O céu sobre minha cabeça parecia-se com o desta foto.

O céu sobre minha cabeça parecia-se com o desta foto.

Hoje, mais ou menos às 10 horas, a chuva deu uma trégua, mas o céu continuou carrancudo e ameaçando molhar tudo de novo. Mesmo assim, decidi sair com minha bicicleta para ir comprar frutas. O Verdurão fica a mais ou menos dois e meio quilômetros de minha casa e as ruas são ascendentes, razão pela qual em vez de caminhar até lá, prefiro ir de bicicleta. A ida foi bem, sem incidentes. A volta, no entanto, me guardava uma surpresa desagradável.

Goiânia já não fica devendo nada a qualquer capital brasileira. Esta cidade foi literalmente estuprada em sua ingenuidade e em seu modo de vida tipicamente goiano, pacato, honesto, calmo e bom de aqui se viver. A capital de Goiás já não é senão uma pálida sombre do que foi. Parece-se mais e mais com o Rio de Janeiro e São Paulo no quesito violência. Desde aquela, estúpida, no campo de futebol, com as torcidas animalescamente partindo uma para cima da outra, até àquela dos pés-de-chinelo escravos das drogas e que atacam em busca de dinheiro ou de qualquer coisa que possa ser transformado nisto.

Marconi Perillo está estranhamente apático, indiferente, quando a P.M. do Estado é acusada de agir coersivamente contra juízes federais. Por que?

“EEEEuuuu? Não, não. Eu não traí a Polícia Civil. Eles é que são apressadinhos…”

A Polícia Civil está em greve. O Governador traiu-a. Prometeu estudar suas reivindicações, mas ignorou solenemente a promessa feita. Nada anormal para um país onde os Polititicas pontificam e mandam e desmandam sem que o cidadão pacífico reaja.

Os policiais civis trabalham duro, arriscam suas vidas e ganham uma merreca que não é reajustada há dois ou mais anos. Eles têm todo o direito de lutar por suas sobrevivências, ainda que tendo de deixar os cidadãos goianienses à deriva e, com eles, este que vos escreve. Pois bem, a Polícia e o Governador estão numa queda de braços e o povo às favas. Mas isto é Brasil, não é mesmo?

 

No segundo bloco, assinalado com uma estrela azul, estava nosso apartamento. Atrás do edifício está um dos mais violentos morros do Rio.

No segundo bloco, assinalado com uma estrela azul, estava nosso apartamento. Atrás do edifício está um dos mais violentos morros do Rio.

O diabo é que vim para cá, para o interior do meu país, em busca de sossego, coisa que já não encontrava no Rio de Janeiro. Ali, como eu reagia aos assaltantes, coloquei minha família como alvo dos que viviam em um morro atrás do edifício onde nós morávamos, na rua Aristides Lobo (veja a foto), onde nós tínhamos nosso apartamento. E eu já andava caraminholando uma idéia. Conforme diz o ditado: “se Maomé não vai à montanha, a montanha vem a Maomé”. Ou seja: o chefe do morro não viria a mim, então, eu devia ir a ele. E minhas intenções eram as melhores possíveis: mandar o peste e quantos pudesse diretamente conversar com Satã, já que eram seus soldados, mesmo. Eu só tinha de pôr em prática o que havia aprendido no treinamento de quartel. Para mim, seria muito fácil chegar até o desgraçado, degolá-lo e, aproveitando a visita, sair matando quantos de seus soldados eu pudesse alcançar. Bandido, quando está em seu “bunker”, pensa que está a salvo. Ledo engano…

Bom, a rua Aristides Lobo é, agora, somente uma recordação em minha memória. Não creio que algum dia eu volte para lá. Então, vamos voltar para minha saída para fazer compras. Eu ainda estou sob a fascinação de minha bicicleta. Quem tem igual sabe a razão.

 

Esta moto é a preferida pelos pés-de-chinelos goianienses.

Esta moto é a preferida pelos pés-de-chinelos goianienses.

Eu vinha não pelo meu caminho habitual, a bem movimentada avenida por onde costumo andar. Vinha por uma rua lateral, pouco movimentada em certas horas do dia. Estava-me deliciando com o vento soprando minha camisa solta, quando uma moto se colocou ao meu lado. Havia dois rapazes nela e isto me pôs em alerta. Ambos tinham as viseiras abaixadas e os capacetes eram pretos e as viseiras, escuras. O que estava na garupa bateu na cinta e puxou a camisa, esticando-a. Vi, ali delineado, o cabo de uma arma. Ele, então, com gestos de mão me mandou parar. Obedeci, contrariado.

O motoqueiro parou a moto atravessada diante de minha bicicleta, obrigando-me a fazer uma semi-curva e ficar de lado para ele, a fim de evitar uma batida das máquinas, e o da garupa da moto apeou-se e se aproximou, colocando a mão no guidom da “Margarida”. Não gostei, mas me contive. Ele mantinha a mão sobre a camisa, no local presumível da arma. Eu maldosamente coloquei a bicicleta sobre seu tripé. Ele trava e só destrava se a pessoa souber onde está o local para isto. Passei a observar atentamente os dois sujeitos. Eram jovens e magros, mas mais altos que eu.

