Isto, que a fantasia telenovelesca apresenta tão fácil, é mais complexo do que se pode pensar.

Isto, que a fantasia telenovelesca apresenta tão fácil, é mais complexo do que se pode pensar.

O termo correto não é “impotência”, mas incompetência. Muitos são os fatores psicossociais que podem levar um homem à incompetência sexual ou a mulher à frigidez sexual. Não é incomum depararmos-nos com casais que sofrem com estes transtornos da sexualidade e calam a dor em seus íntimos por vergonha de expô-las ao conhecimento público. Talvez, com razão, medrosos dos ataques covardes de que poderiam ser vítimas por parte de ignorantes e agressivos também psicafetivamente transtornados.

Às vezes um comentário menos precavido pode causar uma crise entre os pares de um casal que até àquele momento vinha aguentando e disfarçando sua miséria íntima. E foi o que aconteceu com um casal que não posso dizer seja meu amigo, visto que só conversei com eles uma única vez. E minha língua comprida causou um tsunami entre eles.

Domingo. Estou sozinho em casa. Orozimbo me aparece apressado e sem nem mesmo se sentar, insiste em que eu o siga a algum lugar. Não tenho nada melhor a fazer e aceito.

Caminhamos em silêncio. Eu vou apático, que é como tenho andado ultimamente. Nada me anima nem me tira da estranha apatia com que olho o mundo ao meu redor. Vou por ir e é só.

A casa é recuada e tem um pequeno e mal cuidado jardim à frente. As paredes são velhas e o verde de que é pintada está bastante maltratado e feio. Aqui e ali pedaços de tinta pendem e se enrolam sobre si, deixando uma mancha preta no velho reboco. Há uma mangueira ao lado direito, mas o tempo dos frutos já passou. Orozimbo bate na porta e esperamos. Nada. Ele não desiste e volta a bater, desta vez com mais força. Demora, mas alguém mexe na fechadora e a porta é aberta. Diante de nós uma mulher. Tinha acabado de se banhar e ainda penteava os cabelos negros e lisos.

Não é feia. É jovem e tem o corpo esguio.

— Onde ‘tá o Jorge? — Pergunta Orozimbo. A mulher responde apenas com um aceno de cabeça, indicando que o tal Jorge está lá dentro e me endereçando um sorriso simpático.

— Vamos entrar? — Convida ela. — Desculpem-me. Acabei de tomar meu banho. Faço isto todo dia. Mas entrem e se sentem. Doutor, que bom que o senhor veio.

Estádio Serra Dourada. É aqui que os goianienses torcem por seus times e imitam cariocas e paulistas em suas loucuras e ferocidades.

Estádio Serra Dourada. É aqui que os goianienses torcem por seus times e imitam cariocas e paulistas em suas loucuras e ferocidades.

Olhei de través para a face negra e inexpressiva de Orozimbo. Comecei a desconfiar que o danado tinha aprontado comigo, de novo. Meu humor azedou, mas procurei me controlar. Entramos. Estávamos próximos ao Estádio Serra Dourada. O peste do preto velho me fizera andar nada menos que cinco quilômetros a pé e em marcha forçada. Aquilo ia ser ótimo para meu famigerado “bico de papagaio”.

A sala estava muito limpa e os móveis desempoeirados. Aqui no Centro-Oeste isto é uma façanha digna de nota. Mesmo sob as chuvas torrenciais, não sei como, a poeira voeja no ar e sempre suja os tampos dos móveis. É um saco.

Diante de nós a recepcionista que está presente em todas as salas dos classe-média brasileiros: a televisão. Aquela estava desligada, apesar da hora, quase onze. A mulher nos pediu licença e se retirou para o interior da casa avisando que ia chamar seu marido, o Jorge. Ficamos quietos. E calados. Eu não estava com vontade de falar e se o fizesse iria discutir com o teimoso preto velho de uma figa. Com certeza estava aprontando pra cima de mim. Ele nunca desistia…

O Jorge veio acompanhado pela mulher. Estava muito suado e sujo de terra. Talvez estivesse trabalhando em alguma coisa da profissão de pedreiro, mas não. Ele estava sujo porque estivera plantando dois pés de jambo no seu quintal. Desculpou-se pela aparência, pediu licença para se limpar e se foi. A esposa voltou a entrar em casa e pouco depois retornava com duas xícaras de café fumegante. Eu não estava com vontade de beber café, mas por delicadeza aceite. Não estava ruim.

O Jorge voltou em uns vinte minutos. Tinha tomado banho e trajava uma roupa limpa, calça jeans e camiseta branca. Calçava chinelas havaianas com tiras verde-escuras. Sentaram-se os dois diante de nós e percebi que subitamente a atmosfera se tornara tensa. Orozimbo pigarreou, pediu licença para acender seu indefectível cachimbo e depois de baforar algumas vezes, falou.

