Orozimbo veio me ver e nenhum de nós sequer desconfiava do desafio que nos colocaríamos...

Orozimbo veio me ver e nenhum de nós sequer desconfiava do desafio que nos colocaríamos…

Velho Orozimbo chegou quando eu estava tentando realizar os exercícios de inglês no meu computador. Não dava certo. A máquina parecia implicar com o CD. Pacientemente tentei e tentei e nada. Ele, sentado ao meu lado, olhava minhas tentativas infrutíferas. Então, decidi ir ao CCAA e fazer lá os exercícios, visto que aqui, na minha máquina, isto não funcionava e eu não sei por qual razão. Quando lhe comuniquei minha intenção de ir ao centro da cidade, ele prontamente se dispôs a ir comigo. Mas questionou.

— Isso aí qui vancê tenta fazê e num dá certo, é o quê?

— Exercício de inglês.

— Cuma?! Véi intendeu dereito? Vancê tá istudando essa língua, é?

— Estou.

— Mas, home, vancê sempre dixe qui num gosta dela. Cuma diabo é qui, agora, tá istudando a bicha?

— Digamos que eu me coloquei um desafio pessoal e intransferível, meu velho. É, é isso aí: eu me coloquei um desafio.

Orozimbo coçou a carapinha branca e ficou me olhando com o cenho franzido.

— Já num basta os desafios qui a vida merma coloca pra vancê vencê, não? Tem ainda de se sobrecarregar com um qui, ainda pru riba, vancê num gosta?

Gilmar Mendes é profissional da Justiça. Estudou para isto. Agora, tem enfrentar os desafios que a Vida lhe coloca dentro da profissão que abraçou. É assim com todos.

Gilmar Mendes é profissional da Justiça. Estudou para isto. Agora, tem enfrentar os desafios que a Vida lhe coloca dentro da profissão que abraçou. É assim com todos.

— Orozimbo, os desafios naturais, como você bem o disse, é a Vida que nos impõe. Deles, não podemos escapar. Então, realizá-los não nos traz méritos, entende? Não temos opção: ou os enfrentamos, ou os enfrentamos. Não há como fugir. Tremendo de medo, com preguiça, com desânimo ou seja como seja, a pessoa tem de encarar esses desafios. Eles são os deveres básicos através dos quais a Escola da Vida forja em cada um a pessoa que ela deve ser. Se fracassa, azar. Quase sempre não tem volta. Vai terminar à margem da vida. Ou na mendicância, ou na criminalidade. As alternativas são poucas para os fracassados.

Estas pessoas vivem enfrentando desafios. Os que a vida lhes coloca e os que elas mesmos se colocam.

Estas pessoas vivem enfrentando desafios. Os que a vida lhes coloca e os que elas mesmos se colocam.

Agora, os desafios que nós nos colocamos por vontade própria, esses, meu velho, é que são a forja onde formamos nossa Força de Vontade. Eu passei a vida me impondo desafios ou aceitando aqueles que outros me apresentavam porque necessitavam de mim para os realizar. Os desafios naturais foram tantos e tão amiúdes que eu não tive tempo nem mesmo de os notar. Eles me chegavam às carradas, quase sem intervalo. E eu os enfrentava também quase sem perceber que o fazia. Coração aos pulos, ansiedade no peito, medo me fazendo tremer o corpo, mas lá fui eu para o que desse e viesse.

Os mais desagradáveis eu “empurrei com a barriga” e aprender novo idioma foi um deles. Andei viajando por aí e o que vi e senti não me agradou em nada.

— E o qui vancê viu qui não lhe agradô, home?

Esta é a "cidade" dos fracassados. Os que fizeram as opções erradas e foram jogados para a margem da Vida.

Esta é a “cidade” dos fracassados. Os que fizeram as opções erradas e foram jogados para a margem da Vida.

— Que não há nada de diferente, lá fora. O mundo está totalmente e irremediavelmente globalizado. As roupas? São iguais aqui tanto quanto na China, para homens e mulheres. Os restaurantes seguem um padrão internacional e mundial: mesas quadradas ou retangulares, cadeiras ao redor – às vezes bancos desconfortáveis, como acontece nos restaurantes populares nos EUA e na França. Garçons cujos comportamentos variam pouco. Eles sempre se apresentam com um guardanapo no braço, postura estudada, aprendida, roupas padronizadas, mesura condicionada, caneta e bloco nas mãos para anotar o pedido do cliente e, depois, voltam com a conta. Dependendo do lugar, eles até são meio grosseiros e deselegantes, como nos restaurantes “bunda-de-fora”, onde a gente come encarrapitado num banquinho com as costas voltadas para a rua. Mas é assim em qualquer lugar do mundo.

Uns aprendem para nunca apanhar da vida ou na Vida.

Uns aprendem para nunca apanhar da vida ou na Vida.

