As caravanas de elefantes eram similares a esta, quando os caravaneiros eram ricos.

As caravanas de elefantes eram similares a esta, quando os caravaneiros eram ricos.

A caravana se pôs em movimento. O vento frio incomodava bastante e só os elefantes pareciam não o notar nem com ele se incomodar. A família de Yehoshua ia toda envolta em peles de carneiro como sobretudo e encolhidos sob o toldo que os aliviava as rajadas geladas sobre os lombos dos calmos elefantes. Thiago estava com a dor de dentes quase extinta, mas a região infectada pulsava com força e uma sensação dolorosa profunda, latente, ainda persistia, lembrando-lhe o tempo todo de que ela estava ali e pronta para explodir se ele cometesse algum descuido. Emburrado e acabrunhado, Thiago também remoía raiva contra os que tinham sido privilegiados pela estátua misteriosa. As três Mírians estavam bem confortadas, não sofriam nada e até riam e conversavam alegremente sobre a belíssima paisagem que descortinavam à medida que a trilha subia e a mata rareava para dar lugar a grandes paredões rochosos ou a terreno descampado e gelado.

Yoseph e Judas se deixaram ficar para trás para juntar suas conduções paquidérmicas à do irmão Thiago. Eram solidários e se sentiam, tal como o sofredor, alijados do grupo. Jeroboão e Yehoshua viajavam juntos e tagarelavam em páli, língua que todos eles desconheciam.

A viagem prosseguiu até o meio-dia, quando finalmente encontraram um lugar onde muitos caravaneiros se juntavam para comer e descansar.

Após o repasto o grupo buscou um local mais afastado dos outros, que os olhavam com curiosidade, e se juntaram para descansar. À sétima hora (13 horas) a viagem seria retomada e todos precisavam descansar os corpos doídos do balanço martirizante que sofriam na caminhada dos paquidermes.

Thiago juntou-se a Jeroboão com seus dois irmãos, Judas e Yoseph. Yehoshua se tinha deitado a fio comprido, em uma grande laje, e dormitava alheio a tudo. Sua mãe, sua esposa e sua irmã, juntas, tagarelavam sob uma grande tenta, onde almofadas tinham sido colocadas para elas, o que lhes dava muito conforto e as aquecia gostosamente.

A mítica figura de Moisés, o Legislador dos hebreus.

A mítica figura de Moisés, o Legislador dos hebreus.

— Yogue — disse Judas, após pigarrear para limpar a garganta —, poderíeis falar-nos sobre Moisés, nosso Legislador?

— A História de Moisés se mistura com a origem de vosso povo, mas não estou certo de que estejais prontos para a conhecer — disse Jeroboão, depois de permanecer quieto por um tempo.  — Ela não é o que consta em vossos livros, que julgais sagrados. E se não fostes suficientemente abertos para entender e aceitar o que vistes, ontem à noite, como poderíeis sê-lo para conhecer uma verdade que destruirá totalmente vossa fé?

Os três irmãos se entreolharam com assombro. O que queria dizer o Yogue com aquelas palavras misteriosas? Fez-se silêncio entre eles, que Jeroboão não quebrou. Durante muito tempo os três permaneceram introspectivos, repensando muita coisa de suas vidas e no quanto as Mírians tinham mudado. Por que eles não?

Os severos rabis do Templo de Jerusalém.

Os severos rabis do Templo de Jerusalém.

— Mesmo assim — disse Judas, decidido — nós gostaríamos de saber o que o senhor conhece sobre a vida do Legislador. Talvez, assim, consigamos compreender o que acontece com nossa família que, de repente, tornou-se estranha aos nossos olhos. Yehoshua disse que nos trouxe até aqui para que aprendamos muitas coisas novas, coisas que, segundo ele, nos ajudarão a ajudá-lo quando lhe sobrevier  grandes dores e grandes tormentos. Suas palavras nos deixaram muito perturbados, mas mais ainda nos tem desorientado o que estamos vendo e ouvindo nesta aventura totalmente incompreensível para nós, que só conhecíamos nossa terra. Tememos Yevé desde mesmo quando estávamos no ventre de nossa mãe. E creio que é assim com todos nós, hebreus. A doutrinação entre nós é forte, porque nossos rabis não descansam até que tenhamos decorado todos os cinco livros sagrados… ao menos para nosso povo. Eu os sei quase todos de cór. Mas confesso que alguma coisa se revolve em meu íntimo com a violência que há no nosso Deus. Em nada ou em muito pouco ele difere daquele romano ou babilônico. E isto sempre me incomodou. Nunca tive a liberdade de falar sobre o quanto isto me incomoda, pois Yevé não é diferente dos deuses aos quais condena. Ao menos é assim que eu percebo. Mas falar disto em minha terra é perigoso e posso ser condenado à lapidação. Então, tenho mantido minha angústia apenas para mim. É como se me tivessem posto uma mordaça no coração. Ele pergunta, mas não há ouvidos que o ouça…

