Quando o Sol vem saindo no horizonte a Vida se ilumina e se agita e a gente se sente renovado.

Nada é tão belo quanto o amanhecer sem tempestade.

Era cedo quando tocaram a campainha. Olhei pela TV e lá estava Orozimbo de pé, esperando que eu lhe abrisse o portão. Premi o botão, curioso. Ele pitava, o que não é seu hábito normal. Geralmente só depois de se “abancar” é que ele acende o cachimbo, após tomar o café sem açúcar. Ele entrou e eu fui recebê-lo na varanda. Em vez de se “abancar” no seu “toco”, sentou-se numa cadeira, enfiou os cotovelos na mesa e me olhou atento, enquanto eu lhe servia o café amargo. Não tocou na bebida. Continuou a me olhar fixamente. Eu não disse nada esperando que ele falasse.

— Óia aí, home, véio num drumiu por causa de vancê e suas besteirada, num sabe? Entonce, véio amenheceu arreliado. E arresorveu vir pôr os pingo nos ii. 

Eu o ouvi preocupado. Não esperava que tivesse impressionado tanto o meu amigo com minhas palavras. Tinha sido imprudente, agora, era encarar o dilema.

— Muito bem, meu amigo. Vamos lá. Desembuche o que o atormenta. Vou tentar lhe aliviar a alma.

— Vancê é munto convencido, home. Véi num cunhece ninguém qui possa aliviá a arma aguniada de ninguém. Inté hoje véi num viu um siqué. Mas vamo falá das coisa qui vancê dixe onte. Véi foi pra sua arucaia a pensá. Em outras veiz, vancê tem afirmado qui o Ispaço é Orixalá. Véi levô munto tempo matutando nessa idéia, num sabe? E terminô concordando com vancê, pois tudo parecia bem lógico. Mas onte vancê pôs areia nas idéia de véio Orozimbo cum tar de Hanabicu. Se esse negóço exéste dentro da Galáxia in qui nóis véve, entonce ele é menor qui o Ispaço. E se é menor qui o Ispaço, entonce num pode sê Orixalá.

Fiquei aliviado. Orozimbo não tinha entendido o que eu lhe dissera, talvez porque o choque que levou ao me ouvir afirmar que Deus não existia lhe tenha causado um bloqueio perceptivo.

— Acho que você não me entendeu bem, meu velho. Eu disse que os Maias afirmavam que no centro do Universo, que não era nossa galáxia, mas o Espaço mesmo, havia um foco de luz intensamente brilhante.

— E apois. Esse tar de Hanabicu está dentro do Ispaço. Ele num é o ispaço.

Como explicar? Fiquei pensando um tempo com Orozimbo me olhando intensamente, todo atento.

O mais importante aqui é o coração.

O mais importante aqui é o coração.

— Orozimbo, nosso corpo é importante, todo ele. Mas o centro da Vida não está na pele… Você está me entendendo? A pele seria o Espaço, a grosso modo. Ela envolve tudo o que nós somos. No entanto, a vida não está nela. A vida lhe chega…

— … do célebro — completou meu velho amigo.

— Não. O cérebro é um órgão poderoso e dirige tudo no nosso corpo, menos a Vida. A esta, ele não controla. Se controlasse, certamente que ninguém morreria porque ele não permitiria. 

— Entonce, quem governa a Vida? — Os olhos de Orozimbo me diziam que ele, agora, estava todo mergulhado no assunto.

— O coração. Morremos quando ele pára de pulsar. Mesmo quando uma pessoa recebe uma paulada na cabeça e entra em coma, mas o coração continua pulsando, ela não morre. E se seu cérebro vem a morrer, mas o coração continua pulsando, o corpo ainda está vivo. 

— Hummm… Véi já uviu isto na TV de um vizim… Vancê tá falando a verdade. E véi nunca intendeu cuma é qui o célebro morre, mas a pessoa continua viva. Agora, vancê tá falando uma coisa qui faiz sintido…

"Assim como é embaixo, é em cima"

“Assim como é embaixo, é em cima”

