Seu programa é muito inteligente, mas infelizmente tem de agradar seus patrões.

Seu programa é muito inteligente, mas infelizmente tem de agradar seus patrões.

A Globo, em um de seus programas de auditórios que, como sempre, são todos voltados para vender suas novelas chinfrins, abordava a tão explorada “traição” na relação afetiva das pessoas. A apresentadora se esforçava para incendiar o debate sobre este tema “tão polêmico”, segundo ela, na relação entre homem e mulher. Velho Orozimbo prestava grande atenção no debate e eu me afastei, pois detesto certos temas fúteis que a TV aborda com o intuito somente de conseguir IBOPE junto à terceira classe social, a que consome qualquer porcaria, desde que elas lhes sejam vendidas pelos “Astros” e “Estrelas” televisivas. No Brasil há só duas vertentes para a assim chamada “TV Aberta”: ou pega-pega da Globo ou histeria espertamente incentivada por pastores evangélicos. Positivamente nenhuma das duas me agrada.Quando a porcaria de programa terminou, Orozimbo veio sentar-se ao meu lado. Acendeu seu pito e permaneceu pitando em silêncio. Seu olhar me dizia que ele estava profundamente mergulhado em seus pensamentos. De repente, com um grande suspiro, segurando o cachimbo com a mão direita, cotovelo apoiado na perna, virou-se para mim e perguntou:

Traição gera brigas e até pancadaria. Poderia ser diferente se cada par do casal tentasse buscar as razões "ocultas" que o levaram a "pular a cerca".

Traição gera brigas e até pancadaria. Poderia ser diferente se cada par do casal tentasse buscar as razões “ocultas” que o levaram a “pular a cerca”.

— Home, o qui é traição pra vancê?

Eu o olhei de soslaio. Ele estava ainda sobre a falação vazia dos buscadores de IBOPE.

— Um conceito vazio. Ou seja: não é nada. É um conceito que só serve para conseguir IBOPE junto à plebe escravizada pela TV.

Orozimbo me olhou atravessado, suspirou resignadamente e voltou a insistir.

— Bão, agora qui vancê desabafô seu descontentamento, o qui é mermo a traição pra vancê?

 Eu já disse. É um conceito vazio, quer dizer: um conceito que não significa nada.

— Qué se ixpricá mió? Véi num tá intendendo.

— Deixando de lado o terreno religioso, o político e o patriótico, no que diz respeito ao casal o conceito de traição não devia ter qualquer significado.

— Mas tem, ora — disse Orozimbo, olhando-me com o cenho franzido.

— Sim, sei que tem. E sei que vai continuar tendo porque é um conceito que dá IBOPE para as emissoras de TV e para os pasquins que exploram este tema.

— Entonce, se tem, se exéste, a gente deve de falá a respeito. Ou será que véio tá errado?

— De meu ponto de vista, está sim. Mas, como eu o conheço muito bem, é melhor falar logo, senão você vai-me aporrinhar a paciência por muito tempo.

— E véio vai mermo — disse meu amigo, soltando sua primeira cusparada amarela.

Às vezes o sinal de que algo está errado e a relação esfria é o diálogo que se torna impossível entre os pares do casal.

Às vezes o sinal de que algo está errado e a relação esfria é o diálogo que se torna impossível entre os pares do casal.

— Veja, Orozimbo, eu tenho dito e repetido que entre homens e mulheres raramente acontece amor verdadeiro. E nos tempos atuais é que isto está mais raro que encontrar bomba atômica na rua. O que acontece entre machos e fêmeas de nossa atualidade é uma mistura explosiva de desejo e dependência. Desejo, meu velho, nunca foi amor. Dependência é fruto da tremenda insegurança em que o Sistema Social atual, seja ele “Democrático”, seja “Socialista” ou outro qualquer, desperta no indivíduo. A dependência forma homens e mulheres a se buscarem como apoio recíproco e como escudo contra a solidão. É melhor ter alguém ao nosso lado, ainda que nos aporrinhando a paciência, do que estar sozinho numa sociedade desumana como esta em que todos os povos vivem.

— Num inrola. Fala fácil, ora.

