Às vezes, quando estamos sós, é quando mais temos companhia...

Às vezes, quando estamos sós, é quando mais temos companhia…

Vera me chegou de manso. Vinha sozinha e isto já me deixou em alerta. Por onde diabos tem andado o Felício que não mais aparece por aqui? Recebi-a e lhe ofereci um copo de guaraná que ela aceitou com alegria. O tempo continua de má catadura, a qualquer momento pode cair aquela chuvarada, mas a temperatura não está nem aí para ela. Quente. Irritantemente quente.

Vera perguntou se eu tinha um tempinho para conversarmos e informou que Felício estava viajando para fora do país, mas não me disse para onde. Tudo bem. Meu povo está na rua e não tenho notícia deles desde as 7:30 horas, quando saí para ir ao dentista.

— Eu creio que o senhor já deve ter sido abordado muitas vezes com esta pergunta, por isto peço desculpa por repeti-la, mas é que parece que ela está cravada na cabeça de toda mulher jovem.

— Estou com um torcicolo e sem poder mover a cabeça para o lado direito, de modo que é bom sentar e conversar. Vamos lá, que pergunta é essa?

O mais perigoso jogo de loteria da atualidade: o casamento.

O mais perigoso jogo de loteria da atualidade: o casamento.

— O casamento, como o senhor deve saber e as estatísticas demonstram a sobejo, finda quase sempre depois de decorridos dois anos. Estive lendo vários livros, até de psicólogos, que tentam explicar a razão disto, mas as explicações, como o senhor costuma dizer, são muito “quatro paredes universitárias”, ou seja, parecem que foram montadas para satisfazer a uma pesquisa de mestrado ou coisa parecida. O IBGE afirma em pesquisa que no Brasil o casamento dura em média 15 anos desde o SIM até a sentença do divórcio. Bom, a verdade é que está no inconsciente feminino que o matrimônio só dura mesmo dois anos. A partir daí a coisa esfria, ou rapidamente, ou lentamente. Mas todos se encaminham para um mesmo fim melancólico: os pares do casal já não mais sentem amor um pelo outro. Eu sei que o senhor tem um casamento que dura há quase 40 anos e sei que essa união enfrentou dificuldades muito grandes. Sei que, inclusive, o senhor “pulou a cerca” uma vez e isto foi razão para sua esposa estar até hoje rancorosa e magoado com o senhor.

O Estadão, em 2008, disse que uma pesquisa levada a efeito entre os ingleses afirmava que o período em que um casal parece viver em “lua de mel” dura dois anos, seis meses e 25 dias depois do casamento. Sendo inglesa não é de estranhar a busca de uma precisão máxima, nã0 é mesmo?

— Bom, para terminar, estou ansiosa. Amo demais o Felício. Ele é minha outra metade da maçã, compreende? E viro fera se alguma piriguete ao menos lança um olhar de “quero este” pra cima dele. Sou capaz de quebrar as fuças da danada. Que vá procurar um homem para ela em outro lugar.

Eu caí na gargalhada. Então, quando passou minha crise de riso, falei.

Até os animais pulam a cerca...

Até os animais pulam a cerca…

— Bom, vamos corrigir uma coisa. Eu não pulo cercas. Sempre entrei e entro pela porta da frente. E sempre respeitei minhas companheiras de caminhada. Quando saía de um relacionamento, na verdade eu saía sozinho. Não estava ainda enrolado com outro porque o barco do atual tinha afundado definitivamente. E eu jamais retorno ao ponto de partida. Quando o barco começa a fazer água não há escapatória. Não comigo. Nunca houve. Para mim, o fim sempre foi definitivo. Não sou homem ioiô, compreende?

Agora, vamos para o que lhe atormenta. Responda: o que você acredita que prende um homem a uma mulher e vice-versa?

