Orozimbo sempre me metia em sinuca de bico com suas perguntas.

Orozimbo sempre me metia em sinuca de bico com suas perguntas.

Velho Orozimbo chegou quando eu estava às voltas com a cozinha, fazendo coxas de frango para o almoço. Eu estava aborrecido. Não tinha alho em casa, mas somente aqueles potinhos de tempero completo. Não gosto deles, mas entre usá-los ou sair ao sol escaldante para ir ao supermercado a pé, preferi o tempero completo. Tentaria fazer o melhor que pudesse.

Meu amigo sentou-se perto de mim e ficou calado, olhando-me atarefado com o trabalho chato de retirar a pele e a gordura dos pedaços de frango. Ele meneava a cabeça negativamente, desaprovando alguma coisa.

— Do que você não está gostando, Orozimbo? — Perguntei, incomodado por sua censura.

— Véi num come esses frango vendido aos pedaço, nhor não. Tem de sê criado no meu quintal, ora se tem.

Galinha caipira.

Galinha caipira.

— Frango caipira… Pra falar a verdade eu os comia muito, quando era criança. Meus pais os criavam no grande quintal de nossa casa… Algo em torno de meio hectare, se não estou enganado. Mas depois que fui morar no Rio de Janeiro passei a comer frango empacotado. O gosto era horrível, mas me acostumei. Hoje, não gosto do frango caipira. Ele fede e sempre tem a carne dura.

— Isto é se não se sabe cozinhá ele, home.

— Pode ser. Mas você não veio aqui discutir culinária. O que o trouxe?

Orozimbo permaneceu calado por um longo tempo.

— E então? — insisti.

— Home — disse ele, devagar. — Um amigo do Felício se matô, onte.

Parei o que fazia e me virei para olhar para Orozimbo. Ele estava mesmo triste.

— E por que o infeliz fez isso? — Perguntei. Orozimbo me olhou censuroso e me respondeu, depois de pigarrear forte.

— Pur causa de uma muié di quem ele gostava munto. Véi num intende qui arguém se mate pur muié.

— Bom, há gente para tudo…

Quem vê cara não vê coração...

Quem vê cara não vê coração…

— Vancê foi apaixonado perdidamente pur umas zinha qui véio sabe munto bem. Mas vancê jamais pensô em se matá pur ter sido abandonado. Nem mermo tentô tar coisa. Pur qui é qui há homes qui num se mata pur muié e otros qui faiz isso?

— É difícil responder à sua pergunta, meu velho. 

— E a tar de Picicologia num arresponde isto?

— Não. Não há resposta pronta para nada. No máximo, há explicações possíveis e plausíveis.

— Tá falando inrolado.

— Não. Quero dizer que a Psicologia não é uma ciência exata. E no que diz respeito ao comportamento humano, até que ela se sai bem, mas não tem fórmulas para tudo. O que você sabe da vida do suicida?

— Nada… quero dizer, Felício falô qui ele foi um home qui sempre sofreu munto. Tinha muntas marcas de dô na arma.

— As marcas da vida, meu amigo, servem para nos lembrar de onde estivemos, por onde passamos. Mas não devem de modo algum ditar para onde devemos ir.

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..." Que pai terreno não se orgulharia de ter uma filha tão bonita assim?

Nenhuma mulher vale a vida de um homem, por mais glamourosa que seja.

— E a paixão? O home se matô purqui tava apaixonado pur uma muié.

— Não creio que a razão tenha sido esta. Creio que ele se matou porque tinha uma auto-estima demasiadamente reduzida e não suportou a idéia, talvez fantasiosa, de que a mulher o trocou por outro devido a isto.

— Ixi, vancê tá cá macaca. 

— Auto-estima é o que a pessoa sente com relação a si mesma. Ela depende da auto-imagem e esta se forma a partir do que os outros falam de você. Se falam bem e o elogiam, sua auto-estima tende a ser positiva, boa, otimista. Mas se falam mal, sua auto-estima pode ser reduzida, ou seja, você cria uma imagem de si pouco satisfatória para suas expectativas. Isto pode levar a uma reação de raiva contra os outros ou contra si mesmo, entende?

— Hummmm… Acho qui sim… No caso do suicida amigo do Felício, sua raiva se virô contra ele mermo, num foi?

— Pode ter sido isto.

— Cuma, pode? Vancê num falô bem craro as coisa, não?

— Bom… É complicado, amigo. Diga-me, a mulher por quem o amigo de nosso amigo se matou… Ela gostava de outro homem? Foi por saber disto que o infeliz tirou a vida?

— Hummm… Acho qui não, mas num sei ao certo. Felício num falô. Mas o qui tem isso cum a morte do home?

— Às vezes uma pessoa se mata porque deseja intensamente fazer que a outra se sinta muito culpada. Esse homem pode ter-se matado porque desejava intensamente deixar a mulher de seus desejos amargando uma culpa sem remédio..

Orozimbo arregalou os olhos e me olhou, espantado.

— O quê? Um burro tira a vida só pra fazê otra pessoa se sinti curpada?

— Isto é sadismo. Extremo sadismo.

— O qui diabo é esse negóço?

— Sadismo é uma tendência mórbida de alguém para fazer os outros sofrerem. A pessoa sádica só se sente bem, satisfeita, se causa dor e sofrimento em outros. Pode até matar-se, desde que pense que sua morte será a razão de um grande sofrimento para alguém.

— Entonce… Além da tar de auto-estima reduzida arguém tombém pode se matá pru qui é sádico?

— Pode. Não quer dizer que todos os suicidas ou sejam sádicos ou sejam auto-estima reduzida… Uma pessoa também se suicida porque pode estar num momento de grande depressão. Mais um fato penoso e a depressão vence suas defesas e ela se mata.

Orozimbo coçou a carapinha e ficou de pé, balançando a cabeça, decepcionado.

— Humm… Véi pensa qui vancê perdeu tempo istudando esta tar de picicologia… Vancê num diz nada cum certeza, droga.

— Mas eu disse que…

— Sua ciência num sabe de nada. Inté mais vê, home. Vancê tem mais é qui istudá de novo. Larga a tar de picicologia qui ela num serve pra nada, ora.

E lá se foi ele, decepcionado.