 

Criança agride outras com expressões faciais ou com gestos para defender o que é seu.

Criança agride outras com expressões faciais ou com gestos para defender o que é seu.

— Não estou enrolado, mas vou tentar ser mais objetivo. Nós, as pessoas, chegamos à velhice sem amadurecer emocionalmente. Veja, quando três ou mais crianças estão juntas, a reação de cada uma é segurar o que é seu. É raro encontrar uma criança que disponibilize seu brinquedo para outra sem ser através da intervenção de um adulto. E uma grande maioria das crianças, mesmo tendo seus brinquedos entre as pernas, tenta tomar o brinquedo de outras, até causando conflito entre elas. Este forte sentido de posse permanece dominando a Identidade da pessoa através dos anos. E ela o generaliza para tudo, inclusive para seus relacionamentos afetivos. Então, meu velho, a reação de posse é o que predomina entre homem e mulher. Ele diz “minha” mulher, quando se refere à sua companheira, não é?

— É. Mas ela num diz “meu home” do mermo modo.

— Não, é verdade. Mas diz “meu namorado”; “meu noivo”; “meu marido”. Em destaque vem o possessivo na fala de ambos.

— Mas cuma é qui ela pódi falá de otra forma, home?

— Não sei. Talvez este modelo seja tão arraigado devido mesmo à questão da Religião Católica. Suas fórmulas “Até que a morte vos separe” “Que o homem não separe o que Deus uniu na Terra” jaz como um esqueleto no fundo do inconsciente coletivo dos cristãos e os domina, ainda quando se dizem ateus ou incréus. Mas também há a tradição avoenga…

— Epa! O qui diabo é isso aí?

— Avoenga quer dizer que vem dos avós, dos antepassados; o que tem origem muito remota, muito antiga.

— Ah, sim. Entonce, vancê tá dizendo que esse modo de falá do home cum relação à sua muié vem de munto longe no tempo, num é?

— Perfeitamente. E se viajamos no tempo vamos encontrar, muito antes do nascimento do homem Jesus de Nazaré, este sentido de posse do macho em relação à fêmea. Acho que por isto é que se fixou a fórmula de tratamento “minha mulher”, onde, antigamente, este “minha” punha em ressalto o sentido de posse de modo claro e até como aviso aos incautos ou afobadinhos. Talvez ao dizer “minha mulher” os bárbaros de antigamente estivessem avisando que aquela pessoa lhe pertencia e se alguém avançasse o sinal com ela ia ter uma conversa bem dolorosa e até definitiva com sua espada ou sua acha de guerra.

— Êta qui tá emporgado, sô! Mas continue que o véi tá intendendo direitim.

— Pois bem, a primazia do homem sobre a mulher caiu de moda, mas não aquele sentimento nele fortemente arraigado. E este sentimento, que também já foi muito forte nas mulheres, mas muito reprimido pelo predomínio do machismo de outrora, hoje se manifesta com força também nelas. Então, se o homem ainda a tem como sua posse, ela já o tem na mesma medida… Está entendendo?

— Tô. Vancê fala arreliado, mas véio já se acostumô cum isso.

— E voltamos às crianças. Homem e mulher se vêem mutuamente como a criança vê seus brinquedos: “é meu!” exclama a criança quando outra se aproxima de si ou de seu brinquedo. Ela o pega rapidamente, fecha o semblante e olha ameaçadoramente para a intrusa. Pois bem, ainda é assim que homens e mulheres reagem quando um terceiro indivíduo demonstra interesse por sua “posse”. Esta não pode ser ameaçada. A reação de ciúme é imediata.

— Mas véi num tá falando de ciúme. Véi tá preguntando sobre traição.

— Ora, eu não estou falando de outra coisa. Apenas procuro mostrar que esta coisa inadequada no relacionamento de duas pessoas ditas civilizadas é um eco da possessividade infantil. Veja, Orozimbo, ninguém é de ninguém senão na media em que se deixe ser. A mulher não pertence ao homem senão naquilo em que se deseje dar. Mas a recíproca não é verdadeira. O homem não recebe apenas o que a mulher quer e pode-lhe dar. Ele a invade e a toma para si, sendo o vice-versa verdadeiro.

