Nunca entrei num campo para assistir a uma partida de futebol. E nunca senti falta disto.

Nunca entrei num campo para assistir a uma partida de futebol. E nunca senti falta disto.

São 19:21h e eis que tenho Vera de volta. Meio sem jeito, ela pede licença para se sentar e conversar comigo. Veio só, mais uma vez. A coisa deve estar preta… Sento-me a seu lado, no sofá e me disponho a ouvi-la.

— Falta menos de cem dias para o evento do século  a Copa do Mundo de Futebol. Como o senhor está a respeito?

— Mais frio que gelo — respondo com um suspiro e complemento. — Creio que o mais ardoroso torcedor não vai dar aos petralhas o gosto de ter alucinados nos estádios esquecendo-se do que eles fizeram com o país e lhes oferecendo munição para o alongamento do seu tempo no Poder.

Gente como esses dois me fizeram ter asco à política e a polititicas.

Gente como esses dois me fizeram ter asco à política e a polititicas.

— O senhor não gosta mesmo do PT, não?

— Retificação: eu não gosto de nenhum partido político, mas o PT conseguiu ser dez vezes pior que o trio satânico.

— PMDB/PSDB/DEM?

— Hum-hum…

Ela suspirou e olhou para as unhas das mãos espalmadas sobre os joelhos.

— Se meus dilemas fossem os partidos políticos eu estaria feliz — disse, sem me olhar. Não comentei nada e permaneci na expectativa. Após um silêncio demorado, ela tornou a falar, sempre olhando as unhas das mãos sobre as pernas.

Eles são rapidinhos, mas elas não reclamam...

Eles são rapidinhos, mas elas não reclamam…

— Como fazer que meu noivo compreenda que ele é “coelhinho”?

— Coloque em suas mãos centenas de artigos médicos sobre isto. Leve-o à clínica de disfunção sexual… Há muitos meios. Por que veio-me fazer esta pergunta?

— Porque ele foi à clínica. Fez exames. Uma porção deles. Fisicamente, não há nada. Seu dilema é psicológico…

— E quem lhes garantiu isto?

— O sexologista que nos atendeu.

— Então, busquem ajuda junto a um profissional competente.

— Temos o senhor. Para que outro?

— Errado. Vocês não me têm. Eu não sou mais clínico e vocês dois sabem disto.

— Quem é rei jamais perde a majestade, mestre — desta vez ela me olhou nos olhos.

— Os reis envelhecem, ficam caducos e fazem muitas besteiras, minha jovem. Meu tempo passou.

— Sexo é energia… Bioenergia, não é?

— Sim. Tudo é energia. O sexo humano não poderia ser diferente.

— O senhor entende muito de energia… da libido… da bioenergética… do Chi.

— E daí?

— Pode ajudar-nos.

— Não, não posso. Não quero. Não devo. Esqueçam que me conheceram e vão à luta. Se vocês se amam, unam-se. Disfunção sexual não é dilema apenas de um, em um casal. É dilema dos dois.

Futuros castrados ou, pior, tarados.

Futuros castrados ou, pior, tarados.

— Mas em nosso caso, o dilema é dele. Acho que a vida e o treinamento religioso o castrou… se é que posso falar assim.

— Não deve. A Religião cristã, qualquer que seja seu ramo, é coibitiva e castradora da libido, sim. Mas tem tratamento. O que você não deve é falar isto diretamente a ele. Já é suficientemente angustioso saber disto intimamente e viver o conflito que ele certamente vive. Não lhe aponte o dedo. Afinal, ele ainda precisa e vai precisar por muito tempo da muleta que é a religião.

— Mas… E eu? Sinto que esta situação está-me colocando em dificuldades. Estou sofrendo de uma reação que me apavora.

— Qual?

— Eu percebo que ando raivosa contra ele. Explodo mesmo não querendo e nas mínimas coisas. Eu não consigo me segurar. E, tenho até vergonha de dizer isto, mas sinto uma satisfação satânica em ver como ele fica mortificado. Isto é normal?

— Não, não é. Mas é a reação mais comum, quando o corpo de uma pessoa se vê frustrado no coito. E seu corpo está frustrado. Mas não cabe direito a ele ser cego e mesquinho. O corpo de seu noivo também está frustrado. Ambos sofrem, compreende?

— O que o senhor pode fazer por nós… por mim?

— Nada. Já lhe disse isto. No entanto, e isto não é conselho, mas uma conversa franca, quero dizer que você não deve sobrecarregar sua mente com expectativa exagerada sobre o coito. Não vá para a cama já se sentindo tensa e antecipando o “fracasso” que virá.

