Os atabaques são indispensáveis em um terreiro de umbanda.

Os atabaques são indispensáveis em um terreiro de umbanda.

Os atabaques rufam com força. Os “caboclos” incorporados giram pelo terreiro e fazem girar no ar suas guias coloridas dependuradas nos pescoços dos médiuns. Geralmente têm a mão direta nas costas do seu “aparelho” ou “cavalo” e com a esquerda ou seguram as guias ou balançam a mão à frente do corpo, estalando os dedos no ritmo do “ponto cantado”. Cada qual tem um passo diferente do outro, mas todos “curimbam” (dançam) num ritmo só. O ponto, “Hoje Tem Alegria“, revela que todo o Terreiro, desde as entidades presentes e incorporadas até os “filho da casa” não médiuns, mas freqüentadores e consulentes, estão contentes com alguma coisa importante.

Orozimbo

Ninguém demove Orozimbo de seu Candomblé, mas desta vez ele levou uma lição.

Sentado ao meu lado e olhando tudo com muita curiosidade e atenção está meu velho amigo Orozimbo. É a primeira vez que ele entra num terreiro de Umbanda. Nunca havia presenciado a manifestação de entidades que, para a sua religião, o Candomblé, não passam de eguns, ou seja, almas de gente morta e, portanto, não devem ser perturbadas em seu estado espiritual. No Candomblé, as manifestações não são de almas humanas, mas de Espíritos da Natureza, especialmente preparados para virem ajudar os humanos, enviados que são pelos Deuses Chefes de Falange, como Changô, Ogum etc… os quais não se manifestam em nenhum médium. Eu o observo pelo canto do olho, curioso com sua reação.

Imagem de Caboclo flexeiro, uma das muitas formas de se apresentar de Sete Flechas.

Imagem de Caboclo Flexeiro, uma das muitas formas de se apresentar de Sete Flechas.

Orozimbo tem os olhos fixos em um “caboclo” específico, Seu Sete Flechas. O médium rodopia pelo terreiro com grande velocidade e percebo que Orozimbo está interessado em saber se o médium vai ou não perder o equilíbrio. Os “caboclos” de Umbanda não se manifestam como as entidades elementais do Candomblé. Estas, manifestadas, movem-se devagar e curvam o médium, numa postura que muito lembra alguém que tenha grave defeito na coluna vertebral, ou velho muito idoso que anda muito curvado sobre si mesmo e, por isto, não pode-se erguer. Além disto, balançam os ombros dando a impressão de que desejam alijar dali algo que está incomodando, ao mesmo tempo em que (alguns deles) emitem um som que lembra um pouco o cacarejar de uma galinha. Não rodopiam tão velozmente como os “caboclos” de Umbanda e, creio eu, exatamente por isto meu amigo está todo interessado em seu Sete Flechas.

O “Caboclo” vem rodopiando velozmente e se posta bem diante de Orozimbo, permanecendo ali curimbando velozmente e soltando muitos “hum-huns” e muitos “êchi”. Percebo que meu velho amigo está incomodado com aquilo. Seu olhar, agora, é de desconfiança e em dado momento ele se vira para mim e pergunta:

— Pru qui é que esse home tá saracoteando diante de véio Orozimbo?

Contive o riso com esforço e expliquei que o “Caboclo” Sete Flechas estava prestando uma homenagem a ele. Talvez o tivesse reconhecido como um chefe do Candomblé. Além disto, a curimba, na Umbanda, servia para que os caboclos limpassem a Egrégora da casa de todas as más influêcias trazidas para ali pelos freqüentadores do terreiro, os quais não fazem um ritual de preparação, como, por exemplo, tomando banho com sal grosso ou com determinadas ervas consideradas intensamente energéticas positivas (ou YIN ou YANG). Orozimbo conhecia bem as ervas de que eu falava e não questionou minha explicação. No entanto, estava muito desconfiado daquele idoso rodopiando diante de si e se mantinha em guarda.