— O qui é isso aqui, vô? Não é moto  disse o que havia apeado. A fim de ficar com os dois a meu alcance, dei a volta à bicicleta e me coloquei entre ela e a moto. Como eu estava, a bicicleta se colocava entre mim e eles. Agora, rodeando a bike, eu ficava de frente para o incauto rapaz, que confiava piamente que sua arma me deteria e entre nós não havia nada. Ele se voltou para mim e tornou a repetir a pergunta.

— É uma bicicleta elétrica — disse eu, rindo.

— E quanto vale ela? — Perguntou o da moto.

— À vista, R$ 3.100,00, na loja. Por que? Vão comprar uma?

— Não. Vamos levar a sua — disse o que estava com a mão no guidom de minha bike.

— Eu o olhei, sempre sorrindo, e lhe disse:

— Não vão mesmo. É melhor que sigam o caminho de vocês e me deixem em paz.

— Sabe o que isso aqui? — E o rapaz bateu novamente na cinta, sobre a suposta arma.

— Sua cintura. Por que? — Eu estava irônico. Já sabia onde atacar ou para matar ou para danificar seriamente os coitados. Só dependia do que fizessem dali para a frente. Os tolos estavam ao alcance de minhas mãos e isto era perigo mortal para ambos. Pena que desconhecessem quem eu sou…

 

"Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós..."

Eles pensam que ter uma arma lhes garante superioridade…

— Não é minha cintura, vovô. É minha arma. Não banque o engraçadinho, senão vou ter de atirar. E falo sério.

— Bem, uma vez que você está sendo sincero, eu também vou falar sério. Monte na garupa da moto de seu amigo e vão embora. É muito melhor para a saúde dos dois, acredite em mim.

O garoto me ignorou e tentou retirar a “Margarida” de seu tripé. Não conseguiu. Tentou de novo. Novamente falhou. Zangado, ergueu-a a quinze centímetros do chão e bateu-a com força no solo. Isto me fez ficar sério.

— Ei! Não faça isto! Você pode quebrar minha bicicleta e não vou gostar disto, nem um pouco.

O rapaz se virou para mim, olhar fuzilante e levando a mão à cintura, por baixo da camisa. Bom, o tempo deles se esgotara. Minha mão direita acertou-lhe o pomo de Adão com muita força e de modo explosivo, de baixo para cima, o que o fez lançar a cabeça para trás com um gemido de dor. Antes que compreendesse o que lhe tinha acontecido, já seu companheiro também recebia, desta vez de minha mão esquerda, sua devida cutilada no pescoço e no mesmo ângulo. Pegado de surpresa e com a dor do ataque, o rapaz caiu com moto e tudo no chão, agarrando desesperadamente a garganta e estrebuchando de olhos esbugalhados. Eu me abaixei e apliquei uma pancada com o calcanhar da mão bem na testa do primeiro infeliz, pois era o que detinha a posse da suposta arma. Ele, que estava com a cabeça elevada do solo, foi atirado de costas violentamente no asfalto, onde bateu com a cabeça e ficou ali, engasgado, espumando e se contorcendo sem controle motor.

 

Esta pistola, privativa das Polícias e forças armadas, é comum nas mãos dos criminosos em todo o Brasil.

Esta pistola, privativa das Polícias e forças armadas, é comum nas mãos dos criminosos em todo o Brasil.

Meti a mão sob sua camisa e dali retirei a arma. Era de brinquedo. Parecia-se muito com uma pistola de verdade, mas era de brinquedo. “Desgraçado!” murmurei, surpreso. “Nem para perder a vida de modo decente ele serve”. Montei sobre ele e o sujiguei para que parasse de se debater. Ele já espumava pela boca e seus olhos estavam esgazeados. Com um movimento brusco recoloquei seu pomo de Adão de volta no lugar, o que lhe permitiu respirar, finalmente. E ele o fez com um ruído imoral. Saltei por cima da moto caída e também socorri o outro, que já estava ficando arroxeado, boca desmesuradamente aberta, babando feito boi no matadouro. Também lhe recoloquei o pomo de Adão de volta e ele pôde respirar com um ruído tão imoral quando o de seu companheiro.

Sem mais me incomodar com eles, tirei minha bicicleta do descanso, montei-a, acelerei-a e vim embora. Sabia que os dois iriam ficar muitos dias sem poder engolir senão sopa rala e água. E ainda assim, iriam sentir muita dor de garganta. E não poderiam falar nada, não podendo, assim, me “dedurar” para ninguém.

Só espero, para sorte deles, que não tentem me atacar de novo. Se vierem, que não errem o tiro, senão...