A Lua Cheia, por cima do morro do Olinda, é simplesmente Linda!

Naquela noite ela estava assim.

A luz da Lua descia como prata derretida sobre as dunas vermelhas que, naquela hora da noite, era negra e misteriosa pelas sombras variadas que deixava os olhos verem. Yehoshua levantou-se da roda de viajantes que papagueavam enquanto comiam e bebiam e se retirou para longe das tendas. Sentada diante dele, no outro lado da roda, Míriam de Magdala observou-o afastar-se e sentiu um impulso de segui-lo, mas conteve-se e procurou demonstrar desinteresse, pois era atentamente observada por Míriam, a mãe.

Yehoshua tinha feito uma refeição frugal, à base de frutas secas, leite e água. Buscou um lugar entre as dunas e se sentou. Não lhe incomodava a solidão nem o perigo das víboras e dos escorpiões, entre outros animais perigosos que preferiam a noite para caçar e se alimentar. Não lhe quebrantava o corpo nem o espírito a longa caminhada sob o Sol escaldante do deserto. Sentou-se na posição do lótus, fechou os olhos e se recolheu em seu interior. Em breve, um fio dez luz da grossura de um barbante saia pelo alto de sua cabeça e desaparecia à distância de um palmo mais ou menos, como se algo o sugasse de súbito. Aquela luz, entretanto, não era visível aos olhos materiais. A estes, até seu corpo mergulhado nas sombras das dunas era de difícil visão.

Como Jesus falou com o Pai enquanto estava no escuro, sobre o topo de um morro que se acreditava assombrado pelo diabo? Ninguém sabe.

O Mestre gostava de meditar sentado na posição do lótus, o que era muito estranho para seus parentes e seus discípulos.

“Senhor do Tempo e do Espaço, Tu que a tudo criaste e dás vida desde tempos inimagináveis, eu te contemplo e me embeveço com Tua obra. E mais uma vez este Teu filho se ausenta deste momento de provação a que chamam Terra e busca tua vibração. Estás em mim como estás em qualquer ser humano filho de Tua Vontade e de Teus desígnios. Mas enquanto meus irmãos não despertam para tua maravilhosa presença neles, eu Te sinto e me extasio. O Equilíbrio desta Tua imensa criação, que pisca em fagulhas misteriosas sobre nossas cabeças, é o Milagre que todos não percebem e não compreendem. Não mais se necessita de outros, desde que se vê o que fizeste e manténs em funcionamento harmonioso pelo escuro do Espaço”.

Meu Pai, se a tanto me concedes, rogo que tenhas misericórdia pelos que, ainda no sonho da matéria, não conseguem Te sentir e erram fragorosamente para Contigo. São crianças. Tuas crianças. Não permitas que a Mão Pesada da Evolução desça sobre eles com força, pois poderão ser esmagados como formigas sem tempo para saber que Tu Existes e estás em cada um deles. Dá-lhes tempo, ó Pai. Sei que compreendes os erros que cometem e sei que Tua paciência é infinita, mas também sei que Tua Lei é implacável e não pode ser violada. E eles a violam inocentemente porque ainda não a compreendem. Nem de longe eles a compreendem. São Teus filhos e meus irmãos. Faz de mim um bom mensageiro de Tua Vontade, de Tua Sabedoria, pois em vendo como são cegos eu, muitas vezes, sou tomado de desânimo. Não me deixes cair, mas se eu cair, estende-me Tua poderosa mão e me ajudes a levantar. Ainda não sou forte o bastante para ser um verdadeiro Rei entre os Homens de Boa Vontade. Preciso de Ti, de Tua Força, de Tua Compreensão e de Teu Amor. E é assim que, cheio de necessidade, neste momento me dou a Ti de corpo e alma. Toma em mim e através de mim as dores e sofrimentos, os desesperos e desesperanças daqueles que, por serem pequenos, se aterrorizam por um sonho mau que é este momento de vida encarnada aqui na Terra. Então, quando todas as dores e todos os erros através de mim te forem levadas ao Conhecimento, e as tenhas compreendido com teu infinito Amor, perdoando seus autores e lhes dando mais tempo,  arrebata-me e me consola, pois sei que terei duras provas pela frente a fim de que se faça a Tua Vontade e não a minha. Seu Teu mensageiro; sou Teu filho, sou Teu”.