Durante longo tempo Jeroboão permaneceu calado, olhar perdido no horizonte. Então, voltando-se para Judas, perguntou:

José Caifás, o mais duro e cruel dos rabis do Templo de Jerusalém.

José Caifás, o mais duro e cruel dos rabis do Templo de Jerusalém.

— Por que usais a forma considerada sagrada de se pronunciar o nome de vosso Deus? Yevé é, sonoramente, uma corruptela dos sons das três letras hebraicas que compõem o Mantra Sagrado que só pode ser corretamente pronunciado pelo Rabi mais antigo e mais puro dentre todos e só uma vez ao ano, no recinto sagrado de vosso templo. Para os leigos, o nome ensinado é Jeovah…

— É que me pareceu ser mais adequado, visto que pretendo ouvir sobre alguém que é considerado sagrado por nosso povo.

Jeroboão permaneceu mirando com olhar perscrutador a face de Judas. Então, com um suspiro, começou sua narrativa.

— Ninguém sabe ao certo qual a origem das gentes que, por sua vez, deram origem ao vosso povo. Há muitos e muitos anos passados, sete ou seis mil anos, uma tribo de nômades chegou ao meu país, vindo das grandes regiões desconhecidas do Oriente Médio. Supomos que tivessem sido expulsos da comunidade Amorita, pois há histórias que descrevem aquele povo como sendo guerreiros de pele branca. Como podeis ver, sois de pele branca e nós, de pele azeitonada. Tendes olhos claros, ora amarelos, como os de Yehoshua, ora azuis, ora verdes, como os de vossa mãe terrena. Nossos olhos, sem exceção, são negros. Em nada vos pareceis conosco. A compleição de vossos físicos difere muito da compleição de nossos físicos. Enfim, sois de uma raça bem diferente da nossa. Vossos narizes geralmente são grandes e têm uma protuberância no meio dele, que muito lembra a corcova de um dromedário, coisa que nosso povo não tem.

Arqueiro Assírio. A Assíria, consta na História, foi habitada desde o início da Era Paleolítica.

Arqueiro Assírio. A Assíria, consta na História, foi habitada desde o início da Era Paleolítica.

Quando vossos ancestrais adentraram nosso país vieram em estado muito miserável. Ao que se conta, eram guerreiros aguerridos, alguns se diziam descendentes dos Amoritas, povo habitante, desde tempos imemoriais, da Assíria. Eu não sei ao certo se isto era verdadeiro. O certo que me narraram é que os adventícios haviam perdido muitos homens nos vários combates em que se empenharam e aqui chegaram em grupo reduzido e trazendo na bagagem muita fome e muita miséria. Eram tão miseráveis que nem mesmo se encaixaram na mais baixa casta de nossa sociedade, os Chelas. Ficaram conhecidos como os Chandalas, aqueles que não têm casta. Por isto, por não pertencerem ao povo indiano, empregavam-se nos mais baixos e mais degradantes trabalhos. Remoção de cadáveres de mendigos, limpeza de estábulos e outros serviços indignos de indianos nobres ou de boa casta eram-lhes atribuídos. 

Por milênios viveram assim, apenas chandalas, os sem casta. Mas mesmo aqui, entre as mais altas castas, podia haver famílias que perdiam tudo e caíam até o ínfimo patamar dos chandalas. Foi o caso de muitos brâmanes que, ricos, perderam toda a fortuna por razões várias. Seus descendentes, ainda que brâmanes por herança familiar, já não mais integravam a classe que lhes é destinada aqui e, sim, integravam a classe dos chandalas.

— O que são brâmanes? — Perguntou Judas, muito atento ao que ouvia.

