As praias de lá em nada diferem das de cá: areia, mar, sol quente, palmeiras e gente.

As praias de lá em nada diferem das de cá: areia, mar, sol quente, palmeiras e gente. E a feiura dos prédios que invadem tudo na Natureza Natural e a tudo enfeiam.

É certo que nossos irmãos do Norte criaram o país mais adiantado do mundo, em tudo, até na corrupção. Mas também é certo que têm uma Democracia que se adéqua perfeitamente ao estilo de vida que herdaram de seus ancestrais, onde a Violência faz parte de suas vidas. Haja vista a linha das tramas cinematográficas, em que estão eternamente em busca do Justiceiro-mór, capaz de sozinho proteger uma cidade do porte de New York. E quando um humano não é suficiente para tanto, importam similares das estrelas. E estes sempre pensam em  “americanês”.

A ferro e fogo nossos irmãos do Norte impuseram ao mundo o “way of life” deles e de tal modo o fizeram que até o idioma que falam tornou-se universal. Com a sede de sangue que possuem em seus genes mesmos deixaram na poeira os antigos conquistadores vikings. Acabaram-se as diferenças culturais. No Japão, por exemplo, a música é o rock, a calça é o jeans, a camisa é presa nos cotovelos, os cabelos são pintados de louro e usam-se lentes de contatos azuis. Fica ridículo um japonês da gema aparamentado com aquilo, tudo em busca da imitação dos que estão, por enquanto, ainda no píncaro do desenvolvimento tal como espalharam mundo a fora.

Praia do Nordeste - ainda virgem e belíssima.

Praia do Nordeste brasileiro – ainda virgem e belíssima. E aqui, as águas são mornas e, não, geladas.

Não me incomoda que outros países se percam de suas raízes e adotem aquela que se diz ser a mais evoluída dentre todos. Afinal, tudo passa. Em futuro distante nenhum ser humano estará de pé sobre a Terra. Então, o que fizeram desaparecerá em pó. Todas as intrigas fomentadas pelos nossos irmãos do Norte terão desaparecido e sua absoluta insignificância ficará patente no silêncio deste ultra-micro-Planeta que estará sendo preparado para uma outra leva de tresloucados ultra-mini-pixels animados e quase conscientizados.

Mas vamos continuar falando dos tresloucados de agora. Nosso país, sem fugir ao feijão com arroz de todo o mundo, também imita os irmão do Norte. E é uma vergonha. Nem imitá-los sabemos. Só no  que há de pior entre eles. Nisto, sim, somos bons. Não que, entre eles, não haja políticos corruptos. Longe disto está a Verdade. Há-os, sim. Mas a quantidade lá em comparação com a de cá é insignificante e quando pegados amargam de verdade uma “cana” pesada. Não lhes cabe nem de longe as benesses que nós, magnânimos, concedemos aos nossos “colarinhos brancos”. Estes, quando a História for reescrita – coisa que acontece periodicamente entre nós – serão inseridos nos livros como Heróis do Brasil e a eles loas serão tecidas e seus nomes constarão de provas de vestibular. Seus feitos serão maquiados, como os de outros, no passado, e eles ficarão limpos, tão limpos como se tivessem sido polidos com Bom-Bril. E nós, finalmente, teremos novos heróis a que prestar honras no Sete de Setembro, no Dia da Independência e em outras datas comemorativas desta Nação sem memória.

Até a Vovozona terá seu nicho de Glória em nossa História maquiada e surgirá como a bela dama que salvou o Brasil da miserável, horrenda, tirânica etc, etc, etc… Ditadura Militar.

Eles aparecerão como os bandidos do passado. Assim querem os atuais polititicas.

Eles aparecerão como os bandidos do passado. Assim querem os atuais polititicas.

E quem serão os vilões? Os militares das Forças Armadas, lógico. Para que haja heróis tem de haver bandidos e estes, serão para sempre nossos Militares. Afinal, como certa vez me disse o General Galvão, falecido Presidente da EMBRATEL, em 1971: “É o Sistema, Brito. Alguém tem que ser queimado. Por azar, para você, você é esse alguém. Eu não posso fazer nada”. Porque eu não aceitava a corrupção que passou a grassar dentro da Empresa com o advento de cinco coronéis reformados à força porque eram ladrões, fui escolhido para ser ofertado em holocausto à confraria dos patifes de estrelas gamadas nos ombros…

Sim, era, é e continuará sendo o SISTEMA. Mesmo despertando em meu peito uma explosão de ódio assassino, ele me falava uma verdade pétrea em nossa incipiente cultura.

Alegam os nossos Historiadores que isto que nos estarrece se deve ao fato de que ainda somos um país muito jovem, que nem cultura própria desenvolveu. Por isto é que buscamos em outros povos conseguir o modelo a partir do qual possamos construir nossa própria cultura. Hummmm… Será mesmo? Então, penso eu, a cultura que vamos construir será como a anti-matéria, ou seja, absolutamente contrária a tudo o que de Bom, Moral, Ético e  Honesto se criou pelo mundo.

E fico pensando que estou fora deste mundo desde mesmo quando aqui nasci. Eu não devia estar vindo para cá, naqueles tempos, mas a desgraçada da cegonha, talvez com sono, abriu o bico antes do tempo e eu despenquei em Campo Maior, no Piauí, e justamente neste torrão chamado Brasil.

Que azar, meu nêgo! Cresci fora do contexto, servi fora do contexto, trabalhei fora do contexto, me formei fora do contexto, cliniquei fora do contexto e finalmente aqui estou sempre com a mesma pergunta: POR QUE?

