Assim foi o que viram os viajantes na companhia de Yehoshua.

Assim era  a paisagem que viram os viajantes na companhia de Yehoshua.

Era a última noite no deserto. O Califa sentou-se ao lado da família onde Yehoshua se encontrava em silêncio e todo atento ao que os outros falavam. Todos discutiam o que lhes tinha narrado Míriam de Magdala sobre o poder do deus egípcio. Também ele provocara um incêndio em uma moita e o fogo aparecera do nada. De súbito, com a invocação feita pelo Califa, o fogo misterioso surgira e consumira a moita verde que estalava forte. Discutiam-se as passagens do pentateuco, principalmente aquelas que diziam respeito às maravilhas feitas por Moisés. O Califa os ouvia em silêncio e observando que todos se tinham calado, quando ele se aproximara. Mas tão logo fôra aceito no grupo, voltaram a falar em koiné, discutindo sobre temas que ele mesmo conhecia muito bem. O Califa observou que Yehoshua se mantinha calado e sério. Riscava a areia com o indicador da mão esquerda e desenhava peixes que, em seguida, apagava.

Mitologia Bíblica: Moisés diante da sarsa ardente.

Mitologia Bíblica: Moisés diante da sarsa ardente.

Míriam, a mãe de Yehoshua, virou-se para o Califa e com voz desafiadora, falou.

— Onde aprendeste os truques com que desafiaste o Poder de Javé, bendito seja seu nome?

O Califa demorou um pouco para responder e em sua face havia um sorriso de mofa. Finalmente, olhando dentro dos olhos de Míriam, respondeu.

— Eu bebi da mesma fonte em que se abeberou o teu Moisés, mulher. 

— O que queres dizer com isto, árabe? — Perguntou Míriam de Magdala.

Moisés, como filho do Faraó, aprendeu os segredos da Magia Elemental conhecida pelos Flamens Dális.

Moisés, como filho do Faraó, aprendeu os segredos da Magia Elemental conhecida pelos Flamens Dális.

— Estive anos no Egito estudando onde teu Moisés também estudou. Aprendi o que ele aprendera com os Flâmen Dialis, os sacerdotes de Rá. E entre eles a Magia era muito auxiliada por conhecimentos não comuns aos mortais simples, como vós o sois.

Os familiares de Yehoshua se entreolharam e olharam para ele que, no entanto, continuava alheio ao que se dizia, sempre desenhando cuidadosamente peixes na areia, cheio de detalhes mínimos e aos quais desmanchava logo a seguir.

— Em vossos livros está escrito que quando Moisés retirou vosso povo do Egito, o Deus  que ele vos ensinou a temer os guiou pelo deserto. Fazia isto, à noite, apresentando-se como uma coluna de fogo que seguia à frente dos assustados escravos libertos pela bondade do Faraó. Mas vós nunca parastes para perguntar como é que o Criador do Tempo e do Espaço pôde se humilhar a tal ponto que se tornou servo de um bando de miseráveis que chegou às terras do Faraó vindos fugidos da Índia? Lá, mulher, vosso povo era menor que a menor casta de escravos. O Faraó vos acolheu com humanidade e piedade e vos permitiu, aos vossos antepassados, que pudésseis trabalhar e ganhar vosso sustento, não como escravos, mas como livres. Apenas vos negou a cidadania egípcia e isto foi suficiente para que vossos antepassados se revoltassem e, como cães, mordessem a mão que os tinha alimetado…

Thiago, o irmão de Yehoshua, saltou de pé e sacou de sua espada, mas o Califa não se abalou, pois quase imediatamente  uma dúzia de árabes aguerridos os cercou com suas afiadas e perigosas cimitarras.

Sem olhar para o estouvado rapaz, mas com o olhar fixo em Yehoshua que continuava alheio a tudo que acontecia ao seu redor, o Califa falou.

— Estúpido estouvado. Como pudeste pensar que me farias algum mal com tua insignificante espada? O que pode ela contra uma dúzia de cimitarras afiadas a meu serviço? Por que não fazes como o teu irmão que, reconhecendo sua condição de escravo, se mantém sabiamente silencioso diante de minha presença?

Pela primeira vez Yehoshua levantou a cabeça e olhou dentro dos olhos do arrogante Califa. Então, falou e sua voz soou clara como a luz do dia. 

