Donnie yun, ator e praticante de Wing-chun, fez o filme sobre a vida de Yp-man.

Donnie yun, ator e praticante de Wing-chun, fez o filme sobre a vida de Yp-man.

Eu vinha no ônibus atento à conversa entre três homens que viajavam de pé. Todos jovens e fortes. Um deles era bem musculoso e era o mais entusiasta do assunto: a Arte Marcial como defesa pessoal. Estavam errados. Arte Marcial não serve como defesa pessoal. Arte Marcial é Arte de Guerra e se é de Guerra é para eliminar adversários. A Arte da Defesa Pessoal é bem diferente, inclusive na filosofia de sua aplicação. A Defesa Pessoal visa anular os ataques do adversário e imobilizá-lo para evitar que machuque alguém ou se machuque em seu afobamento tolo. Um dos três homens notou meu sorriso e fixou os olhos em mim.

— O senhor aqui está rindo de nós. Por que, senhor? Discorda do que afirmamos? Discorda da nossa tese de que a Arte Marcial é boa como defesa pessoal?

Ator de Ong-bak, Tony Jaa.

Ator de Ong-bak, Tony Jaa. Dizem que ele realmente é lutador de Muay-tay.

— Não, não, não quero dar palpite. Apenas rio do entusiasmo de vocês três.

Mas o homem fortão não se conformou com minha esquiva e voltou a insistir. Queria porque queria ouvir minha opinião. Finalmente, decidi entrar no seu jogo, fosse ele qual fosse.

— Você pratica uma das centenas de modalidades de Artes Marciais que vicejam por aí. Qual é a sua?  Perguntei.

— Muay-Thay — foi sua resposta.

— Ah… Muay-Thay. Uma Arte Marcial extremamente violenta, onde o lutador serve-se dos cotovelos e dos joelhos para liqüidar seu oponente. 

— O senhor entende do assunto, é?

A mais bela arte marcial que já pratiquei - o Aiki-dô.

A mais bela arte marcial que já pratiquei – o Aiki-dô.

— Um pouco. Fui muito entusiasta de lutas, no longínqüo tempo em que tinha sua idade ou menos. Mas já vai longe esse tempo. Agora, divirto-me com os filmes exagerados nos efeitos especiais. Alguns, até idiotas, como aquele sobre Ip Man, onde ele luta com outro mestre, caracterizado por Sammo Hung, e este faz uma pirueta no ar sobre uma mesa onde a gente pode ver que o ator simplesmente estava segurado por uma corda de náilon ou coisa que o valha, pois corpo humano nenhum, ainda mais sendo gordo, teria condições de fazer aquele malabarismo no ar.

— Eu sei de qual filme o senhor fala. É aquele onde, no final, Ip Man derrota o campeão inglês de boxe, não é? — Perguntou outro dos três, agora já me incluindo no pequeno grupo.

— Exatamente.

— O senhor acha que o kung-fu chinês não é bom como Defesa Pessoal? — Perguntou o rapaz.

— Não, o Wu-Chu chinês é o menos indicado como Defesa Pessoal — respondi.

Yp Man, já bem idoso e perto de falecer. Ainda praticava diariamente os exercícios de sua Arte.

Yp Man, já bem idoso e perto de falecer. Ainda praticava diariamente os exercícios de sua Arte.

— E por que? Ip Man mostra que o Wing-chun é muito eficiente como defesa pessoal — disse o homem forte.

— Não. Ele mostra como os chineses amavam a Arte Marcial. A dele, por ter sido criada por uma mulher, não visava matar, como todas as outras, mas sim, defender-se. Ainda assim, é violenta e fere até de modo grave.

— Bom, para ser uma Defesa Pessoal toda Arte Marcial tem de ser violenta e ferir.

— Sim, mas todas as Artes realmente Marciais não prestam para a defesa pessoal.

Os três se entreolharam. Chegávamos ao ponto final. Todos saltamos do ônibus e eu me despedi deles.

— Espere – pediu o homem forte. — O senhor poderia nos dar um exemplo de como seria a Arte da Defesa Pessoal?

— Como assim? — Perguntei. 

— O senhor disse que foi praticante de lutas. Então, deve conhecer a Defesa Pessoal.

— Bom… Não fui treinado em Defesa Pessoal. Não na verdadeira. Mas acho que posso dar-lhes um exemplo.

— E como fará isso? — Perguntou o jovem que se tinha intrometido em nossa conversa.

— Vejamos… Se alguém violento e brigão lhe segura o braço, o que você faz?

— Dou-lhe um soco de karatê. Sou faixa preta. Ele vai se arrepender…

Eu estendi meu braço parara ele e lhe pedi.

— Seja o violento. Pegue meu braço com força como se fosse tentar me jogar no chão ou coisa pior.

Tai-jutsu, uma das modalidades de combate dos samurais e ninjas.

Tai-jutsu, uma das modalidades de combate dos samurais e ninjas.

Ele hesitou, mas decidiu-se. Estendeu a mão e fechou os dedos ao redor de meu braço. Quase simultaneamente com ele, fechei os dedos de minha mão livre sobre a sua e lhe prendi a mão debaixo da minha, empurrei meu braço em direção ao seu ventre e a seguir girei-o para cima, espalmando minha mão cujo punho estava preso pela sua, movimento que esvaziou seu Ki Yang no punho que segurava meu braço. Então, com um movimento brusco para baixo, fiz que caísse de joelhos, com uma careta de dor e surpresa. Antes que pudesse dizer alguma coisa, torci seu braço pra trás e o prendi numa chave que o imobilizava, mas não lhe causava dor. Finquei meus dedos sobre seus olhos com a palma da mão sobre sua testa e por ali puxei-o para cima, mantendo sua cabeça voltada para o alto numa posição altamente incômoda. Ele se levantou rápido e eu o mantive junto a mim.

— Viram? Ele está imobilizado e eu posso levá-lo para onde quero, mas não o estou nem ferindo nem machucando.

Soltei o espantado rapaz que friccionou o ombro.

— Desculpe. Acho que agi forte demais. Mas isto é o que entendo por Defesa Pessoal: dominar o agressor sem precisar feri-lo ou bater-lhe de modo a deixá-lo marcado. No Whu-shu chinês não há como não machucar.  

Dei as costas aos três, ouvindo o mais forte perguntar:

— Alguém viu como é que ele fez aquilo? Como foi que jogou o Jorge no chão tão facilmente?

— Eu acho que ele empregou um golpe de jiu-jitsu — disse o jovem que eu tinha dominado. — Mas não tenho certeza. Só sei que meu punho está doendo. Mais um pouco e ele teria quebrado meu punho.

— Que velho danado… — ouvi a voz do homem forte lutador de Muay-Thay.

Não tinha sido jiu-jitsu, mas tai-jutsu.