O Inglês e eu andamos assim: aos tapas e socos.

O Inglês e eu andamos assim: aos tapas e socos.

Eu estava danado da vida com o Duolingo. Acertava todas as tarefas de tradução e identificação de frases e termos; acertava na escrita das frases solicitadas, mas na hora de eu falar para que o programa identificasse o que eu dizia, a vaca ia pro brejo. Terminei concordando com Rui Barbosa que dizia: “Eu tenho a obrigação de falar bem e pronunciar bem o meu idioma. O dos outros, eles que se esforcem para me entender”. Joguei a tolha. Sou brasileiro e não me interessa falar o inglês como se ele fosse “nariz de santo” – um velho ditado do nordeste para indicar perfeição.

Levantei-me cansado e com dor nas costas por ter ficado quatro horas tentando falar com a máquina. Fui para a varanda esticar o corpo dolorido e eis que me chega o velho Orozimbo.

Ele sempre me apronta, mas desta vez fiquei preocupado.

Ele sempre me apronta, mas desta vez fiquei preocupado.

Ele se “abancou”, acendeu seu cachimbo, tomou seu café amargo e fez a pergunta, olhando-me com o cenho franzido.

— Não, não, meu velho Eu lhe respondi.  Eu não abandonei meu blog. É uma questão de prioridade. Como você sabe, eu me impus um desafio danado de difícil para mim: aprender inglês.

— Mas vancê num lê nessa língua embolada, aí, não? Véio viu vancê lendo um livro iscrito nessa língua esquisita…

— Leio, sim. Mas escrevo mal, não compreendo nada quando alguém fala em inglês comigo e falo esse idioma pessimamente. Ao menos escrever e entender eu pretendo melhorar.

 — E falá? Vancê num qué falá, não?

— É como se dizia no Rio de outrora: embola e manda. O gringo que entenda. O que me interessa é entendê-lo para que não me xingue e eu fique com cara de boboca, rindo de minha própria ignorância.

— Hummm… Véio num intende vancê. Inventa cada coisa… Cum sua idade, pra qui diabo istudá uma língua istrangêra? Afiná, vancê num vai viajá pra lá… Ou vai?

Fiquei pensando um pouco. Na verdade, no meu íntimo, eu realmente não percebia qualquer interesse em viajar para o exterior. Os noticiários não nos incentivam a isto, embora eu saiba que, ao menos no Brasil, as Televisões primam pelo mórbido, pelo trágico, pelo que é deprimente. Para elas, quanto pior, melhor. São fãs incondicionais do terrorismo midiático.

Este papelzinho colorido compra a consciência de muitas pessoas pelo mundo a fora.

Este papelzinho colorido compra a consciência de muitas pessoas pelo mundo a fora.

— Óia —, disse Orozimbo, depois de esperar um pouco pela resposta que não lhe dei. — Vancê é um home de munto juízo. Vancê me dixe qui lá nas istranja, se vancê cai duente fica numa situação difirce, pois lá num dão assistênça cuma aqui, prus qui são de fora. A num sê qui vancê seja munto rico, o qui vancê num é. Vancê, qui véio saiba, num tem montanha de dinhero, né não? E tombém num é pulititica, qui tem os mió prano de saúde do mundo à disposição deles e das famias. Mermo qui seu fio vá lá pra fora e quêra levá vancê cum ele, véio Orozimbo num aquérdita qui vancê vá. Véio cunhece sua disconfiança e seu apego pur segurança. Desde minino vancê foi ansim. Agora, adispois de véio, vancê aquerdita mermo qui vai se daná pelo mundo afora numa aventura perigosa? Não qui vancê tema o pirigo, pois de tanto andá aos tapa cum ele, já são véio cunhecido. Mas é qui num lhe agrada sê martratado pur istrangero, véio sabe disto. Este país aqui é uma merda, véio sabe tombém, mas é o seu. Aqui vancê tem parente qui pode lhe istendê as mão e inté mermo o Guverno, porco, sem-vergõia, tem meio de lhe socorrê na necessidade. Mas e lá fora? Vancê vai pô seu fio numa camisa de onze vara, tendo de lidá cum vancê duente? Vai nada! Véio acha qui vancê divia era de butá o dinhêro qui tá pagando à-toa nessa língua aí, numa caderneta de popança. Ansim, quando percisasse, vancê teria ele à disposição. É o qui este véio faria, mas este véio num é vancê, num é mermo? Se qué aprendê arguma coisa desta língua isquisita, intonce, home, viaja pela tar de interneti. Ela tem uma porção de gente insinando esta besterada de graça. Vancê inté vai aprendê mió qui na tar de iscola, ora.

