Velho Orozimbo chegou  novamente incafinfado com outra dúvida atroz.

Velho Orozimbo chegou novamente incafinfado com outra dúvida atroz.

Orozimbo me chegou literalmente intrigado com o termo chulo. Mal se abancou (já vinha com o cachimbo aceso, coisa que não é normal nele) e já foi-me lançando a pergunta. Olhei-o de soslaio e lhe respondi: “nada”. Orozimbo me devolveu o olhar com outro, interrogativo e insistiu.

— Ora, vancê sabe tudo. Num venha dizê qui num sabe o qui é isto.

— Sei o que é. Mas você me perguntou o que é o termo, não foi?

— Foi.

— E então. Esse termo, chulo, não existe no nosso idioma. É gíria e da pior derivação…

— Derivação?— É. “Fodástico” deriva-se de foda. E foda, na gíria e no português da mais baixa ralé tem uma gama enorme de significados.

— Cruz credo, home. Esse palavrão qui meu netim anda falando vem disso aí, é?

— Ah, então, o que o preocupa é seu netinho falando o termo chulo, não é?

— Véi num sabe o qui é chulo, mas já ficô cuns cabelo im pé, se é qui cabelo de nego consegui esse milagre, só de sabê qui o palavrão é pió do qui imaginava.

— Não é um palavrão, meu velho. A rigor, “fodástico” não é palavrão. É um meio que os ignorantes do nosso idioma, por culpa mesmo dos professores, encontraram para se expressar. Veja você, minha filha é formada em Direito. Pelo correto, ela não devia nem mesmo pensar em termos semelhantes. No entanto, conversando comigo e querendo me transmitir a idéia de que os membros do Supremo Tribunal Federal são homens de grande saber jurídico e capazes de grandes feitos interpretativos nos seus julgamentos, ela me disse que eles eram “fodásticos”.

— Sua fia falô isso, é? — Boquiabriu-se o pobre velho.

Há, em nós, uma figura lendária: a do Quasímodo de Victor Hugo. Feio por fora, mas bonito por dentro.

Há, em nós, uma figura lendária: a do Quasímodo de Victor Hugo. Feio por fora, mas bonito por dentro.

— É. Quando a escola falha o povo cria. A comunicação verbal é imperativo entre nós, humanos. Se a Gramática, a boa e velha Gramática, não é levada a sério nem mesmo pelos professores que deviam ensiná-la, então, a juventude, por falta de conhecimento da língua que deviam ter aprendido a falar, inventam termos que sejam consonantes com seus sentimentos. Veja, quando um jovem quer enfatizar um acontecimento, ele diz naturalmente que aquilo foi “foda”. Eles dizem, por exemplo: “Cara, aquilo lá estava foda. O muquirana, cercado pelos meganhas, não deu mole. Mandou pipôco pra todo lado e acabou matando um meganha chulé”. Veja, o termo “muquirana” existe no português e designa uma mosca que atormenta tanto as pessoas quanto os animais. Mas no linguajar popular passou a designar pessoa lerda, tardo em apreender uma situação; um bobo, um tolo, um trouxa etc…  Todo mundo que é brasileiro e carioca entende perfeitamente o que ele está contando, pois todos adotaram o mesmo modo de comunicação. É assim que a língua, dita viva, se transforma. Não para melhor, mas para uma figura muito semelhante ao Quasímodo de Victor Hugo. 

— Quem são os dois aí?

A Notre-Dame ainda existe e é muito bonita. Ponto de romaria para turistas católicos.

A Notre-Dame ainda existe e é muito bonita. Ponto de romaria para turistas católicos.

— Victor Hugo foi um escritor francês que escreveu o livro “Notre-Dame de Paris” onde o sineiro, chamado Quasímodo, vivia. Quasímodo era corcunda e muito feio. Então, quando a gente quer dizer que algo é feio, aberrante, diz que é parecido com o Quasímodo e até o iguala ao pobre sineiro.

—Ah… — exclamou Orozimbo meio dubitativo. Ele nunca, antes, tinha ouvido nada a respeito das duas personagens, a fictícia e a real.

Fui buscar na internet uma foto do Quasímodo e lha mostrei. Ele ficou olhando para ela com o cenho franzido e a devolveu com um suspiro.

— Home, vá sê feio ansim lá nas profundas…

— É, meu amigo. Quasímodo é feio, sim. Mas é apenas na aparência externa. Ele foi um ser muito bom e superior a todos os de sua época. Um dia eu lhe conto a história.

— Tá bom. Mas vamo vortá pro tar de “fodástico”. Vancê acha qui meu netim merece um castigo pur tá usando esse negóço feio na linguage dele?

— E por que você o castigaria? 

— Pruqui ele tá usando palavrão, sô!

— “Fodástico”, eu já lhe disse, a rigor não é palavrão. É… bom, eu entendo este termo como um sintoma.

— Sintoma de quê? — Estranhou meu velho amigo.

Aqui já se fala um dialeto que poucos compreendem.

Aqui já se fala um dialeto que poucos compreendem.

— Sintoma do quão doente anda nossa língua, meu velho. Tão doente que os jovens estão criando termos esquisitos para poderem se comunicar. Os professores de Português não levam a sério o que ensinam e o resultado é isso aí. Então, creio que você deve explicar ao Arturzinho que não deve usar esse termo chulo em qualquer lugar. Explique que em vez de dizer “fodástico” ele deve dizer, por exemplo, espetacular, grandioso, sábio, admirável, impressionante etc… Nem sempre um puxão de orelha ou uma relhada educa, Orozimbo. A pessoa tem de ter consciência da razão de estar sendo punida, senão a punição só trará como resultado, revolta naquele que recebe o castigo.

Orozimbo ficou calado, reflexivo. Então, pondo-se de pé com um profundo suspiro, despediu-se dizendo:

— O véio aqui sou eu, mas o professô é vancê. Munto obrigado. Eu caji bati no muleque pur causa disto. Inda bem qui vim aqui premero. Véio tá mermo percisando aprendê cuma falá na língua dos jove, num é não?

 E rindo, lá se foi ele todo feliz porque não tinha castigado seu netinho.