Paulo de Tarso sobre quem também se escrevem livros e mais livros, uns criticando, outros louvando sua criação.

Paulo de Tarso sobre quem também se escrevem livros e mais livros, uns criticando, outros louvando sua criação.

Felício me apareceu ao entardecer. Não vinha acompanhado de Vera, mas de um vigário novo, sorridente e de bochechas rechonchudas e vermelhas como quem bebe muito vinho. Recebi-os e me sentei com eles, curioso com o padre de batina e tudo em minha varanda. Aquilo era inusitado, deveras.

— Provavelmente o senhor está estranhando a presença de Pe. Eugênio, aqui, não é, doutor?

— Estou mesmo, não vou negar. Você me surpreendeu muito. O que desejam?

— Na verdade, senhor, eu sou quem quis vir aqui. Eu me formei em Psicologia e tenho o curso de Filosofia.

— E daí? — Perguntei, curioso.

Ele não foi um pastor, mas amava os animais.

Ele não foi um pastor, mas amava os animais.

— Tenho lido seus artigos sobre Yehoshua, nosso Senhor Jesus Cristo. E, sinceramente, eles me impressionaram muito. Há alguma coisa neles que ultrapassa o senso comum. De onde lhe vem a inspiração?

— Bom… Prefiro não dizer. Todo escritor tem seus segredos, não é?

Pe. Eugênio olhou desconsolado para Felício. Este sorriu e me disse que contara a Eugênio que eu lhe dissera que fazia desprendimento astral e quando isto acontecia, eu via as cenas que, depois, descrevia no blog.

— Desprendimento Astral… Isto existe mesmo? — Perguntou Eugênio, aproveitando a deixa de Felício. Confirmei com um aceno de cabeça, olhando censuroso para Felício. Eugênio notou meu olhar e se apressou a esclarecer.

Templo para Aquele que não queria ser adorado.

Templo para Aquele que não queria ser adorado.

—  A Igreja, doutor, já não é mais assim tão rígida nas questões espirituais. Eu fiz Psicologia e me interessei pela clínica no ramo da Terapia de Vidas Passadas. Este tem sido um assunto muito debatido pela Igreja. Admitir a ocorrência de vidas pregressas é admitir a reencarnação e a Igreja sempre defendeu a tese contrária. A tese sustentada pelos fariseus, que diziam que só se vivia uma única vez. Paulo de Tarso era fariseu e esta crença dos judeus passou ao cristianismo através dele. Como o senhor sabe, Paulo de Tarso foi o fundador da Igreja Cristã. 

— Eu sei de tudo isso, mas também sei que a Igreja Católica fecha questão no que diz respeito a seus dógmas obsoletos. E a vida única é um dos mais fortes deles. No entanto, o Espiritismo, ao menos no Brasil, tem quase um bilhão de exemplos de que a reencarnação realmente acontece. E sua explicação é bem lógica e, de certa forma, está concorde com o Budismo, o Taoísmo e a Teosofia. Eu mesmo tenho uma centena de acontecimentos que vivi e que comprovam sobejamente a vida depois da morte e a reencarnação. Logo, não posso nem de longe concordar com um dogma que está totalmente fora de qualquer contexto lógico.

Os dogmas são como este templo: pétreos, ainda que absurdos.

Os dogmas são como este templo: pétreos, ainda que absurdos.

— Eu também não aceito o dogma da vida única. E não aceito muitos outros, embora não pretenda fazer o que Felício fez, largar a batina. Pretendo lutar para que a Igreja seja menos rígida e aceite mudar seus dogmas, herança de tempos obscuros, quando imperava a ignorância entre as gentes. Como o senhor deve saber bem, toda doença inexplicável para os hebreus do tempo de Jesus era atribuída a espíritos malignos. Eles foram os maiores espíritas que o passado já nos deu. E entre essas doenças se destacavam as afecções psicossomáticas. Mas eu quero mesmo é conversar sobre Yehoshua com o senhor. Quando leio suas publicações, noto que o senhor o coloca entre o divino e o material. Não do modo forte como faz o Cristianismo. A mim me parece que seu Yehoshua é pintado como meio divino meio humano. Como aqueles semi-deuses gregos nascidos da cópula de Zeus ou Júpter com uma mulher comum, mortal. 

