O Arcanjo Gabriel é o escudeiro-mór do Criador.

O Arcanjo Gabriel é o escudeiro-mór do Criador.

Gabriel levantou-se de diante da telona em 4ª dimensão e foi ter com o Senhor. Encontrou-o atarefado no planejamento dos destinos das nações. Suava em bica, não pelo calor, que no céu não tem isto, mas porque as nações do mundo só lhe tinham a oferecer opções erradas e alternativas desastrosas para os próprios dilemas, criados justamente por elas mesmas.

Gabriel permaneceu calado e de pé, sem coragem de dizer nada. Sabia que Deus era brasileiro e estava apreensivo com sua reação àquela surra danada que os alemães tinham aplicado na Seleção do Brasil. Quando Deus estava construindo a Terra, O Diabo estava ao seu lado e infernizava o Criador com propostas despropositadas. Nos países da África ele fez que o Senhor colocasse os animais mais ferozes do planeta e, não satisfeito, fez que também criasse desertos enormes e quentes. Na Antártida tanto atentou a paciência do Criador que Ele cedeu e colocou lá o frio mais congelante do planeta. Resultado: só focas, pingüins e ursos brancos podiam resistir àquilo. Mesmo assim, o Criador deu um jeito de colocar gente por lá e nasceram os esquimós, que, muitos séculos depois, fugindo àquela frialdade toda, vieram dar com os costados na América do Sul e se abancaram de vez num pedaço a que seus descendentes, muitos séculos depois, chamaram Pindorama e os portugueses, Brasil.

Ele certamente não é assim, tão simpático...

“E eu lá perco uma oportunidade de esculhambar o trabalho d’Ele!”

Deus tinha planejado colonizar Pindorama com descendentes dos valentes, mas pacíficos, homens do gelo. Infelizmente, o Diabo atuou por detrás dele e fez que Dom Manuel I entrasse em ação e enviasse para as bandas de cá uns navios cheios de más intenções. E foi justamente devido àquelas más intenções que Pindorama se deu mal. Até hoje as más intenções portuguesas pairam sobre as terras de Pindorama influenciando seus “polititicas” e o resultado é o que estamos vendo e vivendo…

Quando Deus atentou para a malandragem do Diabo, era tarde. E como Suas Leis não podem ser refeitas, a invasão dos brancos não mais podia ser desfeita.

Deus olhou de relance para seu escudeiro-mór, mas este se manteve quieto.

— Desejas alguma coisa, Gabriel? — Perguntou Deus sem deixar de lado o que fazia.

— Não, Senhor. Eu só estou vendo Seu trabalho…

Deus tornou a olhar para seu escudeiro-mor, desta vez com o cenho franzido, numa muda interrogação.

— É que… O senhor sabe, a Seleção Brasileira levou aquela surra da Seleção Alemã…

— É, foi mesmo.

— Aquilo estava em seus planos?

— Não.

"Porra! Só porque eu levei aquele trombaço o time deixou de jogar?"

“Porra! Só porque eu levei aquele trombaço o time deixou de jogar? Tudo eu! Tudo eu! Cruz Credo!!!”

— Mas como é que aconteceu, se o Senhor não tinha planejado tamanha vergonha para o país…

— Vergonha? — E deus se pôs de pé para encarar seu escudeiro-mór.

— Vergonha?! Que vergonha há em perder uma partida de futebol, Gabriel?

— Mas Senhor, os brasileiros são os reis do futebol. E foi o Senhor mesmo que…

— Pode parar! Não diga asneiras. Eu não tive nada com essa história. Quem são os responsáveis por este mito são os políticos que o povo mesmo vem escolhendo desde quando se criou a república lá por aquelas bandas.

Gabriel arregalou os olhos.

— Os políticos? Senhor, o que eles têm com os jogadores?

Deus coçou a cabeça e fitou seu escudeiro-mór nos olhos.

— Gabriel —, disse o Senhor com voz profunda. — Diz-me: de onde vêm todos os jogadores brasileiros?

