Nós escondemos em nosso íntimo verdadeiros furacões emocionais dos quais não temos coragem de  falar...

Nós escondemos em nosso íntimo verdadeiros furacões emocionais dos quais não temos coragem de falar…

Felício e Vera chegaram quando eu estava atarefado com a casa. Itroduzi-os na sala de estar e os deixei esperar que terminasse o que fazia. Então, vim sentar-me com eles.

— Que surpresa — disse eu —, pensei que se tinham mudado de cidade.

— Bom, é que a gente tem andado um tanto ocupado — disse Felício, com um sorriso amarelo. Aceitei a desculpa, embora sabendo que o motivo do desaparecimento do casal era outro.

A conversa versou sobre futilidades e superficialidades. Eu percebia que o casal não sabia como colocar a razão mesma de sua vinda a minha casa, mas deixei que se esforçassem para encontrar o meio de falar isto. O dilema era deles, não meu.

O "macaco pensante" ainda está às voltas no conhecer-se a si mesmo.

O “macaco pensante” ainda está às voltas no conhecer-se a si mesmo.

Então, a conversa caiu naquele vácuo chato, quando falta assunto. O silêncio se tornou incômodo, mas não fiz nada para aliviar a tensão. Felício voltou-se para mim e à queima-roupa me perguntou se eu gostava de Bruce Lee. Surpreso, respondi-lhe que tinha gostado muito de suas atuações cinematográficas e, de certo modo, sentia sua ausência nas telas.

— Ele era mesmo um lutador? — perguntou-me o rapaz. — Eu sempre achei que ele não fosse aquilo.

— E não era. Como você ou eu, Bruce Lee era tão-só uma pessoa que buscava, como dizia Alfred Adler, asceder de uma posição social menos para outra, mais. Este psicólogo americano diz, e eu concordo com ele, que nosso objetivo de vida é enfrentar desafios, sempre buscando ascender socialmente. Foi o que Lee fez durante toda sua vida nos EUA. 

— E na China? É verdade que ele procurou aprender kung-fu para se defender da agressividade de seus companheiros de escola?

Treino de wu-shu chinês.

Treino de wu-shu chinês.

— Primeiro, ele aprendeu wu-shu, não kung-fu. Kung-fu ele adquiriu com o estudo exaustivo da modalidade de luta que tinha aprendido com Yp Man. Kung-fu é conhecimento, não luta. Wu-shu, sim, quer dizer combate, luta. Segundo, eu não sou fanzoca de nenhum artista, meu amigo. Assim, não sei muito sobre nenhum deles. Por exemplo: gosto muito de Jack Chan e Jet Li, mas nada sei profundamente sobre nenhum deles. Como vivem,do que gostam, com quem se casaram, onde moram etc… não são de meu interesse.

— Então o senhor não gosta da pessoa do artista e, sim, de sua arte marcial, não é não? — Perguntou Vera.

— Creio que sua colocação foi perfeita, Vera. Eu gosto da Arte deles, não deles pessoalmente. Até porque nem sei quem são como pessoas e jamais virei a saber. Um dia morerão lá onde estiverem e eu morrerei aqui onde estou e nenhum de nós saberá jamais uns do outros.

— Por que esse seu desinteresse pela vida de pessoas que são personalidades internacionais? Afinal, o senhor também é lutador, não é?

Para mim, a mais bela, mais harmoniosa e mais elegante arte marcial é o aiki-dô.

Para mim, a mais bela, mais harmoniosa e mais elegante arte marcial é o aiki-dô.

— Não, Vera, eu não sou lutador. Nunca fiz um curso completo de combate em nenhuma arte marcial. Sei muito de muitas delas, mas não me dediquei a uma até o máximo possível, como, por exemplo, ser sétimo dan de qualquer coisa, pois, no meu íntimo, detesto luta, briga, combate, porrada de qualquer espécie.

— Nao parece. O senhor adora ver lutas em cinema ou na TV — disse Felício.

— Verdade. Embora não seja aficcionado por lutas, em minha vida estive sempre envolvido com elas. Desde cedo eu as conheci no pior dojô que há: a rua. Ali, não há regras senão uma única: sobreviver a qualquer preço e a qualquer custo.

— Até ode sei, Lee também conheceu a violência das ruas e foi por isto que ele procurou o wushu como defesa pessoal — disse Felício, — O senhor sabia que Lee era formado em Filosofia?

— Não. Como eu disse, não sou dado a pesquisar sobre a vida dos outros.

Ele não foi somente um lutador. Foi filósofo e ensinou sua arte através da Filosofia.

Ele não foi somente um lutador. Foi filósofo e ensinou sua arte através da Filosofia.

— Bruce Lee era graduado em Filosofia, pela Universidade de Washington. Entrou na universidade em 1961, aos 21 anos. Ele não se prendeu somente ao wing-shun, não. Aliás, ele dizia que a luta era apenas uma metáfora que usava para ensinar sua filosofia. Ele também não acreditava em Deus e era agnóstico.

— É… Vejo que você vai escrever um livro sobre o morto – disse eu, rindo.

— Não, ele não é um morto. Ele vive através de seus filmes e do que deixou como legado para os apreciadores das artes marciais. Criou um estilo próprio, onde incorporou o que de melhor encontrou em outras lutas, como o tai-jutsu japonês ou o aikijujutsu e o jiu-jitsu dos samurais. O senhor sabia disto?

— Eu só tinha conhecimento de que ele criara um estilo ao qual chamou de jet-kune-dô. Nunca soube nada sobre este estilo de combate. E nunca me interessei em saber. Luta não é minha praia.

Os dois ainda conversaram algumas abobrinhas e se foram. Fiquei com a sensação de que não tinham falado o que realmente lhes interessava

Nunca soube que algum deles tivesse interesse por Arte Marcial…