— É assim que o vejo. Escrevo tal e qual sonho no Astral.

— Sonha?! — Eugênio repetiu a palavra com entonação clara de quem pegava uma falha minha. Não me incomodei. Até gostei disto.

Todos fazemos externailização do corpo, chamada de Projeção Astral. Mas a maioria não tem cosciência disto.

Todos fazemos externalização do corpo, chamada de Projeção Astral. Mas a maioria não tem cosciência disto.

— A projeção Astral sempre me parece um sonho— disse eu olhando-o nos olhos. — Não acontece sob controle, mas de modo espontâneo e sempre quando deito para dormir. Geralmente ocorre quando me deito descansado e relaxado. Não sei quando começa, mas percebo que já não mais estou no meu corpo porque o cenário muda e tudo é muito sensorial. Sensorialmente intenso, rico em detalhes perceptivos. As cenas são tão vivas que eu sinto o  solo sob meus pés como se estivesse andando lá, junto com eles. E sinto o peso de meu corpo e o escorrer do tempo; sinto a temperatura, o vento, os odores e a variação da luminosidade de modo vivo e claro. Sinto toques em meu corpo e sinto quando toco o corpo de alguém, como num abraço ou num aperto de mão. E são tão vivas tais sensações que, quando desperto, ainda as tenho presentes em meus orgãos sensoriais.

— Não poderia ser efeito de um tumor em seu cérebro? Como o senhor sabe, tumores cerebrais nem sempre doem. Ao menos no início.

A pergunta de Eugênio me pegou de surpresa. Aquele era um enfoque para o qual eu jamais tinha tido minha atenção voltada. Sua colocação era muito inteligente  e muito séria, mas eu sabia que não se tratava disto.

Radiografia de tumor cerebral.

Radiografia de tumor cerebral.

— Sei bem o que acontece com tumores cerebrais. Mas não se trata disso. Tenho uma dezena de radiografias e de ultrassonografias de minha cabeça, graças aos exames para implante dentário, para averiguação de infecção dentária e para verificação de sinusite. Se alguma coisa houvesse, ali já teria sido detectado. Além disto, as sensações alteradas pela presença de tumores não são atuantes somente quando se dorme com determinadas condições físicas, como o relaxamento, nem ocorrem esporadicamente, mas acontecem durante as 24 horas do dia. Sentir cheiros ou ouvir sons ou enxergar cenas não existentes, em função de tumores; ou, ainda, ter sensações sensoriais de calor ou frio, de odores e de paladares estranhos, tudo isto acontece quando o indivíduo está desperto também. Comigo, tais sensações apenas ocorrem quando sonho e não sonho com muita freqüência, não. Assim, as sensações que ficam depois que retorno da Projeção Astral são anormalidades que não têm uma fonte neurológica. E não adianta levantar a hipótese de delírios paranóides. Eu estou longe de sofrer de esquizofrenia paranóide. Minha Identidade é fortemente Ciclotímica e tenho fraco, fraquíssimo traço de esquizoidia. Se desenvolvesse distúrbios psicológicos e emocionais eles tenderiam a ser do grupo dos psicóticos e creio que você sabe bem disto. Minha Identidade Ciclotímica me faz agir friamente em determinas situações de frustrações, mas de modo algum anulo minha reação emocional que, aliás, pode ser extremada, tanto para o amor quanto para o ódio. Tudo vai depender do nível de tensão a que seja submetido. Quando tenho algo eu zelo por este algo. E se amo algo, eu tenho forte sentido de posse sobre este algo – pessoas ou coisas. Os que sofrem de transtornos esquizóides, costumam ter dificuldade em expressar as suas emoções. Raras vezes manifestam raiva ou alegria; mostram-se frios e distantes. Reagem passivamente perante os acontecimentos mais significativos da sua vida. Eu não sou assim e nunca o fui. Sou extremista, mas altamente responsivo emocionalmente.