Um buraco como este é o destino de todos, mas ninguém o quer ver por perto...

Um buraco como este é o destino de todos, mas ninguém o quer ver por perto…

E tem mais, home. É tempo de vancê comprá um buraco no  cimitéro pra sê interrado. É tempo de vancê pagá uma funerára para deixá tudo pronto e num dá trabaio prus seus familiá. Sê interrado, hoje, exége muntu dinhêro, num sabe? Vancê já pensou nisto? Digo, já pensô no seu interro?

Eu não lhe respondi. Estava confuso. Suas palavras bateram em mim como uma marreta e bem numa dúvida que se escondia lá no fundo de minha mente. Eu me impusera o desafio, mas por que? Eu nunca me fizera esta pergunta. Mas devia tê-la feito, percebia-o agora.

— E tem mais, home — continuou Orozimbo, quando eu não lhe respondi. — De onte pra hoje vancê teve um sonho. Sonhô cum preto véio vaqueiro. Ele tava sentado numa preda e mixia na terra. Tava de lado pra vancê, qui  acabava de chegá de dentro de uma grande mata, munto verde e munto cheia de cipoá difirce de se passá pur eles. Era um acampamento. Vancê intendeu ansim. Cumprimentô os qui tavam ali e viu umas rede istendida sob uma tapera sem parede, cuberta de paia. Vancê tava cansado, mas tava sartisfeito pur ter chegado inté ali. Entonce, vancê iscuieu a rede maió e mais confortáve e nela se deitô. O nego véio vaqueiro falô: “Tá pronto pra viage?” Ele preguntô. Vancê arrespondeu lá de dentro da rede: “Eu sempre tô pronto pra viajá”. E o preto véio vaquero lhe arretornô: “Bom. Pois nóis daqui a pôco vamo vir pra lhe buscá”. E foi aí qui sua véia veio se deitá na rede cum vancê, mas o preto véio vaqueiro num deixô. “Não” ele dixe, “esta rede aí é especiá. Iscoia otra”. E sua véia, de má vontade, foi iscuiê outra rede. Vancê se assentô na rede e falô pro preto véio vaqueiro: “E pra onde vancês vão-me levá?” E ele lhe oiando nos óio arrespondeu: “Prum lugá bunito, munto bunito. E a gente vem pra evitá qui vancê vá caí num lugá munto feio, mermo. Vancê já num merece mais aquilo lá, nhor não. Mas tem uma coisa…” E vancê ficô de pé e foi pra perto dele. Lá, preguntô: “Qui coisa?” Ele lhe oiô sem se alenvantá e falô, sério: “Vancê tem de perdoá seu inimigo de munto tempo. Ele num veio pra lhe provocá, mas sua impricança cum ele vai dispertá a reiva de muntos anos. Munto mermo, num sabe? E vancês já brigarum o suficiente para muntas existença. Já se mataram feito dois disisperado. Chega! É tempo de pô um ponto finá na históra, num sabe? A gente só tá isperando vancê tomá a iniciativa e perdoá. Vancê inté qui aprendeu a perdoá farci, mas tá pisoteando no mermo lugá, quando o assunto é o minino. Ele quiria vir nascê seu fio, mas vancê impricô de tar modo qui num foi possíve consegui sua anunênça. Munta gente lá de riba gastô foi saliva tentando lhe convencê a aceitá seu inimigo cuma seu fio, mas vancê fincô pé e num arredô da decisão. Entonce, a muié qui é mãe dele, agora, aqui im baixo, se ofereceu pra ajudá. Ela num tinha nada cum vancês, mas quiria só ajudá os dois. Ela veio, teve o minino, se enrolô toda pru quê o carma do minino é munto sujo, mas foi justamente ansim qui ela pôde encontrá cum seu muleque, seu fio de verdade. Este seu fio se ingraçô pela moça e tudo estava indo bem. Aquele isprito sofredô tinha uma porta aberta pra se aproximá de vancê. Mermo qui de través, ele pudia entrá em sua famiá e sê beneficiado pru vancê, pur sua bondade e sua sempre forte disposição de ajudá. Seu fio, qui é cópia iscarrada e cuspida de vancê mermo, feiz pelos dois o qui vancê teria feito se num fosse cabeça dura e teimoso como uma mula. Mas vancê impricô de novo cum mulequi. Cuidado! A reiva pode exprodi e vancês dois vão-se imbolá de novo. E num vai sê bão”. Aí, home, vancê ficô oiando pro vaqueiro com cara de pocos amigo. E dixe, reivoso: “Se dependê disso aí, num vou cum vancês, não”. E se arretirô de vorta pra sua rede. Só que ela, agora, era feia, suja, puída e desconfortave. Vancê percurô pela premera rede, mas num incontrô. Percurou arguém qui lhe dissesse quem tinha levado a rede boa, mas num tinha mais ninguém ali perto. Só vancê. Vancê tava sozim, num sabe?

