Estou ficando craque em perder sono e no dia seguinte agir como se tivesse dormido.

Estou ficando craque em perder sono e no dia seguinte agir como se tivesse dormido.

Perdi o sono. Duas da manhã me levantei e fiquei zanzando pela casa feito um fantasma. O silêncio é tão profundo que meus sapinhos nos ouvidos estão à toda. Olho pela janela e vejo que chovisca. O tempo não está frio, mas também não faz calor. Os cães dormem no canil e não há nenhum ruído na rua deserta. Não estou com vontade de fazer nada. Então, consultei meu extrato bancário e levei aquele susto. Estou no vermelhão, diabos. E as contas para pagar estão no azulão. Assim, não dá. Agora é que o sono se foi mesmo. Nem um bandidinho safado para eu descarregar nele minha frustração…

Minha mente gira em torno de meus dois maiores dilemas atuais: implante dentário (que vai demorar um bocado, pois tenho, antes, que reorganizar os dentes que me sobraram, pois estão deitados e quase com as raízes de fora) e como solucionar meu dilema quanto à família.

O Amigo da Onça não o ajuda. Sempre que pode o afunda.

O Amigo da Onça não o ajuda. Sempre que pode o afunda (mande abrir o link em outra guia, usando o teclado do mause).

E aí eu me lembrei que certa vez eu estava numa situação parecida. Aliás, quase igual. E um “amigo” (entre parênteses porque o tal era e é mais amigo da onça do que meu) me disse que eu devia ter pensamento positivo; que eu era demasiado pessimista etc, etc, etc…

Se há uma coisa que eu nunca fui é pessimista. Mesmo no subsolo do fundo do poço não consigo não deixar de ver uma porta de saída. E vou atrás dela a qualquer custo. Só não sou afobado. Quando estou numa entaladela, como esta e outras que já se foram, fico frio e calculista. Dou um passo de cada vez, mas vou em frente, sempre. Eu me torno como um robô de aço. Fecho-me para qualquer coisa que me possa abalar em minhas convicções e minhas intenções e sigo em frente.

Todo Amigo da Onça tem um humor satânico, que ele pensa que é "fino".

Todo Amigo da Onça tem um humor satânico, que ele pensa que é “fino”.

Como é fácil para quem não está calçando o sapato apertado dar pitaco na vida da gente. O tal amigo da onça me deu de presente um dos muitos livros de auto-ajuda que podemos encontrar nas livrarias. Nele eu li uma porção de baboseiras. Coisas assim como “pense firme; pense forte; escolha um pensamento positivo e o fixe na sua mente. Repita-o para si mesmo várias vezes ao dia e blá-blá-blá”. 

Em primeiro lugar, pensar é minha praia. Em segundo lugar, detesto pensamento negativo. Quando algum deles tenta me atrapalhar o jogo, faço como o jogador de futebol: dou-lhe um chutaço e o mando lá pra arquibancada com bilhete só de ida. 

Não passei da primeira págna do livro que envelheceu trinta e cinco anos lá na prateleira de minha biblioteca e ainda se encontra por lá, entre os outros, perdido e esquecido.

Enfiar a cabeça num buraco, como faz a avestruz, não deixa ver a saída.

Enfiar a cabeça num buraco, como faz a avestruz, não deixa ver a saída.

Eu acho que se uma pessoa está diante de um dilema amargo, não tem que tentar fugir da reação emocional de tensão que isto lhe desperta. Não deve “meter a cabeça num buraco” buscando fugir à situação. Ao contrário, deve aceitar o dilema com todo o amargor e toda a tensão que traz consigo. Então, deve esfriar a mente e buscar analisá-lo com frieza, buscando os meios de que dispõe para encará-lo. Mesmo que tais meios sejam mínimos, acredite: nenhum dilema lhe vem maior do que você pode suportar. E como eu sou convicto de que estou aqui em Espírito para Aprender e me Superar, todo dilema eu encaro como uma lição de casa dada por um professor exigente. Como não posso abandonar a escola, só me resta encarar o desafio. Esse negócio de fórmulas feitas por outrem não cola comigo. Dar pitaco na vida dos outros é fácil. O difícil é assumir o compartilhamento daquele dilema para o que der e vier.

Pode ser que em algum lugar deste mundo chamado Terra haja quem tenha encontrado alguém que com ele compartilha sem espernear os amargores e desafios da vida, mas eu mesmo creio muito pouco em tal probabilidade. É como diz o “velho deitado: ” farinha pouca, meu pirão primeiro”. 

Nossos dilemas sempre nos parecem imensos Himalaias.

Nossos dilemas sempre nos parecem imensos Himalaias.

Muitas pessoas, quando têm de enfrentar um dilema que lhes parecem montanhas inescaláveis, entram em pânico. Tudo bem que se tenha ou medo ou ansiedade pela demora em se encontrar uma saída, mas não vai adiantar sentar sobre uma pedra e chorar. A pessoa tem de escalar a montanha. A vida não perdoa e não pára nunca. Eu sempre reajo pensando nas piores hipóteses possíveis que o dilema me pode trazer. Então, passo à segunda fase da elaboração, ou seja, verifico quais delas têm probabilidade de ocorrer comigo e porque aconteceriam. Então, avanço para a terceira fase, que é escalonar as piores hipóteses por grau de probabilidade. E fatalmente descubro que muitas de tais hipóteses são meros fantasmas. Abandono-as incontinente e passo a me centrar nas mais prováveis, que também busco colocar numa escala crescente. Então, começo meu trabalho de encontrar as pequenas equações para cada uma e vou avançando passo-a-passo, até eliminar as mais leves e ficar com as duas ou três realmente significativas. Aí, sim, é partir para a briga de foice, como se dizia lá no Piauí de meu tempo.

