Alfred Adler, cientista psicólogo que muito contribuiu para a compreensão da estruturação fenomenológica  humana.

Alfred Adler, cientista psicólogo que muito contribuiu para a compreensão da estruturação fenomenológica humana.

Este artigo é de maior interesse para estudantes e pós-graduados de Psicologia, mas você, se não pertence à confraria psicológica, pode lê-lo e, quiçá, acompanhar a série que pretendo escrever sobre este tema.

Afinal, Psicologia é o cerne das Ciências Pragmáticas Humanas, pois estuda aquele que é a Fonte do Mundo Social, o Homem. De meu ponto de vista, todos os ramos científicos são belos, mas nenhum existiria sem o ser que pensa, sente, percebe, infere, deduz e cria – o Homem. Certamente que tudo existe antes e além de nós, mas enquanto pessoas que nascem, crescem, aprendem e criam, somos os que fazemos a grande diferença.

Em princípio não seguirei a rígida disciplina didática, embora todo artigo que se volte para a área científica tenha de possuir um determinado cunho didático. Mas sempre que possível, tentarei fugir da monotonia de uma pesquisa científica, buscando mais centrar-me numa narrativa descompromissada, ainda que séria.

Alguns que não estão afinados com a História das Psicologias poderão perguntar o que é Estruturalismo? 

Bom, vamos começar com outra pergunta: o que é Estruturar? De modo simples e direto, dizemos que estruturar é formar a estrutura de alguma coisa; é organizar algo; é ordenar algo de modo a que se torne mais compreensível, mais sensorialmente perceptivo e mais belo. 

Michelangelo tirou de dentro da pedra a escultura de David.

Michelangelo tirou de dentro da pedra a escultura de David.

O escultor pega um bloco de granito e com cinzel, martelo e muita paciência e persistência vai desbastando o que não interessa até “revelar a forma que nela está aprisionada” e que pode ser a estátua de uma águia tanto quanto pode ser a estátua de Apolo. Tudo depende do que o escultor tenha como objetivo em sua mente. Podemos dizer, sem medo de errar, que o escultor estruturou aquela águia ou aquele Apolo.

Assim como faz um escultor com seu bloco de mármore ou granito, todo ser humano vive a vida estruturando algo. O ato de estruturar é inerente ao ser humano. As pessoas vivem estruturando seus relacionamentos de conformidade com suas percepções e cognições, suas emoções e suas necessidades objetivas e subjetivas, assim como suas expectativas reais ou imaginárias, irreais. Há pois, muitos motivos que impulsionam os seres humanos a se manterem permanentemente num constante esforço estruturacional. 

Com mais freqüência do que seria o ideal, quando lemos atropelamos os significados dos vocábulos empregados na construção das orações de um discurso. E fazemos isto principalmente se não estamos envolvidos em um “trabalho sério” escolar ou de pesquisa científica. Assim, muito do que o missivista busca transmitir em sua mensagem se perde por esta “cegueira” perceptiva. Por exemplo, quando eu disse “há, pois, muitos motivos…” o termo “motivos” tem um significado muito importante na mensagem. Este termo tem sua raiz em MOT que indica mobilidade, ação, impulsão para. Daí o vocábulo MOTOR para indicar algo que tem força de impulsionar um ser ou uma coisa. Então, os motivos de que falo dizem respeito a forças que impulsionam ao comportamento. E comportamento tanto pode ser manifesto, objetivo, externo, quanto pode ser não manifesto, subjetivo, interno. O ficar pensando e estruturando uma ação que possa levar a bom termo um comportamento que vise alcançar determinado objetivo é um comportamento subjetivo, interno, não manifesto objetivamente. 

Como você estrutura esta figura?

Como você estrutura esta figura?

Estruturar o ambiente fenomenológico que vivencia e percebe é uma necessidade vital para qualquer pessoa em qualquer momento considerado de sua vida. Sem este processo psicológico o ser humano não teria sobrevivido na Terra.

Enquanto pessoa, vivemos pelos nossos sentidos. Eles nos informam a cada segundo sobre o que acontece interativamente ao nosso redor e até mesmo em alguns processos de nosso interior. No entanto, mesmo nossos sentidos precisam de uma ordem, uma forma estruturada de se apresentar e funcionar, caso contrário o viver coerente seria impossível.