— Aí é que está outro dilema — disse ela com um suspiro. — Muitas amigas dizem que o que prende um homem é um bom sexo. Elas acreditam que a mulher tem de ser “aquela fera” na cama, senão o bicho bate asas. Só que nem sempre a gente está disposta a ser “aquela fera”, compreende? Tem dias que a gente quer ver até o carnaval do Rio inteirinho, mas não quer ficar nem trinta minutos com o homem na cama, se me entende. E há outra coisa. Tem vícios que os homens adquirem na prática do coito que nem sempre a mulher aceita se submeter a ele. Quer um exemplo? Tem um casal, meu conhecido de anos de paróquia, em que o homem gosta de ver sua mulher sendo enrabada por outro. Ele diz que isto o excita e até paga para outro homem fazer isto com a mulher dele. Aí, diz ele, o relacionamento fica “apimentado” e ele não perde o interesse pela mulher. Eu acho nojento. Nunca toparia tamanha patifaria. Até porque o sexo anal ainda não faz minha cabeça. Pode até ser que eu o aceite com o Felício, mas tenho cá minhas dúvidas. E se não sei se aceito isto com o homem a quem amo, de modo algum vou me expor a uma situação imunda como a que a mulher daquele homem se submete. Ela reclama por trás, mas quando lhe pergunto por que razão se deixa aviltar assim, ela diz que é por causa dos filhos. Diz que se não aceitar, o marido vai embora e ela e as crianças vão ficar numa situação ruim.

Muitos homens se tornam fixados na prática  desta forma de coito. Na verdade, isto não é saudável.

Muitos homens se tornam fixados na prática desta forma de coito. Na verdade, isto não é saudável.

— Pobres crianças — murmurei, meneando negativamente a cabeça — Para alguns casais elas são como a azeitona na empada: explica as dores de barriga de quem comeu o petisco.

— Pois é — concordou Vera, e prosseguiu.  Por outro lado, para ser sincera, creio que a maioria das casadas com que converso estão certas. O mesmo homem toda vez leva ao desinteresse, à perda da libido. Aí, resta o consolo dos filhos. Mas esta é uma perspectiva que não me agrada. Eu não quero meu casamento se salvando em função de meus filhos. Isto seria um atestado de incompetência para mim, o senhor não acha?

— Para ambos, vamos corrigir isto. Num relacionamento a dois, tudo, do despertar ao deitar, é responsabilidade dos dois. Meio a meio. Não adianta tentar fugir a isto porque não há fuga. Quanto ao que as casadas em geral dizem não passa da mesma alegação dos casados: a mesma mulher na cama, sempre, enche o saco e perde a graça. Vai daí os “pular de cerca” de ambos. Mas ao dar o primeiro pulo ele ou ela decretou definitivamente o fim do relacionamento.

— Pois é isto mesmo que eu acho. O senhor confirma minha crença. No entanto, se a gente não pode experimentar mais outro parceiro, no caso da mulher fêmea; ou parceira, no caso dos homens machos mesmo,  o que nos resta? A mesmice de sempre? A morte em vida? Sim, porque o sexo é o combustível da vida. Eu concordo com o que todos afirmam. Mas se em tantos anos o relacionamento que começou com a magia de uma atração intensa e mágica caminha invariavelmente para a melancolia, não seria melhor resistir à tentação e não embarcar na ilusão?

— E na velhice lamentar consigo mesma ou consigo mesmo: “que lástima. Eu não vivi”? Não, Vera, o caminho não é bem por aí. 

— Então, qual é ele? É justamente isto que vim procurar aqui: qual é o caminho que parece que ninguém encontra?

Pensei um pouco antes de falar.

— Vera, você sabe muito bem o que é o Elemental Físico, não sabe?

— Sei. Meu corpo, seu corpo, nossos corpos orgânicos, físicos, densos, mortais. O que isto tem com nossa conversa?

— Tem tudo. Tudo, mesmo. Escute. Nós somos um ser trino. Temos um Elemental Físico, mas não somos este elemental; temos um Elemental Emocional, mas também não somos este elemental. Temos um Elemental Mental ou Psíquico, mas também não somos este Elemental. Então, você me pergunta, o que somos de verdade?

Nós somos aquele Ser invisível e imponderável que deve segurar as rédeas dos três Elementais e os fazer andar sob seu comando em harmonia entre si, o que não é nada fácil. O Físico é lerdo, instintivo e bronco; o Emocional é turbulento, sentimental e impulsivo; e o Mental ou Psíquico é irrequieto, desobediente, irresponsável e desnorteado.

— Esse ser imponderável de que o senhor fala é a alma?

— Dão-lhe muitos nomes, mas na verdade ele não tem nome. Ele é. Apenas é. Entendeu?

— Isso aí é Deus…

— E não somos Deuses, por acaso? — Perguntei, jocoso. — Não dizem todas as boas religiões que somos uma centelha do Divino? Se somos uma centelha d’Ele, somos Ele.

