Velho Orozimbo chegou incafinfado com uma dúvida atroz.

Velho Orozimbo chegou incafinfado com uma dúvida atroz.

Meu velho amigo me chega cedo, no domingo. Estou atarefado fazendo um bolo de morango. Ele se abanca, acende seu pito, toma seu café amargo e fica a me olhar, meditativo. Estranho que ele não fale nada, mas não provoco o diálogo. Esquento o forno, preparo os ingredientes (3 ovos, uma colher de margarina, uma xícara de leite). Coloco tudo na batedeira e bato por uns dois minutos até que tudo se torne um. Então, acrescento a mistura para bolo (não digo o nome da marca para não fazer propaganda sem receber pagamento por isto) e torno a bater. Unto a forma quadrada com margarina, coloco uma cobertura bem leve de farinha de trigo, derramo a mistura na forma e levo ao forno. Pronto. Em 40 minutos ele estará pronto. Minha filha já está deitada esperando o bolo ficar pronto. Ela é uma formiguinha. Não pode ver doce.

Não chove, mas isto não quer dizer que em meia-hora ou um pouco mais não desabe aquele aguaceiro. O solo já está encharcado e Pedrito está mandando ver. Só que no lugar errado, uma pena…

Sento-me ao lado de meu velho amigo e lhe dou uma palmadinha no ombro, estimulando-o para que fale. E ele fala. E como fala!

— Ome, vancê sabia qui aqui no Goiás, as coisa acuntece diferente de cuma acuntece lá pras tuas banda de nascimento?

— Como assim, Orozimbo? — Pergunto, observando-lhe o semblante meditativo.

Em Goiânia, uma morte assim pode ser por encomenda de uma jovem "traída" ou "abandonada" por seu "amor".

Em Goiânia, uma morte assim pode ser por encomenda de uma jovem “traída” ou “abandonada” por seu “amor”.

— E apois. Aqui, quando um rapaiz termina um namôro a muié contrata um peste pistolero pra matá ele. E ele morre. Os bicho vem de dois numa moto, cerca o coitado e manda bala à vontade. E a muiezinha qui si dizia apaixonada ainda vai ao interro pra vê se o coitado num se alevanta. Se se alevantá do caixão é pruqui o serviço foi mar feito e ela manda outros atentato terminá o qui já fôra cumeçado. A danada num se incomoda de ir presa, pois a tar de Maria da Penha põe a bicha sorta novamente. É só ela levá duas safadinha cum ela pra prová que ela matô pra se defendê do otaro que batia nela todo dia. Os tar de Direitos Humano vem a favô da peste, pois, agora, ela é bandida e bandida tem direito a Direitos Humanos de bandido, né não? E apois. Pronto. Tá sortinha da sirva. Agora, lá nas tuas banda de nascimento, quando um cabra levava chifre, ficava danado. Sacava da peixeira (hoje é do trabuco), ia até a casa da dona e metia a faca no bucho da danada e tombém do peste que tinha metido chifre nele. E se tinha home na famia da atentada pra encará ele, a briga era bunita, num sabe? Saia faísca ou da peixeira ou do facão de mato.

As coisa andam torta mermo, home. Cuma já se viu uma coisa desta? Qui o macho mate a muié tá certo, nhor sim. Muié qui é de um home num deve se acostá cum otro qui é poca vergõia, num sabe? Muié só tem dereito a um macho e oia lá!

Eu caí na gargalhada e provoquei.

— Você está errado, meu velho. As mulheres deviam ter direito a pelo menos cinco machos cada uma.

— Cuma é qui é? — Exclamou Orozimbo de olhos arregalados. — Vancê inda pru riba me diz um besterona desta? Arre égua!

Muitas nunca chegam a descobrir a potência que são no leito...

Muitas nunca chegam a descobrir a potência que são no leito…

— Não se espante, não. Veja, uma mulher pode dar cabo de vinte pênis numa noite e ainda vai cozinhar o almoço, lavar e passar a roupa de toda a família e passear à noite toda faceira. Um homem mal e porcamente dá conta de uma mulher… Quando dá! Geralmente as coitadas ficam a ver navios, pois os otários chegam ao orgasmo tão rapidinho que até coelho fica de boca aberta de espanto.

— Mas é qui os coitado num sabe cuma fazê. É só insiná a eles e o jogo fica impate. Tu num vê os viado profissioná? O rabo deles aguenta piroca tar e quá o negóço das muié.

— E tem viado profisisonal? — Perguntei, rindo.

