Orozimbo gosta muito de café preto e sem açúcar.

Orozimbo gosta muito de café preto e sem açúcar.

Orozimbo chegara cedo e se abancara para fumar seu cachimbo, depois do café preto sem açúcar. Não lhe dei maior atenção, pois estou com um torcicolo danado de doído em um fascículo do Grande Dorsal Esquerdo, para quem não sabe o que diabos é isto, uma parte deste músculo que se situa bem debaixo da omoplata esquerda e que, quando sofre um estiramento ou torção muito forte, dana a inflamar e doer. E é ruim, pois até quando a gente respira ele se manifesta aos gritos de “Ei, eu estou aqui! Não se mexa!” E em mim a coisa é pior, pois só durmo deitado de lado e este lado é justamente o esquerdo.

Minha filha chegou. Ultimamente ela sai para dormir com o noivo toda sexta-feira e só volta no domingo. São as modernidades. Em meu tempo  ai da moça que fizesse isto…

Minha princesa. Magoada, machucada, decepcionada com o mundo. Mas ainda assim, minha princesa.

Minha princesa. Magoada, machucada, decepcionada com o mundo. Mas ainda assim, minha princesa.

Entrou em casa e em nem mais que dez minutos ela e a mãe entraram em atrito. E tome palavrões. Tive a impressão de que estava num barraco de favelados da mais baixa classe social. E irritado, gritei com as duas. Elas abaixaram as vozes e continuaram a discutir, mas aliviaram meus ouvidos daquela baixaria.

Fui colocar um bocal na varanda e Orozimbo me apontou o chão ao seu lado. Disse-lhe que primeiro tinha de terminar aquila tarefa Fui comprar um bocal, trouxe, coloquei a lâmpada e só então me sentei ao lado de meu amigo fiel e sincero.

— Cadê sua fia, home? — Perguntou ele sem olhar diretamente para mim. Estranhei sua pergunta, pois ela passara ao seu lado quando entrara em casa.

— Lá dentro, brigando com a mãe — respondi, encolhendo os ombros, contrariado. Orozimbo permaneceu quieto e me olhando questionadoramente.

— Aquela lá num é sua fia. Véio cunheceu ela. Era sorridente, alegre, feliz. Era otimista e sua

Minha primeira princesa. Até hoje é alegre e sorridente, mesmo que o mundo lhe tenha dado um limão dessssstttteeee tamanho...

Minha primeira princesa. Até hoje é alegre e sorridente, mesmo que o mundo lhe tenha dado um limão dessssstttteeee tamanho…

alegria, inté mermo apenas sua presença, era suficiente pra contagiá o ambiente. Mas a jove qui tá lá dentro é palavroenta, amarga, maldosamente ferina. Véve cuns óio do coração vortado pro lado amargo da vida. Sua fia, home, tinha um sembrante radiante, de alegria e otimismo, que contagiava a quem estivesse perto dela. Mas aquela lá dentro tem um sembrante amargo, carregado de reiva, parece vivê im constante revorta. Aquela, home, num é sua fia. Não mermo.

Sua fia tinha corage de vivê. Véi se alembra dela lutando aquela luta istranha lá dos japonês. Uma tar de Bugei qui tinha uma parte chamada tai-jutsu. Sua fia entrava no tar de dojô sempre sorrindo, sempre alegre e sempre com disposição e otimismo. Véi se alembra de um combate histórico dela cum otra, uma campeã paulista, qui vinha de Sun Paulo para lutá cum ela, pois lá naquela capitá num tinha mais ninguém qui ela num tivesse ganhado. Mas cum tua fia ela incontrô o pau da cangaia, ora se incontrô. As duas se engalfinharum por mais de hora e meia sem pará. O home, o tar de Shidoshi Jordan, deixô as duas se engalfinhá inté quando aguentasse, mas as diabas num se intregava e o home teve de interrompê o combate pruqui a casa ia fechá as porta. Já passava das dez e meia da noite. E óia qui a guria paulista tinha um grau acima do da sua fia, home. Aquela, sim, era sua fia. Véi via nela a merma garra qui vancê, mulequi, tinha, quando entrava numa briga. Só qui suas briga era de rua, onde valia tudo, inté matá. E vancê num perdia luta, pois quando a coisa tava preta pru seu lado vancê cumia seu inimigo aos pedaço. Véi se alembra qui teve um minino, valentão qui batia em todo mundo, que lhe deu uma surra dos diabo. Vancê tava aos pedaço e sua cara mais parecia bife socado de tanto apanhá. Entonce, o minino deu bobera e vancê, qui tava pur debaixo dele, grudou no arreliado e cravô os dente na barriga dele. Arrancô um pedaço e mastigô cum reiva, munta reiva. E cumeu, home! Véio ficô de boca aberta. E vancê tornô a arrancá otro pedaço da barriga do minino e mastigô e cumeu. O peste danou a gritá pruqui num conseguia se livrá do abraço de tamanduá cum qui vancê sujigava ele pra mode continuá e lhe cumê os pedaço. Foi terrive, num sabe? Nunca mais véi isqueceu daquilo… Sua fia se parecia cum vancê. Ela lutava cum regras, mas era tão valente quanto vancê tinha sido. Véi lembra dela aprendendo um tar de kung-fu de Tai-Chi, quando vancê insinava a ela o manuseio do bastão. Ela era apricada e aprendia mais dipressa qui os otros. E no combate amigave que vancê colocava eles cum ela, eles recramava dos soco da pestinha qui era danado de forte. Mas onde foi pará aquela minina incantadora? Onde ela istá, agora, home?

Minha pricesa e seu príncipe. Tomara que seu mau gênio atual não lhe estrague a felicidade a dois, pois esta tem de ser conquistada hora a hora e a duras renúncias...

Minha pricesa e seu príncipe. Tomara que seu mau gênio atual não lhe estrague a felicidade a dois, pois esta tem de ser conquistada hora a hora e a duras renúncias…

Fiquei calado e prendi um chôro que me subiu pela garganta. Sim, minha filha estava perdida em algum lugar no passado. Não era aquela moça, ainda bonita de corpo e rosto, mas feia de alma. Sim, sua expressão facial atualmente é amarga, pesada, tensa. Sua boca, quando se abre, é para soltar frases ferinas, acres, pessimistas, sarcasticamente amargas entremeadas de palavrões chulos. Eu não aguentava mais conversar com ela. Sempre que a gente senta ocasionalmente para conversar eu termino me desligando e silenciando, pois me desagrada profundamente seu falar insultuoso e negativista ao máximo.

— Orozimbo, disse eu, com voz sufocada. — Ninguém vem para este mundo para gozar somente de prazeres. Mesmo os ricos e poderosos têm seus períodos de amargura, desespero e descrença. Aqui não é o paraíso, mas sim um purgatório. Minha filha ainda vive por debaixo da mulher amarga que você vê, agora. A sua luta começou, como a nossa. Só que a nossa já vencemos e a dela apenas começa. O mundo a decepciona e a revolta. O mundo silenciou seu sorriso e retirou de seu semblante aquela alegria que nós nele colocamos com nosso amor. Mas um dia ele voltará. Não como era, inocente. Mas como será: calmo, sereno e… Indiferente. Indiferente e sarcástico, sim, mas não com um sarcasmo amargo e virulento, como o de agora, que é de revolta. Um sarcasmo como o nosso, com desprezo pelo que já compreendemos: tudo isto aqui é falso, é mentira, é somente uma grande ilusão.

Eu me levantei e entrei em casa. Não vi quando meu amigo se foi…