Tem muita gente boa que, quando abre a boca, fica parecida com a Madame Mim...

Tem muita gente boa que, quando abre a boca, fica parecida com a Madame Mim…

Assisto sempre, preferencialmente, dois canais na TV fechada. Um, o AXN e o outro, o HBO. Fora estes  canais, vejo esporadicamente outros, pois a maioria repete sempre os mesmos filmes. Pois bem, no AXN há uma propaganda “PAULISTANESA” que é um arraso. Um velho, que não entende bulhufas de teatro, aparece nervoso atrás de uma mesa cheia de papel. Ele mexe rapidamente nos papéis, joga-os para todo lado e exclama sem qualquer inflexão teatral: “Preciso um descanso!”. Fico irritado toda vez que ouço o velhote dizer esta burrice. Mas vamos à segunda pedrada “paulistanesa” em nosso idioma. O goiano, talvez pela proximidade entre os Estados, é baba-ovo de paulista. Assim, tudo o que paulista diz, ele assimila e repete de peito cheio. E é estranho, pois comprovei que as escolas secundaristas daqui são muito boas. Mas vamos lá. A Organização das Voluntárias de Goiás – OVG é o Cabide de emprego para apadrinhados políticos. Está chegando a época de eleições e não admira que tenham criado uma nova função para as “aspones” privilegiadas. E a senhorita “aspone” recém-empossada deu uma entrevista à TV local. Como toda e todo aspone que se preza, a pestinha não sabe nada de português e lascou esta: “Bom, para a concessão das bolsas pela OVG nós vamos verificar os documentos do aluno e verificar se ele não reprovou no ano passado”. Hummm!!! Doeu… Estou dentro do metrô de superfície e leio na TV diante de mim: “Trate bem todos que ama”. É paulistanês pra todo gosto, arre diabo! Às vezes fico em dúvida quanto a se realmente estou vivendo naquele Brasil onde fui educado…

Onde estão os descalabros gramaticais nas três orações acima citadas? a) Preciso um descanso; b) … e verificar se ele não REPROVOU no ano passado; c) Trate bem todos que ama.

É o que dá. Em vez de estudar, os alunos de hoje se esforçam para ser cafajestes da porrada.

É o que dá. Em vez de estudar, os alunos de hoje se esforçam para ser cafajestes da porrada.

Vamos a alguns comentários rapidinhos. Na oração Preciso um descanso o erro está em que o velhote não expressa a mensagem que deseja veicular na propaganda, mas diz outra coisa totalmente diferente. O verbo PRECISAR tanto pode ser transitivo direto (sem regência prepositiva) quanto transitivo indireto (com regência prepositiva). No primeiro caso, o do exemplo citado, PRECISAR significa CONFIRMAR. Se você solicita a alguém: Fulano, precisa a hora da viagem para mim!” o Fulano lhe responderá informando a hora pedida e dirá: “É às 17 horas”, por exemplo. Assim, quando o velhote mau ator diz “PRECISO UM DESCANSO!” ele na verdade está dizendo que CONFIRMA UM DESCANSO e, não, que NECESSITA DE UM DESCANSO. Se quisesse informar que tem necessidade de descansar teria de dizer: Preciso DE um descanso (com preposição). Entendeu? Quem não sabe a gramática de seu idioma natal cai em esparrelas como esta. E, ressalto, nossos advogados são mestres em meter os pés pelas mãos neste assunto. Um bom promotor público pode enrolar um advogado de defesa somente usando a gramática para perturbar a argumentação deste. Por desconhecer a correta regência verbal, o advogado de defesa pode dizer uma sentença que, reinterpretada pelo promotor, vai confirmar as acusações que este faz ao cliente daquele. Que maravilha, não é? 

Agora vamos à dona de um cabide na OVG. Ela diz que é preciso verificar se o aluno não reprovou no ano passado. Aí, cabe perguntar-lhe:

O aluno reprovou o quê?

a) a escola?

b) a diretoria da escola?

c) o seu professor de português?

d) o governo petista com relação à Educação?

e) Todas as alternativas estão certas?

É como diria o Professor Raimundo: "E a instrução, ó!"

É como diria o Professor Raimundo: “E a instrução, ó!”

Gente, quem sofre a ação de ser reprovado é O ALUNO. Então, ele não reprova nada. O que a dona quis dizer (e não disse) é que sua Superintendência vai verificar se o aluno NÃO FOI reprovado no ano passado. Mas não foi isto que disse. E ela falou esta asneirice toda emperiquitada e “ancha” com o cargo que assume (talvez o primeiro de sua vida) e que é gerencial, isto é, coloca sob sua gerência uma porção de outras pessoas. Que mau exemplo, hein?

Vocês vêem o quanto é importante falar corretamente? Quem não sabe a gramática portuguesa, pensa estar comunicando uma coisa quando, na verdade, comunica outra bem diferente. Mas para falar corretamente é preciso estudar nosso belíssimo idioma, senão…

E diria o Insolentíssimo Deputado Justo Veríssimo: "Quero que o estudante brasileiro se exploda!"

E diria o Insolentíssimo Deputado Justo Veríssimo: ” Dinheiro em Educação? Pra quê? Eu quero é que o estudante brasileiro se exploda!”

Finalmente, vamos ao incentivo que o anúncio tenta dar ao leitor público. Nele eu li: “Trate bem todos que ama”. Gramaticalmente esta oração está mais torta do que um automóvel mil cilindradas que bate de frente com um ônibus de transporte interestadual a cem por hora. O que realmente se quis dizer? Gramaticalmente é impossível entender. Se não, vejamos: a) corrigindo a concordância verbal, teremos: “Trate bem todos os que amam”. Nesta construção incentiva-se alguém a tratar bem todas as pessoas que amam ou que são capazes de amar. Mas será que foi esta a intenção do autor? A pergunta é válida, pois se se corrige a regência verbal, a oração fica assim: Trate bem todos aos quais ama”. Ou ela poderia ter sido escrita assim: “Trate bem a todos aqueles a quem ama”. Nestes casos, incentiva-se alguém a tratar bem àqueles a quem ama, e somente a eles. E agora? A mensagem na TV do transporte púbico ficou sem objetivo e trucada.

"É mentira, Teca?"

“É mentira, Teca?”

Não é a língua portuguesa que é complicada, nada disto. É que as pessoas não foram ensinadas a estudar sua Gramática de modo correto. Fico todo arrepiado de horror quando ouço um aluno dizer sem consciência da tolice que diz: Ah, português é uma chatice! Eu detesto estudar a gramática portuguesa”. Devia detestar era a falta de respeito aos professores, a falta de respeito aos pais que se esforçam para lhe dar uma educação digna e a falta de respeito por si mesmo, pois quem fala mal seu idioma não vê, não ouve e não compreende. É um tapado de marca maior. Na verdade, não fala. Zurra!