— Ora se tem, home. Artuzinho levô aquela taca de mim e tá de castigo pelo resto do mês. Apois num é qui véio pegô ele de zóio arregalado vendo a TV a cabo de um colega?

— Mas o que que tem o moleque ver TV a cabo, Orozimbo?

Cenas como esta, chocam sim. Não adianta querer esconder.

Cenas como esta, chocam sim. Não adianta querer esconder.

— Tem munta coisa, ora. Ele tava vendo um caná intitulado “Pra home”. E lá tinha dois sem-vergõia se chupando e se enrabando, ora se pode! Aquilo num é pra home, pois home qui é home num se abaixa tanto pra vê dois safados fazendo aquela imoralidade, ora. Dei uma taca de cinturão no peste do Arthur e avisei a ele: se se metê a besta de imitá aqueles aleijão, eu arranco as troxa dele a pexeira cega. Se as troxa num presta pro qui deve, entonce, num presta pra ficá no corpo do macho, ora bolas!

Os olhos de Orozimbo estavam esbugalhados de raiva. Sua boca estava crispada. Vi que era melhor maneirar na brincadeira, pois o velho virava o diabo em pessoa quando se tratava de relação sexual.

— Home, quando Olorum feiz a raça humana, ele só criô dois sechos: o macho e a femea. Num tem esse negóço de terceiro secho. Isto é coisa de sem-vergõia. 

— Ih, meu velho, você está atrasado — não resisti e provoquei. — Não são mais só três sexos, não. Agora, são mais de sete e a variação está crescendo cada ano mais.

— DANE-SE! — Urrou Orozimbo pondo-se de pé. — Criem as aberração qui quiserem, mas véio fica cum Olorum: só tem dois e pronto. O resto é aleijão e sem-vergõince. E se vancê inseste em falá destas coisas, véio vai imbora pra não lhe arrebentá no pé!

— Calma, meu amigo. Deixe seus pés no chão que eles foram feitos para isto, não para voar e quebrar cabeças por aí. A realidade que seu netinho e minhas netinhas vão enfrentar é muito mais feia do que a que você e eu enfrentamos. Eles vão viver num Brasil totalmente homossexual, graças aos esforços dos homo da TV Globo, que escrevem as telenovelas cheias de bichinhas desmunhecantes e totalmente boazinhas, certinhas, sabidinhas etc, etc, etc… A TV Globo tem uma força muito grande junto aos juízes e deputados e os “convence” a apoiar o gayismo a qualquer custo e contra tudo o que era defendido pelas nossas gerações. O mundo, agora, tem de ser dos homossexuais, dos bissexuais, dos trans-sexuais, dos viados, das sapatas e vai por aí. E o Brasil, em tudo o que não presta, sempre sai na frente e é difícil tomar-lhe o primeiro lugar no pódio.

Olha aqui, Orozimbo, do jeito como as coisas vão, no terreno sexual, nossos netos e netas vão-se tornar as aberrações perseguidas pelos desmunhecantes e simpatizantes. Eles terão de usar “sandálias de algodão” para fugir de “omens” e “mulheres”, se você me entende.

— Ora, home, se a coisa caminhá pra isso aí, entonce Orozimbo vai se dobrá de rir.

— Rir?! Por que?

— Quem vai fabricá os machos e as fêmeas para os bichas muié transviada e home transviado?

— As provetas, Orozimbo. As provetas dos laboratórios dos médicos geneticistas.

— Médico o quê?

— Geneticistas. Médicos que trabalham com os genes humanos, as letras de Deus ou Olorum, como você chama. Deus escreveu nos genes os seus dois tipos de sexos: macho e fêmea. Mas os homens inventaram mais de dez a partir daqueles dois. Quando faltar homens e mulheres verdadeiros, então, os geneticistas tratarão de fabricá-los em provetas, em laboratórios. E eles já vão sair sob encomenda para tal ou qual parelha homossexual.

Orozimbo arregalou os olhos, de espanto. Ele já ouvira alguma coisa para entender o que eu falava.

— Isso aí… Émermo possível?

— Orozimbo, vocêviu comigo o filme do Schwarzenegger, aquele fortão que fica grávido, não viu?

— Véio viu sim, mas aquilo era só cinema, não era?

— Por baixo de toda fantasia esconde-se um desejo, meu amigo. O fortão apenas colocou nas telas, às claras, o desejo de muitos homossexuais. Eles bem que gostariam de poder gestar um filho, mas isto não lhes é possível através da cópula natural. Então, que tal conseguir este feito através de uma ajudazinha da Medicina?