Qual de nossos sentidos é predominante em nosso viver? A visão? A audição? O tato? O paladar?

A maioria de nós terá a tendência a crer que somos seres eminentemente visuais, ou seja, seres em que predomina o sentido da visão. Mas não é bem assim. Os sentidos estão em constante reorganização, reestruturando-se em função do ambiente e de seus processos fenomenológicos. Eu mesmo, neste momento em que escrevo, se observado por alguém, este alguém dirá que no momento predomina em mim o sentido da visão. E eu digo que não, pois sou capaz de pensar e escrever por uma hora seguida sem necessitar dos olhos para executar este trabalho. Posso fechar os olhos e seguir escrevendo. Então, o sentido que está predominando em mim, neste momento, não é a visão, mas o tato cinestésico. Cinestesia é a consciência da percepção de nossos movimentos musculares. Quando escrevo de olhos fechados (e às vezes faço muito isto, quando estou cansado do brilho da tela do computador), dependo de meu sentido cinestésico para seguir plasmando em palavras escritas o que desejo transmitir aos que me lêem pelo mundo a fora.

No conjunto de setas que aqui é mostrado uma se destaca. Esta é pregnante no conjunto.

No conjunto de setas que aqui é mostrado uma se destaca. Esta é pregnante no conjunto.

Sabe o que isto significa? Significa que nosso organismo físico adaptou-se para viver em um mundo de fenômenos caleidoscópicos. Eles mudam a todo momento e nunca se repetem tal e qual eram no segundo anterior. Ou seja: a todo momento tais fenômenos se modificam em suas estruturas, se reorganizam, se reestruturam em função de milhares de outros fenômenos correlatos, alguns de grande pregnância no momento, outros de pregnância quase imperceptível.

Este desenho é clássico na Gestalt. O que é mais pregnante para você: a moça ou a velha? Tudo dependerá de como estão estruturadas as suas emoções neste momento.

Este desenho é clássico na Gestalt. O que é mais pregnante para você: a moça ou a velha? Tudo dependerá de como estão estruturadas as suas emoções neste momento.

Pregnância quer dizer a capacidade de um fenômeno de impregnar, de se fazer notar pela percepção da pessoa. A todo instante estamos-nos deparando com a pregnância nos fenômenos que nos cercam e inundam nossa percepção. No conjunto perceptivo, as estruturas pregnantes têm poder de polarizar nossa atenção e colocar tudo o mais, ainda que momentaneamente, em segundo plano. Por exemplo: você está no ponto de ônibus observando os indicadores que há na frente dos coletivos que vêm pela avenida. Sua atenção volta-se toda para ler o que ali há escrito, pois no meio do grande fluxo deles virá aquele que lhe interessa. Sua atenção está totalmente centrada em conseguir identificar a cor do ônibus que espera. Esta cor é antecipadamente pregnante em sua atenção. Mas eis que de súbito uma freada brusca e um grito de susto interrompem inopinadamente a direção de sua atenção. Você se volta para o lugar de onde veio aquele ruído e o grito de susto. Agora, o carro que freou violentamente para não atropelar a mulher se tornou intensamente pregnante em sua atenção. Tudo o mais foi reprimido para a condição de “fundo perceptivo”. Neste pequeno exemplo há a explicação para muitos dos incidentes que alteram profundamente o dia-a-dia de nosso viver. A mudança brusca da estruturação fenomenológica de nossas percepções nos levam a modificar totalmente nosso comportamento. Veja, se você é médico ou médica e a mulher chegou a ser jogada ao chão pelo automóvel, com toda a certeza você colocará o ônibus, que era o objeto pregnante em sua atenção de momentos atrás, em segundo plano, e a acidentada passa a ser o objeto pregnante a partir daquele instante em que ocorreu o acidente. Você deixará o ônibus e sua viagem em segundo plano e correrá a prestar os primeiros socorros à vítima. Todo o conjunto fenomenológico daquele momento de sua vida foi súbita e rapidamente reestruturado para colocar em primeiro plano a mulher ferida no acidente.

Nesta foto, o que é pregnante não é o ato de beijar, mas a expressão de repulsa que há naquele que é beijado.

Nesta foto, o que é pregnante não é o ato de beijar, mas a expressão de repulsa que há naquele que é beijado.