 — Hum —  fez meu amigo sem muita convicção e sempre olhando de cenho carregado para o médium que girava diante de si.

O médium foi trazido pela sua entidade até parar diante de Orozimbo. Então, curvou-se e com a maior facilidade suspendeu meu amigo pelos ombros e o colocou de pé diante de si. Orozimbo pesa aproximadamente 84 quilos de puros músculos e o médium era um senhor magro de não menos que 65 anos. No entanto, ergueu meu amigo como se ele não pesasse nada. Vi o espanto na expressão facial dele.

Com movimentos bruscos, o “caboclo” Sete Flechas fez o cumprimento de Umbanda, batendo o ombro direito do médium no ombro direito de Orozimbo e, em seqüência, batendo o ombro esquerdo de seu “cavalo” no ombro esquerdo de meu amigo, que quis resistir, mas não conseguiu. Então, com os olhos fechados mas como se estivesse fitando diretamente nos olhos do espantado babalaô de Candomblé, falou com aquela fala típica dos “caboclos” de Umbanda.

— Mecê é um cabeção do Candomblé, fio. Caboco lhe dá as boas vindas. Qui é qui mecê veio fazê em meu terreiro?

Orozimbo me lançou um olhar de espanto. Ele sabia que nós dois não tínhamos falado com ninguém sobre quem éramos. No entanto, aquele médium, de olhos fechados, disse exatamente o que ele era, como se o conhecesse há tempos.

Pigarreando, Orozimbo falou:

— Nóis veio cunhecê cuma é qui aqui se trabaia.

— Com a paz de Zâmbi maior e as bênção de Oxalá, fio —  disse o  “Caboclo”, ainda com a mão direita sobre o ombro esquerdo de meu amigo. — Caboco sabe que vancê também trabaia na mesma vibração, fio. Entonce, somos irmão. Sete Flechas dá as boas vindas a vancê.

Orozimbo coçou a cabeça meio sem graça e me deu uma olhada como se pedindo socorro. Mas eu decidi não me intrometer. O Guia de Umbanda, arrastando meu amigo pela mão, foi até o meio do Terreiro onde soltou um brado longo que fez Orozimbo quase saltar de susto.

Imediatamente os atabaques cessaram. Sete Flechas falou dirigindo-se aos seus filhos de terreiro.

— Fios, aqui entre nós, hoje, está presente um dos maiores cabeção do Candomblé Verdadeiro. Não esse que anda por aí fazendo matanças criminosas e inúteis. Caboco fala do verdadeiro, aquele que não usa sangue nem mesmo em oferenda. Entãoce, hoje a alegria é ainda maior em meu terreiro. Uma saudação para o fio preto véio.

Ele puxou Orozimbo e o abraçou, cantando o ponto de recepção de uma visita querida num Terreiro de Umbanda: “Um abraço dado,/De bom coração/É como uma bênção/Uma bênção, uma benção”. Todos entoaram o ponto de recepção de um visitante bem-quisto batendo palmas ao ritmo dos atabaques. O ponto foi “tirado” por sete vezes e, então, Orozimbo foi convidado a se sentar num banquinho usado para os pretos velhos de Umbanda, o que ele fez muito desconfiado. Estava no centro do Terreiro, bem diante do Congá (o Altar) da seita.

Uma das inúmeras representações artísticas do Caboclo Sete Flechas.

Uma das inúmeras representações artísticas do Caboclo Sete Flechas.

