A clínica dentária. Para chegar até aqui tenho de pegar dois ônibus e levo 3:40 min para vir e voltar à casa.

A clínica dentária. Para chegar até aqui tenho de pegar dois ônibus e levo 3 h e 40 min para vir de e voltar à casa.

Ontem, 10/03, tive de ir ao dentista. Ele fica relativamente distante, coisa de uns 28 km de onde moro. Não é muito para cidades como o Rio de Janeiro ou São Paulo, mas para aquela em que vivo, é. Mal construída e crescida desordenadamente, suas ruas são estreitas, cheias de curvas, cheias de buracos ou de remendos horríveis no asfalto, que mais deixam calombos do que consertam o piso. A condução pública é a mais vergonhosa do Brasil, graças à corrupção dos vereadores e à capacidade de corromper dos ex-Governadores e atual Governador, donos absolutos das empresas de ônibus e que não permitem de modo algum que aqui entre qualquer concorrente. Por tudo isto, a condução pública de Goiânia é uma MERDA com todas as letras maiúsculas. 

Tem chovido muito e até tem feito frio, coisa que se tornou raro no Centro-Oeste brasileiro. Mas ontem o Astro Rei decidiu que era sua vez e botou pra quebrar. Seus raios infravermelhos aqueceram danadamente a atmosfera, o asfalto e as paredes das construções. Goiânia não é de ter ventos nem brisas, de modo que, quando o Sol brilha todo mundo aqui em baixo torra.

Eu havia pedido o carro de minha filha emprestado, mas me arrependi. Goiânia não mais é uma cidade para se andar de automóvel. O engarrafamento não fica devendo nada àquele dos paulistanos. A irritação dos motoristas engarrafados sob um sol inclemente, onde o ar refrigerado do carro pouco ou nada adianta, também não fica devendo nada a nenhuns motoristas de outras capitais brasileiras. Aonde eu ia, na clínica dentária, a rua também é entupida, mas com sorte até que dá para encontrar uma vaga para se parar o carro. Aqui, ainda não se tem o mau hábito de estacionar em cima das calçadas, mas não vai demorar muito, não…

Final da Rua 7A, Setor Aeroporto (aqui não se diz bairro). Como se vê, é entupida de carro.

Final da Rua 7A, Setor Aeroporto (aqui não se diz bairro). Como se vê, é entupida de carro.

Minha filha me pediu que fosse até um seu colega, advogado, entregar-lhe uma documentação. O escritório dele fica em um prédio na rua 7A, setor Aeroporto, uma das ruas mais entupidas que há, pois ali só existem consultórios médicos e laboratórios clínicos. Eu me contrariei. Mas fui tentar a sorte. Não tive. Rodei, e rodei e rodei e perdi a paciência. Voltei com o carro para casa e retornei à cidade de ônibus. Um sufoco. Os ônibus são velhos, mais velhos que seus donos, o atual Governador Marconi Perillo e o Ex-Governador,Íris Rezende. A frota está caindo aos pedaços, é tremendamente barulhenta, os ônibus quebram a qualquer momento e o calor é de lascar. Mesmo assim, lá fui eu. Resumindo a ópera: andei 3 horas no sol quente. Quando, finalmente, cheguei à casa estava literalmente no bagaço. Passei a tarde com um cansaço impossível de descrever. Até respirar era difícil. Sonolência, corpo pesado, confusão mental – era dífícil pensar direito. Só queria deitar.

Meu aluno é sensei de karatê-dô e não consegue praticar o Tai-Chi sem misturar as duas artes. A mesma coisa que misturar água e óleo.

Meu aluno é sensei de karatê-dô e não consegue praticar o Tai-Chi sem misturar as duas artes. A mesma coisa que misturar água e óleo.

E recebo o telefonema de meu aluno, sensei de karatê-dô, muito preocupado com o estado de saúde psicoemocional de seu filho. Ele me pede ajuda. O caso é complicado, pois a história da criação do jovem adulto é terrível. O pai, por sua vez, péssimo sidai de Tai-Chi, está às voltas com excesso de carga YANG que faz seu corpo parecer um barril de chopp de tão inchado. Por duas vezes quase bateu as botas.

