Uma rua na cidade de Nazaré, hoje. Nela foi que realmente nasceu Yehoshua, não em Belém.

Uma rua na cidade de Nazaré, hoje. Nela foi que realmente nasceu Yehoshua, não em Belém.

Estava escuro, em Nazaré. As poucas ruelas da vilazinha sem importância estavam vazias. No céu, a lua lançava sua luz prateada sobre o vilarejo colocando tudo sob uma magia encantadora. Sentado junto com seus irmãos, sua mãe e sua esposa, Yehoshua, atendendo aos insistentes pedidos de sua esposa, conta como foi seu treinamento entre os monges indianos.

— Antes de chegar a Potala estive em Srinagar, na Caxemira. É uma cidade indiana onde vive uma comunidade judaica muito ativa. E tenho de ressaltar que são pessoas muito felizes, pois lá não são perseguidas pelos romanos ou por tiranos como Herodes. Ali fui entregue aos cuidados de um Iogue chamado Ramaputra. Com ele aprendi a desenvolver a força mental para a concentração e as técnicas de fazer meditação. Ao fim de um ano fomos, o Iogue e eu, até a cidade de Lhasa, no Tibet. Ali, fomos ao Templo de Potala. Uma maravilha à qual nem o Templo de Jerusalém se compara em beleza e grandeza. Os monges se vestem com mantos açafrão, raspam as cabeças, vivem em recolhimento e raramente saem do Templo para interagir com o povo. Eles não mentem, não oferecem sacrifícios a Bhrâma, o correspondente ao nosso Deus Criador. Suas oferendas são suas boas ações, seus esforços para vencer a roda do Samsara…

— O que é isso? — Perguntou Míriam de Magdala.

— A Roda do Samsara é a Roda do Karma — explicou Yehoshua. — Segundo a religião dos monges de Potala, as más ações das pessoas aprisionam-nas nesta roda de sofrimentos, dores e reencarnações. Então, até que esgote seus “pecados”, isto é, até que pague aos outros e à Natureza o que de mau fez com eles, não poderá escapar da penitência de ser obrigado a retornar à vida encarnada.

—Tu crês nisto? — Perguntou Míriam, sua mãe.

— Sim. Creio porque é verdade.

— E como podes sabê-lo? — Perguntou cética, sua mãe.

Ele ensinava aos seus e falava francamente sobre Potala, onde havia estudado.

Ele ensinava aos seus e falava francamente sobre Potala, onde havia estudado.

— Porque fui levado até o Vale dos Condenados. Não em corpo, mas em espírito. E vi o quão é desesperadora a condição de quem morre aqui nesta dimensão física devendo a seus semelhantes e à Natureza. Gostaria de levar até lá pessoas como Pôncio Pilatos e Herodes. Creio que a só visão daquele lugar apavorador os faria mudar de comportamento e passariam a ser mais humildes e mais caridosos para com seus semelhantes.

— Herodes? Pilatos? Hummm… Sei não… — disse Míriam, sua mãe, com ceticismo.

— Mãe — falou Yehoshua, agora sério —, não há aquele que, vendo o desespero dos que vão parar naquele lugar fétido, cheio de miasmas, escuro e fumacento, não mude de atitude. Ali o que se vê é espantoso e aterrador. Tudo é dor. Não há lenitivo para a dor. O sofrimento é perene, contínuo, sem tréguas. Todos os mortos choram e se lamuriam em desespero. Alguns gritam maldições contra Bhrâma; outros, encolhem-se de terror…

— E por que tu foste levado a um lugar tão horrível? — Perguntou-lhe Míriam, sua esposa.

— Fazia parte de nosso aprendizado. Dizer a alguém que seja humilde e pacífico de coração não surte efeito, ainda que se o ameace com a danação. Mas dizer isto e mostrar o lugar de desespero que o espera após a morte, é outra coisa…

— Eu creio — falou Tiago, irmão de Yehoshua — que toda religião que não seja a nossa está errada e não devia ser estudada por um membro de nossa comunidade.

Yehoshua o olhou muito sério. Então, pediu:

— Fechem os olhos e relaxem corpo e mente. Tentem não pensar em nada…

Deu-lhes tempo para que conseguissem fazer o que pedia. A paz da noite e o canto dos grilos serviam para facilitar o relaxamento. Então, todos ouviram a voz de Yehoshua.

— Que ninguém se espante pelo que vai sentir e ver. Que todos mantenham a calma.

No interior de  tanto esplendor esconde-se o Terror.

No interior de tanto esplendor esconde-se o Terror.

