Todo ano, milhões de brasileiros mostram, nas praias do país, sua incipiência maturacional.

Todo ano, milhões de brasileiros mostram, nas praias do país, sua incipiência maturacional.

Últimos dias de 2013. Calor e muita chuva, com interferência nos celulares. Por que? Sei lá! E não me importo. Aliás, estou esquisito. Ando não me importando com quase nada. Apenas estou grilado com meus intestinos. Não sei a razão, mas desconfio que a porta para o outro lado me será aberta através deles… E isto não me agrada, pois geralmente a partida foi danada de dolorosa para quem seguiu por esta porta. Enfim…

Orozimbo se abancou ao meu lado, mas eu continuei absorto. Ele acendeu seu cachimbo e ficou pitando. Não me pediu o costumeiro café amargo e eu também não lho ofereci.Por quanto tempo ficamos em silêncio, não sei dizer. Enfim, ele foi o primeiro a quebrar aquela monotonia e a me tirar de meus pesamentos rancorosos  e sombrios.

— Sua muié e sua fia tão vendo os “viado” na Grobo. Vancê num vai vê tombém não?

"Ih! De porcarias tua TV anda cheia!

“Ih! De porcarias tua TV anda cheia!”

Não me dignei a olhá-lo. Não sabia se estava de provocação ou se apenas queria deixar claro seu espanto com aquilo, pois diversas vezes ele as ouvira me criticando acidamente quando eu teimava em assistir a uma das novelas da emissora mais furiosamente dedicada a enfiar o gayismo goela abaixo dos brasileiros. A novela era Avenida Brasil. Uma das raríssimas obras globais de que eu gostei. Não pelo enredo chinfrim, mas pelo desempenho espetacular do elenco. Vivi o teatro, quando jovem, e nunca mais consegui me divorciar da visão crítica de um ator-diretor-escritor. E é assim que vejo, quando vejo, as coisas que a Globo leva ao ar.

— É farta de educação num arrespondê quando se faiz uma progunta, home. E entonce, vancê num vai vê a porcaria, não? — Reclamou Orozimbo, já irritado pelo meu silêncio. O peste do velho não se mancava. Parecia não se dar conta de que eu queria ficar absolutamente sozinho. Olhei-o me esforçando para não o mandar à m… e terminei por lhe dar uma resposta meio atravessada.

— Se eu quisesse me deixar doutrinar pela Globo você não me teria encontrado aqui fora, meu velho. Claro que não vou. Aliás, esta é uma das desgraças que vai cair com toda a força sobre nossas crianças…

— O quê? Vancê num vê a Grobo? — Sua voz denotava certa ironia, mas eu não liguei para isto. Era seu hábito, sempre que eu estava sorumbático, vir me apoquentar as idéias e os pensamentos sombrios.

— Não. Falo do esforço repugnante que a Globo faz para doutrinar as crianças brasileiras no aplauso ao gayismo, como se ser gay fosse algo maravilhoso. Isto é algo que eu não aceito, mas nem morto — rosnei, azedo.

—Ora, mas a famia brasileira já qué qui seus fios aceite esse negóço aí cuma naturá. O qui se vai fazê? Inté há leis pra puni os qui num bate parma pr’eles…

Está ficando exagerado. Nossos artistas têm muito mais potencial a ser explorado que este de ser "gay".

Está ficando exagerado. Nossos artistas têm muito mais potencial a ser explorado que este de ser “gay”.