— Pois é. Hunabi-Ku é o Coração do Espaço. O centro de onde emana toda a Força Vital para tudo o que o Espaço cria. O Espaço é o cérebro e Hunabi-Ku seu coração. Os Maias se referiam ao centro da Vida Total, não à Mente Pensante. O coração não precisa aprender nada, mas o Cérebro, este sim, tem de aprender sempre. É o que nos acontece. Veja você, por exemplo. Você tem mais de cem anos e, no entanto, continua seco por informação, o que eu admiro profundamente. Seu cérebro quer aprender. Assim também é com a Entidade Misteriosa que a tudo cria. O Espaço é a Memória Imortal de tudo o que acontece dentro dele. Dono de tão incalculável quantidade de informação, ele deve “fervilhar” de vontade de aprender mais. Por isto está constantemente criando galáxias e mais galáxias. O Espaço faz experimentos toda vez que volta a criar, depois de um tempo analisando sua criação anterior. No entanto, é seu Coração, Hunabi-Ku, quem imprime a vida em tudo o que o Espaço cria, pois é no coração que está o Centro da Beleza Eterna e a Criação é uma obra prima somente quando prenhe de Vida. Que adianta a mulher parir um feto morto? Um Universo sem Vida é como um feto morto, entende?

Orozimbo me olhava com olhos brilhantes de emoção. Ele pensava rapidamente; alinhavava minhas palavras em seu pensamento de modo a buscar brecha que pudesse questionar e tudo lhe parecia perfeito. Eu via isto no seu olhar. Eu lhe falava de modo o mais simples possível, de maneira que, usando imagens comuns a seu pensamento, ele pudesse organizar as idéias que eu lhe passava. E sempre funcionava, como agora.

Cérebro, este mistério desconhecido pela Ciência e que gera uma infinidade de teorias

Ele pensa e cria novas formas. Mas só o coração dá o Sentimento.

— O Ispaço é o corpo e o célebro de Orixalá… Hunabacu é seu coração… O célebro cria as coisa, mas é Hunabacu quem põe vida dentro delas… O homem tombém cria coisas… coisas boas e coisas ruins… E seu coração é quem põe a vida e a beleza ou feiúra nessas coisas…

Ele me olhou com expressão de angústia na face.

— Home, vancê uma veiz dixe qui o home é a semelhança de Orixalá não pur qui tem uma forma, mas sim purqui é capaiz de pensá e senti… E é purqui pensa e sente qui o home cria tanto um remédio, cuma um fuzi. O primero pra curá e o segundo pra matá. Entonce… Orixalá tombém cria coisas ruim? Ele tombém é mau? Sim, pruqui tudo qui é inventado pra matá a vida é ruim e num divia de sê feito, né não?

— Meu amigo, o que para nós é ruim, para a dimensão do Espaço não tem significado. Nós olhamos os fenômenos que nos rodeiam e aqueles que vivenciamos a partir da consciência que temos de nossa finitude. Cada Elemental Físico – e você sabe o que quero dizer com isto – teme seu fim, não é?

— Sim, véi já intendeu isto munto bem. E entonce?

— No entanto, cada um de nós é um experimento Espacial. Ele precisa que cada uma de suas criações inteligentes, sejam humanos da terra sejam de outros planetas em outras galáxias, difiram umas das outras, pois só assim essas criações poderão oferecer minúcias de comportamentos e formas de pensamento riquíssimas em conteúdo que, ao final do Manvantara, vão-lhe enriquecer a Mente. E a Mente do Incriado é justamente o Espaço. Por isto é que os Druidas afirmam que o Espaço é o Criador. Eles não dizem que o Espaço seja aquele que doa a Vida, mas sim que Ele é o Criador. 

Orozimbo ficou balançando a cabeça afirmativamente, olhar perdido algures entre a mesa e seus olhos. Então, pausadamente voltou a atenção para seu pito. Limpou-o vagarosamente, olhar perdido no ar, colocou o fumo lá dentro, acendeu-o, tirou uma baforada e permaneceu com o pito preso nos lábios, ausente, absorto, pensativo, por um longo, longo tempo.

— Quer dizê, intonce, qui Orixalá tombém tá aprendendo, é?

— Isto mesmo — confirmei com cuidado.

— Entonce, ele num sabe tudo, né?

— Sim. Ele aprende sempre. E para aprender ele faz experimentos… Você se lembra de quando eu o levei para ver os experimentos que nós, estudantes, fazíamos com ratos no laboratório da faculdade?

Ele sorriu, absorto, e acenou afirmativamente com a cabeça.