— O senhor chegou aonde eu desejava — disse o Pe. Eugênio entusiasticamente. — Seu Yehoshua não seria uma cópia imaginada de si mesmo? Perguntando de outra forma, como o senhor entende a Personalidade de Yehoshua… do seu Yehoshua?

Aquele do seu” falado com ênfase me clareou a intenção de Eugênio em vir à minha casa. Ele não estava se sentindo confortável com a figura de Yehoshua tal como eu a descrevia em meus artigos. Yehoshua era muito mais humano do que divino e como padre isto não podia ser aceito por ele. Mas sua abordagem não se voltava para a lenga-lenga religiosa e eu estava realmente adorando aquele debate.

— Eu nunca atentei para esse detalhe — disse eu. E depois de uma pausa, prossegui. — Nunca me passou pela cabeça escrutar sobre alguma hipótese a respeito do assunto abordando-o sob esse ângulo pelo qual você mo apresentou — reforcei minha resposta, já totalmente envolvido pelo papo inteligente de Eugênio. Ele não enveredava pela religião, mas tentava abordar o assunto através de um enfoque psicológico e isto me agradou e me envolveu totalmente.

— Esperem aí! — pediu Felício erguendo as mãos. — Vocês estão falando de coisas que não entendo bem. Que é personalidade esquizóide ou de traço esquizóide? O que é Identidade Ciclotímica? E o que tem Yehoshua, Nosso Senhor Jesus Cristo, com isso?

— Tem que estou tentando esclarecer muitas de minhas dúvidas com o doutor aqui — disse Eugênio, entusiasmado. — Como ele sabe, o Transtorno de Personalidade Esquizóide (TPE) é um transtorno que se caracteriza pela falta de interesse em relações sociais, por forte tendência ao isolamento e à introspecção, por manifestação de frieza emocional e, também, por uma rica e elaborada atividade imaginária interior. Indivíduos com traço marcante de esquizoidia em suas Personalidades têm tendência a uma rica vida interior, fantasiosa, imaginativa, e concomitantemente desinteressada pela vida exterior, ativa, interativa e participativa. Ainda quando os termos sejam parecidos, o transtorno de personalidade esquizóide não é o mesmo que esquizofrenia, mesmo que haja uma predominância maior de pessoas com este transtorno em famílias de esquizofrênicos e todos compartilhem características como distanciamento ou embotamento afetivo. Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiadamente forte em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente exterior, social e participativo. 

Já os de Personalidades com traço predominante de esquizoidia e que possuem traço de extroversividade também predominante, se envolvem mais intensamente com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes dos acontecimentos à sua volta. Necessitam mesmo de se proteger para não serem dominados pelos estímulos sociais e, ao contrário dos introvertidos, tendem a se alienar de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão voltados para o viver dos outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias para traçarem seu estatus quo no mundo. Eles perdem a capacidade de fazer isto com base em suas próprias deduções.

Ora, o doutor, aqui, pareceu-me ser do primeiro tipo: esquizóide introvertido. Sendo assim, tenderia a emprestar algumas de suas características à personalidade que imagina para Yehoshua… Projeção… Compensação…  O que o senhor acha de minha hipótese, doutor?