Anjum, um brâmane moderno na Índia de nossos dias.

Anjum, um brâmane moderno na Índia de nossos dias.

— Brâmane é um membro da mais alta casta sacerdotal de nosso povo. Eles vivem buscando realizar Brahman em si mesmos, através de orações e rituais rígidos. A limpeza é sagrada para os Brâmanes e eles tomam três banhos ao dia, rigorosamente. Mantêm suas vestes limpas e purificadas através de incensos e rituais. Deles foi que o povo do qual descendeis aprendeu a higiene das mãos antes das refeições. Deles, também, é que vosso povo, através de vossos rabis, aprenderam o apego à pureza higiênica. Só que vosso povo perdeu os freios e vossos rabis se tornaram exagerados na prática e na pregação da higiene, tornando-a uma verdadeira aberração entre vós.

— E quem é Brahaman? — Perguntou por sua vez, Thiago, que se esquecera momentaneamente da dor de dentes que latejava em sua mandíbula.

— Brahman é o Criador. Aquele que a tudo dá forma e vida. Aquele que mantém a existência, existindo. Sem sua Vontade, nada permaneceria com vida ou forma. Ele deu vida, por sua boca, aos Brâmanes, daí a razão de serem considerados uma casta sagrada. O sopro sagrado de Brahman tudo cria e quando Ele pára de soprar tudo desaparece. Então, muitas e muitas eternidades se escorrem até que Ele novamente volte a soprar a Vida no Universo. A vida brota de Brahman quando ele expira e a Ele retorna quando Ele inspira. Mas vamos retomar a narrativa que eu fazia sobre os homens importantes de vossa História.

Muitos destes brâmanes falidos, junto com descendentes dos adventícios, se revoltaram com as cruéis condições em que eram obrigados a viver, sem direito nenhum, e fugiram para a Caldéia, ou para Aria ou, ainda, para o Sindh. O Abraão de vocês era um descendente dos adventícios que daqui fugiram revoltados com a casta dos brâmanes que a eles tudo negava. Ele tinha aprendido muito com um brâmane falido com quem fizera grande amizade e este conhecimento deu fundamento para sua imaginação sobre um Deus Único. Na verdade, é melhor dizer que o Abraão de vocês compreendia pouco a língua falada pelo brâmane e traduzia as idéias que capturava, segundo suas convicções. Daí que nosso Brahman foi substituído pela idéia de um Deus Único e este foi passado adiante com as vestimentas de muitos outros, naturais dos povos com que os fujões conviveram por algum tempo. É por isto, por causa desta miscigenação, que o Jeovah de vocês é estranho, sanguinário, vingativo e racista.

Antes de Abraão, outro adventício tinha fugido para as terras distantes do Oriente. Seu nome era Labão e ele e Abraão eram amigos, pois suas famílias tinham vivido muito tempo juntas pela miséria e pela revolta. Então, quando Abraão decidiu fugir, foi direto à procura do amigo Labão. Abraão tinha nascido em Harã, um vilarejo situado ao norte de nosso país, na Caxemira. Sendo um descendente de chandalas, foi criado na agrura da vida infeliz e sofreu muito. Mas era uma criança muito dotada e superior às demais em inteligência e perspicácia. Cedo se rebelou contra a dura vida de eternos miseráveis sem direito a nada, exceto à morte.  Diz-se que foi há mil e setecentos anos atrás que Abraão gerou Jacó, Esaú e Isaac. Naquela época Abraão estava estabelecido nas terras da Mesopotâmia, na região noroeste daquelas  terras, à qual chamou Palestina. E logo se apossaram das terras que pertenciam aos mesopotâmicos. Mas sendo natos criadores de encrenca, foram expulsos das terras dos Caldeus, pois a Palestina era um pedaço daquelas terras. Abraão, juntamente com seu povo — aqueles que o tinham seguido na fuga da Índia — , se haviam assenhoreado de uma parte grande das terras dos caldeus com quem, uma vez se sentindo estabelecidos no que chamaram de Palestina e tendo ganhado terras e dinheiro, se envolveram em lutas pelo poder.

