"Luiz Vaz de Camões, poeta português, enxerga mais por um olho que os outros por todos três". Ele era realmente arrogante.

Certamente que se ele ouvisse um brasileiro falando o “português” não entenderia nada…

Desde quando ainda se falava o bom português, lá pelos idos de 40/50, dizia-se PRESIDENTA para a mulher que ocupasse a presidência de alguma coisa. Há, ainda, dicionários não alterados pelos que falam o paulistanês, como o DICMAXI MICHAELIS PORTUGUÊS que traz a grafia PRESIDENTA e define o substantivo como “mulher do Presidente ou Mulher que Preside”. Os dicionários do Aurélio, até 2000, também traziam esta grafia. Agora, nas novas edições, ela foi elidida e a mulher Presidenta tem de ser chamada Presidente, querendo ou não.

Artur ficou a me olhar de cenho franzido. Então, pediu que eu lhe mostrasse o dicionário. Quando leu a definição, pediu que eu tirasse uma cópia xerox para que ele pudesse levar e mostrar à sua professora. Isto, porque ela havia tirado meio ponto de sua redação por ele ter escrito a Presidenta e, não a Presidente, como quer o paulistanês.

Atendi seu pedido e lhe dei a cópia xerox. Ele lá se foi todo feliz e certo de que ganharia de volta seu meio ponto na redação. Seu avô, Orozimbo, ficou apenas a olhar para o garoto sem dizer nada. Quando eu me sentei ao seu lado, ele me olhou de esguelha e perguntou:

— Pro qui vancê alimentô a rixa de meu netim cum a fessora dele?

Eu o olhei, estranhando sua pergunta.

— Ora, porque ele está certo.

— Tá mermo? Ele tá teimando qui é presidenta e não presidente, pruqui uviu vancê falá isso. Vancê fala, ele assina im baixo.

Balancei a cabeça em sinal de aprovação. Orozimbo não gostou e contestou.

— Vancê é de um tempo qui já tá agonizando, home. Sum Paulo é grande, munto grande. E a língua errada qui se fala lá, é a qui se arremeda no Brasil todo. Num adianta lutá contra a corrente. O mió é nadá a favô dela, senão se morre afogado, ora.

 

Presta muita atenção, Vovozona, presta muita atenção mesmo, que a coisa vai engrossar.

“Presidenta, meus amigos. Vocês devem-me chamar de Presidenta e, não, Presidente”. Ela está certíssima. Ao menos nisto, ora bolas!

— Meu amigo, mesmo que a professora seja adepta da forma PRESIDENTE para a mulher que preside, seu netinho não está errado. A partir da década de cinqüenta, se não estou enganado, as duas formas passaram a ser adotadas. Segundo se diz, por causa do uso, assim como atualmente se usa dizer a chefa,  ou a gerenta, termos que, não demora muito, passarão a constar dos dicionários. E se as duas formas, PRESIDENTE e PRESIDENTA são registradas pela Academia Brasileira de Letras (no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), pelo muito respeitado dicionário Houaiss, pelo Aurélio e tantos outros, Artur tem todo o direito de seguir minha preferência. A professora não lhe pode tirar meio ponto porque ele opta por usar a forma presidenta em vez de a presidente. 

— É, mas véio perfere qui vancê num ponha caraminhola na cabeça de meu netim. Afiná, home, ele vai vivê numa época im qui vancê e eu já se fomo daqui pra mió. Entonce, ele tem de aprendê cuma será falado quando fôr home. Ou véio tá errado?

Não, meu amigo não estava errado. Artur tinha de aprender uma nova língua portuguesa do Brasil.  Um Brasil que já não será aquele que em que eu nasci, cresci, lutei, casei, tive filhos e… morri. 

— Você está certo, meu velho. Você está coberto de razão. Eu parei no tempo por teimosia, ou porque meu condicionamento foi intenso… sei lá! Seu netinho, assim como minhas netinhas, deverão falar o paulistanês e escrever em paulistanês. Graças a Deus que, quando isto acontecer, eu já estarei bem longe daqui. Não suportaria ouvir as cacofonias ditas por eles como naturais.

— E apois. Agora, qui tar vancê ir fazê aquele café preto pr’este preto véio?

— Vamos lá! Não quero ir sozinho para a cozinha.

Ele se levantou rindo e me seguiu.