Eis o nosso "batoré", mas batizado como Marley. Éesperto como o diabo.

Eis o nosso “batoré”, mas batizado como Marley. É esperto como o diabo.

Oito horas da manhã e já tenho Orozimbo tocando minha campainha. Estranhei quando ele passou por mim como se eu não estivesse ali e foi direto se abancar. Vim ter com meu amigo curioso por sua pressa, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele me inquiriu.

— Vancê tem arguma coisa pra fazê agora?

— Você sabe que sim. Tenho de colocar água e comida para os cães, molhar a grama recém-colocada, senão morre. Tenho de fazer compras de frutas que não tenho nenhuma em casa. Tenho de varrer a casa, lavar o banheiro, a cozinha e, hoje, excepcionalmente, pretendo dar uma limpeza na geladeira. E tudo isto leva um tempo danado.

— Apois vancê pode isquecê de tudo. Agora, vancê tem mais é qui me ajudá.

Sentei-me a seu lado, curioso.

— Do que se trata?  Perguntei, curioso.

— É meu netim —disse ele,coçando a carapinha. — Ele tem andado calado, triste, arredio. E quando véio tenta cunversá ele se recusa a falá. Meu netim nunca foi ansim e você sabe bem, num é mermo? Ele sempre foi tagarela e muito inquieto. Inté demais, pro gosto deste véio. Mas ele agora pisô no freio e isto tá me aguniando, inté mermo pruqui ele num qué se abri cumigo, home. Véi inté ja perdeu o sono pur causa disto, num sabe?

— Você já o levou ao médico, no postinho? Pode ser que…

— Num é não. O pestinha tá sofrendo de banzo e pra banzo num tem remédio em famaça de branco. O pió é qui num deu certo as mesinha qui véi feiz, num sabe?

Arthurzinho voava na capoeira.

Arthurzinho voava na capoeira.

Fiquei pensando o que poderia ser. Estaria o Arturzinho sofrendo alguma espécie de coação por parte de amiguinhos, na escola? Alguma violência? Não, não. O garoto era experto em capoeira. Jogava a Angola e a São Bento Médio com mestria, graças aos treinos intensivos a que era submetido pelo meu velho amigo. Eu, também, lhe tinha ensinado alguns golpes de Aiki-dô, principalmente as quedas, pois a queda em capoeira não é nada agradável e expõe muito o jogador a um contra-atraque perigoso. O moleque rapidamente adaptou o que aprendeu à Capoeira e logo tinha movimentos novos e perigosos à sua disposição. Além disto, devido ao doloroso e intenso treino de bater com a mão espalmada em uma tora de madeira, Arturzinho tinha a palma da mão grossa como uma sola de sapato e um “tabefe” dele poria qualquer menino no chão com uma bruta dor de cabeça.

— Bom, então —, disse eu — acho que você devia conversar com a professora dele para sabe se o comportamento de seu netinho mudou de algum modo…

— Véi já feiz isto, num sabe? E a dona me dixe qui meu netim tá arredio cuma largatixa. Ele, qui era o mais alegre do grupo e fazia a alegria da mulecada, deu de andá quieto, separado de todo mundo, caladão e arredio. As nota dele, tombém, caíram munto, home. Meu netim era um bom aluno, mas agora anda tirando nota vermeia a dá cum pau. E num qué cunversa cumigo, quando tento falá a respeito cum ele. Véio tá aperriado, num sabe?

— Bom, creio que teremos de averiguar a razão diretamente com o Arthurzinho, meu amigo. Ninguém melhor que ele para nos dizer a razão de seu banzo.

— E apois. Foi pur isso qui véio veio cá. Tarvez sua pisicologia possa abri o muleque.

— Antes de incomodar seu netinho com minha psicologia, diga-me, meu velho, como anda aquela paixonite dele?

Orozimbo pensou um pouco e se lembrou da Ritinha. Seu neto tinha andado de asa baixa para a mulatinha, já fazia um tempo.

— O qui qui tem a Ritinha cum isso?

— Ora, Orozimbo, você sabe muito bem que nada causa banzo com tanta força do que uma paixonite.

—Mas num é isso. Meu netim se desinteressô dela quando ela se vortô toda cheia de carinho pra otro mulequei, num sabe?

— Crianças, meu amigo, se apaixonam muito facilmente e, também, se desapaixonam com a mesma facilidade. Hoje, então, quando elas têm mais liberdade que os de nosso tempo, a paixonite é bem mais forte. Até porque são muito estimulados desde mesmo o berço.

