Alunos meus Praticando o Tai-Chi-Tchuen estilo Wu-Chao, em Goiânia, no Bosque dos Buritis.

Eles eram entusiastas do combate de Tai-Chi e aprenderam muito…

Fiquei olhando para a cara séria de meu amigo sem compreender sua pergunta. Ele tinha chegado quando eu estava atarefado com um monte de detalhes a arrumar na casa para o casamento de minha filha. Ele não se fez de rogado e se pôs a ajudar. Foi bom. Subir um saco de pancada de 60 quilos para o sótão, com meu bico de papagaio danado doendo não seria fácil. Mas Orozimbo colocou-o nos ombros como se não pesasse nada e logo o trambolho estava em seu devido arquivo morto. Até onde eu podia prever, nunca mais ele apanharia nem de mim nem de meus filhos, os naturais e os adotados. Todos estavam entregues, agora, a batalhar contra seus piores inimigos: os desafios que a vida de sobrevivência desta atualidade lhes coloca incessantemente diante dos seus passos. Agora, todos compreendem o que eu queria dizer quando lhes arrefecia o ímpeto de lutadores de dojôs ou mokoons: “A verdadeira luta que vocês vão enfrentar não será contra outro ser humano. A estes, vocês estão aptos a vencer em segundos. Mas aos desafios da vida, nunca estarão totalmente prontos para encará-los. E estes adversários não se cansam e se apresentam sempre com mil faces diferentes”.

Descemos e eu vinha pronto para ir comprar uma lasanha para almoçar, quando ele se saiu com esta pergunta.

Orozimbo

Ele tem uma memória privilegiada e por causa dela eu me vejo em apuros, vez que outra.

— Do que você está falando, Orozimbo? Que eu me lembre, não coloquei nenhum nominho em Maria dita Santíssima…

— Dita, é? Pois sim! Vancê mermo disse qui ela era um tar de Buda quarqué coisa. O qui véio qué sabê é o nome do tar de Buda, ora.

Parei para pensar no que ouvia. Quando foi que eu dissera alguma coisa a este respeito? Não me lembrava, mas Orozimbo, sim. E ele não se fez de rogado para me refrescar a memória.

— Vancê iscreveu em seu brog qui Maria de Nazaré na verdade é um tar de Buda Sei-lá-Cuma-se-Chama qui veio pra dá um corpo são ao filho da santa… Ou do Santo, véio agora num sabe mais se se trata de um macho ou de uma fêmea.

— Ah, você fala do  Buda Avalokiteshiwara disse eu, rindo.

— E apois. A propósito, home, de onde diabos o sujeito aí tirô o nome dele?

— Isto, não sei lhe responder. Mas o nome é sânscrito, se não me engano. E sânscrito é uma língua tão antiga quanto a humanidade, pelo menos é o que se diz. E é considerada tão sagrada quanto aquela dos hebreus. Nunca mudou em nem uma única sílaba, como o hebraico.

Nan Bahadur Banjam, o novo Budha ou o Buda Redivivo. Ele está de volta à Índia.

Nan Bahadur Banjam, o novo Budha ou o Buda Redivivo. Ele está de volta à Índia. Será ele, também, o Buda Avalokiteshiwara, a Maria Concebida Sem Pecado? Afinal, crê-se, ela é a padroeira do Mundo e este nunca precisou tanto de uma protetora tão poderosa como agora.

— Tá bom, tá bom. Pr’este véio, a língua sagrada é a de seus ancestrais e tá acabado. Num intendo nada dessas língua aí e se qué sabê, tô me lixando pra elas. O qui véi qué sabê é sobre o tar de Buda Vai-lá-kitispera-a-vara…

Eu não o corrigi, pois intuí que ele falaria errado o nome do Buda de propósito, só para mostrar seu desprezo pelo sânscrito.

— Agora, home, presta atenção. Vancê dixe, tombém, que Maria e Jisus, filho dela, num eram mais qui humano. Vancê num recunhece neles nada de sagrado, nada além das pessoa; num recunhece qui eles era coisa lá de riba, intende o qui véi qué falá?

— Entendo, e está interessante. Vá em frente — respondi, curioso. Orozimbo tinha uma memória admirável e sempre questionava mais cedo ou mais tarde o que eu falava. Durante um tempo ficava, em suas palavras, “matutando” a respeito até lhe surgir um questionamento que ele achava válido. E desta vez ele tinha encontrado um, pois veio com o firme propósito de me questionar.

— E apois. Se vancê, qui é um cabeção danado de sabido, num recunhece cuma sagrada a tar de Sagrada Famia dos cristão, cuma é que vancê iscreve sobre eles dizendo aquelas coisa bunita qui só?

Faltam os oito irmãos de Jesus nesta Família. Afinal, eles nasceram do mesmo ventre.

Faltam os oito irmãos de Jesus nesta Família. Afinal, eles nasceram do mesmo ventre.