As ruas são padronizadas em qualquer cidade: de cada lado da pista de rolamento um renque de prédios com recepção, elevadores e ar condicionado; carros engarrafados e poluição, muita poluição. Guardas de trânsito e semáforos você encontra pelo mundo todo. Praças? São padronizadas em qualquer lugar. Tudo é igual, meu amigo. Não há muita coisa nova para se ver. Zoológicos? Têm os mesmos pobres bichos que cumprem prisão perpétua somente porque tiveram a infelicidade de nascer com forma física diferente da nossa. Polícia, bombeiros e ambulâncias se deslocam sempre com sirenes semelhantes azucrinando os nossos ouvidos. Tudo é igual. Tudo é padrão. Exceto, talvez, nas comidas. O homem é o onívoro mais feroz que há sobre a Terra. Come da formiga ao escorpião passando por insetos que você vomitaria só de ver. Mas o quê fazer? Somos o bicho homem, o maior predador e o pior animal sobre a Terra.

E para aporrinhar, no exterior, a gente se vê cercado por um bando de pessoas de nacionalidades diferentes falando línguas esquisitas, cujos sons muitas vezes não são agradáveis aos nossos ouvidos acostumados com a língua que falamos desde quando estávamos no vente de nossas genitoras. E isto incomoda, meu velho. A gente sente saudade de nosso povo, de sua má educação, dos ônibus quebrados, ruidosos, chacoalhantes, mas onde se ouve sempre nosso idioma, errado ou não. Isto sempre nos traz uma sensação de estar inserido no ambiente, seguro, o que não acontece quando se está lá fora.

Outros escolhem viver batendo e apanhando estupidamente.

Outros escolhem viver batendo e apanhando estupidamente.

— Entonce, se vancê num gosta lá das otras terras, pruqui diabo qué aprendê essa língua da quá vancê tombém num gosta? Se véio num gosta de arguma coisa, véio num chega nem perto dela, intende?

— Então, você foge aos seus desafios próprios e se deixa levar pela vida. Isto não é bom, meu amigo. Temos a opção de nos desafiarmos e isto é que é bom.

— Bom uma ova! — Exclamou ele, cuspindo de lado. — Se véio pode ficá de papo pru á, gozando a paz e o sussego da veice, pra qui diabo vai se cutucá cum o qui ele num gosta? Eu, hein! Vancê, home, passou a vida aos tapas cum ela. E tanto bateu quanto apanhô. Liás, véio acha mermo qui vancê mais apanhô qui bateu, num sabe? Agora, qui pode ficá sossegadim em sua arucaia, pro qui é qui se mete nessa istora aí? Pru qui é qui num fica só fazendo aquilo de qui gosta? Véi num intende, não… Mas vamo mermo lá? São 10:17 h. Só de tempo de ispera do ônibus vamo perder argo in torno de meia hora. Entonce, vamo chegá lá na hora im qui todo mundo deve de ter saído pra armoçá. Vancê num acha qui é mió ir adispois do armoço, não?

Olhei para o relógio e, contrariado, tive de concordar com ele. Decidi que iríamos depois do almoço.

— E o qui vamo fazê inquanto isperamo? — Perguntou ele, todo satisfeito.

Pensei um pouco e lhe perguntei:

— Do que é que você menos gosta, meu velho?

Ele pensou um tempão, antes de responder.

— Acho qui di ladrão, num sabe? Véio…

— Não, não — cortei eu. — Quero saber é do que você não gosta de fazer.

— Ah! Véi num gosta de num sabê lê. Nesse mundo onde todo mundo véve pelas letras é difirce prum véio cuma eu se movimentá. Faço isto por instinto, num sabe?

Gozado. Eu jamais havia percebido esta sua dificuldade. Então, levantando-me decidido fui buscar o quadro branco, os pincéis, o apagador, um lápis, um caderno e trouxe tudo para fora, para a varanda. Ele me olhava desconfiado.

— Muito bem — disse eu puxando-o pelo braço e o obrigando a se sentar à mesa da varanda. — A partir de agora, você tem um desafio: vai abandonar o comodismo da ignorância. Vai aprender a ler.

Ele arregalou os olhos e me fitou espantado.

— Veio?! Vancê qué qui véio, cum mais de cento e cinqüenta ano vá istudá?! Vancê cumeu merda, é?

— Nem um pouquinho. Este é seu desafio.

— Mas véio num tem paciênça pressa coisa, não, home. Véio fica aguniado de tê de ficá isquentando os miolo pra decorá essas coisas aí.

— Tal e qual eu com o Inglês. No entanto, eu tento. Por que você não pode fazer a mesma coisa? Ou será que é covarde para enfrentar o desafio?

Eu toquei no seu orgulho, que é enorme. Ele fechou a carranca, pigarreou, pegou no lápis e se ajeitou na cadeira.

— Vamo lá, seu merda. Véi num é covarde pra nada, ora essa! Vancê, agora, vai tê de me insiná a lê e iscrevê, senão…

E foi aí que descobri que o desafio não era só dele, não. Era meu, também. E como viria a se mostrar duro! Muito mais que aprender Inglês…