O canil.

O canil.

Três horas da madrugada. Acordo com o coração disparado, suado, assustado. Demoro um pouco para me situar. Estou em meu quarto e a escuridão é quebrada somente pela fraca luz que entra através da porta aberta e reduz a escuridão a uma penumbra leve. Sento-me e me estico todo. A casa está em silêncio. Aliás, o bairro todo é apenas isto: silêncio. Nem grilos ouço. Cai uma chuva fininha, mas a temperatura está quente para a madrugada. Levanto sentindo meu corpo trêmulo e vou beber um copo d’água. Depois, fico à janela, olhando a varanda de minha casa e lá adiante, onde os cães dormem a sono solto no canil.

O platô era como este, apenas redondo e sem nada ao redor. Tudo ficava lá embaixo. Eu estava acima das nuvens.

O platô era como este, apenas redondo e sem nada ao redor. Tudo ficava lá embaixo. Eu estava acima das nuvens.

Estou em um lugar estranho, onde uma luz azulada tênue banha tudo. Parece uma montanha, pois vejo todo o derredor lá embaixo, bem longe. Há uma leve garoa flutuando languidamente sobre o platô e faz frio. Olho buscando uma descida, mas não há. O platô termina em bordas verticais, das quais tenho medo, ainda que delas não me tenha aproximado. De repente um clarão mais forte me ofusca a vista. Levanto os olhos para o céu e me assusto. O Sol parece estar-se aproximando da Terra. O calor começa a me incomodar e eu me movo em busca de um lugar para me esconder. Não há. O platô é liso, coberto apenas de grama verde. Mas esta começa a secar e se transforma em um pó amarelado. O calor aumenta. A pele começa a arder desesperadamente. Corro ao redor do platô e só vejo um abismo que parece sem fim. Olho o Sol e ele parece que rodopia furiosamente no céu. Sua luz me ofusca. Tento enxergar e só vejo um clarão cegante. Sinto uma sede incontrolável, mas não há mais aquela garoa que há pouco pairava ali em cima.

Dizem que nossa estrela já passou da maturidade e está entrando na velhice...

O Sol era como nesta foto: incandescente, uma bola de fogo.

Agora, estou desesperado. Penso: “Nem posso gritar, pois não há quem me ouça!” Corro sem ver para onde e despenco no vazio. Mas em vez do pânico que eu deveria sentir por estar caindo, sinto alívio. Estou livre do platô em que estivera preso.

Flutuo no ar como uma pena e até gosto da sensação. Mas súbito eu me vejo às margens do Rio São Francisco. Reconheço suas águas lindamente azuis. Reconheço também o lugar que é uma pousada às suas margens e por onde passei em 2007. O rio é lindo e eu me aproximo do mirante construído quase sobre suas águas e a mais ou menos quatro metros de altura. Este mirante faz parte da pousada onde eu comi um surubim na telha, uma delícia.

As  águas do São Francisco são azuis, quando não é tempo de cheia. Impressiona tanto pela cor como pela translucidez. Na margem, disse-me um pescador quando por lá passei em 2007, a profundidade é de dois metros. No entanto, de pé bem perto d’água tem-se a impressão que se pode tocar a areia do fundo bastando mergulhar a mão ali. O São Francisco é uma preciosidade que devia ser preservada com todo carinho pelos brasileiros.

Eis o Velho Chico com suas águas azuis. Quem não o conhece na estiagem não sabe o que está perdendo.

Eis o Velho Chico com suas águas azuis. Quem não o conhece na estiagem não sabe o que está perdendo.

Penso nisto, no que relato acima, quando percebo que as águas estão minguando e o calor, aumentando. O suor escorre pelo meu rosto e a sede é grande. Quero correr para dentro da pousada e pedir uma garrafa de água mineral gelada, mas não consigo me mover. Apenas permaneço aterrorizado olhando as águas se afastando para o meio do rio. Agora, ela é somente um tênue fio que escorre moribundo por entre as pedras do leito. Finalmente, o rio seca de todo. O calor é sufocante. Olho ao redor e todas as árvores estão esturricadas, mortas. Com grande esforço me afasto do mirante e volto para dentro da pousada. Não há vivalma. Estou só. Totalmente só. Desesperado me lanço pela ribanceira da estrada em busca de ajuda. Não há nada. O asfalto da rodovia está derretendo como se fosse chocolate ao sol. Ele me queima os pés e eu tenho de pular para a margem pedregosa para não ter os pés assados.

O que eu via diante de mim parecia-se com esta visão lindíssima do Rio Amazonas.

O que eu via diante de mim parecia-se com esta visão lindíssima do Rio Amazonas.