— Não. A grande maioria das famílias brasileiras não aceita de modo algum este escancaramento global. Eu sei que o meio artístico é, por natureza, cheio de “desmunhecantes”. Uns, declarados. Outros, acobertados. Mas todos estão lá. São raros os que realmente têm sexo social definido. Faz parte da estrutura necessária para se ser ator: não ter identidade firmemente formada. Foi um professor de Filosofia a primeira pessoa que ouvi afirmar isto, lá pelos idos de 1964, e foi por causa dele que me meti no meio teatral. Queria provar que ele estava errado e terminei verificando que o errado era eu. Quem é bem definido psico-sexualmente e tem uma Identidade bem forjada, bem estruturada, jamais vence no teatro. Uma pessoa assim, não é capaz de emprestar seu corpo e seu Ser Social, sua Identidade, para vivificar uma personagem idealizada por alguém nalgum escrito. Para se ser bom ator e atingir os píncaros nesta profissão há que se ter uma Identidade fracamente estruturada… Mas, voltando à Globo, todo este seu esforço, que é feito em defesa do Mercado, é claro, vai terminar levando o povo brasileiro a entrar em conflito muito sério, pois o gayismo não será aceito como a Globo sonha. Não se muda a Identidade Social de um país a troco de leis ou à força da Comunicação de Massa. Claro que esta tem um poder avassalador, mas as mudanças que impõe ao povo não acontecem da noite para o dia, embora eu tenha de concordar que a televisão e a computação com a internet vieram dar suporte e força à massificação de hábitos e idéias que, no passado, levariam séculos para acontecer e que, hoje, acontecem na metade da vida de uma geração. No entanto, neste momento, quando a religião católica capenga e manca, o Evangelismo protestante dispara à toda. E o Evangelismo protestante é cego e burro. Seus seguidores são robotizados pelos tais pastores que os fazem decorar aquelas velhas historietas bíblicas, copiadas e alteradas à vontade dos que se dizem dirigentes pastorais. A discriminação e a fobia a qualquer coisa que não siga os preconceitos bíblicos é feroz. Evangélico que é evangélico, por exemplo, não aceita nem a pau esses “terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo” sexos. E creio que neste ponto eles e eu estamos marchando de passo certo. Católicos beatos também são radicalmente contrários a isso. Então, em 2014, a Globo pode conseguir o que os maus políticos não conseguiram: um conflito violento entre brasileiros e brasileiros. Mas eu não estou nem aí para estas picuinhas…

— É cuma dixe o tar home de Nazaré — cortou-me Orozimbo.  nem uma foia cai qui num seja pela Vontade do Pai”, né não?

— Ele não disse isto. Foi invenção de um sujeitinho aloprado que meteu esse negócio em sua boca.

— Ué… Mas vancê vivia citando isto. Mudô pruquê?

— Primeiro, porque não estou morto e só quem morreu não muda de pensamento. Segundo, porque vim a conhecer a vida do fundador do Cristianismo e ela é de deixar a gente boquiaberto. Sabe, Orozimbo, Reza Aslam me fez lembrar de meu pai. Uma noite, quando, sentados na calçada de nossa casa, em Campo Maior, eu estava com a cabeça deitada em seu colo olhando as estrelas, ele, acariciando meus cabelos, de repente se saiu com esta:

— Se um dia você quiser repugnar de verdade a religião dita Cristã, pesquise e leia atentamente a vida do auto-denominado Apóstolo Paulo. Este doido foi quem criou a maior mentira de todos os tempos.

É melhor sonhar com isto do que ansiar por incorporar uma personagem gay...

É melhor sonhar com isto do que ansiar por incorporar uma personagem gay…

Eu o ouvi e não entendi nada, pois esperava uma de suas histórias com que me fazia sonhar e dormir invariavelmente ali, com a cabeça deitada em suas pernas e sonhando as aventuras de príncipes, dragões e princesas sob o céu estrelado de Campo Maior. Mal sabia eu que quatro anos depois seria forçado a vestir a batina preta dos condenados… Acho que foi o inopinado da coisa que me deixou gravada na memória aquelas palavras. Mas eu jamais me interessei por pesquisar sobre Paulo de Tarso. A raiva contra os padres que, anos depois, me surravam de palmatória para me disciplinar na aceitação sem questionamento das fantasias e dos absurdos cristãos me fez um repudiador inflexível do Cristianismo. Nem mesmo o Espiritismo conseguiu me fazer aceitar de bom grado aquela história que, no meu mais profundo íntimo, eu tinha no mínimo como uma grande fantasia. Só não conseguia explicar como é que ela se mantivera de pé até hoje, sempre crescendo e sempre causando dores e sofrimentos. Pior, não conseguia entender a razão de todos os espíritos “incorporados” com quem falei nos terreiros por onde perambulei aceitar e até incentivar a adoração a um ícone falso. Por longos anos eu lutei comigo mesmo contra meu ateísmo crônico e meu temor ao Inferno dos cristãos… Vivi aqueles anos oscilando entre crer e não crer… E foi horrível. Quando fui parar nos terreiros de Umbanda, levado que fui por um acontecimento insólito do qual você participou como observador, esperava que lá encontrasse uma resposta certa para minha angústia existencial. Mas não consegui nada que fosse além da presepada bíblica. 