Tive de pensar um pouco, antes de responder, pois conhecia Orozimbo muito bem e sabia que ele estava pronto para pular sobre mim como gato faminto sobre um rato. Eu tinha de explicar bem este meu procedimento para ele desencontrado.

— Bom, preste atenção — comecei. — Há duas dimensões onde devemos nos expressar, quando se trata do Sagrado e do Profano.

— Dimensão qué dizê mundo? Modo? — Perguntou ele, todo atento.

— Exatamente. Quando estou falando dentro da dimensão do Sagrado, então, tenho de ser coerente com as hipóteses, as Leis e os Axiomas que o constituem.

— Peraí. O qui diabo é esse tar de aquicioma?

— Axioma é uma proposição… uma crença, melhor dizendo, que não é demonstrada cabal e matematicamente. Tem-se de aceitá-la como verdadeira ou não aceitá-la… Está entendendo? O axioma é um consenso inicial entre as pessoas ou entre um grupo de pessoas. Quando é considerado como uma possibilidade de verdade, transforma-se em Hipótese a partir da qual constroem-se métodos de pesquisa e por eles se chega a uma Teoria Comprovada, testada e aprovada. A Teoria, então, vira uma Lei

— Se véi tá intendendo, a idéia do Lobisomem é o tar de aquicioma. Inté hoje ninguém pôde prová qui ele exéste de verdade, mas munta gente crê nele. Tô certo?

Quando a Morte colhe a vida do motorista, geralmente ele não é humano, mas um Lobisomem, fruto das frustrações da vida.

Esse abantesma povoa a mente ignorante de centenas de crentes. Tem até filmes a ele dedicado. Mas existirá?

Pensei um pouco antes de responder. O seu exemplo me pegou desprevenido. Mas, então, acenei afirmativamente com a cabeça, rindo de sua idéia. Afinal, ele falava dentro de sua dimensão cultural e eu devia compreendê-lo ou não poderíamos comunicar-nos.

— É, você deu um exemplo certinho. Meus parabéns.

Todo orgulhoso, Orozimbo sorriu satisfeito e com um gesto de cabeça instou para que eu continuasse a falar.

— Pois bem, quando falo dentro da Dimensão do Sagrado, tenho de ser coerente com o que ali se prega e ali se crê. Embora eu tenha integrado vários grupos religiosos ou filosóficos, nunca me tornei um membro cativo de qualquer seita. Fui e sou e sempre serei um tremendo curioso… Como você, meu velho. Você está sempre inquirindo e desejando saber mais. Também sou assim. O Buda Avalokiteshiwara afirmam os Taoistas e alguns Budistas, é uma entidade de grande evolução espiritual. Um Semi-Deus, que, partindo da condição humana comum, evoluiu até dimensões acima, muito acima, de qualquer uma que nós possamos imaginar. E ela o fez…

— Ela? — Interrompeu-me Orozimbo. — Mas vancê num disse qui é um Buda?

O Buddha

O Buda, tanto pode ser um homem como uma mulher.

— Buda é uma palavra de dois gêneros. Tanto serve para designar um ser masculino quanto para designar um ser feminino. Um homem pode evoluir e chegar ao status de Buda como uma mulher também pode. Será, então, o buda homem ou o buda mulher.

— Entonce… Buda é um título? Ansim como o de Presidente?

— Mais ou menos. Será melhor compreendê-lo como um Grau dentro da Evolução Espiritual Humana. Acho que já lhe expliquei que o Espírito humano tem sete caminhos de Evolução, conhecidos como Os Sete Raios… Não lhe falei sobre isto?

— Não, mas vai falá. Se falô agora, véi ficô curioso e qué aprendê esse negóço aí. Mas vamo deixá pra dispois, pra num cunfundi as coisa, né?

Respirei fundo. Eu e minha boca grande…

— Está bem. Eu dizia que o Buda Avalokiteshiwara tinha evoluído pelo Raio do Amor. Por isto, para Ele, é sempre prazeroso e mais agradável tomar corpo de mulher que de homem. Você sabe, eu já expliquei isto, que um Espírito, por mais evoluído que seja, uma vez encarnado tem de se submeter à Carne, isto é, ao domínio, ainda que parcial, de um Elemental Físico Etérico. O Jesus dos cristãos sofreu isto, esta submissão, por isto é que vez que outra ele tinha arroubos de ira contra os “pecadores”. Embora pregasse a calma, a fraternidade e o perdão, nem sempre Ele praticou o que pregava. Insurgiu-se irreconciliavelmente contra os vis, os mentirosos, os corruptos e os assassinos e ladrões conscientes do que faziam por pura ganância ou por puro egoísmo. A Bíblia cristã, copiada dos livros hebraicos, escamoteou informações importantes sobre Yehoshua ou Jesus, como, por exemplo, ser ele grande conhecedor das Artes Marciais Indianas, de onde, já lhe disse isto, nasceram as Artes Marciais Chinesas. Tendo vivido anos com os monges budistas, na Índia, Yehoshua ou Jesus foi treinado em muitos conhecimentos que o Pentateuco cristão e a Torá hebraica não citam. E como aqueles monges eram mestres em Artes Marciais, ele, como discípulo, teve de aprender a lutar. E foi um expoente nas lutas que lhe ensinaram, inclusive no manejo do alfange, do bastão, do punhal, da lança, da corrente e de outras armas usadas pelos monges. A par com o domínio das Artes Marciais Indianas, ele também foi muito instruído nas artes Yogues e aprendeu a dominar a Mente de tal modo que podia ficar dois ou mais dias sepultado sob a terra ou submerso em águas profundas e não vir a falecer sufocado, graças ao domínio que tinha sobre suas funções vitais. Isto é coisa que qualquer bom Yogue faz com “naturalidade” e creio que em algum de meus artigos eu falei sobre um que deu um show em Copacabana… 