Então, todos sentiram como se estivessem flutuando e movendo-se em direção a algum lugar. No entanto, obedientes, nenhum deles abriu os olhos até que novamente ouviram a voz de Yehoshua que ordenava que o fizessem. Quando obedeceram viram que flutuavam sobre um poço incandescente, uma espécie de fornalha bem abaixo deles. Foram descendo em direção àquele lugar e Míriam, a esposa, olhou para seu marido com olhos esgazeados. Estava com medo. Muito medo. E todos o estavam também, mas procuravam controlar-se a qualquer custo.

— Onde estamos? — Perguntou Míriam, a mãe, com voz sufocada de terror.

A Geena pode assemelhar-se ao cone de um vulcão em erupção.

A Geena pode assemelhar-se ao cone de um vulcão em erupção.

— Na Geena Cósmica… No lugar do Fogo que não se apaga. O Fogo criado pela ganância, pela usura, pela gula, pela mentira, pela traição, pela avareza, pela luxúria, pelo ódio, pelas guerras, pelos impiedosos, pelos falsos… Enfim, pelas qualidades más praticadas pelos nossos irmãos de todas as partes do Mundo — disse Yehoshua. — Mantenham-se calmos. Nada daqui os afetará, pois não pertenceis a este lugar. Ao menos, por enquanto. Espero que depois desta visita, façais tudo para não ter que passar uma temporada aqui. Ela pode ser muito grande… uma verdadeira eternidade.

— Os que gritam em desespero são almas de… de mortos? — Perguntou Tiago, olhos esgazeados de terror.

— São. A morte na carne não é o fim. E como o Espírito não pode ser morto mas pode sentir… Eis que gritam em agonia.

— É horrível, Yehoshua. Leva-nos daqui, agora — pediu a mãe, em angústia.

— Fechai vossos olhos e relaxai — ordenou Yehoshua. Assim fizeram e novamente se sentiram flutuar em direção a algum lugar. Quando, obedecendo a outra ordem de Yehoshua, abriram os olhos estavam no mesmo lugar de onde tinham partido e a luz da lua banhava tudo de prata e doçura.

— Vistes o que há onde os olhos não podem ver e os sentidos, sentir. Mas estais proibidos de falar sobre isto, pois seríeis no mínimo ridicularizados, se não crucificados pelos incrédulos. Há coisas, muitas coisas e muitos lugares que não são nem vistos nem sentidos pelos vivos deste mundo, meus queridos. E quando nós deixarmos a carne, teremos de enfrentar tais coisas. Uns, irão para lugares de beleza indescritível; outros, para lugares iguais ou piores do que este que vistes. Lembrai-vos de que a Casa do Pai tem muitas moradas.

— Disto… Disto que vimos… Nossos rabis têm conhecimento? — Perguntou Míriam, a esposa.

— Alguns. Apenas alguns. E se quereis saber quem são, observai o comportamento deles todos. Verão que há aqueles que se mantêm calado e discretamente afastados das discussões fúteis e tolas, que não levam a nada, senão à confusão. São discretos e procuram andar segundo os princípios da Verdade e da Caridade. Dificilmente os vereis nas sinagogas, pregando. Preferem orar em silêncio.

— Yehoshua — disse Mateus — o que vimos e vivenciamos… Não foi uma arte de magia de tua parte para nos impressionar?

— Olha para baixo — disse, tranqüilo, Yehoshua.

Mateus olhou e se assustou. Estavam, todos, a um metro do solo.

— Levanta-te e anda — ordenou seu irmão. — Se se tratar de ilusão, não cairás. Mas se não, levarás um tombo.

Mateus hesitou. Mas decidiu. Descruzou as pernas e tentou ficar de pé. Caiu estatelado no chão, a um metro abaixo dos outros, que continuavam flutuando. Levantou-se assustado e, boquiaberto, permaneceu olhando seus familiares que flutuavam ao seu redor. Beliscou-se para confirmar que não sonhava. Sentiu o beliscão e viu o sangue jorrar do ferimento.

— É… É verdade… Vós estais aí em cima e eu, aqui em baixo. Mas como é possível?

— Força da Vontade Espiritual. Minha Vontade, meu irmão. Eu quero que todos flutuem e todos assim fazem. A Natureza me obedece, assim como obedece a todos os que foram comigo desenvolvidos em Potala. Mas nenhum de nós tem permissão para sair pelo mundo fazendo maravilhas e ganhando aplausos, admiração e dinheiro com isto. Não se trata de mágica, de ilusionismo.Trata-se de dominar os Elementos da Natureza, o Fogo, o Ar, a Água, a Madeira, a Terra e o Ferro. São elementos alquímicos, não físicos, não estes que podeis ver, tocar e cheirar. Não posso explicar-lhes mais nada. Desçamos, agora. É tarde e teremos, Míriam e eu, de sair bem cedo daqui. 

Lentamente todos vieram sentar-se sobre os bancos de onde tinham saído.

Naquela noite só Yehoshua conciliou o sono.