"Eu não mereço ser estuprada". Nana Queiroz deu a partida. Que tal outros protestos como "Eu Não Mereço Ser Assaltado?"

“Eu não mereço ser estuprada”. Nana Queiroz deu a partida. Que tal outros protestos como “Eu Não Mereço Ser Assaltado?”

O desastrado equívoco na divulgação da pesquisa do IPEA sobre este tema deu panos para mangas. Mesmo após ter sido divulgado que houve troca de respostas entre os itens, o que acarretou a queda do Diretor do Instituto, a coisa pegou fogo. E o fogo chegou a mim numa pergunta direta feita por Vera, bastante grilada com o que se espalhou pelas páginas de relacionamento, as quais raramente freqüento. A moça veio me visitar já com a pergunta engatilhada. Queria saber minha opinião sobre a suposição de que as mulheres são responsáveis pelos estupros que sofrem.

As pesquisas tipo "sim" ou "não" tomam um corte  transversal no processo Social e nele buscam respostas que possam ser generalizadas para toda uma comunidade.

As pesquisas tipo “sim” ou “não” tomam um corte transversal no processo Social e nele buscam respostas que possam ser generalizadas para toda uma comunidade.

— O que o senhor acha, Doutor: as mulheres têm alguma responsabilidade sobre o comportamento do estuprador?

Respirei fundo. Eu não tinha nem por um momento levado aquele tema em consideração. Era algo que não me havia despertado o interesse. Então, a pergunta da jovem me pegou desprevenido. Mesmo assim, considerando que ela não largaria o osso, pensei um pouco antes de opinar.

— O que faz que eu não valorize pesquisas populares, como esta do IPEA, é que elas são burras. Tanto a vida de uma pessoa quanto a história de uma seção da Sociedade é como um tubo sem princípio nem fim. Um contínuo, onde tudo tem relação com tudo. As perguntas de tais pesquisas seccionam o tubo, tomam apenas um corte transversal e nele centram suas questões e restringem as respostas a “sim” ou “não”. Isto é demasiadamente simplista e qualquer pesquisador sério sabe deste fato. Em pesquisas assim, quase não se colhem dados representativos de um objeto de pesquisa. E no que tange ao Comportamento Humano tais formas de pesquisas são absolutamente ineficientes.

— Bonito discurso, doutor — disse Vera, jocosa —, mas qual é a sua opinião?

Índias dançando em ritual da tribo. Abra a figura em novo link e veja como estão nuas, com as genitálias expostas. Nem por isto os índios ficam de "pau duro".

Índias dançando em ritual da tribo. Abra a figura em novo link e veja como estão nuas, com as genitálias expostas. Nem por isto os índios ficam de “pau duro”.

— Deixe-me continuar, por favor — pedi. — Quando eu contava com 15 anos de idade passei um tempo em contato com índios. Na taba as jovens andavam nuas. Eu nunca vi um índio ter ereção peniana por olhar para os genitais das garotas, assim como nunca vi nenhum deles passar a mão disfarçadamente pelas bundas das descuidadas indiazinhas. O que isto lhe diz?

Vera pensou um pouco com a testa franzida e terminou meneando a cabeça negativamente.

— O comportamento dos machos silvícolas em relação às suas fêmeas, vivendo eles na Natureza Natural, nos mostra que nossa Sociedade dita civilizada é doente. Profundamente doente. E é por vivermos em uma Sociedade Doente que temos comportamentos aberrantes como aquele dos que se denominam “encoxadores” ou, pior, dos que estupram. A mulher tem e não tem responsabilidade pelo ato do estupro.

— Como assim, tem e não tem? — Estranhou Vera.

— Veja, o que mais fascina as mulheres em nossa Sociedade?

Vera pensou durante um tempo e terminou por menear a cabeça negativamente. Então, me olhando dubitativamente murmurou hesitante:

— O… O homem…?.

— Moda, Vera. Moda. Agora, responda: o que os que ditam as modas procuram explorar nas mulheres?

— Eu… O quê?

Há algo mais eloqüente de que a mulher é somente um prêmio para os machos que tomam Coca-Cola?

