Esse exame é bem chato.

Esse exame é bem chato.

Fui ao otorrinolaringologista. Ele enfiou uma minicâmera pelas minhas narinas e foi até minha testa. Aquilo não doeu como eu pensei que doesse, mas causou um incômodo horrível e me desencadeou uma bruta crise de espirros. Não, definitivamente eu não estou com nenhuma infecção nos seios paranasais. Tenho, sim, um grande acúmulo de muco em função de reação alérgica e este, o motivo de minha coceira nos olhos. Também é a explicação para minha sensação de cansaço e desânimo. Não tenho febre nem mesmo ameaça, o que significa que não estou sob a ameaça mortal da tal “febre do feno”. Isto quer dizer que quando a seca chegar estes sintomas desaparecerão. Se não acontecer isto, então terei de apelar para o Astral. Vai ser difícil…

A melancolia abate a moral da pessoa e lança-a num precipício de tristeza e solidão perigoso.

Recordar é fugir para um lugar íntimo, só nosso, onde ninguém pode entrar…

A tarde corria quente e eu estava deitado ouvindo a música que encima este artigo. Ela me levou em uma viagem às recordações, terreno onde ninguém que não eu pode pisar. Muitos rostos, muitos sorrisos… Até os rostos de minhas irmãs de mistura com os de minhas filhas e de minhas ex-parceiras de caminho na vida.

Vera e Felício chegaram. Eu os recebi expectante. Os dois não estavam com boas caras. Convidei-os a sentar e me sentei diante deles, aguardando que falassem. Pelas expressões de suas faces vi que estavam-se debatendo no dilema crucial de suas vidas, neste momento.

— Não deu certo — disse Vera. — Nós tentamos, mas não deu certo. Juro, doutor, o que eu mais queria era fazer o Felício feliz…

— Isto não está ao alcance de suas mãos — disse eu, sério. O casal me olhou espantado e se entreolhou interrogativamente.

— O senhor está dizendo que eu não posso… não posso fazer meu noivo, feliz?

— Nem você a ele, nem ele a você. Ninguém a alguém faz feliz, minha cara. 

— Não entendi — disse Felício curvando-se para a frente, todo expectativa. — Acredito que o elã mais forte de duas pessoas enamoradas é justamente o desejo de tornar seu parceiro feliz. É o que nós nos queremos reciprocamente.

Permaneci calado, olhando-os meditativamente. Considerava se era hora de lhes atacar mais um dos conceitos errados em que todos os enamorados acreditam. Eu já vinha quebrando muita coisa dentro deles.

— Doutor! — Chamou Vera, impaciente. — O senhor pode-nos explicar o que quer dizer com isso?

— Você é capaz de sentir o orgasmo de seu homem? — A pergunta pegou-a totalmente desprevenida e ela corou até à raiz dos cabelos, mas respondeu com firmeza:

— Não. Claro que não. O orgasmo é dele e só ele o pode sentir, assim como o meu é meu e só eu posso senti-lo. E foi o senhor que nos chamou a atenção para isto e nos esclareceu o erro dos que acreditam que podem fazer o companheiro ou a companheira gozar. Cada um dos pares na cama goza porque se permite gozar e, não, porque o outro se esforça para conseguir isto. Se eu, por exemplo, não estiver a fim ou não gostar do companheiro que está ao meu lado, então, por mais que ele se esforce, meu corpo não quer gozar com ele e nós ambos ficamos a ver navios…

Ela parou e seu olhar me disse que um insight lhe tinha ocorrido.

— Então… Então… — Ela me olhou com ansiedade. — Acho que compreendi. A felicidade é de cada um e só de cada um. É um estado de espírito da pessoa e só ela pode senti-lo… é isto?

— É por aí — disse eu, com um suspiro.

— É por aí? O que o senhor quer dizer com isso? — Perguntou Felício.

— Nós temos o domínio de nossos estados de espírito e podemos estar em perene estado de felicidade, se assim quisermos. O diabo é que aprendemos a não querer isto. A Sociedade de Consumo nos condiciona a estar em permanente estado de carência e isto é péssimo no quesito Amor.

— Como aprendemos a não querer isto, esse estado de felicidade, se todo mundo quer a felicidade com unhas e dentes? — Questionou Vera.

