Começa assim...

Começa assim…

Uma das minhas distrações preferidas é sentar diante da TV e criticar o mal-falar dos “globais”. E eu faço isto em voz alta justamente para azucrinar minha “cara metade” (e põe cara nisto!) que discorda em gênero, número e grau de tudo, absolutamente tudo o que eu digo ou faço. Antigamente isto me aporrinhava a paciência. Hoje, transformou-se em motivo de diversão, pois sinto uma satisfação íntima, cruel, em espicaçar sua tremenda mania de se posicionar contrária a tudo o que digo ou faço. Aprendi com ela a levar o outro ao desespero; a fazer que perca a paciência e se envenene em sua própria raiva. Agora, sinto um prazer mórbido em fazer que ela beba do próprio veneno. Sua paciência se esgota rapidamente quando o jogo que pensava ser seu com exclusividade é virado contra ela. É aí que fica divertido. Ela literalmente espuma de raiva quando fica encurralada. E nada melhor que criticar o mal-falar dos globais para começar o incêndio.

Termina assim.

Termina assim.

Hoje eu estava criticando o tal do ÉXTRA. Foi falar e ela se colocou imediatamente favorável a esta pronúncia danada de errada. E aí começou o jogo do “me irrita que eu morro de raiva”.

O signo linguístico “E” de nosso vocábulo, assim como o seu colega “O” vem sofrendo o diabo no paulistanês. Na realidade, quando designa uma letra de nosso alfabeto, ambos têm o som aberto. Logo, a pronúncia deve ser “É” e não “Ê” (deve-se dizer tafmann É e não tafmann Ê; Vitamina É e não Vitamina Ê)). Do mesmo modo, deve-se dizer “Ó” e não “Ô”. Claro que para toda regra há exceção, mas a regra é som aberto para ambos. Por isto é que outrora, lá pelos idos de 1900 até 1975, grafavam-se termos como ESTE (demonstrativo) com o sinal diacrítico (^ = circunflexo) para que quem estivesse lendo compreendesse que o termo se referia ao pronome demonstrativo. Quando escrito sem este sinal, o leitor imediatamente compreendia que ESTE (som aberto no “e” inicial) referia-se ao ponto cardeal. Nem era necessário (como ainda não o é) colocar qualquer sinal diacrítico neste “E”, visto que naturalmente sua sonoridade é aberta. No tempo em que se escrevia corretamente, “extra” tinha circunflexo para indicar a modificação de sua pronúncia e era escrito “êxtra”. Mas o paulistanês danou tudo e, agora, muita gente fala estupidamente éxtra; éxtra-terrestre etc… Enfim… Isto aqui é Brasil e nele em se plantando tudo dá… em merda, lógico.

Naquele exato momento a idiota da repórter global dizia “no Pôlo Norte…” em vez de “Pólo Norte” e eu estourava numa gostosa gargalhada. A cara metade percebeu o motivo de meu riso e tratou de defender a pronúncia errada. Peguei a deixa para a querela e o negócio não prestou para seu lado.

Foi justamente quando eu me divertia com a “cara metade” que chegaram Orozimbo, Vera e Felício. Sentaram-se e continuaram a querela em que vinham engalfinhado. Os dois contra meu velho amigo que desdenhava da profissão de padre ou de pastor. Aliás, nisto, ele e eu temos opiniões idênticas. E depois de Reza Aslan é que fiquei mesmo ao lado de Orozimbo. No entusiasmo da discussão, tão logo eu me uni a eles, Felício, com o rosto afogueado, virou-se para mim e perguntou, muito excitado:

 

Eis o sublimador bem sucedido em um de seus momentos de arrebatamento egóico!

Eles vivem para aumentar o numero de mendigos do Divino. Fazem disto sua profissão.

— Doutor, o que o senhor acha da profissão de padre? Ou mesmo da de pastor?

Olheio-os em silêncio. Tinha de encontrar um meio de manter meu bom-humor e sua pergunta veio a calhar.

— Ser padre é ser mendigo do Divino — respondi incontinenti. Houve um silêncio só quebrado pela sonora gargalhada de Orozimbo.

— É isso aí, home! Véi num incontrava mió definição qui essa aí! — Exclamava ele entre risos.

— Espera aí! — quase gritou Felício, olhos arregalados — o senhor não está falando sério, está?

— Como não? O que fazem os padres, senão mendigar dia e noite as bênçãos daquele Deus antropomórfico? Em vez de ir à luta, eles se acovardam e permanecem ajoelhados diante de um altar a orar ao “Nada” e pedir o que jamais lhes será dado, pois seu Deus não tem ouvidos. Engolem hóstias, fingem que fazem penitências – se fumam, por exemplo, uma penitência verdadeira seria a de deixar o vício por vontade própria, mas isto nenhum padre fumante faz, que ele não é besta de encarar o sofrimento. Se são chegados a um vinho, também não abdicam do vício nem a pau. Qualquer coisa, menos o sacrifício do sexo.