Gabriel pensou um pouco e respondeu:

— Dos guetos… Das favelas… Dos interiores, onde não há escolas nem qualquer oportunidade para os garotos, pobres coitados…

— Exatamente. E tu acreditas mesmo que eu, o Pai da Fartura e da Riqueza, criei aquelas condições mesquinhas e lamentáveis só para de lá fazer surgir os craques da pelota?

Gabriel coçou a cabeça desconcertado.

— Claro que não, senhor… Mas é de lá que eles vêm. Não há um único brasileiro da classe média alta que se interesse em calçar chuteiras. Até os filhos dos outrora miseráveis que se transformaram em nababos graças ao futebol, nem mesmo eles pensam em ser jogadores. O filho do Pelé bem que tentou, mas deu com os burros n’água. Agora mesmo, enfrenta umas férias em uma cadeia brasileira, coitado.

"Ih, tirem esse Deus daí! Ele tá contra nós!"

“Ih, tirem esse Deus daí! Ele tá contra nós!”

— Pois é. Quem criou a miséria no meu País foi Satanás, o peste que só nasceu para me atanazar a paciência. Eu idealizei um futuro cheio de glórias para o Brasil e ele, insatisfeito, tratou de criar os Políticos Brasileiros. E de onde retirou a maioria deles?

Gabriel voltou a pensar um pouco e, com o cenho franzido, respondeu:

— Do meio dos desvalidos… Ou de filhos de fazendeiros e Industriais ricos. Eles nasceram destes dois lugares sociais, senhor.

— Exatamente. Os que não tinham saúde nem queda para o futebol e os que só pensavam em levar vantagem em tudo às custas dos outros. Estes são, regra geral, os mananciais dos Políticos do Brasil. Ora, como condições inferiores não são minha criação…

— Então, senhor, os Políticos são criação do… Demônio? No mundo todo?

— Claro, Gabriel. E eu lá ia criar uma laia destas! Ora, tenha paciência.

E Deus voltou aos seus afazeres com mais afã do que antes. Gabriel, contudo, não desistiu e perguntou:

— Senhor, o Senhor não está aborrecido porque a Seleção do Seu país perdeu a copa?

— Não, Gabriel. Estou aborrecido é com o povo todo do Brasil.

— O quê? — Boquiabriu-se o escudeiro-mór do Criador.

— É isso mesmo que ouviste. Aquele povo bate palmas para os políticos por qualquer coisa. Endeusam-nos e se esquecem de mim, que os criei. Um político pode conseguir um “galho” no serviço público para o desmiolado? Então, pronto. Tem seu voto e o de toda sua família. Nesta guerra, Gabriel, eu ainda estou perdendo para Satã. Só me irrita é que perco justamente no país que eu tinha escolhido como meu predileto.

— O Senhor pretende abandoná-los?

— Como poderia fazer isto? Se comigo eles metem os pés pelas mãos a torto e a direito, que dirá sem mim! O que quero dizer é que vou trabalhar duro por mais de uma centena de milênios até substituir toda aquela raça por outra mais evoluída. E creio que já estou com uma idéia…

— E eu posso saber qual é ela?

— Que tal encher o Brasil de alemães?

— Mas lá já há alemães até demais.

"Não bota a Máfia no Brasil que esculhamba a Máfia"

Ele entendia e entende de Brasil pra burro!

— Não, meu caro. Eu quero dizer é que posso fazer que a situação na Europa fique tão insustentável que os alemães terminarão tendo a idéia de se mudar de vez para o Brasil. Eles são um povo organizado, ordeiro e amam a terra que lhes dei. Então, se vierem para cá, para o Brasil, seus descendentes…

— Senhor — cortou Gabriel — o senhor está-se esquecendo de Jô Soares?

— E o que tem Jô Soares com o que estou falando?

— Ele dizia bem dito: “Não bota a Máfia no Brasil que esculhamba a Máfia”. E esculhambou mesmo, lembra?

Deus parou para pensar e fechou a cara. Carrancudo, mandou com um aceno de mão que seu escudeiro-mór se retirasse. E Gabriel se foi, pensando consigo:

— “Será que eu disse besteira?”