Ele podia viajar longe, além das galáxias, para um lugar inimaginável, pois era o mais evoluído de seu tempo.

Ele podia viajar longe, além das galáxias, para um lugar inimaginável, pois era o mais evoluído de seu tempo.

Yehoshua cessou sua oração e permaneceu quieto. De seus olhos grandes lágrimas desciam pela face, mas esta não espelhava dor, mas felicidade. Ele se sentia invadido por uma Força indescritível e se sentia O Senhor do Mundo. Ele compreendia que o Pai o tinha tomado para si e em si não encontrara erro nem pecado algum. Agora, ambos, Ele e o Criador eram um. Por isto, ausentou-se de tudo – do deserto, da noite, da Terra. E flutuou no Espaço retirando-se para onde ninguém o poderia seguir.

Imóvel, totalmente parado como se petrificado, sem respiração e com a pele gelada, seu corpo parecia estar morto. E talvez estivesse…

Deitada na tenda das mulheres, Míriam de Magdala dormia pesadamente. E em seu sonho ela via seu marido envolto numa luz dourada-azulada e ele vinha descendo de algum lugar no céu. Viu-lhe o rosto luminoso e viu que, sorrindo, ele lhe estendia a mão, convidando-a a também subir na nuvem onde ele pousava os pés descalços. Mas ela estava com medo. Sentia todo peso de seu corpo e negava-se a obedecer por medo de afundar na nuvem.

“Vem! Não tens peso. Quem pesa são teus apegos e tuas ilusões; teus sonhos materiais e teus medos. Mas eles são fantasmas. Não existem de verdade. Deixa-os e me segue, pois não quero ir-me sem ti. O Mundo vai ruir e todos afundarão com ele. É a Seleção do Senhor, onde os bons e santos serão retirados para segui-lo, enquanto os maus e pecadores permanecerão amargando a purgação de seus vícios. Não tens de fazer parte desta coorte de sofredores. Tem Fé!”

Assim foi a última cena que o pobre Zé Pigunço viu diante de si. Claro que sua fantasia exagerou a realidade.

O Medo cria fantasmas tão feios em nossa Mente quanto feio é o lobisomem.

Míriam de Magdala acordou sobressaltada e se virou tateando em busca de seu esposo. Mas não o encontrou a seu lado. Então, lembrou-se de que tinha brigado com ele e se pôs de pé, em agonia. Seu coração disparado acelerava pensamentos negativos em sua mente: “Meu Deus, bendito seja teu nome, o que aconteceu com meu marido? Por favor, não deixes que ele sofra nada de mau. Nós brigamos… Eu briguei com ele, mas meu amor por ele não diminuiu nem um grão de mostarda. Perdoa-me pela ira incontrolável que sofri e me atende, por piedade. Protege meu marido e me pune como quiseres. Eu não vou reclamar, prometo. Mas salva meu marido de qualquer perigo de que esteja ameaçado”

A visão é bela, mas a realidade é dura.

A visão é bela, mas a realidade é dura.

Míriam saiu correndo de dentro da tenda, sem se incomodar com aquelas em quem pisava e acordava. Lá fora, buscou com os olhos agoniados o vigia, que estava setado próximo a uma fogueira. Correu até ele e lhe perguntou se viu alguém saindo da barraca dos homens. O vigia olhou-a e a reconheceu como a judia esposa de Yehoshua. Então, estendendo o braço, indicou a parte baixa das dunas.

— Ele desceu para lá. Deve estar lá em baixo. Fazendo o quê, não sei. Lá só tem víboras, escorpiões e lacraias. Faz mais de três hora que ele está lá em baixo.

Agradecendo atropeladamente a informação, Míriam lançou-se pela duna abaixo, coração aos pulos. No negrume da noite vislumbrou um vulto que lhe pareceu estar sentado. Não hesitou e se atirou para ele, rezando uma bereka em agradecimento por tê-lo encontrado.

Quando chegou perto viu Yehoshua placidamente sentado, parecendo morto. Tocou-lhe o ombro direito, mas ele não reagiu. Ansiosa, ajoelhou-se diante dele e lhe chamou o nome num sussurro. Nada. Chamou mais alto. Nada. Gritou pelo nome do marido e deu-lhe um tapa na face. Desta vez Yehoshua abriu os olhos e a fitou.

— Por que me bateste? O que te fiz?

