Eu espero que em algum multiverso, ela e eu tenhamos sido felizes para sempre...

Eu espero que em algum multiverso, ela e eu tenhamos sido felizes para sempre…

Diz a Psicologia que a cor roxa é a cor predileta dos homossexuais. Bom, pode ser. Mas escolhi esta cor não porque seja homo, mas porque ela, no folclore nacional, lembra saudade (antigamente as igrejas e os carros fúnebres eram decorados com esta cor). E por que saudade? De quê?

Todos temos saudade de alguma coisa que foi boa, gostosa, mas que não desfrutamos por alguma razão que, agora, depois de anos decorridos, nos parece uma tremenda bobagem…

Neste momento, quando a chuva desce de mansinho e sussurra palavras de carinho ao telhado de minha casa, depois por ele escorre cantarolando um canto de saudade, uma recordação magoada me vem à lembrança…

Era sábado, mais ou menos 20 horas. Como era costume, a extinta MESBLA S/A, em Niterói oferecia uma festa para seus funcionários e familiares. Era um hábito muito saudável da empresa, em que pese seu acionista-mór ser um doidivanas irresponsável, tanto que levou a empresa à falência, anos depois (A Mesbla tinha quarenta diretores, o que tornava as decisões lentas. Em 1997, com dívidas superiores a um bilhão de reais, pediu concordata). Ah, sim, não mais me recordo o ano do sábado de que falo. Sei que foi há muito, muito tempo atrás. Acho que antes de 1960…

O trampolim de Icaraí. Neste dia, o mar estava de ressaca.

O trampolim de Icaraí. Neste dia, o mar estava de ressaca.

Niterói era uma gostosura de se morar. Não havia o entulhamento de automóveis infernizando o trânsito. Não havia assaltos, aliás, isto era coisa de cinema. Andava-se por suas ruas com a maior tranqüilidade e com o maior descuido de quem não sabe o que é perigo. Havia bondes e seus sininhos nostálgicos. E a Praia de Icaraí ainda tinha um trampolim meio inclinado bem em frente a ela. Eu saltei dele uma única vez e quase me dei mal. Caí no vácuo entre duas ondas e enfiei a cabeça na areia. Quase quebrei o pescoço. Foi a única experiência e foi dolorosa. Muito dolorosa. Aquele o trampolim ficou em minha recordação. Não sei mais se ainda existe. Creio que não. Era uma armadilha perigosa para os afoitos e incautos, como eu era.

Naquele sábado lá fomos nós, minha irmã e eu, para o baile costumeiro de sábado na Mesbla. Nenhum de nós trabalhava na empresa, mas uma amiga de minha irmã, sim. E nós éramos sempre seus convidados para o baile dos sábados. Puxo pelo memória e quase não me vem o nome da garota. Mas parece-me que era Carmem, mais conhecida como Carminha. Sim, acho que era este seu nome. Mas só a mana é capaz de dizê-lo com mais certeza. De qualquer modo, agora já não mais importa.

Naquela noite eu ia tenso…

Carminha era uma jovem garota, acho que tinha uns dezoito anos, se tanto, magra, pequena, “mignon”. Era minha parceira predileta para dançar. Seu corpo acompanhava o meu em qualquer movimento que eu fizesse. Ela não tinha peso. Nós saíamos pelo salão deslizando com suavidade, num abraço morno, onde seu cheiro gostoso me invadia o nariz. Seus cabelos eram castanhos-escuros e eram muito cheirosos.

Eu só entrava no salão de dança se Carminha estivesse presente. Não dançava com outra menina porque entre nós não havia aquela harmonia única que eu só encontrava com a Carmem.

Assim era o bonde que levava à Baia do Saco de São Francisco. Que tempos bons!

Assim era o bonde que levava à Baía do Saco de São Francisco. Que tempos bons!

