Eis uma cena que não mais se repetirá...

Eis uma cena que não mais se repetirá… Eles e eu passamos por ali e seguimos em frente. Eles para viver. Eu, para morrer…

O que é saudade? Dizem que é a ausência de uma presença que se foi… A gente experimenta a saudade de modos os mais diferentes e interessantes possíveis. Eis uma de minhas experiências de saudade.

Em 2009, num domingo, eu esperava pelos meus alunos de Tai-Chi-Tchuen no Bosque dos Buritis. O tempo estava muito feio e eu temia que nenhum deles comparecesse – como de fato foi o que aconteceu. Não era incomum eu ir dar aula e ficar a olhar as árvores e a beleza serena do lugar, sozinho.

Eu estava assim, largado em um dos bancos do parque, olhando ser ver a grande calçada de pedra e cimento à minha frente que, à direita, descia por uma escadinha para continuar numa estradinha calçada que se perdia sob as copas frondosas do arvoredo nativo; e à esquerda, descia por uns vinte metros todo calçado de peças de cimento até à borda de um lago artificial, onde a água ainda não estava sendo atirada para o alto mecanicamente. Sobre minha cabeça as árvores se balançavam e se agitavam tangidas pelo vento. Murmuravam alguma coisa com suas folhas, coisa que a gente moderna deixou de entender há muito tempo…

As matas sempre me atraíram. Muito mais que o mar...

As matas sempre me atraíram. Muito mais que o mar…

Fazia um pouco de frio e eu estava gostando, subconscientemente, daquela solidão e daquele frio suave. Era relaxante ouvir o farfalhar das folhas e o pio dos pássaros. Então, meus olhos se fixaram numa mulher alta, branca, magra, que se encaminhava em direção ao banco onde eu me sentava. Vinha andando lentamente, apoiando-se numa bengala de mogno preto. Tinha os cabelos branquinhos como neve e a pele do rosto muito encarquilhada. Andava com certa dificuldade, mas em seus lábios finos havia um sorriso ameno e seus olhos azuis me fixavam com um olhar de contentamento. Ela parou diante de mim e permaneceu sorrindo, fitando-me com curiosidade.

— Então, você está vivo… — disse, num quase murmúrio. Eu a olhei com curiosidade. Ela me conhecia? De onde? Quem era? Parecia alguém “de fino trato”, pois sua figura era distinta, ainda que a mão que segurava o cabo da bengala tremesse sem parar.

Era esguia e tinha a pele bem tratada, em que pese as rugas que lhe sulcavam a pele. Não, eu não a conhecia. Mas quem era ela? Por que aquele sorriso de felicidade na face?

 — Posso sentar com você?

Há incertezas que nos torturam devagarinho e sempre...

Há incertezas que nos torturam devagarinho e sempre…

Eu assenti, endireitando-me e retirando os braços de cima do encosto do banco de ripas. Ela sentou-se devagar e notei que seu corpo tinha aquele mesmo tremor de suas mãos delicadas. Sentou-se e vagueou o olhar pelo bosque tranqüilo e calmante. Eu a observava e pensei: “Deve ter sido muito bonita, quando jovem”. Permaneceu calada por um tempo, alheia a tudo e a mim também. Ao menos tive a impressão de que assim era. Mas não era. Sem me olhar, ela perguntou:

 — Sessenta e nove anos, não?  — Eu não lhe respondi, mas desta vez a olhei mais atentamente e com maior interesse. Ela falava minha idade verdadeira, não a que consta em minha certidão de nascimento que, naquele ano, me dava com sessenta e oito.

 — Então?  — E seus olhos azuis límpidos me fixaram. Eu assenti devagar, com um aceno de cabeça. “Quem diabos é essa senhora?” Eu me perguntava em silêncio.

 — Eu, sessenta e sete. Dois anos mais nova que você.

Eu continuei mudo, mas olhando-a perscrutadoramente, enquanto tentava desesperadamente me lembrar quem era ela. Por sua vez, seus olhos voltaram a fixar a paisagem calma e bucólica diante de nós dois.

 — De repente, isto aqui é pura saudade para mim…

Ela falou e voltou-se para me olhar com um sorriso suave na face. Eu permaneci calado, apenas a ouvindo. O que dizer?

 — Arcano XIII… Este é o Arcano de seu dia de nascimento… Não é?

Apenas acenei lentamente com a cabeça, concordando. Ela, a cada minuto, mais e mais me intrigava. Sabia o dia de meu nascimento – 13.