Mas veio um período de grande fome e tangidos por ela o grupo de seguidores de Abraão decidiu seguir para o Egito. Fôra Jacó, filho de Abraão, quem trouxera a notícia de que o Egito era rico em trigo e era um país aberto aos estrangeiros. Nele, não se era recebido como escravos, mas como cidadãos com direito até a empregos dignos, o que não acontecera com eles aqui, na Índia.

O povo de Abraão, o mesmo misterioso povo de pele branca que nos chegou aos frangalhos, era muito fértil. Uma pequena comunidade deles logo crescia muito devido ao número grande de filhos que as famílias geravam.

— Até hoje — cortou Judas, olhos brilhantes de excitação pelo que ouvia — entre nós é incentivada a criação de famíliaS com muitos membros. Os que não conseguem isto são discriminados por toda a comunidade.

— Por isto é que aquele povo de pele branca e de origem obscura — disse Jeroboão — sobreviveu até hoje e, creio, sobreviverá por muitos milênios, pois são férteis, demasiadamente férteis, e cultivam o hábito de gerar famílias numerosas. Mas parece que há uma maldição entre o vosso povo, pois estão sempre em rixas entre si mesmo e com os que os recebem e hospedam. No Egito, terminaram por criar encrenca e foram mandados ir embora pelo Faraó, o Rei daquela gente. Tiveram de retornar à Palestina, de onde haviam partido.

— Naqueles tempos do retorno, as terras da Mesopotâmia eram domínio de uma tribo muito zelosa de suas tradições e, também, muito feroz. Era conhecida como o povo hicso. Os descendentes e liderados de Abraão não se deram bem com os hicsos e logo houve confronto entre eles. Mas pior que os hicsos era a seca que trouxe de novo uma grande fome sobre todos. E forçados pela fome, decidiram retornar ao Egito e se estabeleceram na província de Goshen. Os filhos de Abraão  Isaac, Jacó e Esaú —, geraram uma grande comunidade que se uniu e se transformou numa tribo respeitável. Eram hábeis comerciantes e logo estavam ricos e bem de vida no Egito.

Um Faraó do Egito.

Um Faraó do Egito.

A tribo gerada pelos filhos de Abraão tinha todos os direitos dos cidadãos egípcios, menos o direito à cidadania e, claro, à descendência real. Nenhum adventício podia contrair matrimônio com as princesas escolhidas para gerar os Is-Ra-El, ou seja, os Filhos de Ra, o Deus Sol. Assim eram conhecidos os reis do Egito, descendentes direto do Deus Sol. Isto não agradou de modo algum aos brancos adventícios e estes logo entraram em choque direto com os costumes egípcios. As brigas que provocaram terminaram por fazer que o Faraó se irritasse contra eles. Eram ricos e tinham muita influência no palácio real, mas queriam mais, muito mais. Queriam que um descendente deles reinasse absoluto sobre o povo egípcio e, dominando-os, pudesse tornar-se sagrado e, assim, tornar sagrado todo o povo de onde tinha a descendência. Este desejo absurdo ainda permanece entre vós. Esperais um Messias que reine sobre todos os povos e os faça curvar os joelhos ao vosso líder, um sonho absolutamente impossível.

O faraó egípcio retirou todos os direitos que concedera aos adventícios e passou a designá-los de hebreus, palavra que significa sem herdades, sem direitos civis e sem teto permanente. A partir de então, os, agora, hebreus, tiveram que trabalhar e servir aos egípcios  e isto os tornou mais revoltados ainda. As rebeliões fez que o faraó mandasse seu exército dobrar aquele povo ingrato e os transformasse em escravos. Daí que por muitos anos os hebreus sofreram sob o chicote dos feitores egípcios e tiveram de construir duas cidades naquelas terras, a cidade de Pítom e a de Ramsés. E foi assim que o vosso povo se tornou escravo dos egípcios. E foi na época de sua escravidão que entre eles surgiu Moisés…

O caravaneiro aproximou-se e anunciou a partida. A narrativa foi suspensa e todos se afanaram na lide de recolher tudo para continuarem a jornada. Mas os três irmãos estavam engolfados pelo que ouviram de Jeroboão e tinham os corações aos saltos pelo grande choque emocional que a narrativa do Yogue lhes causara. Nenhum deles, agora, queria abrir mão de continuar ouvindo o restante da história espantosa, que lhes abria vias de conhecimento totalmente desconhecida de qualquer pessoa de sua raça…