Velhos viajam para ver isto. Por que? O que procuram lá?

Velhos viajam para ver isto. Por que? O que procuram lá?

Leio em época sobre os velhos e velhas que estão danados buscando negar a velhice e viver as aventuras que não puderam viver quando não passavam de escravos da nossa Democracia. Vejo na TV velhotas serelepes, felizes porque já viajaram para o México, ou para Maiame (NOTA: há uma regra gramatical que manda que aportuguesemos os termos estrangeiros que não tenham correspondentes em nosso vernáculo. Ela também manda que se dê preferência aos vocábulos portugueses em lugar daqueles estrangeiros. Não é o que acontece, hoje, mas como eu sou das antigas...),  ou sei lá pra onde mais. E me ausculto a respeito do que quero. E descubro que não dou o mínimo valor ao que, para eles, parece ser o máximo.

Por que diabos vou sair de meu país para ir tomar banho de mar em Maiame, quando bem aqui perto tenho praias que dão de dez a zero em beleza natural nas de lá? Vá a João Pessoa, a Natal, a Recife, a Fortaleza e a toda a costa nordestina brasileira e você verá que estou coberto de razão.

Por que vou viajar quilômetros para ver os quênions americanos desérticos, secos, vermelhos, feios, quando aqui ao meu lado tenho chapadões lindíssimos, verdejantes, pulsantes de vida e, melhor, sem o sangue seco dos naturais da terra que as areias de lá exibem a olhos cegos e a ouvidos moucos para os gritos de raiva impotente e da dor da morte inglória?

Vai viajar para a Índia para ver isto? Não precisa. Vá ao Maranhão e verá até pior.

Vai viajar para a Índia para ver isto? Não precisa. Vá ao Maranhão e verá até pior.

Por que ir à Índia ver a miséria de seu povo, quando aqui no meu país, em qualquer lugar, posso ver  miséria de um povo que vive de teimoso e esquecido criminosamente pelos políticos que escolhem? Entre a miséria de lá e a de cá, fico com a de cá. Ao menos desta eu sei a razão.

Por que vou para a América do Norte comer seus horrorosos hambúrgueres, quando posso fazer isto bem ali no McDonalds ou em outro tentáculo de lá bem aqui, quase em minha porta?

E olhe aqui, colega, entre comer os hambúrgueres americanos e roer as costelas dos bois daqui eu prefiro nosso churrasco de costelas à gaúcha.

Não me convence. Colocar dinheiro na burra dos outros para ver o que posso ver aqui mesmo e de graça? Realmente não me convence. Não há nada lá fora que seja diferente do que posso ver, tocar, comprar e usar aqui mesmo. Afinal, gente, o mundo realmente virou uma ALDEIA GLOBAL, onde quem dita a moda são nossos irmãos do Norte. E eles nem precisam fazer força para ditá-la a nós, visto que ainda nem temos cultura.

Oh, velharia desmiolada e fracassada. Por que não escutam seus corações? Por que não se voltam para o olhar de suas consciências? Venho fazendo isto constantemente, nestes últimos anos. E tenho descoberto coisas espantosas. Por exemplo: cada palavra que ouvi de uma garota ou de um amigo; de um parente ou de um inimigo; todas elas, agora, têm um peso muito grande no que resultaram em comportamento para mim. Aquelas bocas e aqueles olhos me surgem com força diante de meus olhos mentais da recordação. E vejo, pasmo, que, na época em que as ouvi não lhes dei a importância devida. Eu as ouvi com o rancor da mágoa; com a arrogância do estúpido; com a indiferença dos que pensam que tudo sabem; com a impaciência dos que vivem correndo em direção ao…Nada. 

Quando buscamos ver e ouvir as palavras que nos foram ditas nos dramas sequenciais que vivemos durante nossa vida, enxergamos o  que naqueles momentos de tensão não tivemos condições de enxergar. Enxergamos a bondade do outro, que ignoramos; enxergamos um pedido de socorro, que nos furtamos a dar; enxergamos a procura de uma ajuda, que negamos; enxergamos um conselho sensato, que desprezamos; enxergamos uma oferta delicada que desdenhamos; e enxergamos o quanto fomos estúpidos, superficiais, ignorantes e apressados. Apressados para quê? Isto, não enxergamos porque não há para onde nem para quê. Há somente um viver desembestado que, no final das contas, não foi viver.

E por não ter sabido viver, envelhece-se ainda na ilusão de buscar alguma coisa que nunca será encontrada em lugar nenhum, por mais distante que se vá. O que todos procuramos está dentro de nós, na história que construímos irresponsavelmente, iludidamente, apressadamente e tolamente.

A História de nossa Vida.

Os olhos e as bocas de meu passado me surgem com um poder de significado aterrador. Mas eu me sinto feliz porque elas não me aterram. Mesmo tendo vivido minha vida muitas vezes desnorteado e desorientado, nunca desprezei uma boca sedenta de ajuda; nunca deixei de mirar fundo nos olhos que me miravam e sempre busquei dar o que me fosse possível ao outro, mesmo que este outro, em seu drama cruciante, me magoasse por ser incapaz de não fazer diferente.

E, então, percebo que aquele Ser Imponderável que sou Eu verdadeiramente tem muito pouco de que me acusar.

Por isto sei que venci.

 E isto me acalma e me tranqüiliza.

Estou pronto para ir ao Seu encontro de fronte erguida. Mesmo que tenha algumas censuras a ouvir d’Ele, elas não me serão dolorosas, porque vivi sem o desespero de me procurar onde eu não estava…