 — Arcano da Morte… Na verdade, das mudanças irreversíveis…  — quase sussurrou a frase.

Voltou a me olhar e vi que seus olhos marejavam de saudade. Aquilo me intrigou mais ainda, mas optei por apenas ouvi-la. Ela parecia querer falar algo que lhe era difícil dizer. Então, o melhor era dar-lhe tempo e espaço.

 — Sou Arlinda… Este é meu nome. Você não se lembra, não é, meu Arcano XIII?

Meneei negativamente a cabeça, confirmando que eu não me lembrava dela.

 — Arlinda… Uma jovenzinha curiosa e ansiosa por viver a vida tal qual não se vivia naqueles tempos… Mil novecentos e sessenta e… Tudo em relação à mulher era tabu no Rio de Janeiro… O corpo da mulher era tabu… Meu corpo era tabu… Embora eu ardesse de desejos, não podia demonstrar isto para não ser estigmatizada…

Calou-se e ficou a olhar para a frente, olhar perdido no passado.

 — Eu era de família rica… Você, pobretão do Piauí… Um rapaz bonito, ainda que magro e de baixa estatura… Era arisco, mas tinha um olhar de fogo…

Ela sorriu sem me olhar, fitando sem ver a paisagem à sua frente. Ela estava no passado…

 — Você era o bibelô da Malu, uma desmioladazinha riquíssima que vivia à frente daquele tempo com você a tira-colo. Lembra-se, agora?

Acenei negativamente com a cabeça. Não, dela eu não me lembrava. Mas me lembrava daquela a quem chamou de Malu. E doeu recordar-me dela. Que eu soubesse, tinha morrido há alguns anos, parece que de câncer.

 — Você era a sensação entre nós. Tinha dobrado a Malu. Ela tinha ciúmes de você e a boca pequena se dizia que… Você sabe, não é?

Fiquei calado e quieto. Ela me olhou demoradamente, sempre com um sorriso leve nos lábios e olhos marejados por um pranto que, eu sentia, ela controlava a custo. De repente eu também senti vontade de chorar. Empatia? 

Pigarreie para espantar o pranto que teimava em me vir aos olhos e desviei o olhar de sua face serena.

 — Finalmente tomei coragem e pedi à Malu que me emprestasse você e o apartamento dela, no Leblon… Era noite… ventava frio… Cheguei com meu motorista e desci dois prédios antes daquele em que você me esperava. Meu coração saía pela boca. Eu estava com as mãos frias e a cabeça dava mil voltas. Você era desejado por todas nós… Todas queríamos o que a Malu tinha só para si…

A saudade, a nostalgia, muitas vezes machucam mais que uma pancada...

A saudade, a nostalgia, muitas vezes machucam mais que uma pancada…

Voei atras, no tempo. Sim, houve um tempo em que eu era emprestado pela M. L. para suas amigas íntimas, como um touro reprodutor… Entrei com ela no prédio e a acompanhei mentalmente vendo e sentido sua ansiedade. Devia ter sido aterrador para ela. Fôra-o para outras…

 — Toquei a campainha quase desmaiando de ansiedade… Meu coração dava pulos em meu peito…  eu já não conseguia pensar direito. O que dizer? O que você iria pensar de mim? Você tinha fama de duro, de rude. Era direto, seco, mandão e decidido. O que mais nos impressionava, a mim e às minhas companheiras, era seu olhar penetrante… Parecia que você não nos olhava apenas nos olhos… Parecia que nos penetrava a alma… E se você não me aceitasse? E se…

Ela parou e ficou um tempo olhando com os olhos marejados para alguma miragem do passado. Eu imaginava o que fosse…

 — Então, você abriu a porta e ficou ali, de pé, moreno, corpo seco e musculoso, com um roupão de seda a lhe cobrir o corpo. Tinha um copo de champanhe em mãos e o estendeu a mim, em silêncio… Como eu lhe fiquei agradecida por aquilo… pelo seu silêncio, pela sua oferta… Você me acalmou só com aquele gesto…

“Meu Deus, por que não me lembro de nada disso?” Pensava eu, angustiado. Elas tinham sido tantas…

 — Você me tomou a mão delicadamente e com suavidade me fez entrar no apartamento. Foi à frente, sempre me segurando a mão e eu me deixei ser levada com alívio. Eu precisava que você tomasse a iniciativa e você o fez de modo tão natural que eu sorri para comigo mesma. Esperava que me levasse direto para o quarto… Mas não. Você se sentou bem diante de mim e me perguntou: “Quer mesmo fazer isto?”  Lembra-se, agora?