Há algo mais eloqüente de que a mulher é somente um prêmio para os machos que tomam Coca-Cola?

— O sex appeal feminino, Vera. A Moda e os que a mantêm exploram à exaustão o sex appeal feminino. E isto é tão violentamente explorado que o ser humano feminino social foi transformado pela Moda em algo “comestível”. Aproveitando isto e reforçando a idéia de que a mulher deve ser o prêmio para tudo  o que é vendido no Mercado Selvagem, a figura feminina sempre aparece “sedutora” ao lado do objeto que se deseja vender. Em quase todos os anúncios em que uma mulher aparece, ela é o “prêmio” que o homem ganha pelo objeto que se quer vender. Por exemplo: deseja-se vender um automóvel de tal marca? Então, a propaganda mostra um homem elegantemente vestido (sinal de sucesso na vida), segurando a chave de um carro da marca que se quer vender, zero Km, e vindo até ele e se encostando em seu corpo de modo “oferecido”, uma mulher “linda de morrer”.

Ela não tem Identidade própria. Ela é um objeto acessório que o carrão dá condições ao homem de sucesso obter. Basta dirigir aquele carro daquela marca e pronto: mulheres bonitas vão chover no seu quintal.

Garota propaganda da Pirelli, em um calendário de 2011.

Garota propaganda da Pirelli, em um calendário de 2011. Qual a relação entre pneu de automóvel e mulher pelada?

Veja a Coca-Cola, por exemplo. Qual é a ligação entre uma lata de Coca-Cola e uma mulher quase mostrando sua genitália? Veja a expressão de oferecimento que a garota propaganda faz na pose. Subliminarmente a mensagem é: “Beba Coca-Cola e me coma”. Ora, os homens coitalmente são frios. Eles precisam de estímulo para se interessar pelas fêmeas da raça. É mais fácil que se sintam atraídos por um jogo onde possam demonstrar sua inata tendência à competitividade, do que que se sintam atraídos por uma mulher que não os provoque “sedutoramente”.

Não sou biólogo, portanto, não posso afirmar isto de modo categórico. Mas somos uma raça em que não é ao macho que cabe o papel de se fazer bonito para atrair a fêmea. São nossas fêmeas que têm de se esmerar para aparecer bonitas, caso contrário não vão arranjar nem aquela “rapidinha” com um muito obrigado e tchau, no final.

Este é a primeira experiência sexual interpessoal da pessoa humana.

Este é a primeira experiência sexual interpessoal da pessoa humana.

As “feministas” não parecem notar este abuso na exploração da figura feminina pelo Mercado Selvagem. E atualmente escrachou-se de vez a relação mulher-coito. Com grande tristeza ouço os jovens dizer que “as mulheres são todas putas. Todas só querem ser fodidas”. Houve um tempo, e faz pouco tempo isto, que a moda era beijar na boca. A mocidade ia para as “baladas” para beijar o máximo de parceiros e de parceiras que pudessem. Fora o problema da higiene e do perigo de transmissão de doenças, o beijo na boca, área erógena profundamente arraigada na psique humana, é uma estimulação poderosa à cópula. Desde quando nós fomos bebês, quando chupar o peito de nossas mães nos dava um prazer sexual intenso, que aquele “imprinting” ficou para sempre em nossas psiques.  Então, quando as garotas se lançam irresponsavelmente ao beijo indiscriminado parece que não percebem que tanto ela quanto o rapaz se excitam. E da excitação à cama é um pulo. Por isto, eles as tacham de putas e não as valorizam como nós, os antigos, as valorizávamos.

O "beijo de língua" estimula profundamente o sistema nervoso central e nele estão as memórias profundas das primeiras excitações sexuais da pessoa quando era infante.

O “beijo de língua” estimula profundamente o sistema nervoso central e nele estão as memórias profundas das primeiras excitações sexuais da pessoa quando era infante.

O beijo na boca implica em o casal chupar a língua um do outro. E o ato da sucção tem raízes penetrantes, tanto no sistema neuronal encefálico profundo, quando no psiquismo humano. Se para o sexo feminino isto em si já é muito excitante, para o sexo masculino isto é uma estimulação subliminar poderosa. Muitos jovens rapazes me disseram que ficam muito excitados com o beijo de língua e chegam a molhar as calças. Não é anormal que tal aconteça, pelo que eu já lhe expliquei.