No mito bíblico, os judeus foram escravizados para trabalhar nos monumentos do Faraó sob chicote, fome e sede.

No mito bíblico, os judeus foram escravizados para trabalhar nos monumentos do Faraó sob chicote, fome e sede.

— Não silencio diante de tua insignificante pessoa — disse, e sua voz ribombou como o trovão no escuro da noite. — Em nada és superior a qualquer outro ser humano sobre a face da terra. Tua arrogância até te faz menor que o menor dos escravos diante do Trono de nosso Pai. Então, não me metas em tua ridícula historieta de falso profeta.

O Califa pôs-se de pé num salto. Seus olhos faiscavam de raiva e ele mirou com olhar assassino a face raivosa de Yehoshua.

— Só por isto vais morrer! — Urrou o Califa, ordenando com um gesto de mão a execução a seus homens. Mas para surpresa de todos, nenhum deles conseguiu se mover de onde estava. Suas espadas continuavam paradas no ar, apontando para o peito de Thiago, mas nem um mínimo movimento indicava que seus donos tinham algum controle sobre elas.

— Nosso Pai, não somente meu, mas vosso também, não pode ser insultado como tu vens fazendo por toda esta viagem. Preparaste um ridículo espetáculo usando a pólvora para impressionar mentes tolas. Mas eu te digo que teus fogos de artifício não podem contra o verdadeiro Poder do Pai Eterno.

Yehosua afastou-se e abriu os braços, face voltada para o alto e olhos fechados. Então, de debaixo dos pés do assustado Califa uma chama brotou e logo um fogo amarelo-avermelhado o envolveu. O homem soltou um berro inumano e tentou correr, mas estava preso à areia sob seus pés. O fogo continuou a envolvê-lo, mas ele milagrosamente não se incendiou. As chamas mudaram de amerelo-avermelhadas para vermelho intenso. Então, Yehoshua abaixou os braços e as chamas desapareceram. O Califa estava todo urinado e todos lhe notaram as calças de seda molhadas. Mas ninguém riu nem fez troça, pois todos estavam assustados e boquiabertos. Os familiares de Yehoshua o olhavam assustados. Quem era aquele homem que, agora, ninguém reconhecia?

— Vistes, ó Califa, o fogo torturante de vossa alma quando deixardes este corpo vil e inútil. Esse fogo que não tocou vosso corpo mortal fará que vossa alma se contorça de dores e tormentos por muitos e muitos anos, até que finalmente fiqueis purgado de vossos defeitos infames. Agora, vade para vosso povo e procurai concertar vossos vícios baixos, mormente esse orgulho fútil que faz que penseis ser poderoso. Em verdade, em verdade, Califa, eu vos asseguro de que ninguém aqui neste mundo é superior ao verme que se move por debaixo da terra, ainda que todas as religiões humanas tentem convencer-vos do contrário. Todos os seres vivos que aqui vivem são feitos do mesmo barro. Assim como comeis a carne do crocodilo, também ele comeria a vossa, se oportunidade tivesse, sem que sofresse qualque dano por isto. A Natureza vos mostra a todo momento o quanto sois iguais a tudo o que vos cerca e, no entanto, vós criais ilusões em que acreditais estupidamente, para vos iludir-vos de que de alguma forma sois superior a vossos irmãos de formas corporais diferentes das vossas e, até mesmo, daqueles que, em corpo, se assemelham a vós. Mas não o sois, ó Califa. Vosso corpo em nada difere dos corpos dos que se deixam rebaixar para servir aos vossos desejos infames. Vade! Desaparecei de minhas vistas que me insultais com vossa presença asquerosa.

Tão logo cessou a fala irada de Yehoshua e os movimentos voltaram aos esbirros do orgulhoso Califa e a ele próprio. E isto foi suficiente para que se lançassem aos berros de terror em direção à caravana a que pertenciam.

Yehoshua permaneceu de pé, olhando-os com olhar de dó. Então, com um suspiro voltou-se para os seus e viu os olhares amedrontados que lhe dirigiam.