Orozimbose persignou-se  assustado. A idéia o espantava mais do que eu imaginava.

— Orozimbo— disse eu, apaziguador —, Olorum é incognoscível em seus desígnios, em Sua Vontade. Ninguém sabe o que ele pretende para cada segundo da humanidade como um todo ou para cada indivíduo isoladamente. Se a disseminação da homossexualidade se espalha pelo mundo todo com certeza é por Sua Vontade. Talvez nem esteja acontecendo um crescimento tão grande assim, em relação proporcional à História pregressa da humanidade. A diferença pode ser somente quanto à repressão social. Hoje, ninguém mais apedreja uma pessoa por ser homossexual. Nem se lhe negam direitos civis porque ela assim se define. E isto está certo, meu amigo. Homessexual é gente como você e eu. Só porque tem preferências esquisitas com relação à obtenção do prazer coital não significa que por isto perca seu direito ao título de Filho de Deus… Ou Filho de Olorum. Dizem os espíritas que qualquer espírito pode perfeitamente reencarnar na pele de um homossexual, assim como pode encarnar ora como homem, ora como mulher. Sei que seu Candomblé não trata deste assunto, mas esta crença vem desde há muito tempo, no passado mais longínquo da raça humana. Para o espírito não  faz diferença o sexo e, sim, as experiências que viver em cada um lhe proporciona. O espiritismo diz que a Maternidade foi a distinção maior que Olorum deu à mulher. Ao homem Ele só concedeu o direito de fecundar o ovócito no ventre feminino. Tudo o mais é o corpo da mulher que faz. E isto independente de sua vontade. Tanto assim é que a mulher, quando não deseja ter filhos, não pode abortar apenas porque deseja isso. Tem de contar com ajuda de terceiros. O ventre feminino, meu velho, é o laboratório de Olorum.

Evolutivamente, o sexo feminino está bem mais adiantado que o sexo masculino. Enquanto este só se volta para a violência como seu elã maior, a mulher se volta para o AMOR em primeiro lugar. Nenhuma mulher ensina seu filho a lutar. Nenhuma mulher ensina sua filha a matar sob quaisquer pretextos. A menos que esteja desviada da Senda através de um desequilíbrio psico-afetivo, o que já adentra outra área que não vou considerar aqui, neste momento. Por isto, porque o sexo feminino proporciona maior evolução ao Espírito, é que todos, sem exceção, têm de de vivenciar este sexo, está compreendendo?

— É, véio inté qui tá intendendo, num sabe? Mas o qui véio num intende é qui Olorum permita qui nasça home querendo sê muié e muié querendo sê home. Isto num tá certo, home.

— Vamos voltar ao Espiritismo, que é o mais próximo de sua crença, meu amigo. A homossexualidade, do ponto de vista Espírita, é uma condição de provação espiritual. E esta provação acontece pelo menos pelos seguintes motivos:

a) Um homem foi muito violento com as mulheres, tendo chegado a torturá-las ou mesmo matá-las desapiedadamente. Como você sabe, houve um tempo em que os religiosos afirmavam que as mulheres não tinham alma. Por isto, a elas não se reconheciam direitos quaisquer.

b) Um homem foi muito cruel com seus irmãos homossexuais, no passado. Chegou até a matar muitos deles. Não interessa a que título tenha cometido tais crimes. Mesmo que no seu tempo isto fosse aceito e perdoado pelas autoridades constituídas, na Lei do Carma ele errou terrivelmente.

c) Um homem não aceitou em nenhuma hipótese que um seu descendente direto fosse homossexual. Expulsou-o de casa e não lhe prestou qualquer assistência caridosa quando aquele seu parente se viu em atroz amargura social e espiritual.

Bom, fiquemos só com estas três situações, que valem para homens e mulheres. Todas essas situações são motivos para que o Espirito que era, por exemplo, masculino, tenha de nascer na condição homossexual. Nesta condição ele sofrerá as agruras que fez sofrer a seus irmãos espirituais. Assim, seu espírito aprenderá que o que vale não é a forma física, mas a CARIDADE naquele que presta serviço ao irmão em sofrimento. Ele até pode vir a ser socorrido por um dos Espíritos que, antes, vivendo como homossexual, ele maltratou.

