Eis Noriel Velela, cuja voz, de baixo profundo, é inigualável. Morreu com reação alérgica a uma anestesia de dentista.

Eis Noriel Velela, cuja voz, de baixo profundo, é inigualável. Morreu com reação alérgica a uma anestesia de dentista.

Eram as 20:45h e eu vinha de minha aula de inglês. Dirigia o carro de minha filha e ouvia Noriel Vilela, um vozeirão como igual vai levar muitos séculos para nascer outra. Pena que ele só gravou um ou dois discos e o melhor dos dois de músicas relacionadas com a Umbanda. Como fui Umbandista praticante por mais de dezesseis anos, enquanto durou minha curiosidade pelo que pudesse haver por trás das aparências, nunca deixei de gosta e muito dos pontos cantados nesses terreiros. Adoro o som dos atabaques e prefiro visitar um terreiro de Umbanda do que uma Igreja Católica ou, pior, um templo evangélico.

A gasolina do carro de minha filha estava quase na reserva e eu estava chegando ao posto onde sempre abasteço nossos carros há mais de doze anos. O rádio estava alto, mas nem de longe ele chega àqueles sons enlouquecedores que vagam por aí aporrinhando a paciência da gente com funk, trank, trunk e o diabo-que-o-carregue. Desci e mandei o rapaz colocar R$ 40,00 da comum. Encostei-me no automóvel e fiquei ouvindo a música Só o Home”: “Ó mô fio do jeito qui suncê tá,/Só o home é qui pode te ajudar…”. 

Gente como essa um dia vai levar o Brasil ao fundamentalismo evangélico e o pau vai comer. A "fé de mais" que possuem é uma doença.

Gente como essa figuraça um dia vai levar o Brasil ao fundamentalismo evangélico e o pau vai comer. A “fé de mais” que possuem é uma doença.

E eis que me chega um berdoéguas num tremendo Chevrolet 2.0 branco e pára na bomba ao lado daquela onde eu abastecia o carro de minha filha. Estou de costas para o automóvel e não vejo o que acontece. De repente, ouço um berreiro desesperado:

— Carro do demônio! Música do demônio! Em nome de Jesus vade retro, satanás!

E as invectivas e pragas aumentaram de volume na medida em que eu não me mexia, esforçando-me para ouvir Noriega. Mas o frentista apontou o sujeito atrás de mim com o queixo e disse: “É com o senhor!” em voz baixa. Então, eu aterrissei. Voltei-me, ainda de braços cruzados sobre o peito e encarei o desesperado.

— Eis um homem amaldiçoado, irmãos! — berrava o destrambelhado. — Ele cultua o demônio em seu carro e, pior, obriga as pessoas de bem a ouvir esta maldição! Ele tem de desligar esta música demoníaca para que as vibrações de Satã não recaiam sobre vossas cabeças! Não inundem vossos corações! Aleluia, Jesus, Aleluia! Aleluia!

Os frentistas escafederam-se de perto de nós, permanecendo apenas os dois que estavam segurando as mangueiras do combustível, um no carro dele e outro, no que eu dirigia.

Ele certamente não é assim, tão simpático...

Se você quer conhecer meu demônio interior venha pra cima de mim com lenga-lenga evangélica. Aí eu viro lobisomem.

Nós dois nos encaramos e eu já sentia o rabo de satã fazendo cócegas no final de minha coluna vertebral e seus chifres já avemelhavam minha testa. Se há algo que eu repudio visceralmente são os exagerados religiosos de quaisquer seitas. E no Brasil os evangélicos ocupam o primeiro lugar em minha repulsa. Se fosse um aloprado muçulmano, a esta hora um de nós dois estaria jazendo no chão. Mas os evangélicos, por enquanto, ainda não babam na gravata nem arreganham os dentes furiosos com os infiéis. Eles estão no estágio do escândalo histérico e ainda não descobriram o poder de uma AR-15. Mas este perigo está prestes a acontecer e isto faz que meu diabinho se transforme em Satã quando dou de cara com um aloprado como aquele diante de mim. Olhos arregalados, testa suada, Bíblia no alto, o peste esgoelava-se em pragas e maldições.

Inspirei fundo e mandei que meu diabinho ficasse quieto lá no seu lugar. Mas o desesperado do “livrinho preto” estava a fim de ir a extremos e quando eu lhe dei as costas buscando ignorar-lhe o ataque histérico, ele partiu para meu automóvel e meteu a cabeça lá dentro. Eu estava de costas para o desgraçado, mas senti o carro inclinar-se para o lado oposto àquele em que nele eu me encostava. Voltei-me rápido e vi, incrédulo, a metade do desgraçado histérico mergulhada pela janela do carro tentando alcançar o rádio e desligá-lo.

Aí não prestou. Virei lobisomem. Como um raio dei a volta ao carro e me debrucei sobre as costas  do desgraçado. Gadanhei-lhe as orelhas e nelas finquei com toda a força minhas unhas (que estão sempre maiores do que normalmente se usa. E isto é proposital. Minhas unhas são finas e afiadas como navalhas e quando eu as uso ai das orelhas que fiquem entre elas). Logo senti o sangue correr por meus dedos. O berrão que o peste soltou foi digno de um tenor. Ele não opôs resistência ao meu “delicado” puxão de sua cabeça pelas orelhas e saiu de dentro do carro.

— Escuta aqui, ô infeliz! — Berrei a todo pulmão, vermelho como é o que se diz que o diabo é e com os olhos lançando chispas de raiva — Nunca mais faça isto, entendeu? Nunca mais se meta em meu carro, senão você vai realmente ver o diabo em pessoa diante de si. E eu garanto que não vai gosta nem um tiquinho, está entendendo?

Ele entendia. Com os olhos lagrimejando e a boca aberta, ele sapateava miudinho tentando, sem sucesso, fazer que eu lhe largasse as orelhas. Então, ainda segurando o peste pelos órgãos mais queridos das mamães furiosas com seus rebentos, obriguei-o a dar a volta ao carro e abri a porta do lado do motorista. Entrei, ainda puxando o sujeito pelas orelhas, e coloquei o volume a toda altura. Puxei a cabeça do sujeito para dentro do carro e lhe gritei junto ao ouvido:

— Ouça! Esta música vai aliviar seus miolos daqueles hinos idiotas que você canta lá no seu covil caça-níqueis! Talvez assim um pouco de bom-senso e de respeito pelo direito do outro lhe entre pelos miolos.

Ele teve de ouvir a música “Eu tá Vendo no Copo Eu Vou dizê” até o fim. Quando a música parou eu lhe soltei a orelha. Ele já não estava tão tomado pelo Espírito Santo e com as orelhas sangrando correu a se meter em seu Chevrolet branco e a arrancar feito um doido.

O frentista ficou com as mãos na cabeça. O sujeito não lhe pagara o combustível. Mas outro frentista lhe disse que se acalmasse. Conhecia o homem, um pastor que sempre colocava combustível com eles, e tinha certeza de que ele viria quitar a dívida.

Mas eu desconfio que vai levar um bom tempo antes que o aloprado do posto de gasolina retorne ao lugar de sua penitência forçada…