— Mas o pior é que vem, doutor. Eu já vivi tanto esta experiência negativa que não tenho como evitar ir para a cama cheia de tensão.

—  Eu sei. Você sabe. Ele sabe. Mas você e ele estão agindo de modo desastrado. Toda vez que forem para o leito devem ir como crianças, entende? Uma criança nunca desiste do brinquedo só porque tentou uma ou algumas vezes e não obteve sucesso. O fracasso faz que ela se torne teimosa e tente cada vez mais…

— Doutor, coito não é brincadeira. É sério.

— Errado. Coito é a mais gostosa e a mais livre brincadeira que homens e mulheres podem ter em suas vidas. O leito é lugar de rir, de sentir prazer, de zombar um do outro livremente. Sem tensão, sem expectativa, sem…

— O senhor já brochou alguma vez com uma mulher?

Eu a olhei espantado pelo inopinado da pergunta e pela raiva que subjazia nela.

— Já. Várias vezes. E minha parceira e eu caíamos na gargalhada. Ela segurava meu pênis e dizia “morreu, o coitadinho”. Eu a acompanhava na gozação. Vera, nosso corpo não é escravo de nosso desejo. Já chega que seja serviçal de nossa Vontade. Mas ao menos no que lhe diz total respeito, ele deve ser livre. Deve ser respeitado. Se o pênis desarma e se recusa a voltar à atividade, dê-lhe um tempo. Façam outra coisa. Contem piada. Riam de algo. Se acariciem. Se beijem. Aproveitem para aprimorar os planos imediatos ou mediatos. Só não coloquem sobre a cama e entre vocês dois dilemas amargos, nos quais um dos dois vá se sentir mal. Aí, se isto acontece, a brincadeira azeda de vez e tudo acaba ali.

Ela ficou pensativa por um momento e, então, voltou à carga.

— Ensine-nos a relaxar, pois eu, só em pensar em me deitar com ele, já entro em terrível tensão. E fico seca. Totalmente seca, o que incomoda muito. Ele percebe isto e se agasta. Acha que eu estou-me recusando a ele. Como se a gente pudesse controlar estas reações fisiológicas…

— Não se trata apenas de reação fisiológica, Vera. O corpo tem sua vontade própria. O sexo é dele, totalmente dele. Você, enquanto ser social, não pode nem deve intrometer-se na sensorialidade que é território totalmente do corpo. O erro de todos é que colocam a mente no ato sensorial. Isto é errado. Mente não sente. Mente não cansa. Mente apenas engendra fantasias. Mente imagina, mas é só. Quem sente é o corpo. No quesito sensação ele é o Rei absoluto. Então, na cama, a dois, o território é dos dois corpos que se buscam. Quando a mente entra na brincadeira tudo azeda e acontece o fracasso. A Mente é como um Pai castrador, você me entende? A Mente julga, ajuíza, avalia, condena, censura, dita normas e impõe seus preconceitos de pode e não pode; de certo e errado. Isto é uma tortura para o corpo. Ele é um cavalo que deseja ser livre… Está-me compreendendo?

Ela permaneceu calada a me olhar com o cenho franzido. Estava difícil para si apreender o que eu lhe dizia.

— Estamos fazendo uma sessão psicoterapêutica? — Perguntou titubeante.

— Não. Estamos conversando.

— Bom, então, como posso ir para a cama sem expectativas? Livremente, conforme seu modo de colocar a coisa?

— Agora, vocês terão de ter uma ajudazinha profissional, coisa que não posso oferecer.

— Mas pode comentar… Não pode?

Ri. Ela não desistia facilmente.

— Posso. Vamos lá. Em primeiro lugar, lute contra sua Mente que já está viciada em se intrometer onde não deve. Libere seu corpo. Não deixe que ele seja guiado por expectativas nem boas, nem más. Apenas se dispa e se deite relaxadamente…

— Dizer é fácil, fazer é que são elas — murmurou ela, cética.

Quando o assunto é cama, elas não hesitam em lutar por si e pelo seu parceiro.

Quando o assunto é cama, elas não hesitam em lutar por si e pelo seu parceiro.

— Não é tão difícil. Você vai precisar da colaboração de seu noivo. Dispa-se e vá para a cama. Ele deve ir vestido. Você se deita e fecha os olhos. Procure não pensar em nada, principalmente nele. Enquanto isto, ele deve deslizar a mão direita pelo seu corpo, mantendo a outra segurando um de seus seios, mas sem apertá-lo nem boliná-lo. Apenas deixar que a mão repouse em seu seio.