Fico tonto e penso que vou desmaiar, mas ao sacudir a cabeça para recuperar a consciência eu me vejo dentro de uma mata luxuriante. Diante de mim há um verdadeiro oceano de águas calmas, cujas marolas quebram com um barulhinho ciciante gostoso de ouvir. Corro para aquela água. Ela é barrenta, bem diferente das águas do São Francisco. Eu me abaixo para pegar um pouco da água na concha das mãos a fim de lavar meu rosto suado, quando vejo milhares de peixes flutuando de barriga para cima. Levanto os olhos e vejo que a mata está mudando de cor. O verde luxuriante muda para um marrom feio. As copas gigantes murcham e as folhas secas começam a cair. Volto os olhos para o rio e tomo um susto. Não há mais água. Não há mais peixes. Apenas areia e vento. Um vento seco, que a tudo esturrica. E o cenário muda drasticamente diante de meus olhos. Agora, onde havia o imenso rio com margens cercadas de grandes florestas, há somente areia. Um deserto assustador, que se estende a perder de vista. “O Rio Amazonas secou” eu penso. Apavorado corro em busca de alguém, de alguma coisa viva, mas não há. Apenas o silvo agoniado de um vento seco, quente, que queima minha pele já castigada pelo calor furioso de um Sol inclemente. Está difícil respirar. Com as mãos na garganta eu cambaleio tentanto respirar, mas o ar quente resseca minhas narinas e minha garganta até fazê-las doer. Caio no chão crestado. Minha consciência se apaga e eu sinto que estou caindo… caindo… caindo…

A Praia do Pepino, onde mais se pratica o Vôo Livre no Rio de Janeiro.

A Praia do Pepino, onde mais se pratica o Vôo Livre no Rio de Janeiro.

Agora, estou em São Conrado, na praia do Pepino. Muitas asas deltas flutuam no ar. O mar quebra suas ondas pachorrentamente na areia grossa da praia. Atrás de mim a Serra do Mar onde está minha tão conhecida e querida Floresta da Tijuca. Eu me levanto e penso: “Vou para a mata. Chega de praia”. Começo a andar em direção ao calçamento, mas ando, ando, ando… e não chego aonde queria. E enquanto ando vejo a mata luxuriante ir desaparecendo. Os morros ficam nus, imoralmente nus. Não há mais floresta. Apenas pedras secas, esturricadas. Ouço um brulho assustador atrás de mim e o chão sob meus pés treme. Olho para cima e vejo as asas deltas em chamas. “Eles estão morrendo queimados lá em cima!” penso, aparvalhado. O barulho terrível atrás de mim faz o chão tremer. Eu me volto para olhar e meus cabelos ficam de pé. Uma onda gigantesca, que eu calculo ter não menos que vinte metros de altura avança ao longe em direção à terra. Toda a água da praia tinha recuado muito e a areia do fundo do mar estava braca e se estendia até onde a enorme onda avançava. Começo a correr apavorado e finalmente chego ao passeio. Os carros estão abandonados, enferrujando, e só vejo uma pessoa sentada num banco de pedra. Sua figura não me é desconhecida. Corro para aquela pessoa com a esperança de que ela me salve do terror que se aproxima.

Este aqui sou eu. Gosto munto de pitar meu cachimbo e oiá as besteradas qui os vivo fazem...

Assim se representa Pai Tomé das Almas, na Umbanda.

Chego ao lado da pessoa e vejo, espantado, que se trata de um Preto Velho de Umbanda. Ele pita um chachimbo, tem ao lado uma cuia feita de casca de coco e ao pescoço umas seis ou sete guias feitas de pedras de vidro colorido.

Quando eu paro ao seu lado ele se volta para mim e me pergunta, chorando:

— Sabe quem sou eu?

Hesito, mas respondo sem muita convicção:

— Acho que o senhor trabalha na Umbanda como Pai Tomé das Almas.

—Sim, era assim que eu me apresentava. Mas não sou nenhum preto nem muito menos velho. O que você deseja?

Fico sem saber o que dizer, enquanto o grande barulho da gigantesca onda que se aproxima cresce de intensidade.

— Assim ficará tudo — Ele disse isto e desapareceu.

Corro. E corro numa velocidade impossível. E de repente chego a Copacabana. Não há nada de pé. Tudo está arrasado. Apenas uma parede ainda está precariamente na vertical. Há uma placa fixada nela. Curioso eu me aproximo e leio um número: 2052. Penso: A redução cabalística deste número me dá 9 que é igual a Zero. O Nada. O recomeço. O início depois do fim.

E foi aí que acordei assustado…