— Deste-me um susto, desgraçado! Estou desesperada à tua procura. E chego aqui e te encontro no mundo da Lua. O que diabos vieste fazer aqui em baixo, onde abundam escorpiões e outros animais peçonhentos? Queres-me deixar viúva antes do tempo?

Yehoshua soltou uma gargalhada e se desconcentrou. Pousando a mão no ombro de sua intempestiva esposa, falou.

— Míriam, Míriam. Onde está tua Fé? Eu não posso ser picado por insetos nem atacado por feras quando estou em meditação. Tu vais aprender a razão disto e, se refreares teu gênio intempestivo, aprenderás a fazer o que faço. Não há mistério, apenas treino e esforço. Agora, vamos voltar? Tu me tiraste não do mundo da Lua, mas de um lugar maravilhoso que, espero, um dia, ainda em vida terrena, tu também poderás visitar. E só então me compreenderás. Vem, vamos retornar às nossas tendas.

Em tendas assim eles passaram várias noites no deserto.

Em tendas assim eles passaram várias noites no deserto.

Abraçados eles retornaram às tendas. Míriam hesitava em ficar sozinha, mas o guia árabe era intransigente. Mulheres tinham de ficar na tenda para elas reservadas e não tinha conversa.

Dois dias depois chegaram ao primeiro oásis. Era grande e cheio de palmeiras ao redor. Encontraram lá acampadas duas caravanas que vinham da Líbia e de Marrocos. Armaram suas tendas separadas das demais, como era o costume entre os nômades, mas logo todos estavam ao redor da fogueira. Todos se tinham lavado e os hebreus haviam até  tomado banho, o que era muito estranho para os árabes nômades. Eles apenas lavavam as partes principais do corpo. A caravana que vinha da Líbia era a mais rica e tinha entre seus passageiros um alto dignitário religioso daquele povo, um Califa, que seguia a religião egípcia. Ele trazia um grande turbante de cor púrpura e confeccionado em lã de carneiro. Observando-o em toda a ostentação de sua riqueza, Míriam de Magdala se perguntava como é que ele aguentava o calor que aquilo devia fazer em seu cérebro. O homem tinha farta e espessa barba no rosto moreno. Seu olhar era altivo e penetrante e seus modos eram impositivos e mandões. Todos comiam e conversavam animadamente, menos ele. Comeu calado e sempre servido por um escravo solícito. Míriam notou que o homem sempre que podia lançava olhares furtivos para Yehoshua e isto a incomodou. O que estaria querendo aquele arrogante líbio com seu marido?

Em torno da água no meio da areia surgem muitas tamareiras.

Em torno da água no meio da areia surgem muitas tamareiras.

Quando o repasto terminou, o Califa se levantou e se encaminhou diretamente para onde Yehoshua se tinha retirado. Ele se encontrava sob uma frondosa palmeira em companhia de sua esposa. Estavam abraçados, cochichavam entre si e riam descontraídos. O Califa postou-se diante de Yehoshua e o cumprimentou com o característico gesto de tocar o coração, os lábios e a testa, murmurando “Que Alá esteja contigo”. Yehoshua pôs-se de pé e lhe correspondeu ao cumprimento com o mesmo gesto e dizendo “Que Ele se digne ouvir tuas preces”. 

O Califa sorriu de leve e pediu licença para sentar ao lado do casal, no que foi convidado por Yehoshua alegremente.

— Disseram-me — disse o homem mal se tinha acomodado — que tu és um rei. Isto é verdade?

— Não, não é.

— Então, por que tua gente me asseverou isto? Quem mo disse foi Thiago, que, segundo suas palavras, é teu irmão de sangue.

— Meu irmão disse isto porque temos descendência real e eu sou o primogênito. Mas ter descendência e ser rei são coisas diferentes, não achas?

O homem riu e concordou com um aceno efusivo de cabeça.

— Mesmo assim, se tens descendência direta de um rei, tu és nobre. E se és nobre, por que não vejo criados a teu serviço?

Yehoshua parou de sorrir e encarou o Califa. Então, falou com voz profunda e clara.

— Porque eu também sou um criado.

O Califa parou de rir e escrutou a face de Yehoshua. Estava muito sério e desconfiado. Entre seu povo, seria um absurdo que ele, um dignitário da mais alta estirpe, se confraternizasse com um criado, um plebeu. Esse que estava em sua frente, se realmente fosse um criado, mereceria umas cem chibatadas pelo atrevimento de lhe dirigir a palavra livremente.

