Pular a cerca é fácil. O difícil é conviver com o resultado disto...

Pular a cerca é fácil. O difícil é conviver com o resultado disto…

Foi com esta frase que um sujeito de mais ou menos 40 anos se apresentou a mim, trazido por Orozimbo, logo depois do almoço. Permaneci a olhar para os dois em silêncio. Não estava gostando nada daquela visita.

—A gente pode entrá e sentá pra cunversá? — Perguntou Orozimbo com a maior cara de pau que eu já vira em sua face. Ele parecia estar-se divertindo com o que aprontara. De má vontade e com a carranca de um barco do São Francisco, assenti com um aceno de cabeça. Os dois entraram. Orozimbo bem desembaraçado e à vontade. Seu acompanhante visivelmente consternado e se sentindo um peixe-fora-d’água.

— Então — fui direto ao assunto —, o que diabos você quis fazer trazendo-me seu amigo para confessar diante de mim que “pulou a cerca”? Não sou a mulher dele, logo, não tenho nada com isso.

— É que eu, com minha mulher, sou “coelhinho”. Mas se me deito com outra, aí sou normal — Disse o homem, adiantando-se ao meu velho amigo. Olhei-o com cara de poucos amigos. “E o que eu tenho com isso?” Pensei.

— Entonce, aí está a rezão de eu tê trazido ele inté vancê. Véi tá curioso pra sabê cuma é qui vancê incara esse negóço istranho. Um home num dá no couro cum a muié dele, mas faiz isso munto bem cum otra. Isso é normá?

Ela também pulam a cerca e com a mesma facilidade que os seus parceiros.

Elas também pulam a cerca e com a mesma facilidade que os seus parceiros.

Se eu fosse mais novo juro que teria descido o braço na cara-lavada de Orozimbo, que me falava sério e com expressão de curiosidade. Ele não se importava com o embaraço de seu convidado. Estava mesmo era centrado em sua curiosidade.

— Senhor — disse eu, sádico. — Seu dilema não é de minha alçada. Procure um bom profissional de Psicologia Clínica.

— Mas vancê num é isso, home? — Intrometeu-se Orozimbo.

— Não, diabo. Você já sabe que faz mais de vinte anos que não clinico. Estou fora. Estou sem prática. E, pior, estou sem qualquer vontade de voltar a mexer com os dramas dos outros. Este tempo já passou para mim.

O homem olhou consternado para a face negra de nosso amigo comum, que, agora, me olhava com expressão de censura e aborrecimento.

Luta é treinamento. Mas o corpo pode fazer que o lutador pendure as chuteiras.

Luta é treinamento. Mas o corpo pode fazer que o lutador pendure as chuteiras.

— Ninguém deixa de sê aquilo pra qui treinô pur ano a fio, sujeitin enrolado. Eu num deixo de sê capueira, mermo querendo. Vancê num deixa de sê lutadô, mermo se recusando a lutá. Entonce, vancê ainda é o doutô sim sinhô. E deixe de sê ranzinza. Ajude o home qui ele tá percisando, ora.

— Ser lutador não tem nada haver com ser clínico, Orozimbo. A Clínica, médica, psicológica ou psiquiátrica, necessita de constante atualização do profissional. Exige que ele esteja sempre lendo e se informando sobre seu ramo de ciência. Impõe que esteja na prática constante de sua profissão. Requer que coteje constantemente sua escolha no modo de atuar diante das novas hipóteses de trabalho que pipocam em sua área profissional. Eu deixei de fazer isto faz tempo. Sou, agora, no máximo, um teórico. Mas é só. Não vou mexer na casa de maribondo ambulante que é seu amigo.

"Ser pequeninho assim não é a razão pro cabra brochar..."

“Ser pequeninho assim não é a razão pro cabra brochar…”

— Doutor — adiantou-se o estranho à reação de Orozimbo. — Eu fui que insisti em vir. Não só Orozimbo fala bem do senhor, mas há outras pessoas que também fazem isto. Vim na esperança de que me desse uma explicação razoável para esta minha reação involuntária. Eu não consigo descobrir a razão de eu ser como sou com minha esposa, e ser tão diferente com outras companheiras de cama. Isto me angustia, pois sou apaixonado por minha mulher.