“A árvore que tem muitos frutos é a mais apedrejada à margem do caminho, meu filho”  — disse-me, certa vez, um Preto Velho de Umbanda, quando eu me lamuriei da quantidade de pessoas que me procuravam pedindo minha ajuda para aliviar suas dores ou consertar suas vidas. Ao que parece, ainda que velha, esta árvore continua dando frutos e ainda é muito apedrejada pelos famintos…

Eu encarei a Infantaria com galhardia e ela não me parecia pesada. Ah, juventude, como fazes falta...

Eu encarei a Infantaria com galhardia e ela não me parecia pesada. Ah, juventude, como fazes falta…

Levantei-me, hoje, sob a ressaca do cansaço de ontem e chateado comigo mesmo. Antigamente, no quartel, por exemplo, eu fazia marcha forçada de 40 km com uma carga de 45 quilos de equipamentos; e todo o trajeto da marcha era por dentro de mato, subindo e descendo morros sem direito a descanço. No final, ainda conseguia “pagar” 60 flexões, 60 polichinelos, 60 cangurus e terminar com uma corrida de mais ou menos mil metros. E tudo sob um sol quente de rachar, o sol do Estado do Rio.

Hoje, três horas sob o sol quente do Centro-Oeste, sem nenhum apetrecho maior que a roupa do corpo, eis que desabo totalmente desancado. E o que mais me chateia é a confusão mental. Quando excessivamente cansado perco tudo e não sei onde coloco nada. Esqueço das coisas mais comezinhas e fico dando voltas e mais voltas pela casa tentando lembrar-me do que eu necessitava inda agorinha mesmo.

O Golden se foi, mas restaram o Golden Labrador e a Rusk, suficentes para continuar a sujeira.

O Golden grandalhão se foi, mas restaram o Golden Labrador e a Rusk, suficentes para continuar a sujeira.

Estou desanimadamente sentado na varanda de minha casa olhando para minha bicicleta. Preciso levá-la à loja onde a comprei, pois ela não está sinalizando a carga total em sua bateria e isto pode causar danos na dita cuja. Mas cadê coragem? Estou como de ressaca do dia de ontem. Fui fazer duas compras por aqui pelos arredores. Fui na bicicleta. E o cansaço aumentou substancialmente. Preciso fazer o almoço e tenho a casa para varrer, comida dos cães para comprar e a limpeza do estacionamento que está lotado de pelo e terra que os pestes ali soltam, mas cadê coragem ou ânimo para tais coisas? Eu gostaria de me deitar, fechar os olhos e deixar o tempo se escoar. Não tenho vontade de falar com ninguém, mas a campainha toca e, sem me preocupar com quem seja (mesmo minha filha andar insistentemente me recomendando não abrir o portão sem verificar quem seja lá fora, pois há uma quadrilha que anda empregando velhinhas para conseguir a abertura da entrada da casa), pressiono o botão do controle e o portão desliza, abrindo-se.

Diante de meus olhos surge a figura de Vera. Suspiro desanimado. Do que menos preciso, agora, é de uma visita que me traga dilema.

Ela me cumprimenta efusivamente, olhos brilhantes de satisfação e se senta diante de mim. Eu a olho com olhar mortiço, de cansaço, mesmo.

— Desanimado, doutor?

— Muito. E cansado, também.

Ela permanece silenciosa e com um suspiro, pergunta se posso atendê-la amanhã. Hesito um bocado, mas me rendo ao cansaço e às obrigações que ainda me restam por fazer. Ela se vai e eu permaneço com o olhar perdido algures, no espaço diante de meus olhos.

O portão continua aberto por mais de trinta minutos. Na rua não passa nem um rato…

E ainda tenho de encarar o Leão… Ah, Estado, como tu massacras teus cidadãos em favor de ladrões de colarinho branco. Desde quando rendimento de aposentadoria é RENDA?

Só na cabeça dos polititicas nacionais brasileiros…