— És um criado?! E quando este infortúnio te aconteceu? Como tu caíste tão baixo?

— Não caí. Ao contrário, fui elevado ao mais alto posto no Reino de Meu Pai — respondeu Yehoshua contendo o riso diante da expressão de incredulidade e dúvida que viu na face de seu visitante, o que não passou despercebido ao arguto olhar do Califa. No entanto, o homem não se mostrou agastado. 

— E no reino desse teu pai… Cai-se para cima, é? Pelo que me consta, um criado está no mesmo nível inferior do escravo. E muitas vezes até escravo ele é — Ironizou o Califa, com um riso de mofa.

— E eu sou escravo no Reino de Meu Pai — disse Yehoshua, também sorrindo.

Guerreiro Tuareg chamado de "homem azul" devido às vestes que sempre têm essa cor. Eram temidos em todo o Saara.

Guerreiro Tuareg chamado de “homem azul” devido às vestes que sempre têm essa cor. Eram temidos em todo o Saara.

O Califa se remexeu e desviou o olhar para as sombras das palmeiras banhadas pela luz do luar. Por um tempo permaneceu calado. Então, voltando a fitar o casal, falou.

 Sois do povo a que chamam de judeus, não?

— Sim, somos.

— E credes num Deus único, feroz, que castiga com tanto fervor quanto premia com o mesmo ardor… Não é?

— Por que mencionas nosso Deus? — Questionou Míriam, séria. O Califa acabara de mexer com seus brios religiosos. Yehoshua a olhou e sorriu um sorriso misterioso.

— Mas viajais na companhia dos famosos “homens azuis”. De que tendes medo? Não sois, por acaso, protegidos de vosso Deus? — O Califa inquiria, agora, com voz firme e olhar penetrante, fitando diretamente a face da jovem judia, que lhe devolveu o olhar de modo altivo.

— A Vontade de nosso Deus é inescrutável, líbio — rebateu Míriam, agora disposta a debater com o intruso que lhe caíra na antipatia. — Se é de Sua Excelsa vontade que viajemos em companhia de gentios, então, assim fazemos.

O Califa permaneceu calado. Então, apontando para uma palmeira ao longe, que estava cercada de outras menores, disse.

— Se teu Deus realmente é poderoso, então, que envolva aquelas palmeiras em chamas, como dizem que fez diante do legislador de vocês, conhecido como Moisés.

— Homem! Não podes desafiar o poder de Javé, bendito seja seu nome. Só por esta blasfêmia…

Imaginam alguns que a sarsa de Moisés se apresentou assim.

Imaginam alguns que a sarsa de Moisés se apresentou assim.

Uma explosão abafada e um clarão azulado envolveu a toceira de palmeiras. Do meio do clarão surgiram chispas de fogo e logo toda a touceira era consumida pelas chamas. Boquiaberta, mãos no peito, olhos desmesuradamente abertos, Míriam fixava aterrada o fogo que surgira do nada e queimava com fortes estalidos as palmeiras verdes. Ele a muito custo desviou os olhos do espetáculo assombroso e se voltou para olhar para seu esposo. Este, contudo, mirava o fogo com total indiferença. Embora sério, ele não disse nada e permaneceu quieto, vendo as palmeiras se consumirem. Outros árabes se aproximaram tecendo comentários sobre o que acontecia, mas Míriam não conhecia a língua em que falavam e não entendeu o que diziam. No entanto, percebeu, parva, que aqueles homens não pareciam nem um pouco assustados. Encaravam o acontecimento espantoso com a maior naturalidade. Talvez fossem tão atrasados que não tivessem a capacidade de alcançar o milagre que presenciavam

— Sim… — disse o Califa, sério e sem se voltar para Míriam — teu Deus, mulher, é verdadeiramente poderoso. No entanto, mulher, se eu invocasse Amen ou Rá para que fizessem isto, certamente que eles o conseguiriam também e com o mesmo efeito. Então, teu Deus Único não é tão único porque há outros capazes de realizar o mesmo feito que ele.

— Prova-o — disse Míriam com voz sufocada.

E o fogo que surgiu era azul e intenso...

