.

Orozimbo sempre me metia em sinuca de bico com suas perguntas.

Orozimbo sempre me metia em sinuca de bico com suas perguntas.

— Sozinho, meu velho? Onde estão os outros? — perguntei, tratando de lhe oferecer o café amargo de que tanto gosta. Ele aceitou a xícara e mandou sem cerimônia que eu deixasse a garrafa térmica por perto, e me respondeu, colocando fumo no seu pito.

— E eu sei lá! Num ando enrabixado cum eles, ora. Cada quar que se cuide, sô. Às veiz eles vão inté este véio e pede pr’ele acumpanhá eles inté vancê. Aí, véi vem junto. Mas quando véi qué vim inté cá, num percisa deles, nhor não. Véi tem as perna munto boa pra andá, num sabe? Num anda cum as perna dos otro, nhor não.

Eu ri. Ele tinha chegado danado de falador. Voltei a me deitar na rede e esperei que ele desse sua primeira baforada e sua primeira cusparada. Dito e feito. Ele sugou a fumaça olorosa do cachimbo e lascou aquela cusparada feia lá em baixo, no meio da grama recém-aparada.

Este aqui sou eu. Gosto munto de pitar meu cachimbo e oiá as besteradas qui os vivo fazem...

Este é Orozimbo. É curioso, observador, e vive questionando tudo e tudo traduzindo para seu amado Candomblé.

Pitou em silêncio por um tempo, olhar perdido à frente. Aquilo queria dizer que Orozimbo estava “incafinfado”, como ele mesmo costuma dizer, com algum dilema que lhe esquentava os miolos. Eu voltei à leitura do livro “O ZELOTA”, de autoria de Reza Aslan, um muçulmano especialista em religião, formado em Harvard e na Universidade da Califórnia, em Teologias, Sociologia e História das Religiões. Estou literalmente fascinado com o que este homem fantástico tem a dizer sobre o Jesus de Nazaré. Difere absolutamente de tudo o que tenho lido sobre esta misteriosa personagem. E cada vez mais eu concordo com ele. E já começo a lamentar que no Brasil não exista um curso universitário tão profundo em tal matéria. Se existisse, eu não me teria formado em Psicologia. O que existe está nas tais faculdades evangélicas que, em verdade, tratam de robotizar o estudante em dois temas principais: a) decorar a Bíblia “ipsis literis” e b) ensinar como ganhar muito dinheiro usando o que ali se encontra. Nada mais.

Não sei quanto tempo transcorreu desde a chegada de Orozimbo, mas fui interrompido em minha hipnótica leitura por sua voz grossa e arrastada.

— Home, cuma é qui vancê intende Deus?

Quase sem pensar respondi.

— Um ser que não existe.

Ouvi o baque de alguma coisa no chão. Olhei e vi que era o cachimbo de Orozimbo. Olhei para ele e também vi que meu velho amigo estava de boca aberta e me olhava com olhos arregalados de susto.

— Cuma é qui é? Vancê dixe qui Deus num exéste?

— Disse. E é verdade. Deus não existe.

Aqui está Xangô, o senhor dos raios, dos trovões e das Pedreiras.

Aqui está Xangô, o senhor dos raios, dos trovões e das Pedreiras, conforme a concepção dos adeptos do Candomblé africano.

— Mas… Pela machadinha de Xangô, home! Cuma é qui vancê se atreve a dizê uma besteirona destas? Num tem medo de um castigo, não?

— Não, Orozimbo, não há um Deus que castigue a gente. Até porque, como eu acabei de lhe dizer, Deus não existe. Assim como o Diabo também não existe.

— Jisus! Vancê tá lendo munta porcaria, home. Vancê tá se arriscando a ser castigado e munto castigado por Orixalá. Tome cuidado cum suas palavra, senão…

Fechei o livro e me deixei relaxar na rede.

— Orixalá também não existe, Orozimbo. Assim como não existem Ogum, Oxum, Xangô, Iansã, Exu e todo esse panteão enorme de deuses que sua religião cultua.

Orozimbo fechou a carranca e me fulminou com um olhar de ira.

— Arre diabo, home! Se vancê num fosse munto querido por este véio agaranto qui agorinha mermo véi cumia vancê na capoeira. Vancê ia apanhá inté miá fino, ora se ia.

Este, atualmente, sou eu. Cheio de dores pelo corpo todo.

Este, atualmente, sou eu. Cheio de dores pelo corpo todo.

— É verdade. Desta vez eu concordo com você, meu velho. Estou tão quebrado e cheio de dores pelo corpo; minha coluna está em frangalhos; meus dois ombros estão travados com tendinites e bursites; meus joelhos já não mais me deixam ficar de pé em segurança, que certamente eu não teria mais como me defender de seus ataques. Mesmo assim, apanharia gritando para você que Deus e todos os demais deuses não existem e jamais existiram. Eu fui engando por todos estes anos de minha vida, acreditando que havia uma entidade antropomórfica, ainda que em matéria sutil, que a tudo preside. Até a Teosofia labora em equívoco. Não há Deus nem Diabo.