Vera coçou a cabeça e concordou, hesitante.

A Yoga de pé, do Tai-chi-tchuen é maravilhosa para o equilíbrio mente-corpo.

A Yoga em pé, do Tai-chi-tchuen é maravilhosa para o equilíbrio mente-corpo.

— Vera, vou-lhe ensinar um exercício de Tai-Chi-Tchuen que, se você praticar com persistência, em um mês poderá perceber seu verdadeiro EU Interior e Imortal. É o seguinte. Escolha uma hora da manhã, entre 7 e 9. Alongue-se toda. Comece pelos pés e alongue todos os membros. Depois, alongue o corpo todo. Então, deite-se no chão, feche os olhos e procure relaxar. Quando estiver pensando que está relaxada, relaxe mais. Para isto, force a cabeça, as palmas das mãos e os calcanhares contra o solo com o máximo de força que puder e sustente esta posição por mais ou menos trinta segundos. Solte o corpo e o ar que reteve nos pulmões durante o esforço e, então, respire três vezes profundamente, pelo abdômen, segurando o ar “lá em baixo” por um tempo que não seja desconfortável e o liberte quando começar a incomodar; e com o corpo solto, abandonado sobre o chão, espere mais ou menos trinta segundos respirando naturalmente e torne a tensionar tudo de novo. E de novo, depois de trinta segundos de tensão, solte totalmente seu corpo, expire com tranqüilidade, forçando a saída de ar, mas sem ir demasiadamente fundo neste esforço. Então, respire profundamente pelo abdômen, ou seja, inspire o ar para a parte inferior do pulmão, segure-o ali pelo máximo de tempo que lhe seja possível e seja confortável, e volte a relaxar, soltando o corpo totalmente por mais trinta segundos. Você notará que a cada exercício seu corpo lhe parecerá mais pesado que anteriormente. É que ele está se soltando, se abandonando, jogando fora o excesso de Chi “podre”, como dizem os chineses. Faça a terceira vez o mesmo exercício e, então, feche os olhos e centre sua visão interior inicialmente na percepção do abandono de seu corpo. Sinta como ele está mais pesado no chão, mas não interfira de modo algum fazendo qualquer movimento que o tensione. Perceba que ele está solto sobre o solo. Como se fizesse parte dele. Então, sem mover nem um fio de cabelo, leve sua visão interior para seu tronco, bem acima de onde fica o seu coração. Procure enxergar um lugar ali em cima, coisa de dois ou três centímetros acima de seu tronco, que está relaxado e pulsando com vagar, distenso. Crie ao redor deste ponto no Espaço acima de seu tronco, no lugar correspondente ao seu coração, uma bola imaginativamente como se fosse feita de tênue vidro transparente. Coloque ali dentro todas as suas tensões emocionais. Prenda dentro daquela pequena bola de vidro imaginário, tênue como bolha de sabão, suas preocupações, suas apreensões, seus medos, enfim, tudo o que seja emoção que costumeiramente a perturbam. Quando perceber que conseguiu “ver” concretamente sua bola de vidro imaginária e tênue, cheia de algo colorido, a cor não pode ser imaginada, mas percebida naturalmente, deixe a “bola de vidro” cheia de emoções presa no espaço acima do tronco, no lugar correspondente ao seu coração e leve sua visão interior para acima de sua cabeça, num ponto no espaço correspondente ao centro de seu cérebro. Crie ali, naquele lugar no espaço, imaginativamente, outra bola de vidro tênue e coloque lá dentro todos os sonhos e fantasias que normalmente a perturbam como abelhas ao redor de um pote de doce. Prenda tudo lá dentro. Quando conseguir isto, procure olhar de fora, do alto, os três envoltórios: seu corpo físico denso, seu corpo emocional na bolinha de vidro tênue acima de seu tronco, e seu corpo mental na bolinha acima de sua cabeça. De modo súbito, você perceberá que há “alguém” além de seu físico, além de seu emocional e além de seu mental. Alguém que você não controla, mas que lhe controla. Alguém que não tem forma, nem cor, nem peso, mas que está ali e é tremendamente poderoso. Sua força, seu poder lhe chegam de modo avassalador. Inundam-na toda. Você perceberá claramente que você é além de tudo aquilo que ficou aprisionado no chão e dentro do corpo. Você é Força e Poder. E que Poder, Vera. Que poder!