— Home, esse casal aqui já ‘teve cum vancê, lá na paróquia de Santo Inácio de Loyola. Véio sabe qui vancê num tem boa memóra pra fisionomia, pur isto ‘tá dizendo isso pra arrefrescá sua memóra. Vancê feiz uma falação lá, faiz munto tempo, e eles ficarum impressionado, num sabe? E apois. Agora, eles m’incontrarum e me pedirum pra véio ir chamá vancê. Estão percisando de sua ajuda.

Controlei-me à força. O café começou a me queimar o estômago. Mas que mania desgraçada a do Orozimbo de me colocar em situações desagradáveis para mim.

— Doutor — começou a mulher —, naquele tempo Jorge e eu éramos noivos. O senhor foi levado pelo Padre Felício para fazer uma palestra sobre a vida a dois depois do casamento. Suas palavras me impressionaram muito. Bom, agora… Agora eu acho que…

Ela olhou angustiada para o marido, cuja face estava pesada e cujos olhos se voltavam para o chão. Compreendi o drama dos dois e olhei com olhar assassino para a cara-de-pau de Orozimbo, que me ignorou solenemente e, como o olhar perdido algures no espaço da sala, pitava tranqüilamente seu pito. Volte a olhar para a mulher diante de mim e fui direto ao assunto.

— Estão com dificuldades sexuais?

Ela torceu as mãos e se remexeu inquieta na cadeira. Sem me olhar e abaixando a cabeça, acenou afirmativamente. Jorge não se movia. Parecia feito de pedra. Era um casal jovem, talvez não tivessem acima de 30 anos.

— Eu sou impotente — disse Jorge com voz pesada e grave. Falara tão baixo que quase não o ouvi.

— Impotente em quê? — Perguntei, olhando para Orozimbo que segurava o cachimbo entre os dedos da mão direita e continuava com o olhar perdido no espaço.

— No sexo. Eu não sei o que me acontece, mas não tenho ereção… Isto está-me matando e acredito que arruinando nosso casamento. Mas eu gosto de minha mulher… Nós não entendemos isto.

Fez-se silêncio por um tempo. Eu me mantive calado. Minha cabeça era uma confusão só. Orozimbo parecia não se dar conta do ridículo da situação. No fundo, no fundo, eu tinha de lhe perdoar, pois ele não entendia nada de psicoterapia e acreditava que eu podia fazer o tratamento em qualquer lugar, a qualquer hora. E mais: que funcionaria como um chazinho da vovó. Foi a mulher que quebrou o pesado silêncio.

Uma visão do complexo da OI, antiga Brasiltelecom, em Goiânia.

Uma visão do complexo da OI, antiga Brasil Telecom, em Goiânia.

— Meu marido trabalha na OI. O trabalho lá é horrível. É trabalho escravo. Só tem cobrança e nenhuma recompensa. A gente é explorada até não poder mais e não se recebe nada em troca. Veja, sabe quanto tempo ele tem para o almoço? Quinze minutos! Ninguém consegue comer em 15 minutos, ainda mais com o restaurante cheio que não tem nem mesa disponível para a freguesia. E lá perto da OI todos os restaurantes ficam lotados. E todos os empregados vivem desesperados, disputando cada palmo ali dentro. É uma agonia e o Governo não faz nada.

Eu sabia como era. Minha filha trabalhara na OI durante um ano e foi um ano de pesadelo. O estresse daquele estilo de vida escravizada ao Poder Econômico bem podia ser um motivo de grande poder no drama do casal. Mas certamente não era o único e eles tinham consciência disto.

— E você? Onde trabalha? — Perguntei, para dizer alguma coisa.

— No comércio. Sou vendedora na Fujioka. Ali, no Flamboyant. Também é um emprego estafante. Saio todo dia depois da meia-noite. Mas ganho um dinheirinho que dá pra viver. Apertado, mas dá.

— Cuma iscravo, isto sim. Vancès trabaiam cuma iscravos e isto é uma vergõia — resmungou Orozimbo olhando a mulher nos olhos.

— E o que se pode fazer? No Brasil, eu acredito, não há mais boas empresas. Todas aprenderam a escravizar o empregado. Desde a menor lojinha de roupas até os grandes empórios. Em qualquer deles, a gente é explorada até os ossos. Só que o salário não compensa. Veja, eu tenho curso superior. Fiz o terceiro grau completo. Sou Assistente Social. Mas onde arranjar emprego em minha profissão? Só no Estado ou no Município e em qualquer dos dois a gente não é concursada, tem de fazer os absurdos que nos mandam e ficamos dependendo da vontade dos políticos. É um terror tão grande ou maior do que trabalhar na OI.

Fez-se um silêncio embaraçoso e desconfortável. Orozimbo me olhou e foi direto.

— Entonce, o qui vancê pode fazê pur eles?

— Nada. Eu já lhe disse centenas de vezes que não trabalho mais em Psicologia Clínica, mas você é um velho burro e teimoso e sempre que pode me coloca em situações desagradáveis como esta, agora. Você deu esperanças aos dois às minhas custas e isto foi errado. Pois bem, compete a você desfazer a ilusão e desconstruir a expectativa que lhes criou a meu respeito.

