O Rio Jordão - águas contaminadas e venenosas que estão secando. O rio está morrendo por causa da ação do homem.

O Rio Jordão – águas contaminadas e venenosas que estão secando. O rio está morrendo por causa da ação do homem.

Meu velho amigo chegou sem pressa. Subiu a escada e se abancou em seu toco. Acendeu o cachimbo e esperou pelo café amargo. Tomou a xícara, agradeceu e acendeu seu pito. Não falou nada, o que me pôs alerta. Orozimbo calado daquele jeito não era bom. Ele pitou por quase uma hora totalmente calado. Durante este tempo tomou mais três xícaras de café bem quente e amargo. Só depois do cachimbo apagar pela quinta vez foi que ele desistiu de pitar e chamou por mim. Vim atendê-lo curioso.

— Vancê tem uvido os noticiáro?

— Tenho. E você?

— Bão, véi vai na casa da Tia Maria, qui ela tem TV, e assunta os tar de reporte falando cada coisa de pô a carapinha do véio de pé. Vancê viu eles mostrando qui a farta d’água vem crescendo nesse Brasil? Os reservatóro tão tudo seco, home. Inté o rio onde seu Jesus tomô banho e foi batizado tá tão finim qui dá pena. Tem lugá onde inté já secô.

— O rio Jordão não é problema nosso, Orozimbo. É problema lá dos jordanianos, dos palestinos e dos que vivem por lá — disse eu, sentando-me ao seu lado.

— Aí é qui vancê se ingana, home. Num é só lá qui a água tá iscassiando, nhor não. É no mundo todo, ora. E deste modo, nóis cá tombém tamo no sal grosso. Ou, pelo menos, já com os pé dentro dele.

Dei-lhe um tapinha no ombro e lhe disse, meio triste.

— Comentei isto com meu filho. Sabe qual foi a resposta?

— Não.

Hoje é a carcaça de um boi no leito seco de um rio. Amanhã serão nossas carcaças (www.blogbodoconanet.com)

Hoje é a carcaça de um boi no leito seco de um rio. Amanhã serão nossas carcaças (www.blogbodoconanet.com)

— Isto é periódico, pai. Acontece sempre desde que o mundo é mundo. E depois, voltou ao assunto que lhe interessava mais de perto – a intriga de um filme que víamos na TV. Não é só meu filho, não, Orozimbo. A juventude, entupida de tecnicismo e informações explicativas para tudo, não se preocupa com a Natureza. Tudo é “cíclico” e vai passar. Eles só não se dão conta de que o que é cíclico está-se tornando catastrófico por culpa dos homens. Mais precisamente, por culpa do Mercado. E sim, talvez passe. Mas durará quanto tempo? Milhões de anos? O que vai sobreviver à catástrofe? E como será a Terra quando tudo isto passar? Como será nossa agonia: lenta, dolorida, desesperadora, ou rápida, fulminante, com a queda de um meteoro como já aconteceu no passado? A Terra, como ficará? Um globo deserto como a Lua ou um planeta que se vai renovar todo, a partir do zero? Para a juventude isto não importa. Importa é o sexo à granel, mesmo com o perigo da AIDS e de outras doenças não menos danosas e perigosas; importa são as noitadas regadas a cerveja, cachaça e “muié”. Importa são as baladas com grandes ressacas no outro dia; importa é ir para os estádios de futebol trocar tapas entre si e apanhar da polícia; importa é ser preso e ver a cara de frustração do delegado, obrigado por Lei a libertá-los para que retornem à irresponsabilidade de sempre… É isto que parece que importa para uma parcela significativa de nossa juventude desorientada e desinformada.

O Buriti é uma palmeira que logo vai desaparecer. Ela só nasce onde há abundância de água.

O Buriti é uma palmeira que logo vai desaparecer. Ela só nasce onde há abundância de água.

— E apois, véi concorda cum vancê. Mas o qui vancê acha qui divia de sê feito pra diminuí o pirigo? Progunto pruqui a coisa tá preta. Aqui, no Centro-Oeste, os plantadô tão se arripiando de medo, num sabe? AS coieta tão tudo minguando nos pé. O prejuízo é de mião, home. E põe mião nisso!

— Mas a Dilma Rousseff apareceu na TV comemorando uma safra recorde, meu velho. Eu vi isto hoje, no Bom-Dia Brasil, da TV Globo. 

— Sei não… Ou ela tá mintindo, ou tão inganando a véia, pois o qui véi cunhece mermo é uma seca danada de ruim. As chuva num tão caindo onde divia, home. Chove nas cidade, arrasa cum tudo. Mas no campo, nécas. Num cai uma gota. E quando cai, é munto poca, num sabe? Num se aporveita nada.

— É, parece que as opções são essas mesmas. E como ninguém que chegue à Cadeira Quente é bobo, então, ela está mentindo mesmo. Aliás, a Mentira é o Vade-Mecum dos polititicas.

— Vai pra merda? Pru qui?

"Cara, o velho tá jogando merda no ventilador. Se a turma do emprego público toma consciência do que fizemos..."

“Cara, o velho tá jogando merda no ventilador. Se a turma do emprego público toma consciência do que fizemos…”

— Não, não. Não é vai à merda, meu velho. É Vade Mecum. Estas palavras latinas designam um volume específico da Advocacia. Nele se contêm as Leis comentadas pelos juristas. Aqui, no Brasil, sai um a cada 15 dias, pois as Leis mudam com a velocidade do vento. Agora, através de uma PEC, a Constituição foi alterada e acabaram com a garantia do emprego público. O Poder Público, agora, pode meter o pé na bunda do empregado concursado que não obedeça aos bandidos de colarinho branco. 

— Ah e é? Entonce, num há mais garantia? Num há mais a tar de istabilidade?

— Não. Acabou-se o que era doce.

— E sua fia? Ela é concursada, num é não?

— É. Mas já sabe que está correndo risco de levar um chute de qualquer polititica que se zangue com ela. É o Brasil. Aqui, em se plantando, tudo dá. Até prostituir a Constituição através das PEC, instrumento inventado pelos mesmos que a tinham aplaudido diante do povão burrão.

— Arre égua, home. Se lá de riba vem o castigo, aqui de baixo nasce a bandaiêra. Êta mundim safadim!

— Por isto, acho que o Grandão lá de cima perdeu a paciência e está retirando a coisa mais importante para a vida na Terra. A água. Ele deu, Ele toma. Está certo. 

Orozimbo ficou um tempo me olhando de cenho franzido. Então, levantou-se, coçou a cabeça e se foi com um seco “inté mais vê”.

Acho que não gostou de meu comentário…