Tudo ia bem. Eu, sofrendo de uma paixonite aguda por outra amiga de minha irmã, Marina, uma jovenzinha branca, olhos caramelados e narizinho arrebitado. Até àquele momento, eu não me havia decidido falar sobre meu sentimento por Marina. Eu era tremendamente tímido com mulheres. E pior, eu me achava o cara mais feio do Brasil. Primeiro, era nordestino e os cariocas e niteroienses tinham certo preconceito para com os nordestinos. Um, porque falavam “cantando”. Dois, porque tinham expressões “gozadas”, como a exclamação “ô xente!”. Três, porque na maioria eram baixinhos e enfezados. E eu era de baixa estatura (1,70 m) e “enfezado” (isto é, explosivo). Quatro, porque comíamos bofe de boi (pulmões do animal). Cinco, porque no Piauí comia-se muito a carne de bode. Tudo isto era motivo de chacotas que me chateavam e me faziam arredio com a maioria dos jovens de minha idade.

Naqueles idos eu era assim. Nesta foto, minha irmã e eu estávamos no Corcovado. Eu servia o Exército e aprendia a ser assassino treinado. Na época da MESBLA, eu ainda era inocente...

Naqueles idos eu era assim. Nesta foto, minha irmã e eu estávamos no Corcovado. Eu servia o Exército e aprendia a ser assassino treinado. Na época da MESBLA, eu ainda era inocente…

Além do complexo de nordestino no meio carioca, eu não gostava de minha figura. De calção, na praia, eu me achava uma coisa totalmente esquisita. Era fino de corpo, ainda que musculoso e possuidor de muita força física. Mas era esmirrado e não gostava de minha figura. Eu ainda não sabia que não era assim que as garotas me viam… Meu intelecto era o que mais as atraía. Eu era o professor da maioria das amigas de minha irmã que me conheciam. Carminha e a própria Marina eram exemplos. Sendo um tremendo CDF, eu era procurado com freqüência para dar aulas de reforço a muitas garotas. Algumas, eu percebia, não precisavam disto, mas insistiam muito em que eu as ensinasse. Havia uma, não amiga de minha irmã, que morava no final da praia do Saco de São Francisco. Sua casa era muito luxuosa, grande, confortável. Creio que era filha de uma médica… Não mais me recordo bem deste detalhe. Mas sei que sua casa era de gente rica. Seu pai era um abastado comerciante do Rio de Janeiro. A garota, acho que seu nome era Marta, também estudava no Liceu Niteroiense, como eu, e insistia muito em que eu lhe desse aulas de matemática, porque, dizia, ia mal na matéria. Fui à sua casa (de bonde) e comecei a dar as tais aulas. Logo percebi que a danada sabia a matéria e muito bem. Um dia, quando estávamos a sós e eu me concentrava em um problema de álgebra, ela se debruçou sobre a mesa e de surpresa me “tacou” um beijo na boa. Fiquei vermelho até à raiz dos cabelos e sumi de sua casa para nunca mais retornar… É, eu não sabia lidar com situações amorosas. Culpa de minha educação vitorina demais para a época e o lugar onde, agora, estava. Teresina vivia no século XIX, quando comparada à Niterói do Século XX.

Até eu sair do Colégio Niteroiense, Marta me perseguiu tenazmente…

Naquela noite daquele sábado, tudo tinha mudado para mim. Minha irmã, que sempre procurava bancar a cupido, me dissera que a Carminha estava apaixonada por mim. Ela já me havia batido a caixa com relação à Marina, mas como eu não agira, pensava que tinha desistido da garota. Agora, me colocava a Carmem nos braços. Diabos, por que ela tinha de me falar aquilo? Agora, tudo havia mudado em minha percepção e a ida à Mesbla não tinha mais aquele relaxamento de outrora. Eu ia tenso. Não sentia qualquer atração por Carmem. Gostava muito de dançar com ela porque nos acertávamos às mil maravilhas no salão, mas era só.

Eu gostava de dançar assim, agarradinho. Esse negócio de ficar no salão a se contorcer como lagartixa em arreia quente nunca foi comigo...

Eu gostava de dançar assim, agarradinho. Esse negócio de ficar no salão a se contorcer como lagartixa em arreia quente nunca foi comigo...