A rede bonita tinha sumido...

A rede bonita tinha sumido…

Eu estava de boca aberta. Não tinha contado meu sonho a ninguém, exceto a meu filho, mas apenas pedaços dele, pois não me recordava de tudo, tal como Orozimbo, para meu espanto, me relatava ali, naquele momento.

— Vancê sabe de quem véio tá falando, num sabe?

— Sei… Mas como é que você sabe de meu sonho? Eu não o tinha contado a ninguém, exceto ao meu filho, quando o fui levar para a carona, hoje, às 5 horas da manhã. E não lhe contei o sonho todo. Até porque não me recordava dele com tanto detalhe.

— Isqueceu qui este véio aqui é mandingueiro, é? — Disse ele, rindo e voltando a fitar ao longe.

—Orozimbo lê o qui tá registrado na aura do fio, home. É farci pra mim. Sou do Candomblé, vancê tá isquicido? E sou um bom babalorixá, ora.

— Você tem sempre uma carta escondida na manga — disse eu, sentando-me no chão, ao seu lado. — Quer dizer, então, que meu sonho se refere ao filho da…

— Não, não é isso. Seu sonho num foi mermo um sonho de verdade. Foi uma viage lá in riba, num sabe? A mata representa sua vida. A vida cheia de desafios difircis, arguns inté mortás, qui vancê venceu. A parada onde vancê viu o pessoá acampado significa a preparação que tão fazendo pra findá sua estada na “mata”. A rede significa duas coisa: nas duas, ela é a merma coisa: seu caixão. Na premera representação, a rede indica que seu caixão pode ser bão, não porque seja feito com munto luxo, nada disto. Ele pode ser bão pruque é a passage pra um lugá munto, mas munto bunito. A rede boa, larga, confortáve, quer dizê qui seu isprito, ao se ir imbora, num vai ficá peregrinando pelo sumitéro, cuma de otras veiz em que vancê foi lá pra riba e teve de dá uma paradinha num lugá danado de ruim. A segunda coisa qui a rede qué dizê, quando ela muda pra uma rede feia, suja e puída, é qui vai dependê de sua decisão, de novo, ir direto para um lugá munto bão lá do outro lado, ou ficá num lugá ruim, novamente. A iscoia é sua. E é a segunda e úrtima, pois adispois o bicho vai pegá danado de feio pra vancês dois. Isto, se os dois vortarem a imendá os bigode novamente…

A Magra pode-se apresentar na forma que desejar. Como a de um vaqueiro...

A Magra pode-se apresentar na forma que desejar. Como a de um vaqueiro…

— E quem é o vaqueiro negro?

—Aquilo que as pessoa chama de “Morte”. O grupo todo qui vancê viu no seu “sonho” é formado pelo pessoá qui nos seus istudo ocurtista vancê cunheceu com o nome de Devas Cinzentos. Pur isso é qui eles lhe pareceram pretos.

