Minha indiferença só se iguala à que tenho quando estou visitando o Parque das Primaveras, local que deslumbra os visitantes.

Minha indiferença só se iguala à que tenho quando estou visitando o Parque das Primaveras, local que deslumbra os visitantes.

Vai haver mais uma revisão de aposentadorias do pessoal do INSS e fui comunicado sobre isto. Como me sacanearam à época de meu pedido, quando devia ter-me aposentado pelo teto e o INSS me aposentou como se eu tivesse trabalhado menos tempo (ainda que em minha carta de concessão esteja lavrado que trabalhei exatos 35 anos, 1 mês e 06 dias, mesmo descontando os 5 anos que FHC me roubou), hesitei um bocado em entrar ou não no grupo de tentativa de obtenção de justiça. e explico: os aposentados bem que batalham, mas não há um único Deputado ou Partido Político que lhes dê respaldo. São todos surdos, como se nós, os idosos, já fôssemos cadáveres. Acontece que atualmente é a aposentadoria dos idosos que está sustentando as famílias brasileiras, pois os salários pagos aos jovens são vergonhosos, inclusive e principalmente àqueles que, iludidos, passam em concursos públicos. Se não forem “indicações” de padrinhos poderosos, não vão ganhar mais que um e meio salário mínimo, se muito.

Eis a tela do INSS. Claro que apaguei os dados sigilosos, mas vejam: minha carta "sumiu". É mole ou quer mais?

Eis a tela do INSS. Claro que apaguei os dados sigilosos, mas vejam: minha carta “sumiu” da Memória de Cálculo. É mole ou quer mais?

Enfim, decidi que ia entrar junto com a turma. Afinal de contas há anos pago 1% de meu seguro social à Associação sem usufruir dali absolutamente nada. Aqui em Goiânia, a Associação de Aposentados do INSS está prenhe de advogados, juízes e outros egressos da área jurídica, os quais, aposentados como causídicos ou não, ganham uma substancial complementação da OAB, além de terem seus proventos integrais, a maioria auferindo nada menos que R$ 15.000,00 líqüido (e isto é o mínimo) só da Ordem. Resultado: os passeios que a Associação programa pelo Brasil ou no Exterior só se destinam aos “nababos” da advocacia. À turma do INSS compete pagar para que a sede seja bem cuidada e bem sustentada. Nada mais. Mas não é de estranhar, visto que o Presidente da Associação também é Advogado e ganham uma baba “por fora” do INSS.

Bom, decidi e liguei para lá para saber que documentos seriam necessários. E já de começo a coisa pegou: a Carta de Concessão da Aposentadoria concedida pelo INSS é o documento fundamental para qualquer ação contra as injustiças dos des-governos brasileiros, desde quando o desgraçado do FHC instituiu o tal Fator Previdenciário. Eu não fazia a mínima idéia de onde havia ido parar a minha. Comecei a procura. Desmontei várias caixas onde guardo documentos, mas sem êxito. Decidi entrar no site da Previdência. Animado, vi que por ali eu podia confortavelmente solicitar uma segunda via da Carta de Concessão. Tentei e… SURPRESA! O aviso, em vermelhão bichona, dizia “BENEFÍCIO NÃO ENCONTRADO NA MEMÓRIA DE CÁLCULO”. Como era possível? Eu vinha recebendo meu seguro social desde 2000, quando me aposentei em janeiro.

Liguei para a Associação. Solícito, o Reinaldo tentou obter o documento através de seu computador e o resultado foi o mesmo: o aviso vermelho-bichona. Não tem jeito, disse ele, o senhor terá de ir até o INSS verificar o que está acontecendo. Vai ver alguém digitou sua matrícula erradamente.

Nesta foto eu pareço entusiasmado. Engano. Estou emocionalmente gelado. E é assim que fico com notícias que agitariam a qualquer outro.

Nesta foto eu pareço entusiasmado. Engano. Estou emocionalmente gelado. E é assim que fico com notícias que agitariam a qualquer outro.

