"Irra! E o Collor é nosso amigo...!"

“Ups! E o Collor é nosso amigo…!”

Este alerta eu já venho fazendo aos meus filhos há muito tempo, mas parece que eles só acreditam no aviso se ele vier de fonte desconhecida, pois até agora não mudaram nada em seus hábitos que eu reputo censuráveis, de colocar informações “triviais” sobre seus costumes, seus gostos, seus passeios, seus amigos, locais que gostam de freqüentar etc…

Tudo pode servir para se levantar o perfil de uma pessoa. E se se tem uma má intenção, então, a pessoa que fornece estes dados é uma vítima tão indefesa quanto uma mosca na teia de uma aranha.

Eis o exemplo do que é ser militar. "Aborreceu-me? Mato!"

Eis o exemplo do que é ser militar. “Aborreceu-me? Mato! Contrariou meu pensamento? Mato!”

Em 1988, eu trabalhava na EMBRATEL, Rio de Janeiro, no Departamento de Engenharia. Naqueles idos os engenheiros de telecomunicações no Brasil — e na EMBRATEL por excelência, eram tidos quase como deuses. Lembro-me que um milico idiotizado, nos idos de 1975, andara batalhando junto à diretoria para que se fizesse um passadiço entre o prédio da empresa, na Avenida Presidente Vargas, e o estacionamento em frente, “para que os doutores engenheiros pudessem ter mais conforto ao deixar o automóvel no estacionamento e vir trabalhar. Pela passarela, sob vigilância de um militar, só trasitariam os doutores engenheiros”. Ganhou o troféu de puxa-saco do Século XX, o desprezo de todos os não-engenheiros de telecomunicações e sua idéia estapafúrdia nunca recebeu apoio da Diretoria (eles eram metidos a besta e esnobes, mas não eram burros).

Não havia internet, muito menos páginas de relacionamento internacional, como acontece hoje. A comunicação era muito restrita e os cidadãos, principalmente nas empresas, podiam gozar de privacidade. E os “chefes” na EMBRATEL eram protegidos como se fossem o Presidente dos Estados Unidos da América do Norte. O que faziam, do que gostavam, o que comiam, que locais freqüentavam, onde costumavam se divertir, de que filmes e espetáculos gostavam etc… era privativo e pronto.

Meus desentendimentos com os “chefes” começara há muitos anos. Eu tinha sido literalmente arrastado para a EMBRATEL pelo Coronel Diderot Colbert Barreto Goes. Ele precisava de uma pessoa capaz e intransigente para ser selecionador da empresa e me caçou no Serviço Público Federal (eu trabalhava no Ministério da Fazenda) e me obrigou a ficar na EMBRATEL. Segundo me dizia: “Porque eu preciso de alguém de coragem para enfrentar a guerra que vem por aí. E é guerra de vida ou morte. Sei quem você é. Sei do que é capaz. Por isto, quero você na Seleção de Pessoal. Não vou enganá-lo: ali, você só colherá espinhos”. E era verdade. E quão grandes e venenosos foram aqueles espinhos…

Os maus chefes são como os maus políticos: beijam quando não podem morder...

Os maus chefes são como os maus políticos: beijam quando não podem morder…

Entre os muitos crápulas que foram meus chefes na EMBRATEL, houve um que ganhou nota 10 e foi o sênior em sacanagens. Ele não era militar. Os militares são inimigos perigosos e ferrenhos, mas eles dizem na sua cara que vão matá-lo. Eles não escondem o jogo. Já o civil, não. O civil é falso, mentiroso, covarde e ardiloso. Tramam a derrocada de sua vítima, não com a intenção de eliminá-la, como fazem os militares, mas sim com a intenção perversa de levá-la ao desespero e à perda de credibilidade e de auto-estima e de tudo o que lhe possa estar ao alcance da mão fazer para literalmente esmagar seu desafeto. E quando este grita em revolta ou impotência, ele o abraça, dizendo: “que é isto, cara? Você está sofrendo de esgotamento nervoso! Está com mania de perseguição! Olha, eu vou-te dar uma semana de licença. Vai à praia, faz um piquenique… vai ao cinema… vê se se diverte um pouco. O trabalho está fazendo que fique esgotado. Vai. Eu não vou levar em consideração o que você anda dizendo de mim porque sei que você está esgotado. Todo mundo sabe, não é?” Os chefes civis são piores mil vezes piores, quando decidem perseguir um colega, do que um chefe militar. Este, parte para a “eliminação” do obstáculo o mais depressa possível. Aquele, não. Como um gato com um rato entre as unhas, baba de prazer em atormentar o infeliz até que ele ou sofra uma síncope cardíaca ou um AVC brabo e morra fulminado, ou tenha um destempero nervoso que o ponha fora da empresa para sempre, através de uma aposentadoria precoce. Eu conheci os dois tipos. E tive de lutar contra mais de uma dezena deles durante meus 27 anos de empresa.