Fiz que não, agastado. Ela permaneceu a me olhar atentamente. Depois, com um suspiro, disse quase num sussurro: “Eu entendo… Eu não fui a única…”. Então, prosseguiu com sua narrativa.

Praia do Leblon, Rio de Janeiro. Ali vivi a parte mais intensa de minha juventude...

Praia do Leblon, Rio de Janeiro. Ali vivi a parte mais intensa de minha juventude…

— Eu respondi que sim à sua pergunta. Meu coração estava quase saindo do peito… Então, você se levantou e me tomou pela mão e me levou até à varanda, de onde ficamos olhando o mar lá adiante, na escuridão da noite, e o ouvindo arrebentar com estrondo na areia do Leblon. Não víamos a água… Apenas nós sabíamos que ela estava lá. A escuridão era como minhas dúvidas naquele momento. Eu hesitava em continuar ou desistir… O que você nunca ficou sabendo foi que eu tinha apostado com minhas colegas de que ia-me entregar a você. E com o consentimento da Malu…

Ela riu com gosto e entre risos comentou:

— Quando a gente é jovem não pensa em conseqüências… Só na aventura, não é mesmo?.

Ela fez uma pausa e me olhou sorrindo. Bateu suavemente a mão em minha perna e continuou.

 

"Eu me perdi dentro de mim..."

“Eu me perdi dentro de mim… Eu gritei… Eu chorei…”

— Você fez um comentário que nunca mais me saiu da memória… Você disse: “A vida, Arlinda, é como esse mar aí adiante. A gente ouve o baque surdo das ondas, mas não vê a água. O som nos amedronta… Este som semelha o medo ao desconhecido e cada passo que decidimos dar em nossas vidas é rumo ao desconhecido… Você está temerosa não de mim, mas de se conhecer. Quem sou eu? É o que se pergunta em seu mais profundo íntimo. Toda garota, tão logo se torne adolescente, começa a se fazer esta pergunta a si mesma, já que não lhe é permitido fazê-la a seus pais. Eu também, assim como todos os homens, passamos por isto. Então, venha se conhecer, se é o que deseja. Não há razão para ter medo. Para você, como para a M. L., sou apenas um instrumento de prazer…” E foi uma loucura que jamais esqueci e jamais esquecerei… Eu me perdi dentro de mim… Eu gritei… Eu chorei… Eu me desesperei de prazer. E você não parava. E eu me senti derreter até a alma. Mergulhei num oceano de cores vivas a cada orgasmo… E me dissolvia naquelas cores… E pensava que nunca mais voltaria a ser eu tal como era… E eu o amei aloucadamente, desesperadamente, incondicionalmente. Eu o disse a você entre soluços e lágrimas de prazer… Ah, como eu queria que você compreendesse a profundidade daquele eu te amo dito entre soluços e lágrimas…

Ela calou-se e permaneceu olhando para algo diante de si com um olhar brilhante. Discretamente enxugou uma lágrima que lhe rolou pela face… O que estaria vendo? Nós no leito? Ela se contorcendo de prazer?

É aqui que uma mulher pode mergulhar até o mais profundo de seu Ser...

“Mergulhei num oceano de cores vivas…”

— Você varou a noite me virando pelo avesso… e rodamos o dia… Apenas almoçamos algo muito frugal… e voltamos à carga… Eu pensava, a cada vez que você parava, que não ia aguentar mais nada… E então você recomeçava e eu… eu… Meu Deus. Nem sei como descrever o quanto foi delicioso descobrir a mim mesma… Mergulhei em lugares dentro de mim que jamais poderia sonhar que houvesse. Flutuei no espaço-tempo… me dissolvi várias vezes nas ondas avassaladoras de prazer… E como foi maravilhoso descobrir como eu era potente… uma “potranca” como você me chamava… sussurrava em meus ouvidos… E eu me sentia mesmo uma potranca furiosa, enlouquecida… Só às 18 horas do dia seguinte nós paramos e eu caí em sono profundo até a manhã do outro dia. Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi chamar seu nome… Mas estava sozinha… E fiquei sozinha até hoje… Você nunca mais voltou. No dia seguinte tive de viajar com meus pais para os Estados Unidos. Quando voltei de lá, seis meses depois, e procurei Malu para saber de seu paredeiro, ela me olhou com raiva e disse entredentes: “ele se fudeu!” E me virou as costas e foi embora. Entendi que você tinha morrido e chorei… Chorei por todos estes anos e por todos eles eu revivi em minha lembrança aquelas horas indescritíveis…

Ela calou-se e permaneceu quieta, olhar perdido no espaço à sua frente. Sua mão apertou a minha com força, como se ainda estivesse no leito, comigo. Então, prosseguiu ainda sem me olhar diretamente.