Enquanto a curimba continuava, Orozimbo se virou para olhar para o Congá. Tudo totalmente diferente daquele que havia na sua Ifá (Casa, em Iorubá). As entidades ali eram todos os ícones da religião Católica e Orozimbo não reconheceu nelas seus deuses Oxóssi, Ogum, Xangô, Iansã, Oxum e outros mais. Seus olhos se fixaram numa imagem de Jesus trajando aquela tradicional roupa branca e vermelha, que o cobre do pescoço até os pés. Permaneceu assim, estudando cuidadosamente a imagem com uma expressão de incredulidade na face negra e no olhar escrutinador. Positivamente aquele não era Oxalá. Ele, então, se voltou para estudar atentamente a imagem de um índio de pé, segurando um arco distendido, apontando uma flecha para o alto, tendo um enorme cocar de penas pintadas, que descia pelas suas costas. Meu velho amigo se levantou e pegou a imagem nas mãos, sem considerar que não devia mexer no conteúdo do Congá. Revirou aquilo nas mãos, com muita curiosidade e, depois, devolveu a estátua ao seu lugar.

A curimba cessou e cada entidade tomou seu lugar dentro da área destinada a elas para realizar as consultas dos que buscavam alguma ajuda das entidades manifestadas.

Sete Flechas veio para perto de Orozimbo e com um aceno de mão me chamou para me juntar a eles. Fui. Ficamos os três de frente uns para os outros e Sete Flechas pediu a Orozimbo que fizesse as perguntas que desejava fazer. Meu amigo não se fez de rogado.

— Premero — disse ele, no seu linguajar característico e olhando firme na face do médium. — Vancê é um isprito de arguém qui já morreu?

— Sim, eu sou — Respondeu Sete Flechas sem hesitação.

— Mas cuma é qui pode isso? Isprito de gente morta é egum, não deve ser chamado pra trabaiá cuns vivo, ora. Isto está errado! — sentenciou sem qualquer hesitação.

Sete Flechas riu, divertido.

— Os eguns — disse o “caboclo” — são espíritos sem luz. São espíritos de pessoas que passaram para o lado de cá sob a influência do Mal. Espíritos escravos das drogas, dos vícios sexuais, da luxúria e das virtudes negras, como a mentira, a traição, a ganância e outros. São espíritos que se deixaram suicidar porque não tinham forças para se defender. São espíritos de assassinos, fossem eles guerreiros com boas intenções, fossem eles filhos pervertidos pelo crime. Assassinato, sancionado ou não pelas leis dos homens, é sempre assassinato e não tem perdão. São espíritos de prostitutas pervertidas, de homossexuais depravados, de bandidos sanguinários. São espíritos de políticos corruptos, ladrões e gananciosos, que metiram a vida inteira com o único objetivo de lucrar materialmente, totalmente esquecidos de que tinham assumido uma grande responsabilidade como gerente daqueles que lhe deram votos. Todos os falecidos que viveram para e pelos vícios carnais e sociais chegam aqui deste lado sem qualquer luz, sem qualquer consciência da verdadeira vida. Tais entidades brigam ferozmente para continuar a vida do mesmo modo como viviam no mundo dos encarnados. São perigosos e não devem mesmo ser perturbados nem invocados. Vivem no “limbo” e ali sofrem muito, tanto dores físicas quanto dores morais, de consciência. Não é o caso de Sete Flechas.

— E como véve esse pessoá? — Perguntou Orozimbo e eu percebi certo sarcasmo em sua voz .

 — O fio sabe bem — respondeu Sete Flechas sem se abalar. — O fio várias vezes foi até o lugar onde tais espíritos desesperados vivem e conhece muito bem o sofrimento deles. Então, por que me pergunta isso?

Orozimbo me olhou visivelmente abalado. Ele até ali não confiava muito que houvesse alguma coisa sobrenatural se manifestando através do médium. Mas como é que o homem, sempre de olhos fechados, sabia tanto de sua vida, que mantinha ciosamente secreta?

— Pru qui é qui vancês adora os santos cristão e dão a eles os nome dos Orixás de meu Candomblé? — Perguntou meu velho amigo, intrépido.

— Esta história já lhe foi esclarecida pelo seu companheiro, aqui ao nosso lado —  disse Sete Flechas sempre com voz serena. Mas eu notara que ele já não falava com o sotaque característico dos “Caboclos” manifestados.