A primeira antena de telecomunicações do Brasil, localizada em Tanguá, RJ.

A primeira antena de telecomunicações do Brasil, localizada em Tanguá, RJ.

O sujeito que mais me irritou chamava-se (não sei se já morreu) Amâncio Fernandes Pulchério — e era um engenheiro (incompetente) de telecomunicações. Por ser incompetente era um puxa-saco da pior marca. E tendo sido o capacho de outro engenheiro de telecomunicações chefe do Departamento em que nós dois trabalhávamos (Benjamim Himelgrynn), herdou dele tudo o que de pior pôde aprender em vilanias contra os que consideravam, os dois, mais fracos que eles (ao menos em hierarquia). Ambos tinham verdadeira aversão a psicólogos e para minha infelicidade eu estava-me formando justamente nesta Ciência. No Departamento de Engenharia meu cargo era de Assistente Administrativo. Lá, eu era um faz tudo. Arquivo? Comigo. Correspondência? Comigo. Controle do andamento das aquisições de peças etc… importadas? Comigo. Acompanhamento das liberações das Licenças de Importação no Banco do Brasil? Comigo. Acompanhamento da realização das etapas planejadas de cada contrato? Comigo. Acompanhamento das coisas importadas, desde o embarque no exterior até o desembarque no Brasil? Comigo. Preenchimento das Planilhas relativas às previsões de gastos para o ano? Comigo, comigo, comigo… Enfim, havia um peido no ar que devia ser aspirado para que os senhores engenheiros pudessem respirar folgadamente, a tarefa de limpar o ar era minha. E tinha de ser para ontem. Tudo.

Administração do Amâncio era comparável à Assistência Social do Estado aos escravos do crack: com polícia e fuzil.

A administração do Amâncio era comparável à Assistência Social do Estado aos escravos do crack: com polícia e fuzil.

Amâncio herdou o Departamento quando o Benjamim se foi. E nada mudou. Ao contrário, piorou. O outro, pelo menos, era mais inteligente e seus métodos persecutórios eram melhormente refinados. Com o Amância a coisa era grosseira, rude, realizada no “sabe quem eu sou?” O sujeito tinha uma capacidade de irritar até o infinito. Ele tanto fez que eu decidi matá-lo. Se eu contasse com a internet e as páginas de relacionamento, onde pessoas com auto-estima reduzida e carentes de afeição se entregam todas à exposição de si, certamente que Amâncio seria um dos primeiros na lista dos mais esfuziantes. Mas eu não tinha. Não sabia nada do crápula, até quando decidi eliminá-lo da face da terra. E para tanto, visto que eu era considerado o melhor aluno de Comportamental, área da Psicologia que fazia furor na UGF, e tinha como professor o melhor do Rio de Janeiro — Araguari Chalar da Silva —, decidi colocar todo o meu conhecimento em função de meu plano. Ele tinha de ser morto, mas preferentemente sem que eu pudesse ser acusado de nada. E para isto, nada melhor que usar a Ciência do Comportamento para executar meu plano. Eu quase eliminara o Benjamim agindo exatamente assim, e ele se salvou porque o Araguari, a quem buscou em pânico depois que eu lhe mostrei o que estava fazendo e como ele não podia se defender de mim, lhe ensinou o único meio de que dispunha para se safar de minha perseguição: isolar-me na Empresa em local onde eu não dispusesse nem de telefone. Por isto, fiquei dois anos em um enorme salão vazio de tudo, exceto de minha mesa de trabalho. Trabalho que não tinha. Não mandavam nada para eu fazer para que eu não entrasse nas salas onde o Benjamim pudesse estar. Nada vinha para mim. Adorei! Por isto abandonei meus planos assassinos e me dediquei a aproveitar aquele presente dos deuses – tempo – a estudar vigorosamente as matérias de meu curso…

Até o horário de ir ao vaso interessa ao comportamentalista.