— Entonce, arre égua, em qui vancê crê, agora?

— Neste momento, em nada… Ao menos em nada do que tenho estudado e aprendido por toda esta vida de interrogações a que ninguém conseguiu responder a contento. Vivemos a nos iludir e inventando um Pai Celestial que a tudo preside porque somos bebês cósmicos. Apenas por isto. Assim como esta realidade que vemos não passa de uma grande ilusão e tudo que está ao nosso redor também não existe, senão para nossos cinco pobres sentidos, também assim não existe nem Deus, nem Diabo nem Inferno, nem Céu.

— A curpa é desse livro aí, né não?

— Sim e não. Ele só veio aumentar minha certeza do que eu já desconfiava, com certa inquietude, confesso.

Orozimbo coçou a carapinha e apanhou seu pito. Tinha uma ruga de preocupação na testa e seu olhar estava carregado. Acho que agora mesmo é que eu tinha dado um nó danado na mente de meu velho amigo.

— E o qui é qui exéste pra vancê, heim, desmiolado? — Perguntou Orozimbo irritado, mas se contendo.

— Bem… A rigor, Nada, absolutamente NADA existe. Tudo é ilusão. Ao menos para nós que nos acreditamos estupidamente uma criação privilegiada de um Deus ilusório.

— Pelas sete saias de Iansã, home! Pare de dizê asneiras, ora. Jogue essa porcaria aí no fogo! São livro cuma esse qui vancê tá lendo e qui intortô seus miolo qui o povo divia de quimá, isso sim. Se Orixalá num exestisse, nóis tombém num taria aqui, vivinho e vendo as maravia qui Ele fez.

— Ora, Orozimbo, você não acredita nisto tudo, não é? Tanto quanto eu, você duvidava de seus deuses. Se não duvidasse, não me teria feito a pergunta que fez.

— Nada disso! Véio sempre aquerditô em Orixalá. Véio só quiria sabê cuma é qui um cristão entende ele. Mas vancê indoidô de veiz, ora.

— Escute, Orozimbo. Há muito tempo, por estas bandas chamadas de América do Sul, existiu um povo misterioso chamado Maias. Não se sabe como apareceram nem tampouco como sumiram. Vieram DE ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS. Tinham as orelhas muito grandes, diferente das que os terráqueos têm. Falavam uma língua estranha e cuja escrita deu muito trabalho para se traduzir. Eles diziam que no Centro do Universo  que não era só uma galáxia, mas todo o Espaço Cósmico infinito — existe um foco de luz muito brilhante. Tão brilhante que ser humano nenhum poderia sequer dele se aproximar, pois seria imediatamente queimado, não restando dele nem mesmo cinzas. A este centro luminoso eles chamavam de Hunab-Ku, que quer dizer exatamente “A Grande Luz”. Hunab-Ku é quem tudo cria e tudo destrói e faz isto em intervalos de tempo terrestre quase infinitos (aqueles de que já lhe falei e que a Teosofia diz ser de mais de um trilhão de anos lunares e ao qual chama Manvantara).

 É, e o tar de budismo tombém afirma isto, num é mermo? — Disse Orozimbo, interessado.

— Isto mesmo. Pois bem, de Hunab-ku emana uma energia de Vida que a tudo cria e anima e para Ele esta Energia Vital retorna ao término de um Manvantara, digamos assim, visto que os Maias não tinham nome para designar a duração do tempo de criação de Hunab-Ku. Este Centro de Luz seria como o Coração do Espaço. Quando ele pulsa em sístole, a vida se lança em todas as direções do infinito até seus confins; quando ele pulsa em diástole, a vida se recolhe a ele e tudo deixa de ficar desperto. Tudo adormece até que o Coração do Espaço volte a bater em diástole.

— E o qui diabo é isso aí mermo? — Perguntou Orozimbo, todo atenção. Eu amava aquele danado de velho porque ele passava da revolta à humildade com a maior facilidade e sem rancor.

— Sístole é quando o coração se contrai e expulsa o sangue para todo o corpo; diástole é quando o coração se expande e puxa o sangue do corpo de volta para dentro dele, novamente.

— Ah, entonce é isso aí qui a gente sente quando aperta cá, no purso, é?

— Sim, é isso mesmo, Orozimbo. 

— Bão sabê disso, home. Bão mermo. Mas continui qui tá interessante essa sua cunversa, num sabe?