Agora, Vera, olhe ao seu redor. Como é que a Sociedade de Consumo vende a mulher? Lógico que como o objeto de cama e mesa que deve ser o mais cobiçado pelos machos. Ora, a Psicologia afirma que os machos de nossa espécie tendem à frieza no quesito coito. Eles preferem muito mais a ação de um jogo ou de uma briga do que os momentos de alfombra. A maioria dos homens, quando premidos pelo ingurgitamento de seus testículos, procuram “afogar o ganso” o mais depressa possível e cair fora da “chata” que fica querendo ronronar na cama. E quem pratica a Clínica Psicológica tem, com certeza, comprovado o que se afirma. Não é incomum se ouvir mulheres reclamando da frieza com que seus homens as tratam no leito. Muitos, chorosas, dizem que “ele perdeu o interesse em mim, depois que casamos”. Não é bem a verdade. Ele nunca teve interesse por ela na intensidade com que ela queria. Os machos humanos são defeituosos no leito, que me perdôem os que me ouvirem.

Poses como esta estão espalhadas por todos os lugares e poluem o espaço cibernético. Por que? Porque a mulher é filogeneticamente programada para excitar o macho da espécie.

Poses como esta estão espalhadas por todos os lugares e poluem o espaço cibernético. Por que? Porque a mulher é filogeneticamente programada para excitar o macho da espécie.

As mulheres, ao contrário, são subliminarmente e muito profundamente, talvez filogeneticamente, programadas para se tornarem atraentes a fim de cativar os machos da espécie e perpetuar a existência desta. Se a fêmea humana não buscasse os meios de se fazer desejada, o crescimento populacional sofreria um decréscimo muito significativo. Ora, aproveitando-se desta impulsão profundamente inconsciente de nossas fêmeas, o Mercado Selvagem se aproveita para manter constantemente, por todos os meios de que possa dispor, a mulher como objeto de cama e mesa.

Uma vez que a busca da conquista do macho para a procriação é inata em nossas fêmeas, elas embarcam sem se dar conta no canto de sereia do Mercado de Consumo da Moda. E se deixam serem apresentadas constantemente como um “bife vivo que deve ser devorado no prato alfombroso que são as camas de motéis”.

Então, se por um lado elas não têm culpa de serem tão desejadas de modo desastrado, por outro lado elas têm grande responsabilidade no comportamento agressivo sexual coital dos machos. Por isto é que eu disse que elas têm e não têm responsabilidade pelo estupro.

— Espere ai, mestre — cortou-me Vera. — A culpa pelo estupro, então, não é da mulher e, sim, da sociedade de consumo. Foi o que entendi de tudo o que o senhor disse.

— E eu não discordo, Vera. Foi por isto que eu disse que vivemos numa sociedade doente. Sexualmente doente. E tão profundamente doente que as pessoas não se dão conta deste fato lamentável.

A tal pesquisa não deve ter sido levada a cabo sem um objetivo escuso, qual seja, o de levantar polêmica inútil entre os gêneros. Quem mais lucrou com isto foram as revistas de fofoca e os programas de TV. O “gossipe” vai durar até o máximo de tempo em que estes meios de veiculação de notícias puderem esticar, como está acontecendo com a história da tortura praticada pelos militares. Isto vai durar até passar o Dia da Democracia dos Zé Nings Brasileiros. Um assunto que crie polêmica é excelente para o Mercado Selvagem, pois vende, compreende? E venda implica no Deus da atualidade: o LUCRO.

Concluindo, Vera: as mulheres, filogeneticamente, são preparadas para despertar o macho da espécie. Mas o estupro acontece não porque elas assim o desejem, mas porque são manipuladas cruelmente pelo Mercado Selvagem.

Vera ficou pensativa por um longo tempo. Então, despedindo-se, foi embora. Não sei em qual medida minhas palavras a impressionaram, mas sei que ela vai divulgar minhas idéias aos quatro cantos do mundo…