Até o horário de ir ao vaso interessa ao comportamenta-lista.

E pus mãos à obra. Se contasse com o Facebook tudo teria sido infinitamente mais rápido. Mas como não contava, tive de agir artesanalmente. Segui o sujeito por três meses. Aonde quer que ele fosse, eu ia atrás. E a qualquer hora. Não tenho a conta das noites que passei sentado dentro de meu carro, à sombra de uma árvore e no frio da noite, numa rua deserta da Tijuca, vinte metros distante da entrada da casa do Amâncio, vigiando suas saídas. Se não saía, eu me aproximava, subia na árvore diante de sua casa e, com um binóculo pequeno, ficava vasculhando tudo através das janelas da casa. Foi assim que descobri que ele e a esposa não se tocavam há muito tempo. Deitados, um virava para um lado e o outro, para o outro lado. Flagrei o sujeito num motel e não era com a esposa, mas com uma outra dona que o andava cercando há tempos. Eu anotava tudo o que ele fazia: como se trajava, o que comia, que mulheres eram suas preferidas, ambientes que freqüentava, tipo de cigarro e bebidas que preferia, horas em que ia ao banheiro, revistas que lia, horas preferidas de descanso, fraquezas morais e físicas… Enfim, tive um trabalhão para juntar informações que os tolos, hoje, colocam gratuitamente na Internet.

Aquele que fez tudo isto às vezes escreve nossas vidas diferentemente daquilo que desejamos que seja...

Aquele que fez tudo isto às vezes escreve nossas vidas diferentemente daquilo que desejamos que seja…

Mas não tive de matar o desgraçado, graças ao Cosmos. Amâncio me pôs para fora da Embratel através de uma manobra sórdida, amparado “legalmente” pelo delírio de Fernando Collor de Melo, que vendeu a toda a nação a imagem de que todo empregado de estatal era “marajá”. Depois de um “merchandising” muito bem feito em torno desta mentira, Collor ordenou a demissão de todo empregado “dispensável” nas Estatais. O infeliz colocou meu nome na lista de demissionários, embora eu já não mais trabalhasse em seu Departamento. Minha mulher, temendo o pior, tratou de manobrar para que não ficássemos no Rio e por isto vim dar com os costados no Centro-Oeste, em Caldas Novas… Mas isto são outras histórias. Vamos voltar ao que interessa.

Li, em ÉPOCA número 814, de 30/12/2013, uma reportagem que me arrepiou os pelos da nuca. Ali o articulista mostra tudo o que eu temia e temo e pelo que tentei várias vezes fazer que meus filhos não coloquem nada pessoal na internet, principalmente no FACEBOOK. Eu recomendo enfaticamente que os meus leitores comprem esta edição de ÉPOCA e leiam a reportagem. Verão que as empresas fazem “uso indevido de sua imagem”; “uso comercial de seus gostos”; “trabalho de socialização fútil”; “investigação de sua vida pessoal para venda à revelia de seu conhecimento”; “estimulam uma socialização forçada, onde nada realmente é sincero, leal e profundo”. A Cultura Google transforma você, leitor, e você, meu filho e minha filha, em material de consumo. Ela vende tudo e vende você também, lucrando absurdo com sua imagem e com as informações que você lhe coloca à disposição. Mas o pior não é isto. O pior é que há pessoas que podem servir-se do que você inocente, descuidada e irresponsavelmente posta sobre si mesmo, sobre seus amigos e sobre seus filhos. O que tais pessoas podem fazer com as informações que você lhe dá gratuitamente nem é bom imaginar…