— Interessantíssima e “escolasticíssima”, meu caro Eugênio — disse eu, rindo da cara de bobo com que Felício nos olhava. — Mas não endosso sua hipótese, porque, como já disse, não tenho distúrbios do tipo esquizóide. Meu traço de Identidade Ciclotímica não me impõe desvios emocionais e comportamentais que me inclua entre os desequilibrados doentios esquizóides. Por outro lado, Yehoshua – não meu, mas ele mesmo – não é apresentado por mim com sintomas de distúrbios esquizoides nem com Identidade caracteristicamente ciclotímica. Se seu comportamento lhe pareceu de alguém que tem Identidade com traço esquizóide sugiro que reorganize sua análise. Ele é por demais social e por demais interessado na sua gente, bem como sente intensamente as desgualdades sociais de sua época. Isto não acoteceria se ele fosse marcadamente esquizóide, não acha? Yehoshua não me parece introvertido. Ao contrário, ele vive o tempo todo cercado quer de seus discípulos, quer das mulheres que o adoram e fazem de tudo para permanecer a seu lado. E é bem claro que ele ama intensamente sua esposa e tem, para com ela, cuidado especial. Claro que, vez por outra, ele foge do ajuntamento e do cerco que lhe fazem, mas qualquer líder necessita de um tempo para estar consigo mesmo, para descansar do assédio sem limite dos necessitados e desamparados. E em se tratando dele, é claro que precisa ausentar-se do viver comum mendicante e egoísta das gentes comuns, pois precisa encontrar com nosso Pai Celeste; precisa conversar com Ele tendo a certeza de que não é porque não lhe ouve a voz que não é ouvido e sustentado por Ele. Por toda a sua intensa interação com o povo e por todo seu interesse na situação política de sua nação de nascimento, ele não nos dá nenhum indício de que se possa considerá-lo uma Identidade Esquizóide. Yehoshua foi alto, muito alto, quase 1,90m de altura. E era bastante forte fisicamente. Isto lhe empresta as características temperamentais dos longilíneos cerebrotônicos, mas ao contrário do natural para este temperamento, ele se demonstrou intensamente extrovertido e social.

— O senhor não acha mesmo que seu Yehoshua tem personalidade esquizóide com forte traço introversivo, como creio que é a sua própria? Não me leve a mal por insistir, mas eu preciso deixar isto bem claro para mim. Seu Yehoshua mexeu profundamente com minhas convicções religiosas. Será que o Senhor Jesus Cristo era mais como o senhor o pinta e menos como Paulo de Tarso o descreve?

— Siceramente, eu nunca havia pensado nisto, até agora. E para falar a verdade, não conheço bem a história de Paulo de Tarso, senão aquela que me foi apresentada por Reza Aslam e que não fazem nada bem à imagem que dele sua Igreja criou. Quanto a Yehoshua, não o meu, mas aquele que foi ele mesmo, creio que sua Identidade é muito difícil de ser avaliada. Afinal, ele foi especial. Mesmo sendo homem, foi, de certo modo, um semi-deus para sua época. Tinha idéias milênios à frente de sua época e se comportava sinceramente imbuído de que podia fazer não somente seu povo avançar muito no tempo, mas também romanos e todos os povos com quem pudesse interagir na qualidade de Rei. Agora, se há alguma probabilidade de existir essa identidade que você supõe entre Ele e mim, então explica-se a razão de eu ir até aquele passado com tanta facilidade e ver o que vejo a respeito dele. É como se fôssemos irmãos gêmeos… Ele, então, abre para mim o que não abre para outros… O que você acha de minha hipótese?

— Que não há somente o senhor com esta característica de personalidade. Então, por que razão outros como o senhor não fazem tal desprendimento astral? Por que o senhor seria, digamos assim, privilegiado diante dele?

Ele gostava de todas as crianças, mesmo que tivessem 40 anos...

Ele gostava de todas as crianças, mesmo que tivessem 40 anos…

—Não creio que eu seja privilegiado, mas creio que meu intenso interesse em conhecer a vida que ele teve quando viveu aqui, encarnado entre nós, faz que surja uma forte vibração sintônica com sua vida, com seu passado. E isto, de algum modo que desconhecemos, me faz flutuar até aquele tempo… Você não sabe, mas a figura de Yehoshua dependurado na cruz, exangüe, jamais fez minha cabeça. Nunca o aceitei daquele jeito. Desde minha mais tenra idade eu nunca pude sentir nada em relação àquele ícone católico, senão asco e repulsa. Mas quando eu vi, aos cinco anos de idade, uma imagem dele de pé, vestindo branco, com um cordeiro ao seu lado e a cruz atrás envolta em uma luz branca; ele rindo, vitorioso e com expressão alegre, sem pés nem mãos feridos, aí, sim, eu o aceitei. Nunca pude engolir essa horrível idéia de curvar meus joelhos diante de um cadáver. Um cadáver que a Igreja de Paulo de Tarso faz que seus fiéis acreditem que são culpados pelo seu sangue derramado na cruz romana. Desculpe, padre, mas sua Igreja nunca foi e jamais será aceita por mim. E se quer saber, também não é aceita por Yehoshua, tenho certeza. 