O cão não dá felicidade ao gato e vice-versa. Mas ambos são felizes consigo mesmos e por isto podem conviver em paz.

O cão não dá felicidade ao gato e vice-versa. Mas ambos são felizes consigo mesmos e por isto podem conviver em paz.

— Querer não é poder, minha amiga. Poder é fazer. Não adianta querer a Felicidade. É preciso que a pessoa aprenda a construir seu Estado de Felicidade. Só assim se tornará alguém que é feliz. Yehoshua, o nosso Jesus, diz-se que andava pela Galiléia apenas com uma pequena trouxa na qual levava tudo o de que precisava: uma muda de roupa, um pente para o cabelo e a barba, uma pequena faca com que se barbear, um pedaço de sabão rústico, um par de chinelos e um cobertor. Isto era tudo o de que precisava para viver feliz e bem. Nunca teve mais que isto, de seu. No entanto, foi, é e continuará sendo sempre O Rei dos Reis. Não um Rei infeliz, ganancioso, desejoso de mais e mais riquezas e mais e mais conquistas. Ele tinha a Felicidade em si mesmo. Daí que não precisava de que outra pessoa o fizesse feliz.

— Mas ele foi casado com Maria de Magdala — disse Vera. — E se foi procurar por ela, é porque tinha necessidade de alguém que o completasse.

— Não a ele enquanto Ser Divino. Mas a ele enquanto homem comum. No entanto, não consta que Madalena se achasse dona da felicidade de seu marido. Ela, ao contrário, aprendia a ser feliz consigo mesma.

— Doutor, o que é a felicidade a dois, segundo seu modo de ver este assunto?

Vera sempre objetiva. Ela partia para os “finalmentes”. Era uma pessoa impaciente.

— Respeito e admiração mútuos em primeiro lugar e acima de qualquer paixão, por mais forte que o desejo nela presente se imponha aos sentidos físicos. A seguir, reconhecimento da total liberdade que cabe ao parceiro ou à parceira. Ninguém é dono de ninguém. Cada qual deve ter o direito de se dar segundo sua própria vontade íntima. 

— Mas isto é desamor — protestou Vera. — No meu ponto de vista é interesse, não amor.

— Por que?

— Ora, eu respeito, eu admiro, mas não me dou senão segundo meus interesses. Assim, eu deixo claro para meu parceiro que ele só me interessa quando atende minhas necessidades e não é assim que eu entendo o Amor. 

— Eu não disse isso — rebati, sério. — Eu disse que a Felicidade se baseia no respeito mútuo de um para com o outro. Além disto, é preciso que a pessoa descubra no outro capacidades que lhe despertem admiração, pois é a admiração que desperta o interesse e estimula a procura. Há um leque muito grande de predicados em uma pessoa e entre estes, haverá aquele ou aqueles que despertarão a admiração de alguém. E este alguém se sentirá atraído pela pessoa. A convivência comum irá sedimentar e solidificar a amizade que terminará por aumentar até que se transforme num desejo intenso de se dar por inteiro ao outro. Os predicados que atrairão alguém para outro quase sempre serão respostas a necessidades profundas e, muitas vezes, até mesmo causadoras de sofrimento naquele que se sente atraído. Alguém inicia a procura de outro por necessidade íntima, mas a convivência com esse outro e o modo dele se colocar na vida pode reforçar intensamente a admiração naquele que lhe buscou a companhia. 

— Então — disse Felício —, o que aquele que procurou deseja mesmo é apossar-se do predicado que o outro tem e ele, não.

— Pode até ocorrer isto, meu amigo. Mas as qualidades morais e éticas do procurado podem perfeitamente mudar o foco mesquinho do outro. A busca interesseira pode realmente mudar para um desejo de estar ao lado para aprender, para crescer, para se encontrar. O estar junto pode oferecer uma sensação de segurança que é fundamental para todo ser humano. Mas o vice-versa também ocorre. Aquele que tem predicados bons pode aproximar-se do carente movido por um sincero desejo de ajudar. E ao estar junto descobre que o outro tem um tesouro dentro de si. Um tesouro que ele não desconfiava, talvez apenas como potência. Então, o que é cheio de predicados se decide a estimular o outro a se descobrir e isto os aproxima de modo muito forte. A mútua doação e recepção é fundamental na relação amorosa. Sem isto, não há Amor, mas só Desejo. E o Desejo morre rápido.