— Então, eu sonhei com a minha “morte”?

— E o qui vancê acha? Num deu pra suspeitá de conformidade com os sintoma de saúde qui vancê vem sintindo, não? Num deu pra disconfiá de conformidade cum seu desinteresse pur tudo o qui é deste mundo, não? Num deu pra disconfiá pelo seu desinteresse inté pelas muié, não? Óia, home, essa históra de ingrês num foi vancê, seu isprito mermo, qui iscuieu. Foi o qui vancê chama de Elementá Físico, num sabe? Ele sente que tá chegando ao fim e num qué morrê. Cuma vancê mermo já disse em seu brogue, quem morre é o Elementá Físico, não o Eu Verdadero da pessoa. O tar de Elementá Físico é o premero a senti a aproximação do fim. e reage. Sempre reage. O seu é munto forte, num sabe? Vancê meteu ele em munta increnca, mas tombém sempre cuidô bem dele. Entonce, ele gosta de vancê e seu Isprito inté qui gosta dele. Mas o finá é inexoráve, num é mermo? O Isprito tem de prossegui sua caminhada. Num pode ficá preso ao apego qui tem pelo seu Elementá Físico. nhor não. Não mermo.

Sua impricança cum mulequim da moça é, cuma vancê diz, pró-forma. No fundo, no fundo, vancê mermo, aqui e agora, num sente nada de reiva contra ele. É um reflexo do passado, só isso. É cuma o eco de um grito qui já foi dado, mas qui fica soando e soando e soando entre os paredão das montanha, intendeu?

A oportunidade tornô a lhe surgi. Mas preste atenção, ome de Deus, esta pode sê a úrtima chance. 

— Você fala do casamento de minha filha?

— E apois. É sim. A moça vai vim. O mulequim pode num vim pruqui vancê num gosta dele. É tempo de vancê disfazê esse rolo e cunversá cum ela. Abri o jogo e o coração, num sabe? No começo, inté qui vancê se mostrô receptivo cum ela. Pru qui é qui mudô?

— Eu não acreditava que meu filho ia levar essa história a sério, Orozimbo. E eu queria netos filhos dele, pois não sou capaz de aceitar netos de contrabando. E não aceito que um neto meu seja criado dentro do Evangelismo. Detesto este ramo do Cristianismo. Até mais do que detesto o Catolicismo.

— Ora, cuma é qui vancê qué netim, se vancê vai-se imbora antes deles chegá? Se sua vida se ispicha um tiquim mais é só pruqui tão lhe dando uma chance pra qui se vença a si mermo, num sabe? E quanto ao Cristianismo qui tá ispaiado pur aí, num foi seu  Jisus qui dixe “o mal por si se distrói?” Entonce. O minino vai crescê e é mió qui fique numa religião qui castra e cega o elemental físico, do que fique sem religião ninhuma, o qui vai deixá ele disprotegido.

— E o meu filho? É justo que ele comece sua vida já carregando um jacá que é de outro?

— E vancê tem arguma coisa com a vida dele, home? Não lhe bastô a sua, não? Qui farta de confiança é essa sua, na educação qui deu a ele? Num viu ainda qui ele é tão forte ou inté mais qui vancê? Num prestô atenção qui ele tem metade de vancê munto forte dentro dele, não? Vancê tem de aprendê a confiá nos seus fios, home. Ninhum deles é isprito fraco, nem mermo aqueles qui cresceram sem sua presença ao lado deles. Pru qui não vê qui sua cabeça dura faiz ele sofrê? E ele num merece isto, nhor não.

Fiquei calado, pensando no que tinha acabado de ouvir. Sim, a opção era dura pra mim, mas eu tinha de considerar que não vou ficar para semente. Se era verdade a interpretação de Orozimbo, então, eu não teria de conviver com o garoto por muito tempo. E mesmo o pouco tempo que eu tenha de agüentá-lo posso fazer que seja com distâcia de mim.

Orozimbo se pôs de pé, deu-me um tapinha no ombro e se encaminhou para a saída. Lá do portão me gritou: “Pensa, home. Pensa”.

Ele se foi e eu fiquei às voltas com meu dilema…