Entramos. O burburinho era o mesmo de outras noites, mas meu coração estava confrangido. Havia uma coisa comigo: eu não gostava de magoar as pessoas, principalmente as garotas que se mostravam interessadas em mim. Entre os colegas do Liceu eu ouvia comentários desairosos com relação a elas. Algo assim como mulher só gosta mesmo é da safadeza. Ou, então: mulher não ama de verdade. O que elas querem é o que a gata também gosta. Eu detestava aquele modo de alguém se referir às garotas. Pensava, comigo mesmo, que se nós, homens, tínhamos desejos sexuais, nada mais natural que elas também os tivessem. Não eram nossos complementos? Então, por que detratá-las por isto? Sempre fui feminista. Adoro as mulheres e fico sempre encantado com seus modos de ser. Não há uma igual à outra, mas são todas mulheres. E são hábeis, muito mais hábeis e mais ardilosas que os tolos garotos que pensam que são eles que conquistam. Nada disto. Eu já percebera que elas sabiam como ninguém manipular a situação de modo a levar o otário a acreditar que quem estava no comando era ele. Mas não era. O ambiente da conquista sempre foi e sempre será das mulheres.

Sua voz embalou muitos romances pelo mundo afora. Poucos tinham ou têm uma voz semelhante.

Sua voz embalou muitos romances pelo mundo afora. Poucos tinham ou têm uma voz semelhante.

Nat King Kole começou a cantar When I Fall In Love. Não ele, mas o vinil com sua voz. Eu parei junto à mesa onde Carmem nos esperava com olhos brilhantes de alegria. Minha irmã a cumprimentou com dois beijos nas faces e ela, mal retribuiu o cumprimento se pôs de pé e agitada, olhos fixos nos meus, disse: “É a nossa música. Vamos?”

Pela primeira vez eu ia tropeçando nos pés. Minha garganta estava seca. Eu tinha ao meu lado uma garota cujo coração batia forte de expectativa por mim. E eu não estava nem um pouco voltado para lhe dar um sinal que fosse que pudesse alimentar suas esperanças. Enlacei-a pela cintura e começamos a dançar no ritmo romântico e lento da voz maravilhosa do negrão americano.

When I give my heart, it will be completely…”  Carmem me apertou contra si, suspirou e deitou a cabeça em meu ombro, murmurando baixinho: “Quando eu entregar meu coração, eu o farei completamente”. A tradução tinha sido livre, e era uma mensagem direta para mim. Mas eu estava com a boca seca, uma leve dor na boca do estômago e sem saída, o que me desesperava. Eu não queria ferir-lhe os sentimentos. Girei bruscamente num movimento de voluteio no ritmo da música e continuei voluteando pelo salão, obrigando-a a se endireitar. Ele me olhou surpresa, mas sorriu, certamente interpretando tudo errado. Eu queria mesmo era cortar aquele elo quase mágico que ela tinha estabelecido entre nós dois.

A música cessou e eu a puxei para a mesa antes que a faixa seguinte começasse a ser tocada no vinil. Surpresa e decepcionada ela se deixou levar com leveza.

— O que foi? — Ela me perguntou, aflita.

— Eu quero ir ao banheiro — sussurrei-lhe ao ouvido, aproximando meu rosto de sua cabeça, como se lhe dissesse um segredo. Ela sorriu aliviada e levou a mão ao peito. Então, rindo, me disse que também queria ir à toilete. 

Ele também estava em todos os bailes românticos de minha época.

Ele também estava em todos os bailes românticos de minha época.