Orozimbo me olhou com cenho franzido. Ele não tinha TV nem nada que pudesse estimular a fantasia de seu netinho, em sua arucaia. Mas se esquecia que o garoto vivia em companhia de outros e estes, sim, o incentivavam à curiosidade precoce.

— Meu netim tá de asa arriada pur arguma muleca, é?

— Isso, quem pode dizer é ele. Mas desconfio que sim.

Orozimbo pensou um pouco e riu baixinho.

— E num é qui pode sê mermo, home. Quando eu era mulequi cuma ele tombém me apaixonei pur uma muleca qui num quiria nada cumigo. Ih, cuma sofri…. Será que meu netim tombém tá gostando de quem num gosta dele, é?

— Traga o Arthurzinho aqui e eu vou conversar com ele. Nós somos bons amigos e eu creio que ele falará bem mais livremente comigo.

Sem dizer nada Orozimbo se pôs de pé e saiu como um pé-de-vento. Não demorou para retornar com o neto a tira-colo. O garoto ainda estava com a roupa da escola. Arthurzinho me deu um abraço bem apertado com aquele sorriso de cara cheia de que eu tanto gostava.

— E então, seu vô lhe disse o que eu quero conversar co você?

— Não. Ele só falou com a professora e ela me mandou vir com ele até aqui. O que é?

— Parabéns. Você está falando corretamente. Fica bonito, sabia?

— Tenho estudado muito.

— Vamos sentar aqui? — E eu lhe idiquei a bairada da varanda. Sabia que ele gostava muito de se sentar com os pés balançando no vazio. E foi daqui de cima, quase um metro e oitenta, que ele aprendeu a cair lá em baixo sem se machucar. Orozimbo sentou-se no seu toco, bem atrás de nós dois, em silêncio.

— Diga-me, como vai a Ritinha? — Perguntei, tão logo estávamos sentados lado a lado.

— Não sei. Ela se mudou de colégio e nunca mais nos encontramos.

— Então, de que está saudoso?

Arthuzinho me olhou desconfiado e, calado, fitou os pés que agitava nervoso.

— E então, quem é a nova dona desse coraçãozinho?

Ele ficou calado um longo tempo, sem me olhar. Depois, com os olhos úmidos, me disse:

— Ritinha era preta, como eu…

— Ah! E a nova pretendente a rainha africana é branca?

— Rainha africana?! — Estranhou ele, me fitando nos olhos.

— Você é legítimo descendente de africanos nascidos lá. Então, ainda que tenha nascido aqui, no Brasil, você realmente é africano. E seu avô era um grande chefe em Nairóbi, então, você também é um chefe tribal. Uma posição equivalente à da Dilma, aqui, entre nós.

— Só que eu não sou polititica, não é? 

Eu ri. Ele me lia, ora essa.

— Não, não é. E espero, sinceramente, que nunca venha a ser.

— Não virei a ser isto. É repulsivo. Minha professora gosta muito de ler seu blog, sabia?

— Não, eu não sabia. Mas vamos voltar à candidata a rainha africana?

— Não.

— Por que?

— Não quero falar sobre ela.

— Bom, quando alguém fere meu coração é bom encontrar alguém com quem desabafar. Sempre foi assim. Claro que é preciso que a pessoa seja nosso amigo e eu sempre me abria com meus amigos. Você não me considera seu amigo?

Novamente ele fez um longo silêncio. Então, com voz abafada, me disse que a garota é de família rica, anda de automóvel e seus pais são gente fina. A menina anda sempre bem vestida, tem sempre dinheiro para pagar seus lanches e até pagou alguns para ele também. Tudo isto o faz sentir-se pequeno diante dela.

— Arthur, uma pessoa de valor não se mede pelo que possua. Riqueza não torna ninguém distinto. Você tem muitos exemplos nos nossos polititicas. A garota… Como é seu nome?

— Lu.

— Lu?

— Luísa. A gente a chama pelo diminutivo.

Eu realmente me admirei do português do garoto. Ele só contava seis anos de idade, mas falava melhor que muitas de nossas “otoridades” enfatiotadas.

— Luísa é mesquinha? Faz pouco de você? Ri… Zomba de você? Talvez de sua carapinha...?

— Ela não faz isto. Ninguém faz. Todos têm medo de mim porque sou capoeira.

— Você já atacou alguém com sua capoeira, lá em seu colégio?

— Não! Se eu fizesse isto, seria mandado embora. E eu gosto de minha escola… Sabe, Lu não gosta de mim.