— O que é isso? Libidinagem?

— Não. Toque. Toque sensorial. Não julgue. Não coloque conceito de valor no seu leito. Esqueceu-se?

— Oh, desculpe-me. Continue, por favor.

— Na medida em que a mão dele lhe acaricia a pele, deslizando suavemente sobre ela, acompanhe-a com a mente, mas não pense na mão nem no dono dela e, sim, observe a reação de seu corpo. A mão dele e ele mesmo não têm qualquer importância. Mão e ele são como se fossem um instrumento de prazer seu. Um instrumento que seu corpo utiliza para se excitar… Está-me compreendendo?

— Mais ou menos…

— Bom, vamos em frente. Ele deve deslizar a mão, suavemente, por todo seu corpo. Dos cabelos até a sola dos pés, passando ao lado de seu genital, pelas virilhas. Ele não deve tocar diretamente em sua genitália, está compreendendo? Isto é muito importante para vocês dois.

— Não sei se ele vai conseguir…

— Não julgue. Não crie expectativa. Vá fazer. Apenas faça, senão tudo vai dar errado.

— Bom… Vou tentar…

— Não tente. FAÇA. Ele deve deslizar a mão pela frente de seu corpo buscando tocar em todos os lugares, entende? Atrás das orelhas, entre os dedos da mão, na curva dos braços, na lateral do corpo desde a axila… Compreende? Ele não deve deixar de tocar nenhuma parte de seu corpo, exceto, no início, no seu clitóris. Isto é importante e você não tem que procurar incentivá-lo a fazer mais do que tocá-la, por maior que seja a excitação que sinta. Após um tempo, que você vai sinalizar liberando o corpo para que se contorça e solte gemidos baixos, ele pára, você vira de costas e ele volta a deslizar a mão sobre você, mas desta vez centrando-se apenas nas costas. Dos cabelos, passando pelas nádegas e indo até os pés. Suavemente, lentamente, ternamente. Você vai notar que este toque, ao contrário do outro, na frente de seu corpo, não a excita, mas a relaxa a ponto de toda a excitação desaparecer e uma sensação gostosa de bem-estar substituí-la…

— Caramba, doutor, o senhor tem certeza de que isso aí… funciona? Olhe que eu sou uma brasa viva na cama… 

— Não vá com qualquer expectativa. Apenas VÁ, entendeu? Não pense em mim nem no que eu estou dizendo. Seja como se fosse a primeira vez. Não há palavras dizendo isto ou aquilo e não há terceiros intrometendo-se no trabalho de vocês. Isto é demasiadamente importante… Após umas três vezes em que ele lhe excita pela frente do corpo e a acalma pelas costas, troque de posição. Agora, você se veste e ele se despe. E você faz o mesmo exercício com ele. Os homens são mais apressados e os que não têm o costume de se deixar tocar bloqueiam o corpo de modo a até sofrer um certo desconforto com o toque da mulher. Se isto acontecer com ele…

— Vai acontecer com certeza — cortou ela, pessimista.

— Pode ou não, Vera. Vocês nem tentaram e você já antevê fracasso?

Ela se encolheu e pediu desculpa.

— Como eu dizia, se isto acontecer com ele, parem o exercício. O corpo não pode associar desconforto com o toque. Não passem disto. Vão dormir…

— Eu não durmo quando estou excitada, doutor — protestou ela, amuada.

— Você não deverá estar excitada, mas totalmente relaxada com o toque dele em suas costas…

— Não vai dar certo. Ele é um desastre em tudo o que seja delicado. E é apressado demais… Talvez se o senhor quisesse nos dirigir…

Ela se calou, expectante e eu fiquei a olhá-la admirado. Ela simplesmente me pedia que fosse ao seu quarto, com ela e com seu noivo nus, e vê-los excitados. Não seria nada fácil para ele. Eu me lembrei dos experimentos de Master & Johnson. O livro deles tinha sido um dos que minha turma havia estudado a fundo, em terapia comportamental.

— E então…? — Perguntou ela, expectante.

— Eu… Não sei. Vou pensar, O.K.?

Ela se pôs de pé toda satisfeita. Despediu-se com um caloroso abraço e lá se foi serelepe.

Fiquei com a impressão de que ela tinha conseguido o que viera buscar…

As mulheres…