— Jesus Cristo! — Exclamou Felício, olhando pasmo para sua namorada, a qual, por sua vez, calada, me olhava perturbada, mas com uma expressão de curiosidade na face.

— É verdade — disse Orozimbo, agora sério. — Paded pensa que colocá os jueio no chão é fazê penitença. Véi inté cunhece arguns qui fazem arguma coisa qui presta. O pade ali da paróquia de Santo Inácio, pur exempro, pega doação de seus fiéis e distribui para os miserave e isquecido. Isto tem valô, sim sinhô.

— Sei não, Orozimbo, sei não — disse eu, olhando-o de través. Imediatamente Felício interveio.

Opção de vida: fumar crack. Para alimentar o vício? Roubar. Por que ter dó de quem fez esta escolha? Ninguém os obrigou a isso. Eles foram por opção.

Opção de vida: fumar crack. Para alimentar o vício? Roubar. Por que ter dó de quem fez esta escolha? Ninguém os obrigou a isso. Eles foram por opção.

— Como sei não? É meritório sim, ajudar os desvalidos. Mesmo que o senhor esteja descrente de nosso senhor Jesus Cristo, ainda assim esta foi sua maior mensagem e seu maior exemplo: estender a mão a quem precisa.

— Continuo não aceitando bem esta história. Veja, Felício, ali nas pistas de rolamento que circundam o Centro Administrativo da cidade, há um homem que passa sábados e domingos de plantão estendendo a mão a todo motorista que passa. No entanto, descobri, ele é aposentado do Estado e com uma boa aposentadoria. Mas descobriu que explorar a caridade dá mais dinheiro que trabalhar… Assim como o tal homem, há milhares de preguiçosos espalhados pelo nosso território. E o Governo do PT trata de os manter dependentes alimentando o vício da preguiça e da dependência com as bolsas-esmola que distribui à granel e que nos está levando, a todos, para o buraco da inflação, o mesmo de onde levamos décadas para nos safar. É muito difícil saber com clareza quem é miserável e quem é aproveitador nos dias de hoje, aqui entre nós.

— E por causa de uns poucos o senhor acha que se deve castigar os muitos?

— Não. Mas não quero entrar por este caminho que vamos cair invariavelmente na Política e eu não quero falar disto, este ano.

— Mas vai falá, ora se vai! — Disse Orozimbo, de bom humor. Ele me conhecia bem…

— Tudo bem, mas não concordo com esta história de nos chamar… de chamar os padres de mendigos do Divino, ora essa! — resmungou Felício, já se irritando.

— Doutor, eu concordo com meu noivo — disse Vera me estendendo seu laptop e me instando ouvir a entrevista de Nick Vujicic, que eu não conhecia até aquele momento. — Por favor, antes de prosseguir, assista o que disse este homem maravilhoso.

Olhei para este endereço ( http://www.youtube.com/nick vujicic.). Entrei no youtube e busquei pelo nome NICK VUJICIC. E ouvi tudo, calado. Havia muitos vídeos sobre este homem. Ouvi o que ela me deu a ouvir – TESTEMUNHO  DE NICK VUJICIC DUBLADO EM PORTUGUES. Ao final, sem escolher outro vídeo, devolvi o aparelho à sua dona, sem comentários. Decepcionada, ela o recebeu com vagar.

— E então? O que tem a dizer sobre este verdadeiro milagre de Deus? — Insistiu Felício diante de meu silêncio.

Sem braços, sem pernas, ele nada, mergulha, joga futebol, anda de skate e faz surf.

Sem braços, sem pernas, ele nada, mergulha, joga futebol, anda de skate e faz surf.

— Digo que este homem é o exemplo que todo mendigo do Brasil devia ver, mas não ouvir, e ser levado a meditar a respeito, comparando a vida desse homem exemplar com as deles, inúteis e dependentes. E nisto incluo todos os mendigos das bolsas-miséria e, também, padres e pastores, embora ambos, lamentavelmente, viessem a usá-lo para reforçar o que inventaram a fim de surripiar o dinheiro dos outros. Aliás, ao que parece, já é o que se faz, com o consentimento e o convencimento dele mesmo.

— Inventaram?! — Exclamou Felício, não se contendo. — Por acaso o senhor não se refere à religião, não é?

— Não há acaso, meu caro e eu me refiro exatamente a esta porcaria que vem atrasando o homem há milhares de anos. Eu mesmo perdi muitos dias de minha vida lutando com esta mentira infernal. Podia ter melhor aproveitado meu tempo, ora essa.

Eu estava irritado. Meu bom-humor desaparecera. Orozimbo me olhou de través, suspirou profundamente e se pôs de pé, instando com os outros para que se fossem.

— Vamo! — exclamou, impaciente — Vamimbora qui o home azedô. E véi sugeri, se vancês quiser ficá amigo dele pur munto tempo, nunca mais vortá a esse assunto de religião. Ele num tá pra cunversa, nhor não.

E os três se foram, contrariados, menos Orozimbo que ria divertido com os olhos…