— Pois é. Muitos daqueles experimentos que nós, estudantes, fazíamos, implicava matar os pobres ratos. Para eles era horrível e doloroso, mas para os estudantes e os professores é algo sem importância…

— Vancê qué dizê qui Orixalá mata sem senti dó da sua criatura? — Seu olhar indicava que ele tinha retornado ao nosso momento e refletia grande susto.

— Sim, Orixalá mata tanto quanto cria. Ele sabe que mata apenas a Forma, não Seu sopro de vida que animava aquela forma. Na verdade, Ele apenas toma de volta o que lhe pertence desde sempre: a Vida. Entendeu?

Orozimbo ficou quieto, olhos brilhando, sinal de que pensava intensamente no que tinha acabado de ouvir.

— A morte nun exéste… É somente uma mudança de estado… O ispritu num é o corpo… O ispritu véve pra sempre… O ispritu é o sopro de Orixalá… Esse sopro vem de Hunabacu… e a ele retorna quando o Espaço finda um grande isperimento… O negóço é compricado, num sabe? Mas véio tá intendendo arguma coisa dessa imbolada toda qui vancê acabô de fazê. Faiz sintido, mas é inrolado, munto inrolado…

— É porque tudo é novo para sua Mente, Orozimbo. É a primeira vez que você ouve isto. Do mesmo modo foi quando eu lhe disse que o corpo é filho da terra e não uma criação de Orixalá. No entanto, se a Terra é Sua criação, então, indiretamente, o Corpo também é isto. Mas os planetas têm liberdade para criar as formas que deverão viver sobre sua superfície em função dos fenômenos meteorológicos, sísmicos etc… Um dia nós conversamos sobre isto, está lembrado?

— É… Nóis falô, nho sim… Mas inté agora, aquela cunversa num ficô munto crara preste veío, nho não.

— A Terra, assim como todo planeta ou estrela, tem vida própria e uma Inteligência específica. Esta Inteligência tem uma motivação que lhe é impressa desde mesmo sua criação e esta motivação é impressa na estrutura do corpo planetário ou estelar assim que o Espaço os cria… Entende?

— Hum-hum…

— Então. a motivação de um planeta como a Terra é no sentido de criar formas específicas para as criaturas que receberão o sopro de vida do Espaço, bem como a Energia Sentimento de Hunabi-Ku. 

— Ah… É pur isto qui vancê dixe qui nóis num tem um montão de sentimentos, mas sim apenas um, né não?

— Sim, é. A Energia Sentimento é única. Mas ao ser infundida no ser humano, ou seja: ao penetrar no coração humano, o Chakra Anahata ou Cardíaco, ela é qualificada de vários modos diferentes e se manifesta como emoções. Emoção de Medo, Emoção de Alegria, Emoção de Tristeza, Emoção de Saudade, Emoção de Cobiça, Emoção de Vingança, Emoção de Raiva, Emoção de Rancor…

— Sim, sim… Faiz sintido sim — disse Orozimbo sorrindo e se recostando no encosto da cadeira. — É cuma se o coração fosse um tanque cum vários canos. Ou mió, cum três canos principar. Por um deles sai a Energia Ódio qui vai formá uma famia de emoções derivada; pelo otro sai a Energia Medo, qui tombém vai dar rezão a uma famia de emoções derivada; e pelo tercero e úrtimo, sai a Energia Curpa, qui vai dá rezão de sê a uma famia de emoções derivada. O único qui fica no chakra Anahata é a Energia Amô…

Fiquei boquiaberto. Ele dizia com suas palavras o que eu lhe havia ensinado há muito tempo atrás. Que bom!

Orozimbo tamborilou os dedos sobre o tampo da mesa. Então, estendeu a mão, pôs o café da garrafa no copo diante de si e o bebeu, devagar, intercalando cada gole com uma baforada de seu cachimbo. Então, quando terminou de beber o café, levantou-se, abriu os braços para mim. Eu me levantei e ele me abraçou com força.

— Home, o qui seria deste véio se vancê num exestisse! Véio aprende mais cum vancê do qui aprende oiando a vida ao derredó, num sabe? Obrigado de coração. Mas agora, véio vorta pra arucaia dele. Vai prantá repoio e argumas otras prantas pra pensá mió no qui vancê dixe. Véio pensa mió inquanto trabaia. Inté mais vê.

E lá se foi todo contente. Eu fiquei pensando quando seria o dia em que ele viria com uma pergunta para a qual eu não teria resposta. Qual seria sua reação?

Preferi nem imaginar. 

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