— Isso é Tai-Chi-Tchuen? — Perguntou ela, admirada.

— É. Exercício de Yoga Supra-Mental para o Conhecimento do Eu Verdadeiro e a busca da fusão da Consciência Física com a Consciência Psíquica e Espiritual. Uma Fusão que a liberta de toda a escravidão à Matéria.

— O senhor já conseguiu isto?

— Quase. Estou quase lá. Minha vida atribulada parece que é uma guerra deflagrada contra minha libertação. Mas eu arrosto tudo como um trator e vou levando as dificuldades sem me atormentar com elas. É muito bom…

Mas vamos voltar ao seu dilema. Como lhe ficou claro, Você, enquanto ser social, enquanto pessoa, é fundamentalmente Físico ou Elemental Físico. Este Elemental não é persistente em nada. Ele se exaure rapidamente.

Ora, a única emoção que o Elemental Físico consegue sentir e que é mais próxima do Amor é o Desejo. Depois desta, uma outra, mais densa, intensamente arraigada no Físico e que lhe serve para manter sua vida animal, primitiva. Esta emoção é conhecida como Ansiedade. Sem uma dose adequada de Ansiedade, o sistema neuronal não produziria os hormônios nas quantidades necessárias para que o Elemental Físico conseguisse viver como vive, isto é, alimentando-se, movimentando-se, interagindo, tendo saúde e se reproduzindo.

Então, Vera, o Elemental Físico só consegue sentir duas emoções radiculares: uma, a Ansiedade; a outra, o Desejo. A Ansiedade é básica e fundamental para o bom funcionamento do Elemental Físico, tanto no seu corpo mesmo, regulando o sistema hormonal, quanto nas reações mais intensas que o levam a se aproximar das coisas que o agradam e se afastar daquelas que o intimidam ou desagradam.

O Desejo Elemental é lamentavelmente confundido com Amor.

O Desejo Elemental é lamentavelmente confundido com Amor.

Quando as pessoas se dizem apaixonadas e cheias de amor por outra, na verdade o que estão sentindo é uma reação de Desejo estimulada por diversos fatores, muitos deles de cunho social. O Desejo é a base dos estudos levados a efeito por Sigmund Freud. Toda a sua teoria, ainda que fale de Amor, na verdade não ultrapassa os limites do Desejo. 

O Instinto de Reprodução é totalmente arraigado no Organismo, logo, pertence integralmente ao Elemental Físico. A Libido, portanto, sendo a energia fundamental do Instinto de Reprodução, é totalmente centrada no Elemental Físico e faz parte integrante do Desejo. Freud tinha toda razão quando buscava as bases orgânicas do Desejo, que ele tomava por Sentimento.

Agora, Vera, tente me acompanhar. Vivemos em um mundo construído por Elementais Físicos e para Elementais Físicos. Note que todo o Mercado se volta para a busca de meios de proporcionar prazer. Do alimento até os iates luxuosos, tudo o que o Mercado lança à venda volta-se precipuamente para o prazer. E como você sabe, a designação geral do prazer é sexo. Tudo o que dá prazer ao Elemental Físico é sexual. A cópula orgástica é uma das milhares de coisas que dão prazer, dão sexo, ao Elemental Físico. O coito não é sexo. O coito é uma pequena parte do Sexo.

Então, vivemos, enquanto centrados em nossos Elementais Físicos, correndo atrás do PRAZER. Mas acontece, minha jovem amiga, que o PRAZER, isto é, o SEXO, rapidamente enfastia o Elemental Físico. Ele salta de um objeto sexual para outro com muita facilidade. Ele não se prende a nenhum objeto sexual. Se tem um carro novinho em folha, mas o Mercado lança outro que, de diferente do anterior, só tem o formato das lanternas e suas posições na carroceria, o indivíduo que vive pelo Elemental Físico se desespera para trocar de carro e adquirir o novo modelo. Vai-lhe custar mais caro e não tem nada de novo, exceto as modificações introduzidas nas lanternas. O carro “do ano” não tem nada de novo, exceto as modificações introduzidas nas lanternas, mas só por ser um modelo novo o Elemental Físico se encanta e se ilude. É assim que gira a Sociedade dita Humana.