 Tentei vários homens depois… Mas eles não eram nem mesmo a sua sombra… Não acontecia aquele “clic” mágico, entende? Nossos corpos não eram compatíveis… O cheiro deles não me agradava… Os pênis… Não eram “o meu pênis”… Não pulsavam em minhas mãos como o “meu pênis” fizera… 

Voltou-e para mim e me olhou nos olhos com um brilho vivo no olhar.

— Você é casado?

Fiz que sim com a cabeça. Seu olhar anuviou-se e ela retirou a mão de sobre a minha.

— Tem… Tem filhos?

— Cinco.

Ela suspirou e olhou para a frente novamente.

— Também me casei. Também tive cinco filhos e os criei sempre lembrando de você…. E hoje, quando o vi, compreendi de imediato que Malu me tinha enganado… Que lástima! Eu teria ido ao inferno para conseguir tê-lo para mim… Você não mudou quase nada, sabia?

Ela se calou e eu não consegui falar nada. Ela era de um passado que eu pensava estar morto. Mas não estava. Ficamos em silêncio um tempo e, então, ela voltou a falar, segurando minha mão entre as suas, mornas e macias.

— Sabe, meu amor, você foi meu Arcano XIII… Você destruiu tudo o que eu era, naquele quarto. Acabou com minha estúpida inocência e me mostrou um mundo fantástico; arrasou aquele mundinho cheio de fantasmas e de deuses punitivos; cheio de pode e não pode… Cheio de pecados e censuras idiotas. E foi definitivo. Deitei-me uma inocente tola e me levantei rainha de mim mesma. E não mais podia retornar ao início… O Arcano XIII não permite retorno, não é?

E ela sorriu um sorriso plácido e cúmplice.

— A porta tinha sido fechada definitivamente… Sim, você foi meu Arcano XIII… O mais maravilhoso arcano de todos eles.

Ficamos em silêncio, eu com um estranho e incômodo pranto preso na garganta. Ela não falou nada mais por um longo, longo tempo. Então, com um profundo suspiro voltou-se para mim, sorrindo.

— Que bom tê-lo encontrado… Pode ser somente a segunda e última vez. Mas ainda que não sendo do modo com sonhei por toda minha vida, foi bom olhar em seu rosto de novo. Você está velho. Seu rosto está deformado… Talvez pela falta de dentes. A velhice faz estas maldades com a gente, não é? Mas o fogo de seus olhos não diminuiu nem uma centelha. Continua tendo um olhar direto, firme, seguro e penetrante… Senhor de si. 

Eu apenas dei um sorriso desconcertado. Ela se curvou e apertou suavemente as mãos encarquilhadas em minha coxa.

Ele mata sonhos, destrói ilusões e arrasa valores inúteis e expectativas irreais...

Ele mata sonhos, destrói ilusões e arrasa valores inúteis e expectativas irreais…

— Adeus, meu Arcano XIII. Até do outro lado da vida, pois quando estivermos lá esteja certo de que eu irei procurá-lo. E acredite: desta vez, você não mais me deixará sozinha… E garanto que alma de mulher nenhuma vai tirar você de mim…

Ela sorriu um riso aberto se voltou com dificuldade para se levantar. deu-me as costas e se afastou claudicando e se apoiando na bengala. Fiquei ali, entalado, olhando uma pessoa de quem não mais me lembrava e que, no entanto, eu marcara tão profundamente…

Não sei quando dei por mim de novo, mas o sol indicava que estava próximo do meio-dia. Ela se fôra há mais de duas… talvez três horas. Eu me levantei sentindo um peso estranho sobre mim. Caminhei em direção ao ponto de ônibus deixando o pranto cair livremente pela minha face cansada…

Aquilo era saudade. A saudade dela e minha que se encontraram rapidamente e se apartaram talvez definitivamente… Até o outro lado…