Eu o olhei ainda raivoso, mas constrangido diante do que ele me dizia. De certo modo, o forçara a falar e isto, agora, me constrangia.

— Vamos sentar — convidei, por fim, ainda confuso. Estava prestes a fazer o que não desejava há muito tempo.

Sentamos-nos e vi na expressão da face do companheiro de Orozimbo uma grande expectativa esperançosa. Tomei de lápis e papel e lhe estendi ambos.

— Sabe escrever?

— Sim, senhor.

— Então, vou-lhe ditar um catálogo. Vá embora, estude-o bem, escolha a alternativa ou as três alternativas mas prováveis e com elas assinaladas, vá procurar um Psicólogo Clínico em atividade. Escreva.

Com mãos trêmulas o homem obedeceu. E eu lhe ditei:

1 – Sua mulher é mandona, dominadora, tirânica e dona da verdade em tudo. Você a odeia. Por isto, nega-se a ela no leito e se vinga entregando-se a outras;

2 – Você é um homem ególatra, que acha que tem a verdade e não aceita questionamentos, o que sua mulher faz constantemente e o irrita profundamente;

3 – Sua mulher é filha caçula de família com grande número. Foi criada mimada e sempre acreditou que devia ser em qualquer situação a dona do pedaço.

4 – Você tem uma auto-estima reduzida, por isto, exige dos outros o máximo que sua fantasia deseja para que você se sinta completo. Como este desejo é fantasioso, você jamais alcança sua meta oniróide e, por isto, pune sua companheira negando-se a ela na cama.

5 – Você tem uma auto-estima exagerada e, por isto, precisa de auto-afirmação constante. Uma vez que é carente afetivamente, por dificuldades no relacionamento parental, principalmente com sua figura materna, vive saltando de leito em leito em busca de um amor materno que jamais vai encontrar. Sentia-se rejeitado por sua mãe e buscava nas mulheres, ao menos temporariamente, aquela aceitação que jamais satisfará sua carência paranóide.

6 – Você nunca amou verdadeiramente sua mulher. Disputou-a com outros jovens porque ela era bela e desejada por eles. Uma vez tendo “abatida a ave”, perdeu o interesse por ela. Por isto, seu coito é desagradável, chocho e fracassado.

7 – Sua mulher não corresponde às suas fantasias sexuais. É pouco integrada ao coito e não responde com o fogo com que você sonha que uma mulher deve ter.

8 – A religião interfere poderosamente com sua atividade marital. Ou você ou ela é praticante de uma das religiões cristãs culposas, como o catolicismo. Para fugir deste acicate, você procura aventuras fora de casa e, a cada vez que “pula a cerca”, a culpa o desespera. Para sentir alívio deste acicate, você volta a fazer a mesma coisa e entrou num moto-perpétuo que o está levando à incompetência sexual coital.

Bom, deve haver mais itens que, no momento, não me vêem à memória. Mas creio que em um ou em mais de um você vai-se enquadrar ou enquadrar sua parceira. Então…

— O senhor acertou em pelo menos três…

— PARE! Não quero saber de nada. O assunto é seu. Vá para casa e durante uma semana se observe e à sua companheira. Veja se descobre mais itens que eu não incluí nessa lista. Depois, procure um profissional atuante. Ao iniciar a terapia com toda a certeza já começará com pelo menos R$ 600,00 de economia em honorários profissionais. Agora, por favor, vão embora.

— Véio qué ficá pra…

— Não! Você também vai embora. Não estou de bom humor para conversar com ninguém, Orozimbo.

Meu amigo ficou um momento me olhando de cenho franzido. Então, levantou-se e com um aceno de cabeça se foram, os dois, sem se despedir.

Fiquei o resto da tarde irritado com eles.