— Entonce, mô fio, vancê tá pronto pro Candomblé verdadero — disse Orozimbo, satisfeito.

— Não. Não estou não — cortei-o com certa rudeza.  Nem para seu Candomblé nem para qualquer outra religião sobre a Terra. Religião é o ópio do povo, já disse Karl Marx e ele estava totalmente com a razão. Talvez o mundo fosse melhor se não houvesse religião de espécie alguma.

— Ou tarvez pió, home. Vancê num vê qui o home é animal por natureza? É a religião qui freia essa besta qui nóis traiz dentro do coração…

— Não. As maiores guerras, as maiores traições, os maiores derramamentos de sangue de gente inocente foi, sempre, incentivado pela Religião. Você não vê a crueldade dos Muçulmanos pelo mundo, atualmente? No passado, foram os Papas os maiores incentivadores do ódio entre as pessoas e as nações. Religião, meu velho, religião. Quanto aos animais, eles sempre encontram um meio de conviver pacificamente entre seus grupos e até evoluem juntos. Você jamais verá um animal agir com a bestialidade feroz humana. Nem neste mundo nem em qualquer outro, meu velho. Na verdade, os animais somos nós, os que nos dizemos humanos. Até nisto somos hipócritas. Acusamos nas outras formas de vida, só porque têm corpos diferentes dos nossos e se comportam segundo os limites que a Natureza lhes impôs, um grave defeito que é totalmente nosso, dos humanos que nos dizemos ser.

— Hum… Véi inté tem de concordar cum vancê, num sabe? Mas se toda religião num presta, a deste véi é a única qui se sarva.

Eu o olhei de través e resmunguei, contendo a irritação.

— Vamos mudar o rumo desta conversa? Não estou bom pra falar de besteira e religião é a maior besteira que já se inventou.

Orozimbo também me olhou atravessado e com expressão séria. Eu atingira em cheio sua crença e ele não era de aceitar isto pacificamente. Mas como tinha conhecimento de meu mau gênio, quando zangado, preferiu não polemizar.

— Tá bom — resmungou pigarreando. — Entonce, vamo falá do que vancê espera do ano qui tá entrando.

— Não espero nada. O dia primeiro de janeiro é só mais um, na seqüência ilusória do tempo criada pelos idiotas humanos. O Sol vai continuar no lugar onde se encontra e a Terra vai seguir girando e nos dando a ilusão de que existem dias e noites e que o tempo passa. Tudo ilusão. tudo é absolutamente igual, no Espaço. E o Mercado e a Religião vão continuar se ajudando mutuamente na manutenção do povo em seu estado de burrice crônica. Os polititicas vão continuar polititicando… Enfim, a merda vai ser igual.

Orozimbo novamente me deu um olhar atravessado. Mas conteve-se.

— Num acho não — disse, com voz contida. — As coisa vão mudá.

— Em quê, posso saber?

— Pur exempro. Sua Vovozona tá indo de vento im pôpa e ameaça ganhá as eleição. E véi sabe qui vancê num gosta nem dela nem do partido dela.

— E daí? Eu e muita gente mais não gostamos disso, mas não somos nós que vamos conter a onda avassaladora da ignorância mendicante que vai eleger aquela que lhes alimenta a preguiça e a incapacidade de reagir à vida miserável em que vêm sendo mantidos há séculos.