— E como você sabe disto?

— É que… Bom, ela sempre prefere brincar com os meninos brancos e ricos. Quando eu jogo futebol, por exemplo, ela não vem assistir. Fica olhando os que jogam vôlei. Ela disse que futebol é coisa de negros e pobres. Falou isto para meu amigo, o Rafa…— Ele me olhou de soslaio e completou — Rafael.

— Bom, de certo modo, filho, ela está certa. No Brasil, apenas negros, mulatos e pobres jogam futebol. Não é esporte para os branquinhos ricos. Você nunca notou isto? Pelé, por exemplo, é preto e era muito pobre quando começou no futebol. O Neimar, é mulato e era pobre também, antes da fama conquistada com os pés.

— É a tal de inteligência cinestésica, que a Lu afirma que só existe nos negros e nos mestiços brasileiros. Mas eu também tenho inteligência cenestésica. Sou capoeira e para jogar o jogo da capoeira eu tenho de ter uma boa inteligência cenestésica. Foi o que me disse a psicóloga da escola.

Jogadores de Pólo.

Jogadores de Pólo.

Boquiabri-me. O pestinha estava danado de esperto e muito bem informado.

— Você sabe o que é o jogo de pólo?

— Sei. Um jogo dos ricaços e nobres ingleses. Eles jogam montados em corcéis muito caros e muito bem tratados. Só os ricos praticam o pólo…

— Eles são brancos, mas têm inteligência cinestésica. Apenas aprenderam a empregá-la no hóquei, em lugar de no futebol. A inteligência cinestésica está em muitos esportistas, como os artistas de circo ou os que praticam a Ginástica Olímpica. E você sabe que temos grandes negros e negras que foram campeões mundiais em Ginástica Olímpica, tanto quanto temos brancos também. Então, este tipo de inteligência não é apanágio apenas dos negros ou dos brancos. Os lutadores também têm inteligência cinestésica e isto independe da cor da pele. Entendeu?

Ele me olhou com olhos brilhantes e acenou vigorosamente que sim, com a cabeça.

— A Lu está errada. Acho que ela é preconceituosa…

— Calma, meu jovem. Às vezes o que parece, não é. Você, pelo que sei, não interage com a garota. Então, não pode concluir nada sobre ela a partir de algo tão superficial. Então, que tal a gente combinar uma coisa?

— Que coisa?

— Você vence sua inibição e se aproxima da jovem Luísa. Procura conversar com ela, como conversa com qualquer outra menina no seu colégio.

— E pra que isso?

— Ora, você só conhece uma pessoa se interage com ela. 

Ele ficou olhando para os pés com a testa franzida. Provoquei.

— O que é? Você tem medo da menina? Por que?

— Eu não tenho medo dela, ora — protestou ele me olhando direto nos olhos.

— Então, talvez tema o garoto que anda paquerando ela, não é?

— Eu não tenho medo daquele boboca! — Quase gritou o garoto. Estava com ciúmes. Agora eu sabia a razão de seu comportamento. Estava em conflito.

— O boboca é metido a bravo?

— É campeão de karatê. E vive se gabando disso.

— E você tem medo do karatê dele?

— Não, ora.

— Mas teme ser ameaçado por ele?

— Claro que não! Que idéia!!!

— Mas ele se põe de dono de Luísa, não é?

— Eu não sei. Só sei que onde ela está, ele também está. E todo meloso pro lado da garota.

— E você se mói de ciúmes… Não é?

Ele apenas encolheu os ombros.

— Arthur, uma pessoa está num local público. Sente vontade de ir ao banheiro, mas alguém entra lá em sua frente. Ele decide esperar e se distrai olhando a TV. O tempo passa. A vontade aperta. Ele olha para o banheiro e a porta continua fechada. Ele se aguenta por um longo tempo e nada. A vontade está nas últimas. Ele sua. O que você acha que ele deve fazer?

— Ora, bater na porta e apressar quem está lá dentro, senão vai fazer nas calças.

— A pessoa que está querendo ir ao banheiro é você. Quem está dentro dele é o garoto que anda pareendo namorado da Luísa…

Ele pensou um tempo, balançando os pés e batendo com os calcanhares na parede. Então, com um suspiro, olhou-me e murmurou “entendi”. Pôs-se de pé e chamou o avô para ir embora. Deu-me um abraço e se foram. Orozimbo não falou nada e se foi tão calado como quando tinha chegado.

Aquela história ainda ia dar panos para manga…