Esta carantonha medonha subsiste em nosso consciente coletivo.

Esta carantonha medonha subsiste em nosso consciente coletivo.

Durante milênios… Eras mesmo, não tivemos qualquer consciência sobre nós. Apenas éramos alguma coisa como qualquer outra, que se movia sobre pernas fracas, comia segurando o alimento com as mãos e saltávamos de galho em galho apavorados diante das grandes feras que dominavam a Terra Selvagem e ainda em plena ebulição em seu processo de amadurecimento. Aos poucos sofremos mutações importantes, como, por exemplo, a oposição do polegar aos demais dedos de nossas mãos grotescas. Aquilo foi uma maravilha, pois nos dava a possibilidade de pegar coisinhas pequenas e realizar movimentos que não nos eram possíveis, antes, com mãos simiescas. O tempo transcorreu e milhares e milhares de nós fomos devorados pelos grandes carnívoros. E então, aos milímetros, fomos descurvando nossas colunas vertebrais e adotando a postura de pé. E descemos das árvores e passamos a permanecer mais tempo no solo. E a vida no solo mudou nossos hábitos arborícolas, pois aqui embaixo tudo era bem diferente. Os perigos eram maiores e mais desafiadores. Mas, morrendo aos milhares, fomos-nos adaptando e sobrevivendo a duras penas…

Parece que foi assim mesmo...

Parece que foi assim mesmo…

Os braços compridos encolheram. Os pés retráteis se endureceram. As pernas se fortaleceram. O rabo, agora inútil, foi desaparendo na medida em que nos erguíamos sobre as pernas toscas. E estas modificações nos impuseram pensar.  Pensar em como sobreviver num ambiente altamente hostil, pois éramos os mais fracos num mundo de monstros poderosos.

E o medo aos fenômenos naturais assim como aos monstros descomunais nos levou à idéia de um Ser Pavoroso que a tudo presidia e que nos odiava. E inventamos, ainda brutos, a adoração ao desconhecido. E este desconhecido virou Demônio. E o Demônio, muito tempo depois, tornou-se Deus.

E foi assim que a Natureza impulsionou a gestação em nós do que viria a ser o que hoje chamamos de psiquísimo. 

Eu, tu e o mundo... A terceira dimensão.

Eu, tu e o mundo… A terceira dimensão.

O psiquismo nos deu a consciência do eu-tu, isto é, nos fez ver o mundo como dual. Havia o um – o EU, e havia o dois – O OUTRO, AS COISAS. E ficamos aprisionados até hoje dentro deste modo de enxergar o mundo ao nosso redor.

A percepção da dualidade eu-tu, nos trouxe a consciência da diferença entre o eu, o outro e o mundo. E a prisão dentro da realidade dual se fez mais forte. E esta percepção do eu-tu-outro no inseriu na Terceira Dimensão, onde estamos inquestionavelmente aprisionados.

Milhares de vivências e milhares de experiências criaram em nós uma entidade específica que nos fazia imaginar. E como imaginávamos! E o processo da imaginação nos levou à fantasia. E como fantasiávamos! E o processo da fantasia nos levou à criatividade e até hoje continuamos criando, e criando, e criando…

E ele se tornou nosso primeiro Deus...

E ele se tornou nosso primeiro Deus…

E criando, dominamos o fogo. E imaginando, descobrimos a roda no corte de um tronco. E com a roda descobrimos o círculo e brincando de riscar dentro do círculo descobrimos a geometria e a partir dela, a trigonometria. E armados com estas maravilhas, passamos a calcular nossa posição no Espaço. E descobrimos nossa pequenez…

E foi a nossa pequenez que, antes, nos obrigou a aprender a conviver em greis e, mais tarde, em tribos constituídas pelo agrupamento de várias famílias. Isto nos ensinou que a união faz a força.

Nosso psiquismo agigantou-se, como queria nossa Mãe Natureza. E deixamos de viver unicamente pelo estômago e pelo coração (emoções básicas de medo, ódio e culpa) para passarmos a viver pelo psiquismo, agora chamado também de intelecto. E o intelecto, aumentado de informações e condicionamentos, fez brotar o que muitos chamam de Personalidade – uma entidade que nos possibilitava uma intermediação entre o Eu, o Outro e o Mundo. E nos interiorizamos. Agora, nosso psiquismo era aquilo: a Personalidade. E a Personalidade passou a ser o território de nossa realidade. Fugíamos, assim, do mundo natural, bruto, violento, para um mundo virtual, que podíamos moldar como desejássemos, com a ajuda da Fantasia  e da Criatividade.

Primeiro elas eram somente orais. Depois, viraram códigos escritos.

Primeiro elas eram somente orais. Depois, viraram códigos escritos.

E através da Criatividade inventamos as Leis às quais os líderes de nossos grupos passaram a exigir que todos obedecessem. E assim, criamos a civilização. E a civilização multiplicou-se e se diferenciou, criando as Nações. E a vida em nação exigiu o desevolvimento da capacidade de raciocinar de modo mais objetivo e mais cooperativo. E nos dicotomizamos mais uma vez: uns, desenvolveram o raciocínio buscando o Bem; outros, o Mal. E estes conceitos se multiplicaram e, agora, além de internalizados em nossas Personalidades, também vivemos num emaranhado de conceitos. Uma verdadeira floresta que cresce e aumenta e se ramifica e nos faz perdermos-nos dentro de nós mesmos.

E tudo isto é fruto daquela coisa abstrata a que convencionamos denominar de psiquismo.

E foi fantasiando e, depois, imaginando que chegamos aqui.

E foi fantasiando e, depois, imaginando que chegamos aqui.

E o psiquismo, que cresceu para se tornar nossa força sobre a Natureza Bruta, tornou-se nossa fraqueza-mór. Ele nos levou a migrar totalmente para um mundo irreal, de pura fantasia, de onde tiramos o computador, a internet e o bit-coin; tiramos as imagens em terceira dimensão e inventamos as operações cirúrgicas, que interferem com a Natureza Natural e nos prolonga artificialmente o tempo de vida. E não satisfeitos, descobrimos o transplante de órgãos e os implantes. E isto nos fez materialistas demais e apegados demais ao mundo químico…

E matamos Deus e endeusamos a Tecnologia.

Somos, agora, seres absolutamente tecnológicos, que vivem em um mundo totalmente artificial, para o qual a Natureza Natural é uma inimiga que deve ser domada. Para onde mais vamos avançar?

No mínimo, para o caos… Mas até lá temos um grandioso desafio a enfrentar: Deus existe à imagem e semelhança do homem? Pois é assim que nosso psiquismo o concebe, por mais que tente negá-lo.

Ou é Ele algo insubstantivo, incognoscível e inapreensível?

Talvez cheguemos ao caos e ao Fim sem termos esta resposta.