— Por que me olhais como se me vísseis pela primeira vez? Não tenho estado ao vosso lado desde que nasci? Não tenho comido convosco e trabalhado convosco como fazeis vós mesmos? Por que vos assustais comigo, se sois iguais a mim em tudo? A única diferença entre nós é que vossa fé é tíbia quão tíbia é a chama da lamparina que ilumina o interior dessa tenda. Não me entristeçais o coração mais do que já fez nosso irmão cego que corre feito coelho diante do que devia servir para fazer que caísse de joelhos e pedisse por sua própria alma, pois o Senhor dos Mundos não é o resposável pelo fogo que lhe fará sofrer a alma, quando se apartar de seu corpo mesquinho. O fogo que vistes é criação de seu próprio coração prenhe de orgulho e de arrogância estúpida. Cuidai, vós também, de não cultivar para vosso Espírito fogo semelhante ou pior do que  aquele que aqui vistes manifestar-se. O ódio, meus irmãos, o ódio ao vosso semelhante pode acender um fogo devastador tão pior do que aquele que a arrogância e prepotência acende nos Espíritos que as cultivam. Não odieis a ninguém sobre a Terra, ainda que seja justo que busqueis a punição para eles segundo as Leis humanas. Sem o saberdes, criais Leis que, ainda que de longe, muito se assemelham às que regem todos os Mundos e até o próprio Espaço. Leis que, em que pese seus defeitos, buscam cercear a estupidez da Matéria dominante sobre a beleza espiritual. Todos devemos lutar contra o domínio da matéria sobre o Espírito, pois, por forte que este seja, quando sob o reino material, torna-se fraco e adormecido.

Eu em nada me diferencio de vós, senão no meu esforço constante para manter a visão de meu Espírito sempre atenta e sempre alerta contra as ilusões deste mundo. Aqui nasci numa descendência real e me apraria sentar no trono de Israel, não para me tornar mais um tirano sobre a terra, mas sim para vos ensinar que a palavra não foi concedida ao homem à-toa e sim para que, por ela, ele realmente se mostre superior aos seus irmãos ainda animais. Por que gentios e judeus não percebem que todos têm fim? Que ninguém viverá para sempre neste corpo fraco feito totalmente do mesmo barro de que é feita a Terra? Em duzentos anos, quem de nós deste tempo estará ainda de pé? Eu vos digo: ninguém. Todos, gentios e judeus, estaremos dissolvidos em pó, pois nossos corpos são do pó e ao pó têm de retornar. Esta é a Lei e a esta Lei ninguém pode escapar. Agora, isolai-vos cada qual para seu lado e ide meditar em quão pequenos sois diante do Poder incomensurável d’Aquele que não teve princípio nem terá fim. Apaziguai vossos espíritos diante d’Ele, pois que, como pai amantíssimo que é, Ele vos estenderá sua Luz como se fossem braços carnais e vos envolverá em sua imensa serenidade. E ela vos inundará os Espiritos e os farão tão fortes como o meu próprio.

Dito isto, ele se afastou do grupo com passos lentos. Buscou a crista de uma duna e ali se sentou à luz da lua. Seus familiares permaneceram calados e se entreolhando atônitos. Quem era aquele homem que se reveleva de modo tão chocante diante deles?

Míriam de Magdala estendeu a mão para Míriam, a mãe, e puxou-a para que se erguesse. Em silêncio e de mãos dadas, as duas mulheres se encaminharam, seguidas por Ruth, a irmã de Yehoshua, em direção à sua figura serena, que se destacava da escuridão pela roupa branca banhada na luz do luar. Os homens preferiram ficar onde estavam. Mudos, ainda atônitos, mas sem a disposição das mulheres que iam para Yehoshua com determinação.

Na saavana ou no deserto eles sempre foram os reis dos animais.

Na saavana ou no deserto eles sempre foram os reis dos animais.

Quando ele as viu sentarem em silêncio próximas a si, abriu os olhos e perguntou:

— E os outros? Onde estão?

— Cremos que estão temerosos de ti, meu amado — respondeu Míriam, a esposa, com voz apaixonada. Yehoshua olhou-a e sorriu. Com a palma da mão bateu na areia a seu lado, convidando a esposa a vir sentar-se próxima a si. E quando esta, satisfeita, assim o fez, ele falou de novo.

— Assim serão homens e mulheres por muitos e muitos séculos. Eles me ouvirão, mas hesitarão em me seguir. As mulheres, ainda que não me compreendendo, me seguirão, pois são infinitamente mais esprituais e elevadas que eles.

Algures, longe, um esturro se fez ouvir. Eram leões caçando…