É natural do Elemental Físico viver correndo atrás de novos estímulos sexuais, pois é sua natureza mesma viver pelo e para o sexo, isto é, vivemos, enquanto pessoas, para o prazer. 

Ora, sendo inconstante por natureza, o Elemental Físico não se apega a outro Elemental Físico senão enquanto este seja novidade. Mas uma vez que surge outra novidade  à sua frente, ele logo se volta todo inteiro para esta nova novidade e tende a “esfriar” seu interesse pela que já não lhe dá mais nada de novo.

— E é assim — disse Vera — que o “amor” entre os casais esfria… Compreendo o que o senhor está explicando. Mas como fazer para que a vida a dois não se transforme num fardo insuportável?

— É aí que deve entrar o Elemental Emocional em parceria com o Elemental Psíquico ou Mental. O casal deve buscar valorizar não o físico, não o triângulo púbico, não os arrulhos no leito, pois tudo isto é fugaz e passageiro. O corpo malhado logo enfastia. Os movimentos em busca da exploração do corpo do amante ou da amante, logo perdem o fascínio. Tudo se torna horrivelmente repetitivo. O cheiro do corpo do outro torna-se comum, vulgar e, aos poucos, deixa de ser atrativo. E se torna “esquecido” se outro corpo “virgem” de toque de nosso Elemental surge diante dele. Compreende o que digo?

— Perfeitamente. Vá em frente. Está muito interessante.

— Então. O casal deve voltar toda sua atenção para o comportamento do par. É no comportamento manifesto que cada um pode oferecer uma quantidade infindável de sexo, de prazer ao seu companheiro. Na atenção carinhosa; na preocupação constante com o bem-estar do outro; na abdicação de si em prol de seu par; no esforço em fazer que o lar de ambos seja o mais gostoso possível para si e para o outro; na renúncia prazerosa de coisas que deseja em benefício do parceiro ou da parceira e, acima de tudo, na não valorização das pequenas coisas que provoquem pequenas decepções. Uma dose diária de PERDÃO é fundamental no relacionamento interpessoal. Enfim, cada qual deve superar o coito, que é curto, fugaz, repetitivo, em prol de uma vida rica de carinhos sob as mais diversas formas. Cada qual deve se treinar para valorizar a menor demonstração de afeto e de carinho que o outro Elemental lhe demonstre. Por exemplo, se seu parceiro lhe traz uma flor de presente, quando vem da rua, receba-a com um sorriso e lhe dê beijos de agradecimento com palavras de carinho. Mostre que a lembrança e o cuidado dele são valorizados por você. Ainda que esteja na TPM, controle-se, pois é você quem deve mandar em sua vida e, não, seu Elemental Físico. Demonstre claramente que gostou de ser lembrada ou lembrado. Isto dá PRAZER e PRAZER  é SEXO. E o Elemental Físico vive em busca de sexo, não de coito somente.

Quando o descuido com as pequenas gentilezas e as renúncias pessoais  toma conta da vida a dois, a cama racha...

Quando o descuido com as pequenas gentilezas e as renúncias pessoais toma conta da vida a dois, a cama racha…

Acontece que os casais logo deixam de saber valorizar as pequenas gentilezas que se fazem no período de aproximação e conhecimento. Pior, tornam-se mutuamente cegos para as renúncias do outro em prol do parceiro ou da parceira. Por exemplo: ela abdicou de comprar um sapato novo para comprar uma camisa para seu companheiro. Este gesto tem enorme importância, pois por natureza todo Elemental Físico é egoísta e pensa primeiramente em si. Mas a Esposa suplantou-o e o obrigou a abdicar em prol do outro Elemental. Neste exemplo, o Elemental Emocional se impôs ao Elemental Físico e isto é de grande importância para a Evolução Humana da mulher. Se ele, o Esposo, recebe o presente friamente, sem qualquer menção de reconhecimento da abdicação dela em prol do prazer dele, a coisa vai de mal a pior. Às vezes até a insulta dizendo que ela não devia tentar comprar-lhe roupa porque seu gosto para isto é um desastre. Tal comportamento, Vera, apunhala de morte o Desejo do Elemental feminino que tenta agradar e oferecer sexo. Coloque neste exemplo o homem que se esforça para obter sexo, oferecendo mimos à companheira ou abdicando de praias, futebol, cervejadas, noitadas etc… para economizar e trazer com seu trabalho árduo mais conforto para a vida a dois. Veja, eu disse sexo, não coito. O coito é só uma insignificante parcela do Sexo que todos praticamos durante um dia de vida. Se a mulher, fechada em suas decepções e em suas expectativas irreais, ilusórias, não valoriza o esforço do seu parceiro, o Elemental Físico dele vai-se ressentir e se virar contra o Elemental Físico da mulher. Aí, a relação foi pro brejo. Rapidamente o Elemental Físico do Marido se volta à procura de outro Elemental Físico que lhe dê sexo. Compreende? A vida do Elemental Físico se centra TODA ELA, na busca e na obtenção do SEXO. E não confunda jamais SEXO com COITO. É um erro fatal.