O Espírito não aceita nascer feminino, por isto, nasce lutando contra seu corpo “errado”. Desde o Etérico sua vontade pode interferir com os processos hormonais que vai definir o sexo genital da entidade física que vai nascer do ventre da mulher. Este ser é do sexo feminino, mas o Espírito desce revoltado e querendo ser do sexo oposto. Eis aí um dos motivos pelos quais o Espiritismo explica a “aberração” psico-emocional. Você compreendeu?

— Sim, véio intendeu bem. Mas é difíce aceitá, num sabe? Por exempro: meu netim dá de virá a bandeja. Aí, véi num aceita isto de modo argum – e num vai aceitá mermo, pode stá certo. Só pur isso véi vai tê de nascê cuma uma coisa dessas, é?

— Não.

— Mas vancê dixe qui sim, indagorinha mermo. 

— Não. Você tem o direito de não aceitar a homossexualidade de seu neto, mas não tem o direito de lhe virar as costas quando e se ele vier a necessitar de sua ajuda. E eu sei que mesmo não aceitando a condição homossexual dele, se o Arthur vier a ser isto e estiver numa situação difícil, você correrá em seu socorro. Mesmo que depois volte a se afastar dele. O que vale muito mais que seu preconceito, que pode ter raízes em razões desconhecidas de seu passado evolutivo, é sua atitude caridosa, a qual lhe dá a garantia de que você não é mau com o homossexual. Apenas não o aceita. Talvez porque já passou pela dolorosa experiência e não mais necessite de revivê-la através de um parente, ou amigo, ou vizinho, que está obrigado a passar pela mesma experiência. Entendeu?

Orozimbo permaneceu calado, meditativo. E quando voltou a falar me surpreendeu.

— Entonce, véi pode pensá qui vancê já foi uma bicha? Sim, pruqui vancê num aceita os bichas, mas não ataca nenhum deles e até se dá bem com eles, desde que não se misturem com sua vida, com sua descendença.

Olhei-o surpreso, mas lhe respondi que sim, que possivelmente eu já teria passado pela experiência e que também possivelmente ela não me tenha sido nada prazerosa. De qualquer forma, se isto já me aconteceu, não tenho mais nenhuma razão carmática para me envolver com eles. Daí que não aceito qualquer envolvimento mais profundo com pessoas em tal situação. Certamente, se não retornei à experiência, eu aprendi a dura lição. Embora, hoje, não aceite a homossexualidade como está sendo encarada, como se fosse algo totalmente natural e opção de vida de alguém, isto não quer dizer que eu odeie os homossexuais. Não, não e não. Eu não os aceitar nas condições em que desejam viver – invadindo lares e tentando disseminar seu desequilíbrio espiritual para todos como se fosse algo natural – não significa que eu deseje que eles sejam atacados, feridos, reprimidos a ponto de nem poder deixar entrever o mal que sofrem. Isto seria desumano e um retrocesso em minha evolução. Que eles possam ser livres para se declararem, sim, devem ter este direito. Mas não se deve dar-lhes o direito absoluto e pleno que se dá a um casal hétero. Eles estão em provação dura. Têm de sair dela com seus próprios meios e com a ajuda de todos, mas não têm o direito de tentar impor seu modo estranho de vida como sendo “natural” e “desejável”. Por exemplo, no meu modo de entender, é execrável aceitar-se que eles se digam formar “casais” e terem o direito de “casar” na igreja sob aplausos e festa de amigos e afins. Casamento não é para PARELHA HOMOSSEXUAL, mas para CASAIS HETEROSSEXUAIS. Duas pessoas de mesmo sexo não formam casal, mas parelha. Não apoio a sociedade letrada aceitar que eles formem “casais” e tenham o direito de adotar crianças para educar. O que vai resultar disto? Por enquanto, é difícil saber, mas em mais dez ou vinte anos veremos no que isto vai dar. Que se aceite que vivam vida em comum, vá lá. Que a Lei dos homens lhes reconheça o direito a herança quando um deles vier a morrer, vá lá. Mas que tentem formar “família” adotando crianças para educar como filhos de dois seres fisicamente de mesmo sexo… Isto eu não aceito. Mas nem por isto agrediria qualquer parelha que, vivendo perto de mim, tivesse uma criança ou mais de uma a seus cuidados. Talvez aquela criança, carmicamente, mereça exatamente isto. Quem pode saber? Mas esteja certo, eu manteria e manterei toda distância possível deles.

Orozimbo permaneceu meditativo. Então, balançando a cabeça com descrédito, levantou-se, agradeceu a atenção, despediu-se e lá se foi com seu passo bamboleante de capoeira bem vivido. Meu velho amigo ainda não estava convencido…