— Vancê curpa os disgraçado pela disgraça in que se incontra, é? — E meu velho amigo me olhou com ar aborrecido. Ele não estava gostando do rumo de minha prosa.

— Culpo. Inércia é o que eles cultivam.

— E quem é vancê pra jurgá eles, heim?

— Sou um dos que experimentou a miséria e não ficou lá por vontade própria.

— Não. Vancê é um dos iscuidos pra lutá e vencê. Se Olorum num tivesse iscuido vancê pra infrentá as luta qui infrentô, vancê tombém taria lá junto dos miserave qui vão elegê a véia novamente.

— Orozimbo, já não creio em um ser, seja qual nome seja que se lhe dê, que escolhe A ou B para tal ou qual missão aqui na Terra. Isto é besteira. Ninguém sabe nada sobre as Leis que regem tudo, absolutamente tudo, no Espaço. Só ele; e que eu saiba, Ele não fala com ninguém para informar sobre Sua criação. 

— Entonce, cuma vancê ixprica os destino das pessoa? Pruqui é qui são tão diferentes, heim?

— Sei lá! E se quer saber, não mais me interesso por isto. O que diabos vim fazer aqui? 

— Num vai dizê qui é karma, não? — insistiu ele.

— Não mais.

— Entonce, se vancê eliminô o karma de seu modo de intendê os mistéro da vida das pessoa, o qui colocô em seu lugá?

— Nada.

— Cuma é? Vancê tá ni…nihi… cuma é o nome mermo?

— Niilista, Orozimbo, ni-i-lis-ta — respondi de má vontade.

— E apois. Vancê tá isso aí, tá?

— Ainda não sei. Estou num daqueles momentos em que a gente se diz na maré baixa. Estou pessimista e irritado.

Ele me olhou um tempo, calado. Então, com um suspiro, voltou à carga.

— Seu fio?

— O que tem meu filho?

— Humm… Vancê deu um contra-vapô nele aí pelo seu celulá. Véio viu munto bem.

— Ele mereceu. É cabeçudo.

— Puxô a quem? — E Orozimbo riu um risinho irritante que me pôs mais zangado ainda.

— Ao avô dele — rugi entredentes.

— Véi acha qui tombém. Mas vancê herdô a cabeçudez premero.

Fiquei de pé, desci as escadas, atravessei o terreno gramado, abri o portãozinho, saí para a rua e comecei a andar à esmo. Mas não me livrei de Orozimbo, pois ele também veio comigo. Parecia até carrapato.

Na luz fraca dos postes uma sombra vinha em nossa direção. Orozimbo pareceu preocupado e me olhou de esguelha.

— O que foi?

— Num me parece coisa boa, o qui vem lá.

— Não temos nada com isto.

— É… Mas e se a coisa ruim quisé tê arguma coisa cum a gente, hein?

— Eu o mato e pronto.

Orozimbo me olhou preocupado. Então, com uma cusparada, resmungou.

— Acho mió a gente vortá pra dentro de casa. Vancê, home, tá cá macaca, o macacão e os macaquim. Deste jeito, vai acabá fazendo bestera.

— Vou continuar andando. Ninguém vai-me deter, ora bolas. Se o coisa-ruim que você viu naquela figura lá vier pra cima de nós, vai-se danar. Você nem tem que jogar sua capoeira. O desgraçado vai morrer tão depressa que nem vai saber o que lhe aconteceu.

— Ih… Azedô de veiz. Sossega, home. É só um coitado qui vem de vorta pra casa. Véi falô só pra mexê cum vancê.

— Não faça isto. Me deixe quieto. Pode andar ao meu lado, se quiser, mas ande calado. Preciso de silêncio.

— Tá bom. Véi, tombém, às veiz percisa ficá só. Vamo, entonce.

Caminhamos um tempo e terminamos regressando. No portão ele se despediu. Estava tarde e ele tinha de voltar para sua arucaia. Entrei em casa. Tudo em silêncio.

Era mesmo o fim de mais um ano.