— É, vancê falô mermo. Mas véio tombém viu aquele magricela fazê aquilo. Vamo in frente?

— O. K. 

— Entonce. Vancê falô numa tar de Roda do… do…

— …do Samsara…

— Isso aí. Vancê dixe qui pra se saí dela é perciso praticá o silênço. Ora, entonce ninguém vai saí da danada, home. Todo munda anda falando pelos cutuvelos! Inté eu. E isto desde qui o mundo é mundo. E vancê já imaginô todo mundo caladim, cuma é que ia sê?

— Você acabou de deixar a dimensão do Sagrado e entrou na dimensão do Profano, meu amigo. A palavra é puramente desta dimensão, tanto que toda palavra é dúbia, isto é, aceita no mínimo duas facetas da Verdade.  Com as mesmas palavras que se condena, também se perdoa. Esta dubiedade é do Profano, não do Sagrado.

Orozimbo coçou a carapinha com o cenho franzido e murmurando: “Diabo. Véio vinha apenas querendo sabê o nome do tar de Buda qui virô Maria e, agora, tá todo enrolado”.

Sonhos horríveis, com "fantasmas" ou coisas similares, podem ter uma origem bizarra.

O Duplo Etérico é a Alma Mortal de que se fala em Ocultismo. Nele se encontra a Mente Mortal com todas as suas recordações terrenas.

— Eu quero dizer que falar é da Alma, do Elemental Astral que habita a Carne, vive e se guia pelo sensorial e pelos conceitos que tenta trazer à Matéria através de sua capacidade de raciocinar, o que é uma faísca das capacidades do Espírito. O Espírito não precisa de palavras para se comunicar. Ele o faz instantaneamente, meu amigo. Se um Espírito quer “falar” sobre um fenômeno social, como um engarrafamento, por exemplo, instantaneamente seu pensamento monta na dimensão espacial um engarrafamento idêntico àquele que ele deseja expor. Se quer falar sobe o Sol imediatamente surge um Sol diante dos outros espíritos que o escutam. Ele não se serve do Som, mas da Imagem, que é moldada por sua capacidade criativa plena.

— Entonce… quem tá aprendendo cum vancê… é a Arma mortá de Orozimbo, não o Isprito dele… É isso?

E agora? Como esclarecer sua dúvida mais que justa? Ele estava certo, mas eu afirmar isto era abrir uma porta para uma discussão sem fim…

— Bom… Sim, é verdade. Tudo o que é ensinado aqui embaixo diz respeito à Alma Mortal, ou Personalidade, ou Identidade, como prefiro chamar. Esta aprendizagem não alcança o Espírito que, como você sabe, vive totalmente envolto no Corpo Egóico, no ápice de nosso Ovo Áurico. E o Espírito não está nem aí para o que interessa à Alma Mortal ou Identidade Individual. Só o que diz respeito aos Dons Espirituais, como Bondade, Caridade, Perdão, Amor, Fraternidade, Doação de Si, Renúncia, Alegria, Serviço etc… pode despertar o Espírito para o que acontece cá em baixo. A ele interessa o desenvolvimento destas qualidades que lhe são inerentes, mas que estão em estado estático até quando a Alma Mortal ou Identidade Individual comece a se exercitar na prática de tais atributos. É então que o Espírito desperta e começa o processo de fusão ou união entre Identidade Individual e Espírito, enriquecendo-se este com tudo o que foi aprendido pela Alma Mortal. É só então que toda a aprendizagem da Identidade ou Alma Mortal desperta interesse no Espírito. Este, se desfaz de todas as experiências desagradáveis e com elas, de todas as reações emocionais que mantêm a Roda do Samsara em movimento e absorve apenas as experiências, ainda quando dolorosas, que fizeram a Identidade Individual se tornar superior às demais… Estou sendo muito complicado?

— Tá mermo, mas véi tá intendendo mais ou meno, num sabe? Véi vai matutá no qui uviu e, adispois, vorta pra cunversá mais. Vancê sempre intope véi Orozimbo cum monte de coisa, home. Véi sai daqui de miolo quente. Vamo deixá essa históra pra lá, pur enquanto, e vamo trabaiá? Tem munta coisa pra sê feita inté sábado, ora se tem!