Voltando-me para o casal, falei.

— A situação de vocês é de sua área de competência: Assistência Social. Creio que sabe disto até melhor que eu. Mas a Assistência Social em nosso país está totalmente desestruturada. O Brasil vai ter de esperar por mais três séculos para ficar pronto para oferecer trabalho digno e respeitado aos Assistentes Sociais. Enquanto viger a filosofia do Lucro a Qualquer Custo, não tem saída. 

—Não é só minha profissão que está sem amparo no nosso meio-social — falou a jovem. — Melhor dizendo, está sem campo de trabalho. Vejo o Brasil, leio o Brasil, escuto o Brasil e o que concluo é que estamos reduzidos a mendigos. Mendigamos migalhas para podermos sobreviver. A Política só pensa em Economia. Parece que a Economia é a Deusa que resolve tudo na vida da Nação e das pessoas. As estatísticas econômicas é o eixo em torno do qual os políticos julgam que nossas vidas e nossos dilemas pessoais giram. Mais dinheiro, banqueiros felizes, empresários rindo à-toa e povo feliz. E não é assim. Nós, povo, precisamos de Saúde Pública, que não temos; precisamos de Escolas, que não temos; precisamos de Transporte, que não temos; precisamos de Segurança, que não temos; precisamos de infra-estrutura, que não temos; precisamos de empresas que respeitem e amparem seus empregados, que também não temos. Somos uma nação de abandonados e escravizados. Eu sei disto. O senhor sabe disto. Sua profissão é melhor, pelo menos um pouco melhor, que a minha no que toca à situação social em que se enquadra. Mas ainda assim também está ao Deus-dará. Tudo, neste país, está ao Deus-dará. Eu me arrependo profundamente de me ter deixado enganar e ter votado no Lula e na Dilma. Fiz uma besteira e meu consolo é que mais da metade do país caiu na mesma esparrela. Eu vou parar, mas infelizmente milhões de tolos não pararão e a Dilma deverá ser mantida lá em cima. E tudo vai continuar como sempre: gente não importa. Importa é a Força de Trabalho. Importam as montadoras não pararem de fabricar carros e entupirem as ruas das cidades engavetando tudo. Importa é o Lucro dos Bancos, das Empresas e das Indústrias. Importa é a conta bancária no exterior, aberta às escondidas e inchadas com o dinheiro público. Importa é o político poder mandar seus filhos estudarem no exterior porque no Brasil, por culpa deles mesmos, o Ensino é caótico, pobre e está aquém do segundo grau, mesmo nas Faculdades. Dramas pessoais não importam. O que importa é a Presidenta vir a público com estatísticas mentirosas afirmar que o Brasil continua sendo o país atrativo para o investimento estrangeiro. Investimento… Esta palavra é tão estúpida que ao ouvi-la minhas entranhas se reviram de raiva e de revolta impotente. Eu não quero saber de investimento estrangeiro. O povo não está nem aí para o tal investimento estrangeiro. O que nós queremos, todos nós, é respeito do Poder Público. Queremos Políticos que tenham vergonha na cara e lutem por nós que os elegemos. Mas não é isto que temos. E eu sei, doutor, que tudo isto funciona como a poeira que se infiltra nas engrenagens de um motor e termina por fazer que pare. Eu sou este motor. Meu marido é este motor. Todos os membros de casais brasileiros são este motor de que falo. Todos estamos parando de funcionar a contento. Nossa vida íntima está-se arrebentando, mas que importa isto para o Político Corrupto? Talvez elas já sejam impotentes ou incompetentes há tanto tempo que já nem mais notam o dilema. Como não são capazes de amar, não são capazes de compreender o grande mal que nos causam, a nós, seus eleitores.

Olhei com atenção para a jovem. Ela acabara de me conquistar o respeito.

— Bom — disse eu —, visto que você compreende o que este velho cabeça dura não parece compreender, vou-me embora. Procurem um profissional que trabalhe com sexoterapia. Não posso indicar ninguém porque não conheço ninguém aqui. Mas com certeza se procurar, vai encontrar. Agora, se me dão licença, vou-me embora. Até outro dia.

Pus-me em pé para sair e Orozimbo se levantou, mas eu pus a mão sobre seu ombro e o obriguei a se sentar de novo.

— Não! Preciso ficar sozinho um pouco. Você não será a companhia para mim. Acho até que vamos brigar seriamente se você insistir em me acompanhar. Fique e converse com o casal.

— Mas home..

— NÃO! — Gritei. Estava fulo da vida com Orozimbo. Ele me olhou nos olhos por um tempo e assentiu com a cabeça. Diante do constrangimento do casal, apertei-lhes as mãos, desculpei-me por qualquer coisa que tivesse feito de grosseiro, e saí. Peguei o ônibus ali perto e voltei. 

Orozimbo ainda ia “enbarrigar” comigo, como ele gostava de dizer.