Os Elementais Físicos querem isto: prazer imediato. A Vida quer a prática da cumplicidade.

Os Elementais Físicos querem isto: prazer imediato. A Vida quer a prática da cumplicidade.

Diz o Michaelis que cumplicidade é a participação na execução de um crime”. Não no casamento. Cumplicidade no matrimônio é estar com o outro. Não é acumpliciar-se a ele nos erros e nos abusos, mas é estar com ele, mesmo em tais situações de erros e injustiças por atos e por palavras. Veja, você pode estar ao lado de um condenado, pode levar-lhe palavras de consolo e esclarecimento, pode ser solidário com seu sofrimento, mas nem por isto você está cúmplice com seu erro. No matrimônio, o estar com o outro par do casal é estar deste modo. Não é estar conivente com o erro que ele tenha cometido; não é buscar justificativas para o erro dele; não é encontrar desculpas impossíveis que aliviem sua consciência ferida. Não é acovardar-se diante de sua tirania. Ser cúmplice no matrimônio é estar ao lado do parceiro, prestando-lhe todo apoio — físico, moral e social — que não ofenda seus próprios princípios pessoais nem o rebaixem à condição de serviçal do outro por culpa ou, pior, por covardia.

Em cumplicidade, cenas como esta jamais acontecerão.

Em cumplicidade, cenas como esta jamais acontecerão.

Praticar a cumplicidade no matrimônio é uma arte que poucos aprendem a exercer. Ela não é ensinada na escola e, também, não é ensinada na família. Ao menos não verbalmente. Mesmo naquelas em que um dos pares pratica a cumplicidade ela não é falada claramente, pois geralmente é exercida em situações em que crenças estigmatizantes imperam e quase sempre se voltam contra o que é cúmplice.

O par que é cúmplice geralmente desnorteia quem o observa. Ora parece ser vil; ora afigura-se covarde; ora se deixa ver como frouxo ou trouxa; ora surge como tolo ou, pior, covarde; e, às vezes, aparece como um tirano implacável. No entanto, em qualquer situação, se posiciona com firmeza em defesa de si mesmo e de seu modo de ver, compreender e praticar a boa ação. O cúmplice no casal jamais se deixa aviltar. E o outro, por mais que se esforce, não consegue detratá-lo como gostaria. Ele está acima de seus ataques infantis ou egoístas; ele é como uma figura de fumaça, na qual ninguém toca por mais que se esforce.

Não são todos os pares de um casal que merecem a cumplicidade. Ela é especial e só a pratica quem está acima e além da mesquinharia das estereotipias sociais. É preciso ser profundamente vivido e observador para compreender a fundo a fraqueza e o limite estreito do par com que se casou. É preciso ser rico o bastante para dar o que de mais caro todos temos: nosso tempo em prol de quem é fraco e pequeno.

Tempo não se recupera, mas bondade enriquece mais que toda a corrupção do mundo. 

Ser cúmplice é ser bondoso; e ser bondoso não é ser pusilânime. A Bondade exige pulso firme e discernimento não inerentes aos pusilânimes.

Políticos, eis onde se pode encontrar milhares de exemplos de seres pusilânimes.

O meio político é onde se pode encontrar milhares de exemplos de seres pusilânimes.

E no meio social hodierno, ser pusilânime parece que é galardão da maioria dos viventes humanos.

Como eu disse, antes, a paixão do Elemental Físico se esvai mais cedo ou mais tarde. O “brilho” apaixonante do outro perde, de repente, todo encanto. E isto acontece tão depressa quanto mais depressa este outro revele aos olhos de seu par o que, durante a fase de namoro e “caça”, escondeu com esperteza.

Homem e mulher procuram-se enganar mutuamente, visto que, no namoro, o que mais desejam é aquilo que o outro aparenta ter e que lhe falta. É regra geral: nem ele nem ela se apaixona pelo outro tal e qual este outro é. Tanto um quanto a outra se apaixona pela imagem que o par lhe apresenta e que é construída segundo o que sub-repticiamente cada qual observa no outro. Por exemplo: ela observa que ele precisa de quem o escute em suas agruras. Como o deseja e o disputa em uma sociedade altamente competitiva, ela, que “ao natural”, detesta ouvir, se deixa servir de confidente e ouve pacientemente o que ele lhe conta. Isto o engana sobejamente. Ela construiu uma imagem totalmente falsa; uma imagem que não reflete sua real Identidade.

Pode acontecer que entre os pares do casal surja uma briga forte. Mas se um deles pratica a cumplicidade isto se demonstra em seu comportamento antes e depois da explosão.

Pode acontecer que entre os pares do casal surja uma briga forte. Mas se um deles pratica a cumplicidade isto se demonstra em seu comportamento antes e depois da explosão.

Ao ficarem só os dois e sobre seus ombros cair todo o peso da vida conjugal, quando o dinheiro se torna curto e os dilemas se avolumam, principalmente se ela vem de uma família onde tudo lhe era provido sem que fizesse esforço para tanto, ou vice-versa, o equilíbrio que pensavam ter entre si vai desaparecendo rapidamente. Ele (ou ela) pode se mostrar paciente e disposto a agüentar a luta, enquanto ela entra em ansiedade, se desestrutura e passa a atacar a única figura a seu alcance: seu par. Ou, se acontece o contrário, é ele que passa a agredir por qualquer coisa à companheira. Os desencontros se avolumam; as decepções, também. Cada qual se assusta com a realidade de um ser que não conhecia no outro. E é aí que pode entrar a cumplicidade. Aquele que tiver mais vivência e for mais paciente, procurará ser companheiro do par, ainda que o fogo nupcial se tenha apagado. O par cúmplice agirá procurando dar o exemplo de companheirismo acima de tudo. Mesmo quando o outro se mostra surdo e cego para o que o par cúmplice busca mostrar, este persistirá por um longo, longo tempo. Vai chegar o momento em que terminará por se convencer que o outro jamais vai perceber seu esforço. Então, em silêncio, sem estardalhaço e sem guerras tolas em tribunais, vai embora.

E se esquece rapidamente do incapaz.

Mas este, ao contrário, continuará lutando sua luta inglória de ódio e frustração. Sozinho. Acusado silenciosamente por aquela entidade poderosa que verdadeiramente é ele e que não se curva à Identidade Social que o reveste temporariamente.

E saberá o quanto seu Eu Interior é implacável…