Eugênio ficou pensativo por um tempo. Certamente que analisava minha hipótese sob o ângulo de seus questionamentos que, eu percebi, tinha uma motivação profunda com raízes em sua crença religiosa. Ele desejava demonstrar a qualquer custo que eu delirava ou coisa parecida. Percebi que “meu” Yehoshua lhe perturbava a crença católica.

— Sinceramente, doutor, eu nunca havia pensado nesta hipótese, mesmo porque ela foge ao escopo científico da Psicologia. Mas sabemos, sim, que ninguém nem nada existe separadamente, isoladamente no Universo. Tudo está, de alguma forma, energeticamente ligado e a própria Física nos demonstra isto. Então, sua hipótese tem alguma posibilidade de ser verídica.

Multiversos ou Universos Paralelos. Neles vivem cópias de nós, em tempos diferentes, iguais ou futuros, mas que reproduzem nossas vidas.

Multiversos ou Universos Paralelos. Neles vivem cópias de nós, em tempos diferentes, passados, iguais ou futuros, mas que reproduzem nossas vidas.

— E eu lhe ofereço outra hipótese para ser pensada. A Física já demonstrou cabalmente que existem milhões de Universos Paralelos. Neles, ou em muitos deles que se encontram dentro da órbita de nosso Sistema Solar, há cópias perfeitas de cada um de nós. Tais cópias ou estão vivendo vidas na mesma dimensão espaço-temporal que nós, aqui, ou estão vivendo vidas que correspondem ao nosso passado, ou estão vivendo vidas numa dimensão temporal que para nós corresponde ao nosso futuro. E entre estas cópias paralelas de nós, há aqueles indivíduos que vivem vidas com dimensão e direcionamento opostos àquela que vivemos, ainda que tais indivíduos sejam cópias perfeitas de nós mesmos. Assim, pode haver um Eugênio que, naquela dimensão, seja ateu, descrente e criminoso sexual, refletindo o que a psicanálise chama de inconsciente profundo, relativo ao Eugênio desta dimensão. E pode haver um Yehoshua que seja mau, criminoso, o reverso do que dizem ter vivido aqui, entre nós. E este Yehoshua pode estar num mundo paralelo no mesmo tempo em que vivemos. Juntamente com ele, mas em outro Universo Paralelo, pode haver um Yehoshua que é igual àquele que viveu entre nós, com suas características divinas ou não, totalmente iguais e também vivendo seu drama na dimensão temporal igual àquela em que nos encontramos, agora. Então, eis minha hipótese: em vez de eu ir ao passado nesta nossa realidade dimensional, pode ser que entre em tal Universo Paralelo e assista ali, o drama que em nossa dimensão aconteceu há mais de dois mil anos.

Eugênio me olhava com respiração opressa. Em seus olhos havia um brilho de excitação visível para quem o olhasse de frente. Ele acompanhava fascinado o que eu lhe falava.

— A propósito dos Universos paralelos, o senhor já escreveu em seu blog uma estranha aventura justamente neste campo. Eu me lembro de tê-lo lido.

— É. Eu vivi aquilo tão intensamente quanto vivo as experiências que narro sobre Yehoshua.

Padre Eugênio se levantou e andou de um lado para outro em minha varanda. Estava concentrado em seus pensamentos e parecia nem mais nos notar, a Felício e a mim. Então, parando diante de nós, disse:

— Vim cheio de razões e saio completamente aturdido. Acabo de perceber que penetrei num ambiente complexo, que tem muito a me oferecer e onde o senhor vive uma vida singular. Pemita-me que me vá, pois tenho muito que pensar, pesquisar e rever. Agradeço por me ter sido tão informativo, mas sinceramente, o senhor mais me confundiu que esclareceu.

— Psicólogos são para isto, senhor padre. Eles confundem mais do que esclarecem.

Ele riu e os dois se despediram e se foram. Eu sabia que ambos voltariam com mais e mais questionamentos.