— Sei, sim. Pois bem, eu creio que os Mais estavam muito mais certo do que todos os supostos sábios teólogos que viveram e vivem neste mundinho de nada. Deus é antropomórfico, que a gente queira quer não. Hunab-Ku, por não ser uma palavra de qualquer idioma vivo, não tem imagem representada em nossa mente. Assim, não está associada a nenhuma forma…

— Tá sim. Véio imaginô um sor munto grande e munto briante, quando vancê adiscreveu o tar Hanabicu. Um sór qui se ispicha e se incói cuma um coração.

 É Hunab-Ku, Orozimbo.

— E num é? Foi cuma véiu dixe, ora.

— Está certo. Pois bem, começo a crer mais nesta forma descrita pelos velhos Maias para Aquele “IT” que a tudo cria, do que tudo o que tenho lido tentando explicar Sua Existência.

— O qui é esse tar de “IT”, home?

— “It” é um pronome neutro, Orozimbo. É da língua inglesa. Designa as coisas independentemente de idéia de sexo macho ou fêmea. 

— Os viado?

Eu soltei uma gargalhada. Velho Orozimbo ficou quieto e me olhando firme, esperando minha resposta.

— Bom, talvez os “viados” devessem ser assim designados, sabe? Afinal eles nem são machos nem são fêmeas. São realmente “its”. Mas não, it é usado para se referir a mesas, cadeiras, candelabros, cacetes, pedras, morros… entendeu? Nós dizemos “ele” para os substantivos masculinos, como morros, oceano, carro, banco, tamborete… e dizemos “ela” para os substantivos femininos como cadeira, mesa, casa… essas coisas, esses objetos.

— Hum… Véio acha qui intendeu. Mas continui.

— Bom, atualmente, estou muito propenso a entender esta Força Criadora de todas estas maravilhas cósmicas que vemos como sendo aquela misteriosa luz denominada Hunab-Ku pelos Maias.

Orozimbo ficou quieto, pensando, e voltou a perguntar.

— Os tar de Maia afirmava qui se um home chega perto do tar de Hunabicu se queima inté num restá nem cinza. Entonce, cuma é qui eles discubrirum esse negóço aí?

A pergunta era muito válida, mas,infelizmente, não havia qualquer informação sobre isto nos escritos dos Maias. Eu também já me vinha fazendo esta pergunta inquietante há muito tempo, desde quando li um livro interessante chamado O Fator Maia, lá pelos idos de 1999.

— Ninguém sabe e eles se foram sem deixar nenhuma informação sobre isto — respondi, sincero. — Mas desde que, ao que tudo indica, os Maias não eram terrestres e, sim, de outro lugar na nossa Galáxia ou, talvez, até de outra Galáxia, é provável que fossem mais bem informados que nós, a respeito de Hunab-Ku.

Orozimbo mais uma vez permaneceu pensativo.

— Entonce Orixalá é esse tar de Hanabicu, né?

Eu sorri, enternecido pelo extremo zelo de Orozimbo por sua religião. Fosse como fosse, ele enquadrava seu Orixalá na História. Desistir dele é que jamais o faria.

— É… Creio que você pode crer que seja assim.

Ele ficou todo satisfeito e me olhou jocoso.

— Entonce, home, vancê num é incréu, nhor não. Aquerdita em Orixalá. Pode num sê cuma eu e meu povo, mas qui aquerdita, ah isso lá aquerdita mermo!

Assenti com um muxoxo, como quem diz “seja como você quiser” e tentei voltar à leitura de meu livro. Mas ele tornou a falar.

—Véio tá pensando. Vancê, home, apenas mudô o nome de Orixalá. De Deus vancê passô a Hanabacu. Apenas trocô a ropage, né mermo?

Se eu prolongasse aquela filosofia de Orozimbo o papo não terminaria tão cedo. E eu estava muito mais interessado em ler meu livro que discutir sobre Orixalá ou quem quer que fosse. Então, acenei afirmativamente com a cabeça, capitulando diante da teimosia de Orozimbo. O velho me olhou por um tempo, suspirou, bateu o cachimbo na quina da beirada da varanda, guardou-o em sua bolsinha, levantou-se e, com um suspiro, despediu-se.

— Véio sabe quando num chegô numa boa hora. Vancê tá munto interessado nesse livro aí. Entonce, véio vai imbora, mas adispois vai vortá pra cunversá sobre esse tar de Hanabacu. Véi qué sabê se os Maia sabia dizê se Hanabacu era inteligente e quando criô a Terra e os home e os bicho, já feiz isso traçando o distino de cada um e de cada coisa. E qué tombém sabê se as arma de cada coisa viva vorta pr’ele e o qui é qui acuntece quando elas vortam pra lá. Vá pensando qui véio vai vortá. Inté mais vê.

Eu me despedi dele com sua pergunta cada vez mais se mostrando complexa em minha mente. Diabo! O velho Orozimbo tinha de aparecer justo agora?