Naquela noite nós bailamos ao som de muitas canções românticas. Frank Sinatra atacou com Cheek to Cheek (“Heaven, I’m heaven, And my heart beats so that I can hardly speak, And I seem to find the happiness I seek, When we’re out together dancing cheek to cheek”).  Depois a orquestra “Românticos de Cuba” entrou em ação. E nós dançamos todas as músicas. Sempre abraçados, sempre unidos pela melodia. Aquele salão, vejo agora, ficou numa dimensão além da física. Uma dimensão imaterial, graças à ternura do abraço de Carmem nos meus braços…

Ela deslizava sobre nuvens. Eu mal a sentia no chão. Seus pezinhos eram hábeis e já haviam decorados até meus erros, fazendo que eles parecessem naturais à melodia. Vez por outra, Carmem afastava sua cabecinha de meu peito e me olhava com um olhar inflamado, cheio de promessas que eu burramente teimava em fingir que não compreendia.

Esta orquestra teria muito a falar, se soubesse de quantos sonhos fez jovens sonharem...

Esta orquestra teria muito a falar, se soubesse de quantos sonhos fez jovens sonharem…

As horas passavam devagar, as músicas se sucediam e nós dois dançávamos… e dançávamos… e dançávamos… Ela feliz. Eu, agoniado. Como lhe dizer “não” sem fazer que seus olhos vertessem lágrimas e seu coração se entristecesse? Carmem não merecia isto. De modo algum merecia que eu lhe quebrasse a esperança. Então, eu a abracei com força. Apertei-a contra meu peito e senti que ela estava feliz. E dançamos como “minha” Carmem gostava de dançar – sem parar. Ficaríamos dançado até o sol raiar, pois ela estava nas nuvens e, de olhos fechados, se deixava levar com leveza e ternura. “Besame mucho” tocou e ela acompanhou a letra toda cantando baixinho e colando seu corpo pequeno, ao meu…

Finalmente deu as 23 horas e o baile terminou. Meio decepcionada, ela me olhou com uma interrogação muda: “Por que?” Eu entendi, mas não lhe respondi. Apenas lhe dei um leve beijo na face e a levei pela mão de volta à mesa…

Depois daquele sábado não mais fui dançar no salão da Mesbla Niterói. Carmem reclamou minha ausência com minha irmã e, finalmente, desabafou: “Teu irmão não me quer, não é? Mas isto não é motivo para que não venha dançar. Eu gosto tanto de dançar com ele…

E o tempo escorreu inflexível. Outras e outras garotas vieram a mim e colaram seus corpos bonitos ao meu. Quatro me fizeram sofrer muito… Muito, mesmo. E a lembrança de Carmem foi empurrada para o fundo de meu coração… Eu pensava que a havia esquecido mas…

Ano passado, conversando com minha irmã ao telefone, perguntei sobre a menina que dançava comigo nos bailes da Mesbla. Ela me disse o nome que eu havia esquecido e me deu uma notícia que doeu fundo em mim. Carmem tinha morrida fazia tempo.

Minha irmã não pôde ver as duas lágrimas que me desceram pela face. Súbito, uma saudade magoada se fez em meu íntimo. Talvez a mesma saudade que eu a fiz sentir com meu desaparecimento do salão de baile sem uma explicação. Minha covardia não me permitira isto…

E eu me lembrei de uma música que é de minha terra e que sempre me faz subir um pranto que sufoco no peito porque não sei a razão de sua existência. Ela é de autoria de “Pena Branca”. Sua letra cabocla era assim cantada lá pelos idos de 1950:

“Sôdade, meu bem, sôdade,

“Sôdade de meu amô.

“Foi-s’imbora e num disse nada,

Nem uma carta deixô.

“Os óis da cobra verde,

“Hoje foi qui arreparei,

“Se arreparasse há mais tempo,

“Não amava a quem amei…

“Sôdade, meu bem, sôdade,

“Sôdade de meu amô…”

Onde você estiver, querida, receba deste velho um abraço de carinho e um pedido de perdão. Eu não a quis magoar, por isto eu a fiz sofrer sem querer… Mas, acredite, guardei comigo a dor daquela situação até hoje. Uma dor que saiu na forma de lágrimas, como as gotas de chuva que tamborilam no telhado de minha casa. Só que a chuva sussurra palavras de amor à telha, e as lágrimas me descem com uma recriminação silenciosa pelo que não dei a nós dois: uma chance. Apenas uma chance…