— Voltando ao início — disse Vera — ninguém faz a ninguém feliz. A pessoa é feliz ou não é feliz por si mesma. Neste caso, mestre, quando alguém, como eu, imbuído de sincero desejo de ajudar o outro a se encontrar e ser feliz, se entrega a esse esforço, labora no nada, pois se o outro não possui sua própria felicidade não serei eu quem vai dá-la a ele. Não é?

— É. Exatamente assim — confirmei. Vera calou-se por um tempo, meditativa. Seu companheiro a olhava expectante.

— O Eu Interior de todos nós é inalcançável, Vera — disse Felício, por fim. — Nem você, nem eu, nem ninguém pode dar ao Eu de alguém o que quer que seja, se ele não estiver estimulado para receber aquilo que se lhe oferta.

— O seu Eu está estimulado para receber o que eu lhe quero dar? — Perguntou Vera, olhar duro fixado na face de seu companheiro.

— Eu creio que sim. Se assim não fosse, eu não estaria ao seu lado, com toda a certeza — respondeu Felício com tranqüilidade.

— Então, como é que…

— Espere! — Eu me intrometi. — Sua argumentação vai direto para o abismo. Não é assim que você deve raciocinar. O fato de o Eu profundo de Felício estar aberto para você só lhe exige que seja mais cuidadosa e respeitosa para com ele. Não é o Eu Interior dele que está com dificuldade, mas aquela casca poderosa que o envolve e que vocês dois conhecem sob o título de “Personalidade” e eu denomino “Identidade”. É crucial diferenciar um da outra. A segunda é cheia de defeitos e está permanentemente incompleta. O Eu Interior, não. Ele é Ele em qualquer lugar e tem de ser respeitado, ainda que a Identidade se manifeste no exterior como um mendigo ou dependente de droga.

Nunca ataque o Eu do outro, Vera. Ele não pode nem deve ser insultado, ou a resposta é imediata e fulminante. Ele se fecha para você e, como conseqüência, a “Identidade” doente não poderá receber qualquer ajuda sua.

A Identidade nunca se retira de um relacionamento. Ela é eterna dependente. Mas o Eu Interior, não. Quando ele conclui que o outro o insulta e não o merece, mata de imediato toda e qualquer admiração que porventura existisse nele pela Identidade da outra pessoa. E esta reação de negação não pode ser retificada. Não tem retorno. Portanto, refreie seu impulso de censurar o Eu de seu parceiro, a não ser que o deseje perder. Quem ama de verdade é paciente e sabe perdoar sempre. Como uma mãe de verdade e um pai de verdade, aquele que Ama sabe que pode esperar que o outro venha a aprender o que deseja que ele aprenda. Quem ama de verdade nunca aponta o dedo acusador para o outro. Ri e espera. Quem ama de verdade não procura dar felicidade ao outro, mas sim procura descobrir sua própria felicidade, pois ela se refletirá em suas palavras, no som de sua voz, no sorriso luminoso de sua face, na paciência infinita de sempre estar disposta a recomeçar e na bondade de perdoar sempre. Isto é Felicidade. Simples assim.

Vera permaneceu calada, olhos fitos no chão. Pensava. E pensava forte e muito. Era o que me dizia a expressão de seu corpo e de sua face. Então, súbito, sorriu e olhou com carinho para seu parceiro.

— Entendi. Meu Deus, era tão fácil. Estava bem diante de mim e eu não via. Perdoa-me, Felício. Eu estava cega de insegurança tola. Minha fantasia me fazia crer que você não me queria só porque tem dificuldade no ato de amor. Vou agir diferente. Vamos recomeçar tudo. Sei que podemos, não podemos?

Felício abriu um sorriso luminoso e a puxou para si, beijando-a carinhosamente na testa.

— Sempre — foi sua resposta emocionada.

Conversamos mais um tempo sobre assuntos diversos e eles, finalmente, se foram.

Fiquei com esperança de que finalmente, agora, a coisa entre eles se encaixasse.