Uma pulga do tamanho de um elefante se colocou atrás de minha orelha esquerda. O INSS está nas mãos dos Petralhas e eu desço o malho sem dó nem piedade em todos eles sem distinção. Uma desconfiança: será que minha aposentadoria foi sabotada? Se eu não entrar com o grupo e a revisão for ganha, danço solenemente. Levantei-me apático. Nenhuma emoção. Nenhuma alteração em meu pulso. Falei com minha filha e minha mulher e as duas ficaram em tremenda agitação. Tem de estar em algum lugar aqui em casa, sua Carta de Concessão. Você tem de procurar por ela.

Cadê vontade? Nenhuma.

Fui ver televisão e assistir a um jogo (não sei de quem contra quem, pois os jogos também não me alteram a pulsação). Anoiteceu e fui dormir com a maior tranqüilidade. No dia seguinte (hoje), incomodado com minha apatia e indiferença para algo tão sério, decidi ir ao sótão e revirar tudo lá em cima. Finalmente, apensa à documentação para revalidação da licença de minha arma, encontrei a Carta. Trouxe-a e fiz mais de dez cópias que vou mandar autenticar. Assim, se ela de novo se escafeder não terei de ir atrás.

Mas as surpresas continuaram a aparecer. Eis que na procura da Carta descubro que meus diplomas de conclusão de cursos superiores também se tinham escafedido. Para onde? Sei lá! Orozimbo, que me acompanhou na busca pela Carta de Concessão, estranhou que eu tivesse apenas sorrido quando descobri o sumiço de todos os meus diplomas.

— Uai! Vancê num vai percurá onde eles tão, não?  — Perguntou espantado.

— Não.

Meu velho amigo desceu as escadas atrás de mim sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— Home, peraí. Qui negócio é esse de vancê num percurá seus diploma? Eles são importante, num são?

— Não mais.

— Cuma é qui é? — Assombrou-se Orozimbo.

— Eu teria de ir revirar aquela papelada toda, meu amigo. E se quer saber, não estou nem um pouco motivado a fazer isto de novo. Afinal, para que servem diplomas? Só para dependurar nas paredes e exibi-los como troféus. Só para isto. E eu não tenho mais paredes onde dependurar aquelas velharias…

— Velharias?! — Quase gritou meu amigo. — Mas cuma velharias? Vancê deu o couro para obter aqueles papés, home. Véio acumpanhô seu dia-a-dia desde qui vancê entrô na tar de Gama Fio. E num foi mole não. Agora, vacê num simporta qui os papé tenha desaparicido? Cuma se exprica uma coisa absurda destas? Aquela farcudade se acabô. Se vancê num tivé mais o seu papé, cuma vai dizê qui é pisicólogo?

— Simples, eu sei que sou e isto me basta — respondi, pondo a mão em seu forte ombro negro. — Os Diplomas não me servem mais para nada. Tiveram seu tempo. Agora… São somente papéis amarelados pelo tempo. Vou usá-los aonde, se estou definitivamente fora do Mercado?

— Mas se tá é pruqui vancê qué, ora — resmungou ele, aborrecido. — Vancê bem pudia continuá clinicando. Vancê é munto bom em sua profissão.

— Para isto bastaria eu reativar meu registro no Conselho de Psicologia. Mas não farei isto de jeito nenhum. Não estou interessado em ouvir as dores dos outros. Bastam-me as minhas, que ninguém ouve e que rugem e choram aqui dentro, sem ouvidos que as ouçam. Tenho a Carteira Profissional de Psicologia. Tenho a Carteira de Professor de Psicologia. E se quisesse poderia solicitar segunda via do Diploma de Pós-Graduação, mas não quero. Não se preocupe com..

— Uma ova qui véi num se preocupa. Menhã de menhã vancê e eu vamo vortá lá in riba e revirá tudim pra mode encontrá seus papé. Onde já se viu, sô! Preguiça ansim só vi aqui, hoje. Arre diabo!

E lá se foi ele furioso comigo. Só assim eu ria…