—  E o que representa aquela image de índio ali in riba, no Congá de vancê?

Eu admirava aquela assertividade sem peias nem freios de meu velho amigo. Ele era direto e não fazia rodeios quando tinha de falar alguma coisa. Mesmo diante de algo que desconhecia. Medo não fazia parte de sua estrutra de Identidade.

—  Representa a mim —  respondeu Sete Flechas, com um sorriso divertido na face do seu médium.

—  E vancê é índio? Num é caboco, não?

— Nem sou índio, nem sou caboclo —  disse Sete Flechas, sereno. — Na verdade, quando vivi entre os encarnados, eu era músico. Isto, na minha última encarnação. Na anterior fui um soldado alemão, que morreu nas trincheiras da Primeira Grande Guerra Mundial.

— Entonce, vancê mente —  sentenciou Orozimbo fechando a carranca para o “caboclo” de Umbanda. Sete Flechas ficou sério e silencioso por um momento. Então, tomando as mãos de Orozimbo entre as do médium, postou-se diante dele e chamou dois médiuns homens, fortes.

—  Fiquem atrás deste filho. Ele vai cair.

Orozimbo me olhou, cético e com um sorriso de zombaria. Mas quase em seguida seus olhos se reviraram para o alto e ele desabou como uma árvore cortada pela base. Os médiuns estenderam seu corpo a fio-comprido no chão diante do Congá e lhe cobriram a face com um pano de linho muito branco. Passaram-se longos sete minutos e eu já estava apreensivo, pois o médium do “Caboclo” se mantinha de pé como uma estátua. Mal se podia ver sua respiração lenta e profunda, como se a pessoa dona daquele corpo estivesse em profundo sono. Então, decorridos os sete minutos, Orozimbo soltou um longo gemido e se pôs sentado, cambaleando atordoado e sem controle motor. Os médiuns que o tinham deitado no solo ajudaram-no a se levantar e lhe deram a beber um copo de água fria. O médium do “Caboclo” teve um estremecimento e também voltou a se mover. Tomando de volta da mão de seu cambono o charuto que lhe tinha entregue antes do desprendimento de Orozimbo, ele deu umas baforadas na altura dos chakras cardíaco e umbilical de Orozimbo que, eu notei, estava meio aparvalhado e ainda não totamente de volta da viagem estranha a que tinha sido submetido.

Terminada a limpeza dos chacras, rindo, Sete Flechas disse que nós dois podíamos voltar a sentar na platéia, mas Orozimbo não quis. Despediu-se reverente e nós saímos do terreiro. No caminho, ele se voltou para mim e comentou:

— Home, esse tar de Sete Flechas é um isprito iluminado. Eu vi ele em todo o seu poder. Ele é bunito. Seu corpo é cuma se fosse de vrido colorido. Dele sai munta luz forte e colorida de todas as cores. É essa luz que o cocar daquela istátua de índio representa. 

—  E tem mais — disse Orozimbo sem se alterar em sua fleugma de preto velho —. Ali dentro só tem ele de isprito. Num tem ninhum otro, sabia? Do coração daquele ispritu iluminado sai fios de luz azul, verde, amarela, lilás e de otras cor qui vão direto pra fronte dos otro médium. Aqueles raios de luz penetra na testa dos médium e eles passa a ser comandado pelo ispritu qui diz qui é o índio Sete Flechas. Cada quá dos médiuns diz estar recebendo um Caboco, mas na verdade é influença do tar de Sete Flechas. Ele é todos os otros. Num intendi a rezão disto, mas sinceramente? Fiquei impressionado. Agora, véio Orozimbo tem mais respeito pela Umbanda e mudô sua crença sobre os eguns. Nem todo isprito de morto é isto, e apois!

Ouvi tudo sem comentários. A entidade tinha dado ao meu amigo a melhor explicação que alguém podia receber sobre o que era a Umbanda. Eu não poderia fazer melhor.