— E daí?

— Daí que o homem ou a mulher vê como traição o ato de sua companheira ou seu companheiro dar de si algo a outra pessoa. Pode não ser o sexo genital. Pode ser somente um sorriso afetivo, uma palavra meiga… Qualquer coisa que seja interpretada como “assanhamento” pelo ciumento. Por que alguém é forçado a ser inteiramente de alguém, se não deseja sê-lo de livre e espontânea vontade?

— Mas se assumirum compromisso, home, entonce, um tem de arrespeitá o outro, ora.

— Respeitar, sim. Pertencer, não. Nós devemos dar-nos ao outro dentro dos limites de nossa liberdade de ser. Se todos soubessem disto, não haveria homens matando mulheres e vice-versa por causa de ciúmes possessivos.

Orozimbo pensou um pouco e rebateu.

Elas escolhem um parceiro por toda a vida. Talvez porque não saibam falar a língua dos humanos...

Elas escolhem um parceiro por toda a vida. Talvez porque não saibam falar a língua dos humanos…

— Home, leão, tigre, gato, cão… tudo fica possessivo e enciumado, quando tão no cio. Se vancê fosse um leão e se aproximasse da fêmia de otro, ia tê briga de morte, num é?

— Sim — concordei, voltando-me para o olhar com curiosidade.

— Entonce, num será argo qui nóis, cuma animá qui somo, num temo tombém im nosso instintu?

— Bom… — Parei de falar e fiquei pensando no argumento de meu velho amigo. Sim, sim, ele tinha razão. Também era possível explicar o ciúme possessivo como uma reação animal, instintiva, da espécie humana. Por que não? Afinal, nós somos animais. Humanos, mas somos.

— E entonce?

— Bom, você me pegou de calça curta, meu amigo. É verdade que o instinto de conservação da espécie deve ter algo haver com isto, com o ciúme possessivo. Mas se nos deixamos levar impulsivamente e descontroladamente por ele, então, das duas uma: ou estamos doentes e emocionalmente desequilibrado, ou não somos tão humanos quanto pensamos ser.

— Véio pensa qui é as duas coisa, num sabe? A gente ‘tá qui embaixo é pra aprendê a sê humano. Se já se tivesse aprendido isto, pra qui é qui o Criadô ia mantê nóis cá neste mundo de dô? Veja, um imbecí carqué, tarvez qui num tenha condição de insiná nada a ninguém, mas qui é danado de invejoso, iscreve pra vancê dizendo que seu brog divia de deixá de existi pruqui num acrescenta nada. Ora, num é o qui a maioria ismagadora diz, né não? Entonce, esse imbeci num passa de um duente invejoso, num sabe? Ele num tem o qui oferecê, mas se agunia todo quando vê qui arguém tem. Pur isto, agrede gente cuma vancê. Apois bem, véi intende qui ciumento é cuma esse imbecí, num sabe? Ciumento é ciumento pruqui é pobre de isprito. Quem é rico de isprito e tem munto qui dá, num percisa de ciumera besta pra prendê arguém de seu lado. Véio pensa ansim…

Fiquei calado por um tempo. Depois, aproximei-me e dei uns tapinhas amistosos no poderoso ombro de meu velho amigo capoeira.

— Dez para Orozimbo e três para o Psicólogo — Disse eu, rindo. — Você tem mais razão do que eu, mas não estou de todo enganado, meu amigo.

— Tá não. Tá não mermo. O qui vancê dixe tem fundamento nos seus istudo, mas o qui véi falô tem fundamento no qui ele viu e aprendeu durante a vida qui já viveu, num sabe? E acho qui os dois se comprementa… Ih! São dez hora! Véi tem de ir imbora fazê o armoço e buscá o netim na iscola. Inté otro dia, home. Foi bom falá cum vancê.

E lá se foi ele bamboleando como todo bom capoeira. Fiquei pensando em nossa conversa. “Ninguém é tão rico que não possa receber, nem tão pobre que não possa dar”. Verdade… Isto é válido, exceto para o pobre imbecil que tentou me provocar escrevendo asneira. Coitado. Foi direto pro lixo…