Os Elementais facilmente substituem o coito pelo sexo, pelo prazer. E quando o par do casal que foi mimado não responde como devia, faz que o “amor” do casal vá esfriando até terminar em ódio mútuo e rancor raivoso. 

Uma vez juntos, é a regra geral atualmente, só as coisas macro (um carrão, um diamante, uma esmeralda, uma noitada numa boate caríssima, um colar de cem mil reais etc…) são valorizadas. Mas tais objetos são vazios de sexo e prenhes de valores econômico-financeiros que não possuem sexo. E o Elemental Físico quer SEXO acima de tudo. Ele até pode se encantar durante um tempo com o brilho ilusório dos carrões e das jóias, mas logo descobre que estes objetos não sorriem para ele; não lhe fazem carinho; não são companheiros… São somente coisas. Coisas das quais ele logo se cansa. Você está compreendendo o que tento lhe dizer?

— Totalmente, doutor, totalmente. E estou admirada de que jamais, antes de hoje, eu tenha atentado para isto, mesmo tendo lido todos os seus artigos sobre os Elementais Físicos e a relação homem-mulher. Há sempre o que aprender em nossas conversas. O senhor é muito rico, meu Mestre. Muito e maravilhosamente rico. Agora, o que tem a me dizer sobre o ciúme? Ele é saudável, quando em dose pequena? 

— Nesta vida, Vera, de modo algum deve haver lugar para o ciúme. Não existe esse negócio de que uma dose certa de ciúme alimenta o “Amor” (entenda-se Desejo). Não é verdade. Ciúme, em qualquer dose, significa que o outro está inseguro em sua auto-estima e em sua auto-imagem e, por isto, exige de seu parceiro mais do que ele pode lhe dar ou deseja lhe dar. E isto é a senda para o fracasso. Todo ciumento tende a ser controlador. Tende a ser dominador. Tende a ser exigente. E controle, domínio e exigência são três venenos dos quais qualquer Elemental Físico foge como o diabo foge da cruz.

— A maior demonstração de SEXO entre os pares de um casal é a liberdade que cada qual reconhece no outro e, ainda assim, agirem com CUMPLICIDADE em tudo o que fizerem. Quando em cumplicidade, nenhum deles tenta colocar coleira ou tornozeleira no outro. Recebe o que o outro lhe dá, valoriza ao máximo com palavras e gestos sinceros o presente, mas nunca exige do outro aquilo que ele ou não pode ou não quer dar. A vida a dois é uma entrega voluntária, não uma obrigação legal. A Liberdade é algo que os três Elementais que nos compõem valorizam ao máximo. Nenhum deles quer ser dominado e obrigado ao que não quer fazer ou ao que não deseja dar.

— Se o par do casal quer mais, deve ensinar ao outro par como lhe dar mais, mas nunca impor ou exigir que ele o faça assim, na tora. Não dá. Vai somente perder o parceiro ou a parceira.

— Então, qualquer demonstração de ciúme é sinal de fraqueza?

— É.

— Puxa… A vida a dois é muito complexa, não é?

— É, se nós estivermos tão inseridos na ilusão do Mercado que nos deixemos transformar em mercadoria. Mas este é tema para outra conversa, está bem? Agora, tenho de ir fazer o almoço para todos, antes que cheguem cheios de fome e nada encontrem pronto para comer.

Ela riu e se levantou, dizendo:

— O senhor vai fazer sexo para eles, não é?

— Para eles e para mim. 

— Está bem. Eu volto outro dia. Esta conversa está rica demais para terminar assim. Tchau, Mestre.

— Tchau, Vera.