E o fogo que surgiu era azul e intenso…

O Califa fixou seu olhar penetrante na face de Yehoshua o qual, no entanto, não fez nenhum movimento. Apenas sorria um sorriso misterioso. O Califa suspirou e apontou para outra toceira bem distante de onde a primeira pegara fogo. Então, erguendo as duas mãos, com voz forte invocou em koiné para que todos o entendessem:

— Amen, Senhor Criador de todas as coisas, Gerador de Rá, o Espírito Solar, nosso Senhor e nosso Pai na Terra, este humilde servo vos pede que demonstreis vosso poder diante do Poder de Javé. Se for de vosso agrado, que aquela touceira distante de onde estamos também pegue fogo. AGORA!

Nova explosão e, envolto em uma densa fumaça azul, chamas azuis subiram alto com um chiado estranho e assustador. Labaredas azuis envolveram toda a touceira de palmas e elas começaram a arder com espoucar de pau verde. O fogo azul permaneceu espalhando fumaça ao redor das palmas que se consumiam. Então, o fogo desapareceu e ficou apenas a touceira se consumindo. Todos se espantaram e olharam assustados para o Califa.

— Como vês, mulher, Amen, o Criador Egípcio de todas as coisas é tão poderoso quanto o vosso Javé. Não há um Deus apenas, mas vários. Vós estais errados em credes apenas em um único.

— Yehoshua… — disse Míriam, voltando-se para seu esposo. — O que dizes a isso? Pode haver mais de um Deus? Quem é esse Amen de que o líbio fala? Como pode ele ter tanto poder quanto Javé? Isto não consta do Pentateuco…

— Minha querida — falou Yehoshua pondo-se de pé e puxando-a pela mão. — Javé tem várias formas e se apresenta como lhe aprove. Ele é o senhor de todas as raças humanas e pode, perfeitamente, apresentar-se sob as mais diversas formas, sendo que Ele mesmo é um só. Não te espantes porque na fé do Califa líbio Seu santo nome é Amen. Se é assim que deseja ser conhecido pelos líbios, que seja. Agora, vem. Chega de espetáculos tristes.

O Califa também se pôs de pé e segurou o braço de Yehoshua, fitando-o nos olhos.

— És bem falante. Tiveste educação. Falas bem o árabe. Como conseguiste isto, se és um serviçal?

— Aprendi com amigos árabes na venda de meu pai, na Judéia. Ali muitos povos se encontravam sob nosso teto. 

— Venda?! Mas teu pai não é um rei? Ao menos foi isto que disseste — contrapôs o Califa, sério.

— Sim. Ele é o maior rei de todos os tempos. Não houve um que jamais o tivesse igualado e jamais haverá um que o iguale pelo futuro afora. Ele é o único. Ele é absoluto! — E o olhar de Yehoshua parecia penetrar a dura face do Califa que não se mostrou abalado por isto.

— Criado — disse o Califa com voz pesada —, conheço todas as dinastias desde Akenaton e te asseguro que jamais houve tal rei. Tu estás zombando de mim? Viste que Amen pode perfeitamente fazer o que o vosso Jeová faz…

— Que interessa o nome para o Inominado? Quem lhe conhece o verdadeiro, se é que tem um? Nomes só importam entre os homens, não entre os Espíritos. E se assim é para a espiritualidade, como não será para a Deidade? Vós, homens, vos apegais a detalhes sem importância, como nomes, descendências, ascendências, nações, raças e coisas que tais. Tudo isto desaparece quando os olhos do corpo se fecham. Então, pergunto-vos, não é mais importante voltar toda a energia mental e de vosso coração para o Alto, para Aquele que nos fez a todos, sem distinção, em vez de desgastá-la com coisas de somenos? Agora, nobre senhor, perdoai-nos que temos de nos deitar. A noite é curta diante do dia que teremos de enfrentar amanhã.

Levando a mão direita ao coração, aos lábios e à testa, Yehoshua disse: “Que o Incriado torne vossa noite repousante e vosso espírito mais iluminado do que já é”.

Respondendo ao augúrio, o Califa fez o mesmo gesto e murmurou.

— Que assim seja para convosco, ambos.

Naquela noite Míriam não conciliou o sono. Estava em brasa para comentar as maravilhas que vira, com sua nora e sua cunhada, mas as duas estavam pregadas e roncavam sonoramente ao lado.

No entanto, ela ainda viria a ouvir muito do Califa. A viagem era longa…