Note que mudança de pregnância fenomenológica é a causa de muitos conflitos entre pessoas e entre casais. Atritos totalmente dispensáveis e inadequados para o viver harmonioso de um casal são função direta da reestruturação súbita dos fenômenos que ocorrem no ambiente externo e interno dos indivíduos ali presentes. Tomemos este exemplo que acaba de acontecer. Estou escrevendo e escolhendo músicas que me agradam, no grooveshark. Gosto muito de flashdance e estou justamente ouvindo a música enquanto freneticamente escrevo tentando ordenar minhas idéias, que brotam como água de meu subconsciente. O ritmo e a melodia da música causam-me uma excitação emocional e neuronal gostosa. Estou acompanhando com a cabeça o som agitado que me chega aos ouvidos e estou totalmente mergulhado no som melodioso que ouço. Isto me ajuda a pensar de modo coerente e minha escrita se torna fácil. Por isto, todo o meu corpo se afina com a música e quase inconscientemente eu me balanço ao seu ritmo gostoso. Ao mesmo tempo em que me vêem à recordação pedaços muito gostosos de meu passado, fluem as palavras que desejo usar para estruturar este artigo, que é bem complexo e que eu tento colocar de modo o mais simples possível. Então, vejo-me na contingência de me ausentar do computador. Não demora muito, e o som desaparece. Quando retorno, alguém tinha entrado no quarto em que está esta máquina e reduzido o som a quase nada. Sem pedir licença, sem me consultar, sem qualquer consideração por mim, pelo meu espaço vital. Sei quem foi e sei a razão pela qual está agindo de modo provocativo. Mas, ainda que sentindo a raiva se manifestar (comportamento responsivo emocional), opto por voltar a repetir a música e aumentar o som e centrar minha atenção no artigo. Se me deixasse levar pela emoção que me afogueou por um momento, certamente a idéia me fugiria e o que eu viesse a escrever, depois da briga, não seria mais estruturado como está, agora, mas seria escrito com maior dificuldade e menos clreza.

"Não, eu não aceito nem desculpo o que você fez!" Este é o caminho para a ruína de um relacionamento.

“Não, eu não aceito nem desculpo o que você fez!” “- Então vai à merda! Eu faço o que quero e pronto!” Este é o caminho para a ruína de um relacionamento.

A pessoa que me provocou, contudo, em outras ocasiões já demonstrou que também gosta muito da música que eu ouvia. No entanto, desde que eu me dei o direito de realizar algo que tal pessoa não aceita em sua constelação fenomenológica perceptiva, ela reage tentando me irritar. Sua persistência me diz do quanto ela é infantilizada psicafetivamente e estruturacionalmente em sua Identidade, mercê de seu modo de criação. Desde ontem que sou provocado insistentemente e tento não revidar. O que narro exemplifica o que é conhecido como reestruturação de set perceptivo. Tanto meu quanto de quem me provoca. Seria bem mais fácil para nosso viver em comum, que a pessoa provocativa não reestruturasse um fenômeno do passado de modo a poder reintroduzi-lo como “arma” para me ferir ou me provocar no meu momento fenomenológico presente. 

Não é incomum a ocorrência de tais reestruturações fenomenológicas ambientais e perceptivas por parte de pares de um casal. Isto termina por azedar de vez um momento e o acúmulo de tais frustrações terminam por fazer fracassar uma relação, principalmente se o outro par do casal for impulsivo e explosivo (que já foi meu caso, quando era mais novo).

Dou exemplos buscando sua maior concretude possível para que você, que me lê e não é Psicólogo, possa reestruturar seu modo de conhecer os ambientes fenomenológicos em que vive. Embora em poucas linhas, adentrei profundamente um campo da Psicologia que vem sendo estudado e pesquisado desde 1860, quando Gustav Teodor Fechner, Wilhelm Wundt e Ernst Heinrich Weber publicaram trabalhos sobre as primeiras regras quantitativas abordando a relação entre a estimulação física e a experiência psicológica.

Bom, vamos parar por aqui para que você tenha tempo de absorver e compreender os conceitos aqui explanados. Há muito mais a ser dito sobre Estruturalismo e é um assunto que você pode, ainda quando leigo, introduzir em seu modo de compreender o que se passa consigo e nos seus relacionamentos interpessoais.

Até breve.