Houve um tempo, quando eu era mais jovem, que minha reação primeira era chutar o pau da barraca sem me importar com a lona e com quem estivesse debaixo dela. Mas aquele tempo passou. A velhice nos torna mais prudentes. Não sei se sábios, mas prudentes, sim. 

Às vezes a vida nos quer contorcionistas.

Às vezes a vida nos quer contorcionistas.

Trabalhei muitos anos em Organização e Métodos e aprendi que estabelecer metas é muito importante em qualquer setor de nossa vida, seja a profissional, seja a natural. Quem diz que se deve esquecer das metas nos momentos “negros” da vida é tolo. Eu concordo em que não devemos empregar toda nossa concentração no cumprimento de metas, pois isto pode fazer que nos tornemos rígidos e incapazes de modificá-las quando o dilema assim o exigir. Mas discordo dos que aconselham a não levá-las em conta.

Quando a gente trabalha em O&M (Organiação e Métodos) aprende que uma Empresa é um ser social vivo. E ela precisa fundamentalmente de traçar metas e buscar resultados no cumprimento de tais metas. Em O&M não se pode ser totalmente rígido com as metas estabelecidas, nem totalmente flexível com elas e é aí que está a “finesse” do bom profissional de O&M. 

Também aprendi que quando trabalhamos numa empresa de economia mista, em que o Estado possui a maior parte das ações, o elemento de O&M tem maior segurança e está mais protegido do inimigo público número um de qualquer empreendimento particular: o MERCADO.  Quando o Mercado domina, as empresas caem doentes. E na atualidade todas elas andam doentes, pois o Mercado se tornou um tirano que vive seco por LUCRO. Um objetivo que deve crescer sempre. NADA CRESCE INDEFINIDAMENTE e é aí que está a doença que o Mercado lança sobre suas escravas, as empresas particulares. 

Correr para quê? O mundo é redondo e você vai retornar ao ponto de partida.

Correr para quê? O mundo é redondo e você vai retornar ao ponto de partida.

Num dilema de vida também há um tirano similar ao Mercado: A PRESSA. As pessoas tendem a reagir com medo dos dilemas e muitas vivem buscando passar a vida “num mar de rosas”. Elas esquecem que as rosas têm espinhos… E quando um dilema lhe chega, entram em PRESSA de se livrar dele. A Pressa é uma senhora tirânica, que cobra tudo com rapidez e sem levar em conta que seus resultados podem liquidar com seu freguês, a pessoa. Então, quando você tiver de encarar um dilema grande, aja como o profissional de OM: pense primeiramente nas piores hipóteses. Coloque-as em gradação e vá eliminando as que são apenas “fantasmas”, ressonâncias de seus medos. Elas, as hipóteses fantasmas, lhe são úteis apenas para que avalie o grau em que a reação de Medo lhe domina o Ser. Nâo servem para que você encontre a saída do dilema que o aflige. Então, cumprida sua missão, jogue-as fora e vá em frente.

Como ir em frente? O ingrediente para isto é a MOTIVAÇÃO. Mantenha a motivação, pois sem ela você vai fracassar. Para isto, encontre as vantagens que há em vencer cada etapa do dilema que o desafia. Faça de tais vantagens a energia ou o estímulo prazeroso que deve instigá-lo a seguir em frente na busca dos desafios de etapas mais avançadas de seu dilema. Mas atenção: não veja tais vantagens como meios de se fazer projetar no meio social. Isto é ir direto para a derrota. A satisfação deve ser sua, somente sua. Nada de alardeá-la como um troféu. Preste atenção nisto: toda vitória lhe trará satisfação íntima e satisfação é SEXO. Você não pratica seu COITO publicamente, não é? Então, faça a mesma coisa com as outras áreas de prazer sexual que a vida lhe coloca. Guarde-as somente para si.

Tudo isto nada tem haver com Pensamento Positivo, mas tem tudo haver com ação positiva.

Então, voltando ao pricípio, não busque muletas nos livros de auto-ajuda. Muletas podem ajudar em algumas situações, mas são tremendamente cerceadoras da liberdade de ação. Livros de Auto-ajuda são muletas que alguém faz para ajudar os fracos e fracassados.

Não seja isto.

Acredite: você tem todas as condições para sair dos dilemas que a vida lhe coloca no caminho. Ninguém pode lhe dar tais condições, tanto quanto ninguém pode gozar seu gozo no leito.

Entendeu?

Ótimo, pois estou cansado e vou-me deitar até para descansar o corpo. Mesmo que o sono não venha (são 4:14 da madrugada), mas ao menos não vou amanhecer com aquela sensação de que acabei de sair de um dia de ordem unida no quartel.

Tchau.